novembro 01, 2006

Promessas...promessas...

Agora que já acabou a votação deixo aqui a curta biografia que a RTP apresenta de outra das sugestões para o concurso "Os Grandes Portugueses". Como podem ver trata-se de "um dos mais promissores cientistas portugueses"...
Se votaram nele, fizeram bem. Eu continuo a preferir o senhor que se vê ao alto.

MSS RTP.jpg

Santiago | 01:06 PM | Comentários (0)

outubro 30, 2006

Portugal Santiago Diário

gago.jpgLeio no Portugal Diário (que por este andar ainda vai tornar redundante o meu trabalho neste blogue) que os "Bolseiros" de Investigação "armaram barraca" (literalmente) em frente à Assembleia da República. «Cientistas estão nas lonas», garantem eles (coisa que, por sinal, me recordou a necessidade de comprar um novo jogo de pneus...).

Há um ditado conhecido, Timeo Danaos et dona ferentes, que signfica (em tradução livre): "Quem o tem, tem medo". Talvez por isso tenha gostado tanto de ler a citação que a notícia a certa altura transcreve: "Mariano Gago anunciou recentemente não temer «a fuga de cérebros portugueses» para o estrangeiro".

A alguém terá ocorrido que Mariano Gago pudesse ter medo da "fuga de cérebros portugueses" para o estrangeiro?

Ele???? Ter medo??? Nunca!!!

Santiago | 10:57 PM | Comentários (1)

The Bonfire of the Vanities

0553275976.01._AA240_SCLZZZZZZZ_.jpgUm anónimo qualquer que trabalha em Harvard (mas não esqueçamos que na Harvard University "anónimos" são quase todos...) publicou um artigo numa revista chamada Biochemical and Biophysical Research Communications a que a Lusa e o Portugal Diario decidiram dar um destaque inusitado (é já o segundo artigo que ele publica este mês - Parabéns! Parabéns também à Lusa que pelos vistos não perde uma...).

O destaque dado pelo Portugal Diário é um catálogo quase completo de tudo o que me incomoda no (pseudo-)jornalismo científico português: O provincianismo: A que propósito é que um artigo numa Revista que tem um Impact Factor de 3 (!) merece ser destacado a este ponto?; a falta de informação: Duas ou três frases do primeiro autor do artigo (vindas do Abstract), mais meia-dúzia que vem dos "enlatados" que por lá há, na gaveta marcada "Doença de Parkinson", não chegam para o leitor perceber o que é que de novo e importante foi agora publicado; a ignorância da praxis científica moderna: Escrever em referência ao primeiro autor "Português lidera equipa de cientistas" é minimizar o papel desempenhado pelo Líder do grupo, que normalmente é o último e corresponding author; as falsas esperanças que desnecessariamente cria nos que, infelizmente, sofrem desta doença terrível: Custava muito escrever "[...] uma nova classe de proteínas pode vir a ter efeitos protectores[...]" em vez de "[...]tem efeitos protectores[...]"?.

É boa altura para os jornalistas se inteirarem do significado que habitualmente tem a ordem dos autores num artigo científico (pelo menos nas Ciências Biológicas) e aproveitarem para desistir deste irritante provincianismo, que não revela senão um enorme complexo de inferioridade.

Era bom também que as notícias passassem a incluir a informação (que aliás é pública) sobre o Impact Factor das Revistas em que foram publicados os trabalhos que descrevem. Desconfio que nesse caso muito pessoal (o de Harvard, por exemplo) passava a ter mais tento na língua, quando fala com jornalistas...

Santiago | 07:54 PM | Comentários (0)

outubro 26, 2006

Old and Nobel Controversies

RNAi Nobel Prize ignores.jpgTranscrevo abaixo uma "Carta ao Editor" (realces meus) publicada hoje na Nature e que critica a atribuição do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano. Não é a primeira vez (nem será a última, obviamente) que aparentes injustiças como esta ocorrem ou que as decisões da Academia Sueca se revelam altamente discutíveis.

Talvez o mais famoso destes casos tenha sido o do Prémio de 1959, que foi atribuído a Arthur Kornberg ignorando a sua mulher Sylvy (entretanto já falecida). Diz-se que quando ela soube da atribuição do Prémio ao seu marido terá exclamado: "I was robbed!". O próprio Arthur Kornberg, com enorme generosidade, reconheceu no seu famoso livro For the Love of Enzymes, a injustiça cometida pela Academia Sueca.

Palpita-me que esta discussão vai continuar para a semana. Trata-se, afinal, de mais um daqueles casos em que o que interessa é a substância da alegação e não a identidade dos seus autores...

Continue a ler "Old and Nobel Controversies"

Santiago | 12:22 PM | Comentários (4)

outubro 23, 2006

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgadiposo.jpgadiposo (tecido) (adj.) Tipo especial de tecido conjuntivo composto por adipócitos. 1. Função Serve de reserva energética, isolamento térmico, pára-choques e até de equipamento, como nos lutadores de Sumô. Em humanos é ainda usado para aumentar o volume do pénis, quando ele existe e precisa disso (ver cirurgia plástica). Em animais hibernantes uma variedade especial, o ~ castanho, é abundante porque tem a característica única de libertar energia directamente sob a forma de calor, coisa bem útil tendo em conta o preço a que chegou a electricidade. 2. Cultura No que respeita à popularidade, nenhum outro tecido depende tanto da localização (ver mama e barriga), nem oscilou tanto ao longo do tempo (ver a ilustração que contrasta a Venus de Willendorf com um homólogo moderno) 3. Gordura é formosura Os adipócitos deixam de proliferar ao fim dos 3 primeiros anos de vida e o seu número mantém-se desde então essencialmente inalterado, salvo em casos excepcionais, como a autofagia das nádegas entre contorcionistas, (mas ver ainda lipo-sucção ). O seu volume, no entanto, pode chegar a atingir proporções, digamos, excessivas, como em exemplos que o leitor facilmente recordará no espaço de liberdade que é a sua esfera privada . 4. Musa inspiradora A sugestão de Jô Soares para o seu futuro epitáfio - "enfim, magro" - dá vontade de ser gordo. 4. "Fatties have more fun? A ideia de que os gordos são mais divertidos do que os magros inspirou as histórias do bom Califa e do mau Vizir Iznougoud, mas admite excepções como por exemplo António Silva e Pacheco Pereira.

Santiago | 05:50 PM | Comentários (0)

outubro 20, 2006

Os Grandes Portugueses

Acabei de ver a Maria Elisa, talvez a mais pequena das portuguesas, apresentar um novo concurso da RTP em que se pretende escolher o maior de entre eles. Antes que escolham o D. Afonso Henriques (ou até, sei lá, o Marques Mendes) faço questão de revelar aos nossos amáveis leitores em quem votei no concurso dos "GRANDES PORTUGUESES":

.................................Grande Português.jpg

Apetece-me agora parafraseá-lo: "Enterrem-se os vivos, e cuide-se dos mortos". É já tempo...

Santiago | 11:07 PM | Comentários (10)

outubro 18, 2006

Quid est veritas?

Pilatos.jpgNo Agreste Avena continua o debate sobre a "verdade" científica, com um novo contributo meu aqui. É longo, mas assim tive espaço para dar mais porrada em Popper e ainda umas bicadas nos "Cientistas" Sociais e (demasiado) Humanos.

Entretanto, o Zèd publicou uma réplica ao meu texto anterior, tocando nalguns pontos que merecem tréplica. Diz ele:

1) "tomando a visão de Popper em sentido lato, vendo o princípio da falsificação como uma abstracção (e uma simplificação), como sendo apenas um modelo de trabalho, uma forma de sistematização lógica do funcionamento da Ciência, pode argumentar-se que a Biologia Molecular (o tal novo paradigma) é a refutação da explicação instrutiva.

Não sou suficientemente íntimo de Popper para saber se ele concordaria com este "sentido lato" que toma o seu querido "princípio da falsificabilidade" como uma "abstracção". O meu argumento, no entanto, era que a Biologia Molecular não refutou de todo a Teoria Instrutiva. Houve uma altura em que se pensou que havia incompatibilidade entre os princípios biológicos comummente aceites e a T. I., mas isso foi um erro. Na realidade há proteínas (Hemoglobina e enzimas alostéricos, por exemplo) que podem adaptar a sua conformação tri-dimensional a um substracto e portanto a T. I. acabou abandonada por más razões. Wolpert (sempre ele...) colocou o dedo na ferida: "This view [...] fails to explain how one knows that a falsification is correct".

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Santiago | 08:20 PM | Comentários (4)

Cíclope Cínico

DUPLO.jpgAmazons.jpgAmazonas (do Lat. amazon < Gr. amázon: a, sem + mazós, seio) 1. Lendárias mulheres guerreiras que mutilavam o seio direito para melhor manejarem o arco, facto que torna muito enigmático o destino que davam às canhotas. Viviam num reino só de mulheres, o que aparentemente levanta sérios problemas biológicos, não respondidos de forma satisfatória pela partenogénese. Consta que as Amazonas acasalavam com homens de outras tribos e depois guardavam apenas as meninas. O esquema talvez lhes trouxesse as vantagens do vigor híbrido, mas só se cada tribo ficasse de pousio durante pelo menos uma geração, caso contrário a mana Amazonas podia, sem querer, acasalar com o mano dela apartado à nascença (vide endogamia e Habsburgos ). A lenda das Amazonas é particularmente apreciada entre feministas e lésbicas, servindo de inspiração a uma iconografia em registo erótico onde é patente que as guerreiras entretanto terão desenvolvido uma técnica de tiro com arco menos invasiva que a original (ver ilustração) 2. Megalomania fálica Após o abandono do projecto da "Transamazónica", uma longa faixa de alcatrão penetrando pela densa e frondosa floresta adentro, só uma benévola explicação psicanalítica salva agora os seus responsáveis (ver também coitus interruptus) 3. Amazonas (rio): O mais caudaloso rio do mundo foi assim baptizado por Francisco Orelhana, porque ao descê-lo, em 1541, encontrou uma tribo de mulheres guerreiras cujos seios, na azáfama da batalha, não chegou a ter tempo de contar. Sendo duro de ouvido, Orelhana (ver hereditariedade) julgou que os indígenas logo adoptaram o seu nome, quando na verdade o nome Tupi do rio é "amassunu", para "ruído das águas". Por seu turno, os índios cedo se deram conta da tremenda falta de jeito que os espanhóis revelam para línguas, pelo que lhes pareceu que ao dizer ~ Orelhana estava a adoptar a toponímia local. Esta história prova que o multiculturalismo funciona sobretudo quando dois equívocos se complementam. O problema actual do multiculturalismo é que o número de equívocos aumentou e tende a ser ímpar.

Santiago | 03:15 PM | Comentários (2)

outubro 17, 2006

As melhores previsões são sempre a posteriori...

Monod_musicien.jpg
.....
.....
Chanson d'automne

Les sanglots longs
Des violons

.....De l'automne

Blessent mon coeur
D'une langueur

.....Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand

.....Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens

.....Et je pleure,

Et je m'en vais
Au vent mauvais

.....Qui m'emporte

Deçà, delà
Pareil à la

.....Feuille morte.

(Paul Verlaine)

.....
.....
.....
.....
.....
.....
Jacques Monod revelou desde muito cedo um grande gosto pela música clássica. A sua mãe ambicionava para ele uma carreira musical de relevo e só consentiu que ele aderisse a uma Banda de músicos amadores depois de se assegurar junto dos responsáveis que o jovem Jacques tinha talento para chegar a Chefe-de-Orquestra.

Aos 22 anos de idade ganhou uma Bolsa para estagiar num prestigiado Laboratório. Passou o ano a praticar violoncelo e foi por isso incapaz de apresentar um relatório no final do seu estágio. O responsável pelo programa de Bolsas criticou-o severamente pela sua inaptidão para o trabalho científico e vaticinou-lhe um futuro nada brilhante: "Il me paraît evident, Monsieur, que vous n'êtes pas doué pour la recherche!"

François Gros contou esta história num Simpósio em memória de Jacques Monod. Gosto de pensar que, longe de ter sido simplesmente um mau prognóstico, foi aquela agressividade que espicaçou Monod a dedicar-se com mais afinco à Biologia.

Se calhar perdeu-se um Chefe-de Orquestra indiferente, mas felizmente ganhou-se um Princeps da Ciência...

Santiago | 06:46 PM | Comentários (0)

outubro 16, 2006

CÍclope Cínico

DUPLO.jpgAstrologia s.f. do Gr. ástron, astro + lógos, tratado) Burla por meio dos astros. Distingue-se do camdomblé, que é a burla por meio dos búzios, e da quiromancia, que é a burla com recurso à palma da mão. Surgiu há milhares de anos e de forma independente em várias culturas, uma prova de que partilhamos o mesmo céu e as mesmas taras.1. Criação de gado Ao contrário do que o nome indica trata-se duma disciplina sem bases empíricas, já que postula haver grande atracção dos nativos de Carneiro pelas nativas de Virgem. Na realidade passa-se rigorosamente o oposto, nomeadamente entre imberbes pastores 2. Índice Civilizacional Uma sociedade diz-se evoluída quando o número de astrónomos ultrapassa o número de astrólogos, desde que não haja acumulação de cargos 3. Congressos Partidários Há quem acredite que os grandes conflitos políticos estão escritos nas estrelas, mas eles na verdade ocorrem apenas na Lua. 4. Não cumpre o critério da falsificabilidade; ainda assim, quando não são vagos, os horóscopos são falsos. 5. Tycho Brahe (1546 ?1601) foi um dos últimos astónomos-astrólogos, mas em certos círculos académicos especula-se que Zandinga, um astrólogo português no activo, tem uma luneta e sabe fazer derivadas.

Santiago | 08:18 PM | Comentários (1)

CÍclope Cínico

DUPLO.jpgimage-1.jpg
Astrofísica s.f. Ramo da Astrologia que descreve a influência dos astros na vida das pessoas através de equações, recorrendo à espectroscopia e à fotometria, entre outras técnicas 1. Glórias terrenas Zandinga, na Física, como António Lobo Antunes na literatura, são os dois lusitanos que actualmente mais hipóteses têm de chegar a um Nobel.

Santiago | 08:12 PM | Comentários (0)

outubro 07, 2006

Who was Popper, anyway?

Karl Popper.jpgO Zèd, do Agreste Avena, colocou um post com vários links para um debate que houve na revista BioEssays acerca do especioso assunto de qual a utilidade hoje em dia, para um cientista, das ideias defendidas pelo Dear Sir Karl.

O debate é bastante interessante e recomendo vivamente que lá vão, e leiam a grande troca de correspondência provocada por uma simples frase de Robin Holliday: "Popper may well be a great philosopher, but there is much he did not understand about the way scientists operate and the way science advances."

Como eu gosto muito de citar o Lewis Wolpert vou, tal como o Zèd, destacar o seu contributo. Escreve Wolpert "Falsification also does not help us distinguish science from non-science; the idea that eating hamburgers will make you a better poet is falsifiable but is not science", e ainda (referindo-se a Popper) "His reputation is greatly inflated with respect to science." Brilhante, não é?

Aproveito para informar os nossos amáveis leitores que pelos lados do Agreste Avena estou envolvido com o Zèd num debate quase parecido com este, acerca do problema da "verdade científica" e da possibilidade da sua obtenção. A coisa ainda vai durar, e um contributo meu pode ser lido aqui, num texto em que, sauf Darwin, consegui só mencionar indivíduos agraciados com o Prémio Nobel.

Santiago | 12:38 AM | Comentários (8)

outubro 03, 2006

Please don't speak to yourself, Joe...

Galaxy Song.jpgPray that there's intelligent life somewhere out in space
'cause there's bugger all down here on Earth!

...
...
Joe Davis trabalha no M.I.T. e é um "Artista Científico". O seu trabalho consiste em criar novas formas de arte biológica. É por isso uma daquelas pessoas com uma actividade, digamos assim, tão útil como a do Treponema pallidum.

Num dos seus trabalhos mais recentes e aclamados, ele "recorded the vaginal contractions of ballerinas with the Boston Ballet and other women, then translated this impetus of human conception into text, music, phonetic speech and ultimately into radio signals, which were beamed from MIT's Millstone radar to Epsilon Eridani, Tau Ceti, and two other nearby star systems."

Explica ele assim a utilidade deste projecto: "The images of humans placed aboard the Pioneer 10 and 11 spacecraft show impeccably groomed men that lack any facial and body hair," Davis hoots, "and women with no external genitalia." Poetica Vaginal was in part a response to this curious censorship. "By making this attempt to communicate with the other," he explains, "we're really communicating with ourselves."

É claro que se houver vida inteligente em Tau Ceti, ela vai ficar com fundadas dúvidas sobre a existência da mesma em Sol...

Santiago | 07:33 PM | Comentários (0)

Nem La Palisse diria melhor...

Picture 2.jpg
Expliquem-me lá como é que 11 minutos antes deste brilhante artigo a BBC conseguiu publicar tudo isto?

Os jornalistas em Portugal não sabem para que é que servem os press releases?

Santiago | 12:38 PM | Comentários (1)

outubro 02, 2006

Ah! Eis um debate com graça

carbon.jpgEscreve o LUDWIG KRIPPAHL neste interessante post que "a ciência não está limitada ao natural. O Universo é que veio sem acessórios sobrenaturais, e a ciência apenas nos diz que é assim que as coisas são."

O meu agnosticismo militante impede-me de aceitar sem um pio a peremptória afirmação de o Universo não ter sido equipado com "acessórios" sobrenaturais (como é que ele sabe? Foi algum "ser sobrenatural" que lhe garantiu a sua própria não existência?), mas a minha grande discordância é com aquela ideia de a Ciência não estar limitada ao mundo natural.

Esse tal mundo natural, físico, que nos rodeia e pode ser pesado, medido, analisado e quantificado é constituído por átomos (deixo de lado a existência de energia e do universo sub-atómico, que não tenho bagagem para discutir. Não me parece que os argumentos que seguem mudem muito se tomarmos isso em conta).

A descoberta da composição do mundo natural foi talvez o maior avanço da Ciência e abriu-nos as portas a uma verdadeira compreensão da realidade. Os átomos que compõem a matéria organizam-se em Moléculas e, no caso da matéria viva, ainda em Células, Organismos e Populações. Ciência é o estudo das interacções moleculares/atómicas (que são as únicas "causas naturais" existentes) da matéria, organizada em qualquer destes níveis. Os fenómenos naturais ocorrem por interacção entre esses átomos e alargar a definição de Ciência para incluir o estudo de "coisas não-naturais" seria admitir o estudo "científico" de "causas" que não envolvessem interacções entre átomos. Isto não só é negar a "Ciência" tal como a conhecemos hoje em dia, mas também criaria dificuldades graves ao "problema da demarcação" entre o que é Ciência e o que é não-ciência, ou pseudo-ciência.

Ciência é "o estudo das causas naturais dos fenómenos naturais". Por outras palavras: Procura conhecer as interacções atómicas e moleculares que causam os fenómenos que observamos. Só chegamos ao conhecimento total do mundo natural quando um dado fenómeno tem explicação molecular. Mas quando a tem, esse mesmo fenómeno alcança a sua "explicação final". A estrutura do gene ou o mecanismo de geração de diversidade dos anticorpos, por exemplo, nunca mais serão explicados de outra forma porque hoje em dia os conhecemos molecularmente, em todo o detalhe. São dois exemplos de "fenómenos" cujo "paradigma" (à la Kuhn) nunca mais se alterará (em aparte esclareço que sou um opositor acérrimo da noção que toda a verdade científica é provisória e é sempre superseded por uma melhor explicação da realidade...).

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Santiago | 02:39 PM | Comentários (11)

outubro 01, 2006

Grandes Frases, Grandes Filósofos

Monod.jpg"Voilà la frontière, presque aussi infranchissable pour nous qu'elle l'était pour Descartes. Tant qu'elle n'est pas franchie, le dualisme conserve en somme sa vérité opérationnelle. La notion de cerveau et celle d'esprit ne se confondent pas plus pour nous dans le vécu actuel que pour les hommes du XVIIème siècle."

Jacques Monod

.....
.....
.....

Delbruck.jpg"Thus, even if we learn to speak about consciousness as an emergent property of nerve nets, even if we learn to understand the processes that lead to abstraction, reasoning and language, still any such development presupposes a notion of truth that is prior to all these efforts and that cannot be conceived as an emergent property of it, an emergent property of a biological evolution. Our conviction of the truth of the sentence, "The number of prime numbers is infinite", must be independent of nerve nets and of evolution, if truth is to be a meaningful word at all."

Max Delbrück

.....

Crick.jpg"The mental picture that most of us have is that there is a little man (or woman) somewhere inside our brain who is following (or at least, trying hard to follow) what is going on. I shall call this the Fallacy of the Homunculus. Many people do indeed feel this way - and that fact, in due course, will itself need an explanation - but our Astonishing Hypothesis states that this is not the case. Loosely speaking, it says that "it's all done by neurons."

Francis Crick

Santiago | 12:58 PM | Comentários (6)

setembro 30, 2006

Ciência a nú revela-se Naturalista...

Epistemology.jpgColoquei na Hemeroteca um excelente artigo de Steven D. Schafersman escrito em 1997, que diz essencialmente tudo o que todos sempre quiseram saber sobre epistemologia de Ciência, mas tinham vergonha de perguntar.

Pelo menos desde a sua publicação permanece negada, aos partidários do Intelligent Design, a "cobiça" pelo título de cientistas. Cito de lá:

"Our culture persistently indulges and celebrates supernaturalism, and most people, including some scientists, refuse to systematically understand naturalism and its consequences. This paper proposes to show that naturalism is essential to the success of scientific understanding, and it examines and criticizes the claims of pseudoscientists and theistic philosophers that science should employ supernatural explanations as part of its normal practice."

Quero também destacar um apelo do autor, para sugerir ao Vasco que meta as mãos à obra:

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Santiago | 09:43 AM | Comentários (1)

setembro 28, 2006

Grandes Lições de Filosofia: 3a Lição

ben_invest3.jpg«[D]ie moderne naturwissenschaftliche Vernunft mit dem ihr innewohnenden platonischen Element eine Frage in sich, die über sie und ihre methodischen Möglichkeiten hinausweist. Sie selber muß die rationale Struktur der Materie wie die Korrespondenz zwischen unserem Geist und den in der Natur waltenden rationalen Strukturen ganz einfach als Gegebenheit annehmen, auf der ihr methodischer Weg beruht. Aber die Frage, warum dies so ist, die besteht doch und muß von der Naturwissenschaft weitergegeben werden an andere Ebenen und Weisen des Denkens – an Philosophie und Theologie. »

Kardinal Joseph Ratzinger, Papst Benedikt XVI

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Santiago | 08:24 PM | Comentários (18)

Grandes Lições de Filosofia: 2a Lição

hitchhikers_guide.jpg«There is a theory which states that if ever anyone discovers exactly what the Universe is for and why it is here, it will instantly disappear and be replaced by something even more bizarre and inexplicable.

There is another theory which states that this has already happened. »

Douglas Adams

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Santiago | 09:19 AM | Comentários (2)

setembro 23, 2006

Grandes Lições de Filosofia: 1a Lição

Sisyphus.jpg« Il n’y a qu’un problème philosophique vraiment sérieux : c’est le suicide. Juger que la vie vaut ou ne vaut pas la peine d’être vécue, c’est répondre à la question fondamentale de la philosophie. Le reste, si le monde a trois dimensions, si l’esprit a neuf ou douze catégories, vient ensuite. Ce sont des jeux ; il faut d’abord répondre »

Albert Camus

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Santiago | 02:30 PM | Comentários (6)

setembro 21, 2006

As aparências iludem

ears 005.jpgbird_of_paradise-thumb.jpg






















Estas duas imagens parecem diferentes, mas são idênticas num detalhe. Consegue descobri-lo?

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Santiago | 11:28 PM | Comentários (4)

setembro 19, 2006

"Only entropy comes easy"

Grande Pyramide.jpgEscreveu-me o Paulo Pereira comentando um post em que refiro a 2a Lei da Termodinâmica. Chama ele a atenção para um curioso problema que a maioria dos "evolucionistas" finge ignorar.
Diz o Paulo:


Caro Santiago, belíssima posta, salgada qb.
Aproximavas-te do ideal do post perfeito, quasi concluindo a quadratura do círculo perfeito, quando deixaste uma ponta solta. Evocar a Segunda Lei da Termodinâmica foi o teu momento de fraqueza. É que muito pouco escapa a um Criacionista atento e interessado, como podes ler no post seguinte. O primeiro parágrafo não tem nada a ver com a discussão, mas parece-me muito interessante e estimulante.

“Believe it or not, you were perfect when you were born. You were obviously healthy if you are posting here today, you hadn't sinned, and were making choices and using your free will, though they were small choices. Unfortunately, later in your life you made some bad choices and now you are a sinner, but remember, God MADE you perfect.

One of the most basic laws in the universe is the Second Law of Thermodynamics. This states that as time goes by, entropy in an environment will increase. Evolution argues differently against a law that is accepted EVERYWHERE BY EVERYONE. Evolution says that we started out simple, and over time became more complex. That just isn't possible: UNLESS there is a giant outside source of energy supplying the Earth with huge amounts of energy. If there were such a source, scientists would certainly know about it.
(Post por awesomesternerd)


Terá o awesomesternerd encontrado a chink in the armour? Estará aqui a falha que fará ruir estrepitosamente todas as Teorias sobre a evolução das espécies? Será esta a little rift within the lute/ that by and by will make the music mute/ and, ever widening, slowly silence all (Tennyson)?

Não perca os próximos capítulos do folhetim Darwin era um gajo termodinamicamente analfabeto!

Santiago | 02:35 PM | Comentários (11)

setembro 17, 2006

Do Not Forsake Me, Oh My Darlin'

high3.gifO Vasco Will Kane Barreto aceitou o repto de Jónatas Frank Miller Machado para um debate entre duas perspectivas algo diferentes de explicar o fenómeno da evolução das espécies. Quer-me parecer que hoje em dia não há ninguém em "Hadleyville" que duvide da realidade deste fenómeno, e que por isso o debate se centrará exclusivamente sobre qual o mecanismo que melhor o explica.

Se a discussão afinal vier a ser sobre a própria ocorrência do "fenómeno evolutivo", serei obrigado a procurar outro filme para ilustrar o debate...

A primeira salva do Vasco foi dada aqui. Enquanto aguardo com expectativa os futuros desenvolvimentos, dedico ao nosso héroi uma curta sinopse desta


Story of a man who was too proud to run

Due to the townspeople's cowardice, physical inability, self-interest, expediency, and indecisiveness, he is refused help at every turn against a revenge-seeking killer and his gang. Fearful but duty-bound, he eventually vanquishes the enemy, thereby sparing the civilized town the encroachment of barbaristic frontier justice brought by the deadly four-man group of outlaws. Embittered by film's end, he tosses his tin star into the dirt of the dishonorable frontier town.

Santiago | 02:02 PM | Comentários (0)

setembro 14, 2006

Debates sem graça

Meaning of Life.jpgO João Miranda, no seu jeito habitual, decidiu desafiar o pessoal para um debate entre criacionismo e evolucionismo. O desafio é apresentado ao estilo Monthy Python com um texto que me fez lembrar a fala final de The Meaning of Life. Cito:

Finally, here are some completely gratuitous pictures of penises to annoy the censors and to hopefully spark some sort of controversy, which, it seems, is the only way, these days, to get the jaded, video-sated public off their fucking arses and back in the sodding cinema.

(Fim de citação. Remeto para outros web sites os amáveis leitores em busca das tais ilustrações)

O post é enfeitado com três "ilustrações gratuitas":

1. Não se deve chamar ignorante ao adversário por muito que ele pareça ignorante

E "demonstra" que Jónatas Machado não é um "ignorante científico" (como foi acusado por Paulo Gama Mota) com um review dele a um livro (à venda na Amazon) chamado Genetic Entropy & the Mistery of the Genome. Da leitura desse review extraí uma conclusão diametralmente oposta à do João Miranda, mas confesso que, tal como um amigo meu, me sinto derrotado por K.O. técnico em face do tipo de argumentação que o Dr. J Machado utiliza.
Leiam o review e tirem as vossa próprias conclusões.

Continue a ler "Debates sem graça"

Santiago | 03:34 PM | Comentários (2)

setembro 06, 2006

Delayed-type Hipersensitivity

DTH.jpg

Demonstrando que não lê o Conta Natura todos os dias, o Claudio Sunkel só agora reagiu a um post meu em que me interrogava de onde vinham os bébés, escrevendo nos comentários:

"Seria de enorme utilidade para esta discussão e para outras deste tipo que antes de comentar o que outros "supostamente" dizem numa entrevista que durou mais de duas horas com uma jornalista que decidiu reduzir e editar a nossa conversa a meia dúzia de frases desligadas e pouco coerentes, perguntar ao entrevistado se o que foi publicado reproduz de facto o que foi dito. Como o blog não faz isso, então fica a discutir não o que o entrevistado pensa ou de facto diz, mas o que um jornalista acha que é mais "engraçado" lhe chamou a atenção. Isto normalmente dá asneira.

O entrevistado Claudio Sunkel.

Como resposta só posso desafiar o Claudio a enviar-me um texto sobre o tema, para eu publicar aqui, com todo o gosto. Aproveito para esclarecer que o propósito secreto de toda a acidez que eu tento colocar nos meus comentários é conseguir um dia ficar sem amigos.

Abraço, pá! Diz-me lá se fiquei mais perto ou mais longe desse objectivo secreto...

Santiago | 12:20 PM | Comentários (9)

agosto 24, 2006

A Maçonaria nas florestas da Nova-Guiné

Picture 1.jpgCom as vénias devidas e os cumprimentos do estilo coloquei na nossa Hemeroteca um artigo publicado hoje na Nature. Transcrevo abaixo o comentário do Editor acerca deste trabalho que demonstra que o paroquialismo não é um exclusivo luso...

Confesso que não me surpreendem as conclusões publicadas, a que já tinha chegado pela observação das Faculdades de Medicina Portuguesas. A demonstrar este ponto, e por curiosa coincidência, a ilustração podia também representar uma reunião do Conselho Científico da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Editor's Summary:

Altruism is a vital source of cooperation and maintenance of social order in human societies. In recent years some evolutionary models of human altruism have predicted that parochialism (favouritism towards members of one's own ethnic, racial or language group) is an important feature of human altruism, but there is little empirical or experimental evidence on the matter. Punishment experiments with indigenous groups in Papua New Guinea now demonstrate that altruistic norm compliance and norm enforcement are strongly influenced by favouritism within ethnic, racial or language groups. In many modern societies there are strong political forces drawing on altruistic sentiments towards 'insiders' and aggressive sentiments towards outsiders. This work challenges existing evolutionary theories by implying a deep-seated basis for such behaviour.

Santiago | 02:13 PM | Comentários (2)

julho 07, 2006

Esta nem o Avô Cantigas

Ridiculus mus.jpg[Ciência Hoje] – O limite na manipulação está relacionado com a falta de conhecimentos científicos ou prende-se com o próprio sistema?

[Cláudio Sunkel] – Penso que os limites são intrínsecos ao sistema. O que está na moda na biologia fundamental, onde se liga a clonagem com as células estaminais e com a terapêutica, é a memória celular. Isto é, as células sabem o que são. Existem duas linhas de pensamento sobre este assunto. Os deterministas dizem que, no momento da fertilização, a célula tem bocadinhos de memória que distribuirá por todas as outras que lhe derem origem. Há outra corrente que defende a existência de mecanismos de regulação e compensação e, neste contexto, a célula tem potencial para fazer tudo. Provavelmente, a verdade está nas duas correntes. Pode estar muita informação escrita na célula original e, se calhar, está escrita de uma forma que permite uma flexibilidade que, contudo, se vai perdendo ao longo do tempo, uma vez que se vai dividindo e limitando as suas capacidades. Agora, essas limitações não parecem ser perdas de genes, caso contrário seria irreparável. A criação da Dolly permite-nos dizer que é possível eliminar a memória, como num disco rígido, e instalar um novo programa. O problema é que não o consegue instalar a 100 por cento e, então, surgem problemas no tecido muscular, infecções pulmonares, morte precoce... Aquilo que se tem vindo a perceber é que existem núcleos de determinadas células que têm maior capacidade para serem reprogramados. O truque reside em encontrar as células em fase adulta que permitirão uma reprogramação melhor. Se calhar nunca se atingirá um sucesso a 100 por cento, mas poderá chegar-se aos 95 por cento.

Cláudio Sunkel em entrevista ao Ciência Hoje a propósito do 10° aniversário da Dolly, explica-nos de onde vêm os bébés...

Santiago | 02:57 PM | Comentários (10)

Olha: Outro que acha que é preciso ter estratégia...

mateus120.jpg
Não vale a pena irmos para os novos sectores tecnológicos?

Vale a pena. Mas numa lógica de pôr inovação e conhecimento no que já temos. Portugal não tem dimensão para ser relevante em nenhuma actividade dessas. Claro que temos que fazer biotecnologia mas não toda. Claro que temos que fazer novos materiais mas não todos. Claro que temos que dominar a engenharia genética mas não toda.
Como é que escolhemos? Em função do que já temos

Augusto Mateus em entrevista ao Semanário Económico

[Tenho escrito muito, mas nada que seja publicável aqui no Conta Natura (ou sequer noutros sítios, infelizmente...). Vou ter agora algum tempo para voltar a falar de áreas prioritárias e de estratégia, com mais referências ao Fórum Novas Fronteiras. Entretanto escondam do Augusto Mateus a lista dos projectos financiados pela F.C.T. no âmbito do Concurso para Projectos de I&D em todos os Domínios Científicos - 2004 para não o fazerem chorar]

Santiago | 02:12 PM | Comentários (5)

maio 19, 2006

Jacques Monod 30 ans après

Monod symposium.jpg

Santiago | 02:26 PM | Comentários (2)

maio 17, 2006

Tecnologia não é Ciência

Wolpert.jpg

Entendo que "Ciência" e "Tecnologia" são actividades fundamentalmente diferentes, apesar de intimamente relacionadas. São ambas essenciais para o progresso, claro, e é por isso importante que as políticas públicas promovam o desenvolvimento tanto de uma como da outra...

Não devemos no entanto confundi-las. Elas diferem nas suas origens civilizacionais, nos seus objectivos, nos seus métodos de actuação e, sobretudo, nos critérios de avaliação do sucesso. Perceber essas diferenças é crucial para poder desenhar políticas correctas de apoio a cada uma delas.

Num capítulo de um livro de que tenho falado muito, Lewis Wolpert discute, com algum humor, as distinções essenciais entre Ciência e Tecnologia. Esse capítulo ("Technology is not Science") está disponível na nossa Hemeroteca em 5 partes, com 2 páginas cada uma (800-900 KB cada).

.
Nesse capítulo Wolpert fala do seu Teorema dos Cinco Minutos ("if a structure was built and remained standing for five minutes after the supports had been removed, it was assumed it would stand up forever"). Se 5 minutos bastam, então Mestre Afonso Domingues deve ter tido outras razões para ficar tantos dias debaixo daquela abóbada...

Santiago | 01:35 PM | Comentários (14)

maio 14, 2006

António Xavier 1943-2006

AX-1987.jpg
Homenagens a António Xavier houve, infelizmente, bem poucas. Só me apercebi das da Minha Rica Casinha e do Ciência Hoje a assinalar a triste notícia. No Ciência Hoje há ainda dois belos textos, da autoria da Claudina Rodrigues-Pousada e do António Coutinho.

É verdade que quando morre um Homem Bom não há muito a dizer e que às vezes a tristeza se sofre melhor em sossego, mas apesar disso choca um pouco tanta indiferença...

Tenho muita pena que o António Xavier já não possa receber a EUROBIC MEDAL, nem saber que a Bruker instituiu um prémio em sua honra. Recordemo-lo com esta fotografia (de quando o ITQB se chamava CTQB) e com as palavras do Presidente da República:

"No momento da sua morte, é com profundo pesar que rendo homenagem ao cientista de excepção, cuja obra servirá certamente de exemplo às novas gerações de professores e cientistas"

Santiago | 04:07 PM | Comentários (2)

maio 11, 2006

Que viva Hespanha, la vida tiene otro color...

O Ciência Hoje tem vários motivos de interesse (e por ter dito isto espero que o Jorge Massada me perdoe este post como já nos perdoou outras irreverências...).

JH.jpgUm deles é uma nova secção, intitulada "FLAD and the portuguese scientists in América" (publicada em colaboração com a ... FLAD, justamente!), que apresenta em inglês o curriculum de alguns cientistas portugueses que vivem e trabalham nos EUA.

O primeiro texto dessa rúbrica é assinado por João Hespanha (37 anos) que é Associate Professor na UCSB. Por razões dificeis de explicar a quem nunca viveu na Costa Oeste (já passei por isso...) o bom do Hespanha faz questão de nos informar, de forma très nonchalant, que do seu curriculum consta o seguinte (fascinante) item: "Until this moment he received no formal invitations to return to Portugal". Confesso que, com esta carinha laroca, não tenho dúvidas que os convites que recebe da Califórnia têm sido bem mais "formais" que quaisquer outros...

Como o Hespanha não nos dá o seu email, só aqui o posso informar que eu, por curiosa coincidência, conheço mais 1.500 cientistas (em todas as áreas) que também nunca receberam "convites formais" para trabalhar em Portugal. Talvez estes, pelo menos 1.501, cientistas em tal desgraçada situação queiram formar uma associação?

Sugiro que se chame: Associação Viver a Ciência Fora de Portugal...

Santiago | 09:38 PM | Comentários (8)

Cíclope Cínico

PV.jpgeruption.jpgAcne ((s.f.; do gr. ákhne, erro tipográfico de akmé, «erupção facial») Infecção da pele, frequente em rapazes espigadotes, causada pelo Propionibacterium acne 1. É encarada com resignação pelos que a esperam, vista com repugnância pelos que já a tiveram e não olhada ao espelho pelos que dela sofrem

Evitando reavivar más lembranças em muitos leitores e num dos autores (o outro tem traumas bem piores), a ilustração evoca Pompeia.

Santiago | 06:21 PM | Comentários (0)

abril 26, 2006

O Anti-Cientista

Evelyn-waughportrait.jpg
Eles e elas

As nossas amigas são um mito infame. Não existem. Não é geneticamente possível ser homem e manter uma relação de amizade com uma mulher. Ninguém controla a natureza humana. Sobretudo os homens. Em tempos, Miguel Esteves Cardoso dissertou sobre o factor SPAC. Teoria: Não há amizade entre homem e mulher, sem que o homem queira Saltar Para A
Cueca (SPAC) da mulher. Correctíssimo. Faz parte da condição masculina. Só que o velho Miguel pressupunha que, ainda assim, a amizade entre dois exemplares de sexos opostos era possível. Em teoria. Só em teoria.

No início dos anos noventa havia uma possibilidade real de isto acontecer. Ínfima, mas real. Entre pessoas anormalmente cultas e inteligentes, claro. Porém, uma década mais tarde, não há. Vivemos na época dos tops, dos calções curtos e das mini-mini-saias. Vivemos numa época de produção hormonal descontrolada. Já nem as senhoras dominam as glândulas endócrinas. Sobretudo as senhoras. Aliás, são elas a principal causa do caos sexual em que vivemos. São elas as provocadoras das erecções ilegítimas, que tanto embaraço causam. Qual época glaciar, qual aquecimento global, qual carapuça. Nós atravessamos o período do sempre em pé. Da erecção permanente. Já não é possível atravessar dois quarteirões, num bairro minimamente decente, sem andar com o mastro erguido. São os Descobrimentos sexuais. Cheiramos um decote, lá vem ele espreitar. Vemos a empregada de quatro a limpar os rebordos da sanita, levanta-se o dito cujo. Ligamos a televisão, toca logo a alvorada. É toda uma circulação sanguínea que está fora de controlo. Não me admira, que cada vez morra mais gente com problemas cardíacos. Era de esperar.
.
Ao longo da última década, verifiquei diligentemente a teoria do grande grande Miguel Esteves Cardoso. Fui o melhor amigo de um (não tão amplo como eu gostaria) bando de raparigas. Fui aquele idiota que vê, ouve, sorri (em tons de amarelo, diga-se), dá o ombro nas horas difíceis, mas não toca. Pode tudo, menos tocar. Resultados? Amargos e penosos. Extremamente penosos. E acima de tudo, tristes. Porquê? Porque eu quero sexo, meus amigos. Eu vivo em função do tacto. Eu quero carnificina. Mas uma carnificina saudável, entenda-se. Quero iniciar-me nas artes abstractas da paixão. Do Lado De Swann? Tenho tempo. Quero adiar o Senhor Proust por mais uns anos e dedicar as minhas noites em branco ao exercício da pélvis.

Porém, nem tudo é mau. Quero dizer: é mau, mas não é assim tão mau. Anos e anos de frustração sexual e prevenção do tumor da próstata através da masturbação permitiram-me obter um vasto conhecimento tácito. Algo só ao alcance de extensas horas de solidão e muitas mais de contemplação. Acreditem em mim, quando vos digo: O mundo divide-se, verdadeiramente, em dois grupos. Só dois grupos: Aqueles e aquelas. Eles e elas. É científico.

Tiago Galvão

Santiago | 12:24 PM | Comentários (30)

Charles A. Janeway Jr. 1943-2003

Alertámos os leitores, uma vez, que a série dos "Obituários fora de prazo" nunca iria ter muita animação, porque nós não admiramos assim tanta gente. Recentemente no entanto tive ocasião de me recordar de um dos raros cientistas que muito admirava e àcerca de quem o lugar-comum "a Ciência ficou mais pobre quando ele partiu" acaba por ser a única coisa que há para dizer...

Untitled.jpgCharlie Janeway acabou por perder a última batalha (que é sempre a única realmente importante) de uma guerra que várias vezes até pareceu ganha, durante os mais de 10 anos em que nela esteve envolvido. Continuou até ao fim a fazer avançar a disciplina científica na qual foi responsável por importantes contributos. De todos eles, destaco o facto de ter sido Charlie Janeway quem propôs, correctamente, que a activação da "Innate Immunity" é o que permite que os linfócitos T e B (que fazem parte do sistema de "Acquired Immunity") montem uma resposta imunitária, com produção, por exemplo, de anticorpos. Olhando para tudo o que se publica hoje em dia nesta área, pode bem dizer-se que Janeway foi um dos pais da Imunologia moderna.

Uma (fascinante) "Autobiografia Científica" pode ser lida na nossa Hemeroteca. Merece a pena ler também as reminiscências publicadas no P.N.A.S., que terminam com uma comovente despedida dos seus estudantes, dos colaboradores, dos colegas e da vida em geral.

De todos os Obituários que foram publicados por altura do seu falecimento, escolhi o de Derek Sant'Angelo para poder destacar uma frase que é uma verdadeira "Lição" para todos os cientistas:

Charlie frequently reminded us that the discussion of a paper might be interesting, but "it's the results section that will be important over time"

Continue a ler "Charles A. Janeway Jr. 1943-2003"

Santiago | 01:13 AM | Comentários (1)

abril 24, 2006

Cíclope Cínico

penico_g.jpgDUPLO.jpgAgua Régia (do lat. aqua, água + regia, "id."), mistura de ácido Nítrico (ver Água Forte) e Clorídrico, também conhecida pelo mais pedestre nome de Ácido Nitroclorídrico 1. Etimologia e "o meu primeiro kit de química" O nome vem da propriedade desta corrosiva mistura de dissolver metais nobres, como o ouro e a platina. O ouro das medalhas Nobel atribuídas a Max von Laue (em 1914) e a James Franck (em 1925) foi dissolvido em ~ e assim permaneceu escondido durante a invasão da Dinamarca pelos nazis. Após a retirada destes, o metal foi precipitado da solução e devolvido à Fundação Nobel, que depois ofereceu novas medalhas. O estratagema encontrado foi original mas de mérito duvidoso já que, salvando a matéria-prima, destruiu o objecto. Dependendo do artista, demos graças ou lamentemos o facto de a moda de dissolver preciosidades para efeitos de ocultação não ter colhido entre os coleccionadores de arte 2. Realidades desconhecidas e Generalizações abusivas Desde que subiu ao Trono, Isabel II do Reino Unido tem-se recusado a tomar banho com o argumento, aparentemente razoável, de que a água que sai do seu chuveiro em Buckingham Palace danifica as Jóias da Coroa. A sua recusa manteve-se mesmo após as Jóias terem sido trancadas na Tower of London e por causa disso, e em vista da sua empatia com a plebe inglesa, também ela é conhecida como "The Great Unwashed" 3. Segredos da Monarquia Lusitana No Palácio Ducal de Vila Viçosa há uma vasta colecção de penicos feitos de nobres metais. Conta-se que foram usados em testes de paternidade reais, pois príncipe que ao neles mictar não largasse fumo, não seria herdeiro legítimo do trono. Esta tradição não vem descrita nos livros oficiais da História de Portugal, talvez devido ao embaraço causado pelo impecável estado de conservação de toda a colecção 4. A cábula do bartender Soltando vapores e tendo uma coloração amarelada, a ~ dá uns cocktails de belo efeito, sobretudo se ornamentados com uma sombrinha lilás. A base é constituída por uma parte de Ácido Nítrico e três de Ácido Clorídrico, mas não há razão para se não experimentar outros rácios passíveis de prolongar a agonia dos convivas mais irritantes. Por perder propriedades rapidamente, a ~ deve ser preparada no mixer imediatamente antes de ser servida, como é apanágio do bom profisisonal de restauração . Os experts aprenderam também a não mergulhar azeitonas no cocktail, servindo-as sempre num pires à parte.

Legenda: Penico de Napoleão Bonaparte, que nem depois da cerimónia de coroação hands-on soltou fumo. À cautela, a Josefina exigiu que fosse feito de porcelana.

Santiago | 08:31 PM | Comentários (2)

"Legislação eticamente absurda"

No DN de hoje João César das Neves debate os problemas éticos colocados pelas tecnologias de reprodução medicamente assistida.
Vindo de quem vem, é claro que a linguagem é deliberadamente provocatória e a perspectiva demasiado conservadora. Não subscrevo a primeira e discordo da segunda, mas realço o contributo.

Santiago | 07:09 AM | Comentários (1)

abril 22, 2006

Cíclope Cínico

PV.jpgplato_acad.jpgAcademia (s.f.; do gr. Akademía, referente a «Akádemos», n. pr., pelo lat. academia), clube recreativo para sábios 1. Etimologia A palavra deriva do nome do lugar escolhido por Platão para ensinar, a «Escola do jardim de Academo», perto de Atenas. Todos os académicos carregam hoje o nome do herói grego Academo, embora este seja mais delator que descobridor, e a matéria em questão - o esconderijo de Helena de Tróia - muito pouco académica. Tenhamos presente, porém, que a classe seria hoje ainda mais gozada caso Platão se tivesse instalado com a sua trupe noutro jardim, nomeadamente no de Teseu 2. Academias Famosas ~ des Sciences: Venerável instituição francesa, dirigida por dois Secretaires Perpetuels que só são eleitos após uma longa e notável carreira. Dada a inexorabilidade do curso da natureza, a insistência nessa regra torna o cargo paradoxalmente efémero. ~ Française: Tentou resolver o paradoxo anterior de uma forma original: a sua elite de 40 membros recebe o titulo de "Immortels". Só que a História, hélas, encarregou-se de provar até à exaustão que o título é apenas vitalício. National Academy of Sciences: Aqui não só os seus membros são mortais, como chegaram ao ponto de fundar uma revista – a P.N.A.S. – que acelera a sua senescência académica. Académica: Clube da cidade de Coimbra que pratica um futebol de interesse exclusivamente académico 3. Bizantinices e Hopeful Monsters A discussão académica por excelência é a que trata de saber do sexo dos anjos. O assunto nunca chegou a ser esclarecido porque a queda de Bizâncio provocou a interrupção desta interessante linha de investigação. Nos tempos modernos, Joshua Lederberg teve acesso a uma péssima tradução das actas que restaram e conseguiu depois demonstrar que ao menos as bactérias não só o têm, como o usam amiudadamente. Para o QED desta querela seria agora útil encontrar uma Salmonella alada que tocasse harpa, corneta, ou ambos os instrumentos 4. Grau académico Título conferido por uma universidade aos que a frequentam com aproveitamento e não usaram cheques carecas para pagar as propinas. Em certos países, tende a ser atribuído por qualquer um a qualquer pessoa, por automatismo cortês, normalmente em regime de troca por troca. Na versão honoris causa o título é ainda atribuído a uma figura pública que a Universidade pretenda explorar.

Santiago | 03:39 PM | Comentários (7)

abril 21, 2006

Coisas que verdadeiramente me surpreendem na Blogosfera:

Haver tanta gente a discutir as patetices da Mongolfiera e tão pouca a debater os pareceres do CNCEV...

Nunca tantos disseram tanto acerca de tão pouco, e tão pouco quando está em causa tanto (S.)

Santiago | 07:22 PM | Comentários (1)

Rir é o melhor remédio

cover_wired_190.jpg
Informa-nos a Wired que "born helpless, nude and unable to provide for himself, Lore Sjöberg eventually overcame these handicaps to become an entrepreneur, restauranteur and voyeur"

Deve ser por isso que escreve algumas das mais hilariantes crónicas que podem ser lidas por aí. Esta por exemplo, ou esta.

Verde de inveja por não saber escrever assim, transcrevo abaixo alguns excertos da sua mais recente crónica. Não me ria tanto desde que o Mariano Gago voltou a ser Ministro...

Continue a ler "Rir é o melhor remédio"

Santiago | 02:26 PM | Comentários (6)

abril 20, 2006

Cínico? Sim! Mas desta vez com ambos os olhos bem abertos...

image.jpgMongolfiera s.f.: La Mongolfiera è un aeromobile che per ottenere la forza necessaria per sollevarsi da terra, utilizza un gas più leggero dell'aria ovvero: Aria calda. La mongolfiera fa parte della categoria degli Aerostati, velivoli che utilizzano gas per sollevarsi. Quando in volo, vengono trasportati dal vento e non possiedono strumenti direzionali propri.

Santiago | 09:10 PM | Comentários (7)

Pendências do Vasco: Método Científico

Antes de sair, naquele frenesim típico de quem está prestes a abandonar um cargo, convidei o maradona e o Tiago Galvão para esta casa. O maradona já picou o ponto e é agora a vez do Tiago. Este rapaz, que escreve no Pif Paf , estuda química no Porto e a sua chegada ao Conta faz baixar significativamente a média etária da equipa, o que é uma forma de rejuvenescimento. Comunicou-me que escreverá uma rubrica intitulada "O Anti-Cientista" e os seus textos passarão a ser ilustrados com uma imagem de Evelyn Waugh, o escritor que foi salvo por uma alforreca (dolphins are overrated). Espero que apreciem a sua prosa. (VMB)
Evelyn-waughportrait.jpg
Método científico

Mal acordo, procedo às habituais rotinas quotidianas. Antes da higiene oral, banho e mata-bicho, despacho a primeira urina matinal (termo médico). Ou quase. Explico: estranhos fenómenos pélvicos apoquentam-me a consciência e impossibilitam a drenagem. No bom e velho espírito do senhor Karl Popper, adopto uma perspectiva puramente científica. Primeiro: observação. Olho a área circundante e descubro o facto. Trata-se de um caso típico de erecção matutina, ou seja, um problema pequeno. Pequeníssimo. Porém, de proporções respeitáveis (wishful thinking). Solução? Está toda nas palavras do Doutor Havelock Ellis e constitui a base de qualquer teoria freudiana de alpaca. Vamos pôr as coisas assim: envolve trabalho de força e preparação física digna de uma maratona olímpica, por outras palavras, procedo a estimulação manual dos órgãos genitais, que é como quem diz, toco uma (termo técnico). A fazer fé na escolástica do senhor Tomás de Aquino, todo o sujeito que se proponha a resolver o problema desta maneira, ainda que no mais genuíno espírito científico, tal como eu, é animal ainda mais execrável do que quaisquer parentes incestuosos.

Após realização experimental em ambiente laboratorial controlado que, especifiquemos, se trata de uma bela imagem para designar uma casa de banho cobardemente trancada à chave, com o único intuito de testar a validade da hipótese, obteve-se o seguinte resultado: excitação intensa das zonas erógenas, com (quase) ejaculação à décima segunda bombada. Contudo, após uma primeira análise dos resultados podemos, desde já, afastar o fantasma da impotência, porque a minha mãe interrompeu-me a meio e todos nós sabemos a pica que a voz maternal dá, logo de manhãzinha e sem comprimidos milagrosos disponíveis. Porém, novos ensaios serão cuidadosamente efectuados e, agora, por uma questão de honra, vai ser dar-lhe à força toda, que nem o remador de Ben-Hur, até o dito cujo esfoliar. Tudo em nome da ciência.

Tiago Galvão

Santiago | 02:33 PM | Comentários (16)

abril 19, 2006

Fluida solidez

Clone army.jpg“So they go on in strange paradox, decided only to be undecided, resolved to be irresolute, adamant for drift, solid for fluidity, all-powerful for impotence.”
Winston Churchill

O CNECV publicou o seu parecer N° 48 sobre a Clonagem Humana, por "iniciativa própria". Realço a coragem e determinação que o Conselho revelou em participar no debate sobre matérias tão sensíveis. Possam os Snrs Deputados, e o Governo, demonstrar a mesma coragem e determinação na produção (breve, espera-se) de legislação sobre o assunto...

O Parecer #48 deve ter sido o mais polémico da história do CNECV. É fascinante a leitura das Declarações relativas ao parecer sobre clonagem humana, que não deixam dúvidas sobre como a temperatura deve ter subido durante o debate no seio do Conselho. Leiam também o Relatório que acompanha este Parecer. Recomendo vivamente a leitura de todos estes textos aos que se interessam por estes problemas éticos.

Os Snrs. Conselheiros baseiam-se em considerandos até pacíficos ("as elevadas expectativas relativamente [à] clonagem humana"; "o vultuoso investimento [...] no domínio da investigação em clonagem"; "o interesse da sociedade em acompanhar e intervir no debate sobre a clonagem humana"; o facto de "a clonagem humana por transferência nuclear somática com finalidade reprodutiva não [estar] cientificamente testada"; etc.), para concluir que:

Continue a ler "Fluida solidez"

Santiago | 12:56 AM | Comentários (0)

abril 16, 2006

Ciclope Cínico

DUPLO.jpgEuratom.jpgÁtomo (s. m.; do Gr. átomos, pelo Lat. atòmu, indivisível) 1. A mais pequena partícula que ainda exibe as propriedades de um elemento, como um ~ de enxofre para Vasco Pulido Valente, Marques Mendes para o PSD ou Louis XIV para a França . 2. Linguística Histórica A etimologia desta palavra criou grandes problemas à definição de protão, neutrão e electrão (para não falar das outras partículas subatómicas). A fissão nuclear veio a revelar que o ~ é, afinal, tão indivisível como a antiga URSS 3. Milagre da multiplicação dos ~s A cerimónia da Consagração introduz um ~ de Deus em cada uma das Hóstias. Sucede que, sem prejuízo da Santíssima Trindade (ver molécula), Deus é um ser indivisível e portanto um ~ de si próprio, esgotando-se assim na massa de uma única Hóstia. Não se insinua que andem outras mãos na massa, mas por indícios bem menos fundamentados de haver gato por lebre, a DECO já foi chamada a investigar. 4. Património Mundial Caso típico de megalomania europeia, o Atomium é o maior e mais feio átomo do mundo. Tão grande e tão feio que não coube na tabela periódica. 5. Bases atómicas da fé em tercetos decassilábicos

Não há mistério nas hemoglobinas:
Uma pitada do que não se vê
e duas a duas as proteínas.

Mas não esqueças que são uma mercê
Para os homens, os ratos, rãs e até
O ateu, os quatro átomos de Fe

...................................V.P.B.V.

Santiago | 07:02 PM | Comentários (0)

abril 11, 2006

That's all Folks...

thatsallfolks.jpg
Num estilo bastante mais comedido que o do ataque, a Nature lá se defendeu da Britannica. A resposta apareceu a dois tempos: Primeiro por carta, depois num Editorial publicado no número de 30 de Março de 2006.

Ninguém estranhará o tom testudo da resposta da Nature (cf. Our comparison was unbiased, and we reject Britannica's allegation that we have acted in a dishonest manner. We stand by the story.), já que se trata de uma Revista conhecida pela teimosia com que defende as decisões (geralmente negativas...) que toma.

Quem achou intrigante a acusação de ser "[...]simply unacceptable for Nature to cut and paste different Britannica entries, add its own editorial material, and then pass the resulting pastiche off under Britannica’s name" não deixará de notar a fina diferença entre o que diz a carta (cf. "[...]Britannica alleges that we provided a reviewer with material that was not from the Britannica website. We have checked and are confident that this was not the case") e o que vem no (mais sóbrio) Editorial (cf. "The company has, for example, claimed that in one case we sent a reviewer material that did not come from any Britannica publication. [...] We have checked the original e-mail [...], and it is clear to us that all the reviewer's comments refer to specific paragraphs from Britannica").

É bem verdade que há muito advogado que guia BMWs por causa de respostas "a quente"...

Chegámos assim, provavelmente, a uma trégua neste combate de gigantes. Uma Enciclopédia que só publica actualizações a intervalos de vários anos não pode competir com uma Revista que consegue atacar todas as semanas. Se o Conta ainda fôr vivo, darei nota do que vai dizer a Britannica na actualização da entrada Nature (e também, claro, na entrada Wikipedia...). Entretanto vou guardar o cartoon que ilustra este post para me recordar de como tudo isto foi divertido...

O que é verdadeira novidade na resposta, e razão para "parar as máquinas" e reimprimir a 1° página, é a histórica admissão da Nature que os seus reviewers às vezes se enganam! (cf. "Our reviewers may have made some mistakes", num texto, e We realised that in some cases our reviewers’ criticisms would be open to debate, and in some cases might be wrong, no outro). Quem já se correspondeu com eles, e delicadamente tentou chamar a atenção para o baixo QI da maioria dos reviewers que lhe calharam em sorte, não se esquecerá certamente de citar estas frases, ipsis verbis, em futura correspondência com os telhudos Editores desta reputada Revista ...

Santiago | 10:52 PM | Comentários (1)

abril 06, 2006

.......???

........Zavala?

.........Não...

Rosebud.jpg

Santiago | 08:30 PM | Comentários (5)

Politics & Policy

Foto1.jpgDurante o passado fim-de-semana houve aqui no Conta uma interessante troca de opiniões sobre estratégias de desenvolvimento científico, durante a qual dois desconhecidos contribuíram textos de particular interesse. Um deles chegou a pedir desculpa pela extensão do comentário, mas eu respondo-lhe com Mark Twain: "I’m sorry to write you such a long letter, but I didn’t have time to write a short one.”

São ambos anónimos (para mim, pelo menos) e, contradizendo algumas ideias feitas que por aí andam, e algumas pseudo-leis pomposamente anunciadas, percebe-se bem que sabem do que falam...

Regresso ao assunto porque as últimas observações de cada um suscitaram-me uma interrogação que espero que não venha a ser interpretada como uma mera provocação:

Pergunto-me se as frases Sem instituições de "policy" ([independentes das] instituições financiadoras) [...] as áreas prioritárias serão sempre encaradas como escolhas políticas (mesmo quando são acertadas) (LOS), e [O]s Research Council ingleses são semelhantes [...] à FCT [nos instrumentos de financiamento], mas são também muito diferentes [...] na definição da política, e na composição dos orgãos de aconselhamento e decisão [...]. Na FCT quem decide é o Presidente, nomeado pelo partido que está no Governo e pelo Ministro [...]. Não existe em Portugal uma visão nacional no processo político, mas uma visão partidária (anonimo) não serão excelentes razões para argumentar que foi um grande erro "promover" a Ciência e Tecnologia até ao nível de Ministério? Não será melhor fazer a Ciência e Tecnologia regressar ao nível de Direcção-Geral, na dependência exclusiva do Primeiro-Ministro?

Continuaria "partidarizável", claro, mas, por definição, sê-lo-ia bastante menos...

Se calhar o excesso de "visibilidade" actual é contraproducente. Afinal, durante o Governo de Marcelo Caetano, o investimento em Ciência & Tecnologia conheceu aumentos notáveis, sem que a C & T tenha servido como instrumento de promoção na carreira política de ninguém...

Acho que posso demonstrar esta última afirmação: Quantos dos estimados leitores conhecem o Snr. representado na foto?

Santiago | 03:40 PM | Comentários (5)

abril 04, 2006

A Universidade no seu Labirinto

Alma Mater.jpg

É obrigatório ler o estupendo artigo AS UNIVERSIDADES EUROPEIAS: MIT OU REALIDADE? (um título simplesmente genial) de João Caraça.

Aproveitem para visitar o interessantíssimo site de João Vasconcelos Costa. Este meu amigo anda há muitos anos a pensar, e a escrever sobre, o Ensino Superior, debatendo os desafios que se lhe colocam (pedi emprestado o título deste post a uma conhecida obra sua que trata do assunto). No seu site pessoal, à mistura com fascinantes observações sobre (quase) tudo o que vai acontecendo pelo mundo, podem descobrir de que "massa" é feito um verdadeiro epicurista.

Santiago | 11:59 PM | Comentários (3)

abril 03, 2006

posts que nunca saem...

newyorker.jpg


Havia um anúncio à revista The New Yorker que dizia
It has been called the best magazine in the world, probably the best magazine that ever was....

Quase que bastam as capas para o provar. A American Society of Magazine Editors seleccionou as 40 melhores Capas de Revista dos últimos 40 anos e três delas pertencem-lhe.

Esta não é uma das escolhidas, mas é a minha favorita.

Santiago | 01:30 PM | Comentários (2)

abril 02, 2006

Falemos então de estratégia e, já agora, também do limbo

limbo.jpgO L. O. S. escreveu um comentário muito interessante a que quero dar destaque repetindo-o em post.
Aproveitem e leiam também o comentário do Luís Oliveira. Este debate sobre "política científica" e "estratégias de financiamento" interessa a todos por isso espero que os amáveis leitores não se inibam de contribuir para ele.
(Comentários meus ao que disse o L. O. S. acompanham a transcrição. Os destaques também são meus)

1. Encontro alguma dificuldade em perceber como operacionalizar áreas estratégicas de investigação num país com muito poucos recursos financeiros e com uma comunidade científica ainda sem instituições de "policy" independentes do tipo National Academies dos EUA. A definição de "áreas estratégicas" resultou no Programa Ciência, com alguns resultados interessantes, muitos investimentos disparatados e áreas científicas muito penalizadas (ver 2). Cairemos em belos planos, definidos por algumas luminárias, muito bonitos no papel, devidamente sintonizados com as áreas estratégicas das melhores universidades/países com recursos, mas sem recursos humanos e recursos financeiros para os executar em Portugal e para competir internacionalmente.

Parece-me que justamente por termos muito poucos recursos financeiros devíamos concentrá-los onde forem produtivos e possam "fazer uma diferença". Creio que a melhor maneira é tentar identificar aquelas áreas onde Portugal tem A) Massa crítica bastante para poder ter retorno do investimento e impacto, e B) Fortes vantagens comparativas relativamente aos outros países europeus.
Creio que há pelo menos uma área científica que se destaca claramente, se aplicarmos estes dois critérios (Disclaimer: Não é a área em que eu trabalho). 20 anos e muitos e muitos milhões depois houve sectores que se desenvolveram fortemente e são internacionalmente competitivos. Nesses sectores Portugal tem enormes vantagens sobre outros países (coisa que não acontece por acaso, obviamente).

Continue a ler "Falemos então de estratégia e, já agora, também do limbo"

Santiago | 12:13 PM | Comentários (4)

abril 01, 2006

A Estratégia do Caranguejo

dilbert-Technology-Strategy.jpg

Vasco Pulido Valente escreveu uma avinagrada (imagino) crónica n'O Público de 31 de Março, a queixar-se das "ilusões de Sócrates e Gago sobre o valor do investimento em ciência" (como eu não leio Jornais de Referência esta citação vem directamente daqui).

A essa crónica replica Rui Pena Pires n'O Canhoto com um texto bastante menos ácido, mas também menos original (destaques meus):

Afirmar que o investimento nacional em ciência será sempre diminuto por comparação com as necessidades absolutas de um sector como este, é afirmação que só faz sentido caso se continue a pensar que se faz ciência à escala nacional. É óbvio que, em termos absolutos, não há em Portugal escala para financiar os recursos de uma investigação científica e tecnológica autóctone competitiva no plano internacional. Mas há recursos para financiar com eficácia a formação de investigadores e de unidades de investigação com competências para participarem em redes transnacionais de investigação, desde que, ao mesmo tempo, se incentive a internacionalização da actividade desses investigadores e unidades. Por isso não faz sentido a eterna e provinciana discussão sobre as prioridades a atribuir ao financiamento dos diferentes sectores da investigação “nacional”. A investigação científica que se faz em Portugal só terá qualidade e eficácia se não for nacional mas transnacional. O que importará apoiar são pois as práticas e instituições de qualidade, pois são estas que garantam a possibilidade de participação na investigação europeia e mundial, não sectores “quinquenalmente” escolhidos que, em termos nacionais, nunca terão escala para serem viáveis

Continue a ler "A Estratégia do Caranguejo"

Santiago | 06:50 PM | Comentários (6)

março 31, 2006

“ Tout ce qui existe dans l’univers est le fruit du hasard et de la nécessité ”

Monod's Lab.jpg


O Instituto Pasteur de Paris organiza uma Conferência em homenagem a Jacques Monod no próximo dia 31 de Maio, 30° aniversário da sua morte.

A sessão terá lugar no Grand Amphithéâtre Duclaux do Institut Pasteur de Paris (28, Rue du Docteur Roux, 75015 Paris) às 15 horas e tem entrada livre. Serão oradores Sydney Brenner e François Gros. Os amáveis leitores que pretendam conhecer tão distintos personagens são remetidos para os links acima.

Em jeito de homenagem ofereço este trocadilho fácil: Assisitir a esta Conferência é por acaso, uma necessidade...

Santiago | 04:44 PM | Comentários (1)

março 29, 2006

Pseudo (do Gr. pseúdes, falso)

Fool's fire.jpgDurante o debate de hoje sobre o "Estado da Nação" o 1° Ministro anunciou várias medidas sobre aquilo a que se convencionou chamar "Política de Investigação Científica". De acordo com a notícia, as medidas anunciadas foram (destaque para as citações directas do 1° Ministro, com sublinhados meus):

1) Reforço do investimento público no sector da ciência de 250 milhões de euros, em 2007

2) "Reforma progressiva do sistema científico e universitário". Numa primeira avaliação, José Sócrates estima a redução de "25 por cento do número dos actuais centros de investigação"

3) Aumento "em mais de 60 por cento das bolsas de doutoramento já este ano", passando de 1550 (em 2005) para 2450 (2006) [multiplicar por 1,6 é difícil, não é?]

..........O primeiro-ministro referiu a criação de um novo tipo de bolsas: "As bolsas de integração na investigação, destinadas a estudantes de licenciatura e mestrado que sejam integrados em centros de investigação"

4) "A viabilização da contratação pelas instituições científicas de 500 novos investigadores doutorados até ao final de 2007"

..........Esta medida passa por propor "contratos-programa às diferentes instituições de investigação, assegurando mecanismos de co-financiamento para permitir a contratação destes investigadores, em regime de contrato individual de trabalho"

5) O Estado vai "apoiar financeiramente o registo internacional de patentes, quer nos Estados Unidos da América, quer na União Europeia"

6) O Executivo vai "tornar obrigatório que, nos investimentos públicos de maior dimensão, as empresas envolvidas tenham de afectar uma percentagem mínima, entre 0,5 e um por cento do total de investimento, para projectos de investigação e desenvolvimento a realizar em território nacional"

7) O Governo pretende "reforçar a intervenção do Programa Ciência Viva junto das escolas e das famílias, tendo em vista a promoção da cultura científica e tecnológica na sociedade portuguesa"

Não posso comentar em detalhe esta notícia porque só tenho acesso à quase-transcrição do press-release do Governo que o Público fez o favor de publicar.
Até aparecer algum trabalho sobre o assunto, com informação por exemplo sobre o que é tudo isto significa e que consequências tem, ou pode vir a ter, no sistema científico nacional, só posso subscrever a beatitude piedosa com que o líder da oposição (cujo esforço nestas matérias está só ligeiramente abaixo do dos Snrs. Jornalistas...) recebeu tão relevantes informações: "totalmente de acordo com o objectivo de investir na ciência, que é o futuro".
Já não acompanho, no entanto, o Snr. Líder no grande estardalhaço que depois armou, ao embirrar com outra medida - provavelmente também "de Política Científica" - que diz respeito à Maternidade de Elvas (parece que há lá uma... e parece que vai fechar...).

Haverá mais alguém que acha tudo isto um grandessíssimo disparate?

Haverá mais alguém que acha que os 250 milhões do anúncio 1 vão ser tão desperdiçados como o foram os 1.000 milhões do anúncio anterior? Ou os já nem sei quantos do antes desse?

Haverá mais alguém que acha que continua a faltar a medida mais importante? E que acha que, enquanto essa medida não for tomada, tudo isto não passa de um vistoso fogo-fátuo (s. m.)? Que é como quem diz: Chama fugitiva que aparece nos cemitérios e pântanos e que provém da inflamação do fosforeto de hidrogénio que se liberta dos corpos orgânicos em decomposição...

Santiago | 10:28 PM | Comentários (5)

março 23, 2006

The Britannica strikes back

Le combat des chefs.jpgEm Dezembro a Nature publicou um estudo em que tentava demonstrar que o rigor científico da Wikipedia não ficava atrás do da Encyclopædia Britannica.
Aparecido na sequência de um episódio que lançou sérias dúvidas sobre a credibilidade da Wikipedia (veja-se aqui), o estudo da Nature reconfortou os wiki-fanáticos e foi amplamente divulgado (aqui, por exemplo) como pretexto para ridicularizar uma instituição que é quase a quintessência da "britishness".

Ora, a dita essência nem mereceria o nome que tem se fosse capaz de "comer e calar"...
Com a fúria própria de uma águia imperial, e com toda a autoridade que os seus quase 250 anos de história lhe conferem, a Vecchia Signora acaba de publicar uma refutação ao estudo da Nature (podem lê-la aqui, em todos os seus 836 kb de glória).

A resposta é devastadora para essa outra instituição (sedeada em Londres, por sinal) chamada Nature. Cito uma pequena frase do texto da Britannica (texto esse que é, note-se, todo ele escrito num inglês magnífico) que diz tudo sobre o que eles pensam da Nature e dos seus métodos:

"We discovered in Nature’s work a pattern of sloppiness, indifference to basic scholarly standards, and flagrant errors so numerous they completely invalidated the results".

Perspectiva-se assim uma guerra sem quartel que merece ser seguida com atenção. Não deixem que o ribombar dos canhões vos impeça de ler aqui uma valente bicada no Jim Giles (autor do estudo da Nature), à mistura com uma engraçada insinuação e tudo. Em verdade vos digo: A coisa promete...

A Nature vai ter de responder à Britannica e, de caminho, espero que explique o curioso episódio descrito da seguinte forma (pag 10 da refutação): It is simply unacceptable for Nature to cut and paste different Britannica entries, add its own editorial material, and then pass the resulting pastiche off under Britannica’s name.

Até já adivinho Tribunais metidos neste épico confronto...

Santiago | 09:54 PM | Comentários (13)

março 22, 2006

Históricas timidezes...

Referências recentes aos genes (o seu egoísmo e a sua composição química) levam-me a acrescentar 2 publicações à nossa colecção de artigos históricos. Leiam na Hemeroteca o artigo (1944) de Avery, MacLeod e McCarthy que demonstrou que a informação genética é "transportada" pelo ADN, e o artigo (1953) publicado por Watson e Crick que "decifrou" a sua estrutura molecular.watson-crick-dna.jpg

O artigo de Watson e Crick (esta ordem de autores foi decidida, diz a lenda, num lançamento de moeda ao ar) é um dos mais famosos de toda a História da Ciência. Valeu, sozinho, um Prémio Nobel aos seus autores e termina com uma daquelas frases verdadeiramente inolvidáveis: "It has not escaped our notice that the specific pairing we have postulated immediately suggests a possible copying mechanism for the genetic material".
Dou a palavra a Horace Freeland Judson para caracterizar esta afirmação: "That last sentence has been called one of the most coy statements in the literature of science"...

(Coy é uma bonita palavra que significa, segundo o meu dicionário, annoyingly unwilling to make a commitment - esta definição recorda-me, vá-se-lá saber porquê, o muito nosso TLC...).

Em matéria de coyness (em jeito de homenagem traduzo agora a definição acima para a terminologia do maradona: "Falta de tomates") na última frase, Avery and col conseguiram superar os mestres (superá-los avant la lettre, por assim dizer...) ao escrever: "The evidence presented supports the belief that a nucleic acid of the desoxyribose type is the fundamental unit of the transforming principle of Pneumococcus Type III".

Inesquecível também...

Santiago | 10:08 PM | Comentários (4)

março 15, 2006

PsicoNeuroParalogias...

Geller.jpgInforma-nos o inevitável Dr. Luís Portela, no Jornal de Notícias de hoje, que entre 29 de Março e 1 de Abril a Fundação Bial organizará o 6° Simposium Bial, este ano subordinado ao tema "Aquém e Além do Cérebro". Algumas sessões deste Simpósio ameaçam ser até interessantes, mas não tanto como a terceira, que terá como tema: "A relação entre a memória e os fenómenos parapsicológicos" (espero que esta sessão se realize a 1 de Abril - é o dia certo!).

Uma das conferencistas deste fascinante Simpósio é Caroline Watts, apresentada como "Professora de Parapsicologia" na Universidade de Edimburgo. Fui dar com o currículo desta, sem dúvida eminente, investigadora no website da Universidade e constatei que a Snra Watts tem vários artigos publicados no Journal of Parapsychology (e também um, com o intrigante título Tacit information in remote staring research: The Wiseman-Schlitz interviews, publicado numa coisa chamada Paranormal Review).

Adorava ler estes artigos, mas o Journal of Parapsychology não sente, obviamente, necessidade de ter um website. Já o pessoal do European Journal of Parapsychology, revelando alguma falta de fé na sua própria definição do que estudam (e.g.:"communication or interaction between organisms and their environment that do not appear to rely on the established sensorimotor channels") oferecem a Table of Contents aos que, como eu, são pouco dotados nestas artes telepáticas.

Alguém conseguirá transmitir-me, por qualquer meio, o artigo de Yung-Jong Shiah e Wai-Cheong Carl Tam com o título Do human fingers "see" ? - "Finger-reading" studies in the East and West? Prometo recompensar, por canais sensorimotores não estabelecidos, com uma grande quantidade de notas de 20 euros...

Santiago | 01:44 PM | Comentários (14)

março 07, 2006

Batuque de Santiago

Batuque.jpgTôrno torna, bate escuro
bate escuro, rodopia, pára.
Canta bate hesita e roda
torna tôrno, bate forte...

......A noite em roda reboa
......ess'cusa escura cresce,
......mistério feito planta
......de som crescendo à toa...

Vaso de mãos que batem
compasso, passo que dança
cresce, espera, cresce mansa
sob luzes que se esbatem

......Cresce a planta canto e dor
......lenta melopeia funda e baça
......espiral de som tecida em cor

O vento, o vento, o pó o vento
roda, uiva bate e cansa

......Tôrno torna bate duro
......canto triste longo lento
......ritmo baço fofo e escuro

...A luz ao longe bruxoleia...
o vento sopra e arrasta a areia

(Santiago, 1969)




Albano Neves e Sousa era o mais angolano dos pintores portugueses. Escreveu uma vez: "As coisas que eu não conseguia transmitir pintando, eu as transformava em poesia e a terra e eu éramos uma só ideia. Fazendo um retrospecto acho que cantei a África de todas as maneiras que sabia e algumas que não sabia..."

Publicou este Batuque de Santiago no livro Macuta e meia de nada

Santiago | 11:20 PM | Comentários (0)

fevereiro 22, 2006

"There's a new blog in Town..."

Por via de um comentário, algures lá em baixo, do Ricardo Azevedo, descobrimos um blog que é tão belo Newtonsbinomium.jpg
como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso...
Trata-se do Newton's Binomium, que pode agora ser lido a partir da nossa coluna dos links. É escrito em inglês (um inglês impecável, acrescento) e fala sobretudo de temas de evolução.

Leitura obrigatória (embora não exactamente diária...) a partir de hoje!

Santiago | 11:34 AM | Comentários (1)

fevereiro 15, 2006

"Morrem cedo aqueles que os deuses amam..."

Foi com enorme tristeza que acabámos de receber a notícia do falecimento do Mário Penha-Gonçalves, irmão do Carlos de que eu bem-humoradamente falei no post anterior...

Podia dizer que ele era uma jovem estrela ou falar do seu futuro promissor. Seria verdade, claro, mas não é isso o mais importante. Para mim o mais importante é dizer que o Mário era meu amigo e tenho infinita pena de não voltar a trocar larachas com ele naqueles corredores em Mill Hill...

O Mário estava a fazer um post-doc no National Institute for Medical Research em Londres, e estudava os mecanismos de migração e adesão de precursores hematopoiéticos, durante o desenvolvimento embrionário.

Aos seus colegas, à sua mulher e ao seu filho e à restante família, apresentamos os nossos sentidos pesâmes. Para o Carlos em particular vai também um grande grande abraço nosso de amizade e de solidariedade.

Em memória do Mário deixamos estes versos de Fernando Pessoa:

Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro , entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Santiago | 03:50 PM | Comentários (0)

fevereiro 14, 2006

Rei, Capitão, Soldado, Ladrão...

Mero Tenente.jpg Aos 26 minutos do Telejornal de 13 de Fevereiro (pode ser visto aqui) vem a notícia de 3 novos laboratórios, financiados pelo Ministério da Defesa, dedicados à investigação contra a "ameaça" bioterrorista. Diria que os 800.000 euros que, segundo a peça, foram gastos a equipá-los não chegam para fazer uma "coisa muito a sério", mas esperemos que este investimento continue e aumente significativamente. Seja como fôr, é de saudar o surgimento de novas fontes de financiamento de investigação, não dependentes do Ministério da Ciência.

O que me impressionou mais foi o elegante investigador que, como um artilheiro afinando a pontaria, faz o "loading" do seu Gel ostentando, orgulhoso, os galões de Tenente. O respeitinho é uma coisa muito bonita e tenho a certeza que não haverá molécula da ADN naquela experiência que se atreva a migrar para a posição errada, ou ausentar-se sem licença, caindo pelo fundo...

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Santiago | 09:10 PM | Comentários (5)

fevereiro 09, 2006

Cíclope Cínico

PV.jpgSwiss A K.jpgAlosteria (s. f.; do gr. állos, outro, + stereós, sólido) Mudança de conformação e/ou actividade por interacção sobre um sítio que não o sítio activo. 1. Onomástica Esta forma de regulação da actividade enzimática foi originalmente descoberta por um senhor premonitoriamente crismado Changeux 2. "Canivete suiço conceptual" Quando não se tem a menor ideia sobre o fenómeno que estudamos, a alosteria é uma explicação que a todos conforma...hum, conforta 3. Derrapagem multicultural Histeria dirigida contra civilizações alheias, desculpabilizando sempre a própria (do gr. allos, outro + hyster, útero)

Santiago | 04:38 PM | Comentários (0)

Gânglios Linfáticos: Os primeiros 40 anos

Anúncio.jpg

Santiago | 11:50 AM | Comentários (0)

fevereiro 07, 2006

Não é fraude, mas é crime também...

Rakesh.jpgSuponhamos que o amável leitor se interessa por citoquinas e respectivas vias de transmissão de sinal. Caso se encontrasse a escrever um artigo científico sobre esse tema podia bem acontecer que, numa qualquer search pelo PubMed, viesse a encontrar o Review representado na imagem, publicado em Setembro de 2005 no Biochemical Pharmacology por Rakesh & Agrawal.

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Santiago | 12:15 PM | Comentários (12)

fevereiro 02, 2006

Cíclope Cínico

PV.jpgAnastomose (s. m; do gr. anastómosis, embocadura) 1. Comunicação entre órgãos ocos da mesma natureza 2. Política ~ natural Um político ser eleito Presidente da República; ~ traumática Um Presidente da República terminar o mandato; ~ cirúrgica Um maoísta chegar a Presidente da Comissão Europeia 3. Romantismo, sexo e escatologia ~ romântica Um beijo a sério na boca; ~ sexual Duas vaginas roçagando em intimidades sáficas; ~ escatológica Um peido a passar pelo esfíncter anal em sentido oposto ao que é costume.

Santiago | 11:07 PM | Comentários (2)

Cíclope Cínico

PV.jpgAfrodisíaco (adj. e s. m.; do Gr. aphrodisiakós, aquilo que estimula o desejo carnal, ou pelo menos restaura as forças) 1. Etnologia capilar Penteado exótico usado em África, também conhecido como Pau-de-Cabinda 2. Etimologia A palavra deriva de Afrodite, deusa grega do amor. A princípio tentou-se usar a versão romana, mas a NASA tem o copyright de todas as variações desse nome 3. Conservação da natureza e Lesbianismo Há um vasto leque de afrodisíacos, sobretudo resultantes da maceração de apêndices animais indiciadores de virilidade, quando não o próprio membro viril. Os exemplos mais conhecidos são o corno de rinoceronte, a haste de veado e o pénis de tigre. Esta prática suscitou protestos do World Wildlife Fund e também de várias associações lésbicas. As pretensões dos primeiros não impediram a extinção de algumas espécies raras, mas as segundas parece terem tido maior sucesso. De outra forma, nunca uma empresa holandesa se teria lembrado de promover um afrodisíaco feito à base de pó de dildo. A empresa, obviamente, faliu.

Santiago | 09:51 PM | Comentários (4)

janeiro 09, 2006

Tudo isto existe ... tudo isto é fado

malhoa_fado1.jpgResumo (em português)

A preservação e o estudo da herança cultural portuguesa tem sido contemplada pela política cultural nacional nos últimos 30 anos. No entanto, o património musical português, em especial o transmitido oralmente, tem sido profundamente negligenciado. As fontes primárias encontram-se dispersas em colecções portuguesas e estrangeiros, públicas ou privadas, sendo a investigação realizada ainda residual.
Este projecto visa contribuir para o estudo sistemático e para a preservação do património musical português utilizando os mais modernos suportes disponíveis. O objecto principal é o fado, género musical urbano originário de Lisboa durante o primeiro quartel do séc. XIX, que posteriormente se disseminou por todo o país e estrangeiro, nas comunidades emigrantes ou nas apresentações públicas de artistas em prestigiadas salas internacionais. A centralidade do fado como referente para o património cultural está patente no interesse da Câmara Municipal de Lisboa em propo-lo para proclamação, pela UNESCO, no âmbito do programa "Masterpieces of the Oral and Intangible Heritage of Humanity".
Propomo-nos realizar uma investigação multidisciplinar em torno do fado focando o seu desenvolvimento ao longo do séc. XX, conjugando perspectivas teóricas e metodológicas da etnomusicologia, musicologia histórica, antropologia, história e estudos culturais. Tendo presente o contexto politico e social, analizar-se-à o fado na sua articulação com o teatro de revista, indústria fonográfica, radio, cinema, televisão, bem como as estratégias (artísticas e comerciais) desenvolvidas que determinaram o perfil de artistas, repertórios e estilos musicais, poéticos e interpretativos, assim como o estatuto do fado e seus praticantes.
Gravações, periódicos, filmes, peças, partituras, e intervenientes vivos cujas memórias pretenderemos fixar, constiruirão as fontes primárias para este estudo. Uma base de dados será a ferramenta de pesquisa e repositório da informação recolhida independentemente das suas características físicas (desde fotografias a som e imagem em movimento, mas também repertório - melodias, textos, peças, e.o. -, compositores, cantores, autores de letras, editoras, discografia, filmografia, iconografia, etc.). Todos os dados introduzidos serão co-relacionados a multiplos níveis procurando assim tecer uma densa rede de cruzamento de informações.
Procura-se assim contribuir para um novo conhecimento sobre o património cultural português e a acção das indústrias da cultura, conhecimento relevante para investigadores nacionais e estrangeiros (junto dos quais existe um interesse cada vez maior por informação relativa ao fado), bem como para empresas, administradores e programadores culturais, e público em geral. Contemplamos também a realização de conferências internacionais onde os resultados serão discutidos e divulgados, procurando estimular subsequentes projectos de investigação de académicos portugueses e estrangeiros.

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Santiago | 09:14 PM | Comentários (4)

dezembro 20, 2005

Boas Festas

(Imagem tirada daqui, um site que é o paraíso de qualquer jogador de Scrabble)

Santa_zly.jpg
Feliz Natal para todos. Este ano ofereço um artigo, publicado em 1966, da autoria de Delphine Parrott, Maria de Sousa e June East em The Journal of Experimental Medicine (o artigo está agora disponível, em 4 partes, na nossa Hemeroteca). No próximo dia 1 de Janeiro completam-se 40 anos (!) sobre a sua publicação.

Na minha opinião este é um dos trabalhos mais importantes de toda a história da Imunologia já que foi este artigo que demonstrou, pela primeira vez, existirem 2 compartimentos nos orgãos linfóides secundários (baço e gânglios linfáticos). Há regiões (chamadas "Timo-dependentes" no artigo) para onde migram linfócitos provenientes do Timo, e outras regiões (que são portanto "Timo-independentes") onde se encontram outros linfócitos, de origem não tímica.
Este estudo esteve na base da descoberta, crucial para a nossa compreensão do Sistema Imunitário, de dois tipos de linfócitos, chamados "T" e "B". O artigo de Parrott et al também contribuiu, na sequência de trabalhos de Jim Gowans, para o estudo da recirculação linfocitária.
Hoje em dia estuda-se pouco a História da Imunologia e ignora-se muitas vezes quem a fez, bem como a importância das suas contribuições. Neste 40° aniversário parece-me justo não deixar esquecer um artigo que é sem dúvida um dos fundadores da Imunologia moderna.

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Santiago | 05:30 PM | Comentários (3)

dezembro 08, 2005

It's a Dog World...

Boxer 1.jpgO Diário Digital tem um texto (que creio ser originalmente da Lusa) em que se fala de um artigo publicado hoje na Nature, com a sequência completa do genoma do melhor amigo do Homem.

O texto da Lusa/Diário Digital consegue ser a coisa mais desinteressante e mal escrita que eu me recordo de ter lido os últimos meses. A começar pelo título "Descodificado genoma do cão, continuando pelo primeiro parágrafo Uma equipa de investigadores decifrou o código genético dos cães, comparou-o com o dos humanos e concluiu que as pessoas poderão ter menos genes do que se pensava, e acabando numa enigmática citação do Autor Principal do artigo ...Lander afirmou que o estudo dos cães "está a conduzir os investigadores à dúvida sobre se serão de facto genes humanos reais", tudo ali é tristemente paradigmático do nível a que o nosso (pseudo-) jornalismo científico chegou. Para recordar velhas guerras muito nossas, o último parágrafo está ao nível da Redacção da Vaca: "Até ao momento, os cientistas já decifraram o ADN de ratos, chimpanzés, galinhas e humanos, bem como de muitos outros organismos.

Não é suposto os jornalistas saberem o que é um "código", antes de falarem em "descodificação"? Ou até uma "cifra", já que usam o verbo "decifrar"? Que jornalista é que traduz o que quer que seja que Eric Lander tenha dito duma maneira que insinua que afinal os genes humanos não são reais?

Seria preciso só um pouco mais de rigor jornalístico para se ter escrito "sequenciação do genoma". Já para explicar que alguns dos supostos 30.000 "genes" identificados no genoma humano são provavelmente resultado de erros do "software" e não correspondem na realidade a verdadeiros "genes" (que codifiquem uma proteina ou sirvam para controlar a sua expressão), era preciso algo mais: Era preciso ter interesse pela matéria sobre a qual se escreve e algum gosto por aprofundar conhecimentos...

Leiam a peça no Diário Digital. Esta peça consegue ignorar tudo o que é importante no estudo que descreve e tem a única virtude de criar nos leitores uma grande vontade de ir ao New York Times perceber o que é que na realidade aconteceu (e percebe-se, apesar de também estes falarem em "descodificação"). A razão que leva a Nature a distribuir antecipadamente os "press releases" é para os jornalistas terem tempo para escrever artigos como no NYT, e não tontices como no Diário Digital/ Lusa...

Os mais interessados podem também ler o News & Views que acompanha o artigo (que depositei, ilegalmente acho eu, na nossa Hemeroteca). Não se exige, obviamente, a um profissional do jornalismo tanto rigor científico como Hans Ellegren revela, mas se os gajos da Lusa começassem a ler (e a estudar...) o "front-end material" das Revistas Cientificas, o jornalismo em Portugal seria bem melhor.

Santiago | 04:05 PM | Comentários (2)

dezembro 06, 2005

A qualidade paga-se...

fish.jpgJohn Seigenthaler Sr. trabalhou no gabinete de Robert Kennedy quando este era Attorney General dos EUA. Foi grande a sua surpresa quando, ao ler a Wikipedia, encontrou o seguinte parágrafo (entretanto removido) na entrada que falava de si:

"John Seigenthaler Sr. was the assistant to Attorney General Robert Kennedy in the early 1960's. For a brief time, he was thought to have been directly involved in the Kennedy assassinations of both John, and his brother, Bobby. Nothing was ever proven."

A história desta calúnia, e do que foi feito para minimizar os danos causados, pode ser lida no artigo que Seigenthaler escreveu no USA Today. A Wired cita Jimmy Wales, fundador da Wikipedia, acerca dos passos que foram tomados para tentar impedir que situações destas se repitam.

Acho que é importante conhecer esta história e reflectir sobre os cuidados a ter neste mundo em que a publicação livre de informação está ao alcance de todos. Muitos cientistas criticam o sistema editorial de peer-review e sugerem que a World-wide Web seja usada, sem restrições, para divulgar toda a informação científica disponível. O exemplo de Seigenthaler recorda-nos o perigo que correríamos se dispensássemos os Editores e tomássemos como fiável tudo o que aparece publicado sem qualquer tratamento editorial.

A Enciclopædia Britannica inspira mais confiança que a Wikipedia. Essa confiança custa dinheiro...

Santiago | 11:56 AM | Comentários (6)

dezembro 01, 2005

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgAnamnese (do gr. anámnesis; recordação) 1. Linguistica imaginária É o oposto de amnésia, que por sua vez é o oposto de Mnésia, palavra grega que significa memória e remete para Mnemosyne, a tão esquecida deusa grega da dita 2. Medicina Diz-se da história clínica que todos os médicos se fazem pagar para escrever. O médico pergunta primeiro ao doente do que é que ele se queixa e o doente geralmente responde: Ah, Snr Dr., quando eu tinha 6 anos deu-me uma dor deste lado e desde então nunca mais tive saúde. Qualquer médico com alguma experiência ignora as respostas e copia a história clínica do doente anterior. Depois de fazer isto 100 vezes toma o título de médico especialista, mas se tiver imaginação para 3 histórias clinicas diferentes anseia por ser conhecido como Professor. 3. Passatempos Esta palavra não tem pontuação elevada no Scrabble, mas é garantia de vitória no jogo das letras quando os adversários são leigos.

Santiago | 09:00 AM | Comentários (0)

novembro 30, 2005

Ciclope Cínico

PV.jpgAldeído acético (da expressão ál[cool] deid[rogenado] + acétu, do lat.: vinagre) s.m. 1. Química Composto orgânico obtido por degradação oxidativa do álcool etílico 2. Fisiologia e Sociologia A reacção que lhe dá origem é indutível pelo substrato, mas não a sua degradação. O substrato cimenta grandes amizades que o produto de degradação depois desfaz 3. Medicina Origem de muitas dores de cabeça, securas de boca, fadiga muscular e desarranjos intestinais 4. Desporto É frequente acumularem-se grandes quantidades de ~ na manhã seguinte aos jogos da Selecção. Alguns resultados sugerem que isso já tinha acontecido na véspera em pelo menos 11 pessoas.

Santiago | 08:43 PM | Comentários (1)

Post deliberadamente abrasivo

Que é feito dos pândegos do CLA que de há uns meses a esta parte andam remetidos a um silêncio sepulcral?

Nem um daqueles lancinantes pareceres sobre a Proposta de Orçamento de Estado para a Ciência - 2006, eles conseguiram dar à estampa este ano. Quem leu o que eles escreveram acerca dos Orçamentos de 2004 e 2005 pergunta-se agora que gato lhes terá comido a lingua...


Mudando totalmente de assunto: Consta que João Sentieiro, Secretário-Geral do CLA, será o novo Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Santiago | 01:30 PM | Comentários (8)

novembro 29, 2005

Fingir que a fraqueza é força

Pirâmide.jpg
O Centro Cultural Calouste Gulbenkian em Paris organizou no passado dia 15 de Novembro um colóquio com o título: " L'Union Européene et la Recherche dans les Sciences biomédicales au Portugal: um regard portugais de l'extérieur". Fernando Tomé (ancien directeur de recherche INSERM em Paris) apresentou o orador, Fernando Lopes da Silva (professeur Émérite da Faculté des Sciences de Amsterdão). Maria de Sousa (professeur, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar do Porto) aceitou perguntas da audiência no debate que se seguiu. A Fundação Calouste Gulbenkian pagou.

Não vou falar em detalhe da apresentação de Lopes da Silva, que mostrou várias séries estatísticas publicadas pelo Observatório da Ciência e do Ensino Superior, visto que o Centro Gulbenkian irá editar um opúsculo com a transcrição do que foi dito na sessão. Vou debater só um ponto aflorado pelo conferencista, quando descrevia as "forças" do Sistema Científico Português.

Lopes da Silva apontou três pontos fortes na Ciência em Portugal: 1) A pirâmide etária, com mais de 60% dos investigadores a terem uma idade inferior a 40 anos, 2) A existência de um número de Laboratórios Associados que são fortes centros de formação de novos investigadores, e 3) A institucionalização de um sistema de avaliação independente. Este sistema é um ponto forte por ser, subentendeu-se, estrangeiro.

Vou-me focar o ponto 1), o mais forte da Ciência Portuguesa na opinião deste famoso conferencista. Achei irónico que ele tivesse apresentado como strong point aquele que é, na minha modesta opinião, a maior fraqueza do Sistema Científico Nacional: Considerando todos os investigadores portugueses, 45% têm menos de 35 anos, 62% têm menos de 40! Os jovens são o futuro do País, disse o orador...

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Santiago | 11:43 AM | Comentários (4)

novembro 28, 2005

Ciclope Cínico

PV.jpgÁlcool (do ár. vul. al-kuhúl; colírio de pó de antimónio) s.m. 1. Química Líquido incolor, volátil e inflamável 2. Em vista das consequências da sua ingestão e dos mandamentos do Corão, a origem etimológica peca por falta de credibilidade e a definição desdenha o mais importante.

Santiago | 10:39 PM | Comentários (1)

novembro 25, 2005

Bolsa Pfizer de Investigação em doenças infecciosas - Professor Artur Torres Pereira

Streptococcus pneumoniae.jpg
Os Laboratórios Pfizer, em conjunto com a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, atribuem anualmente a Bolsa e os Prémios Pfizer de Investigação. Este ano a Bolsa Pfizer homenageia Artur Torres Pereira.
Uma detalhada menção a este eminente bacteriologista e antigo Director do Instituto Câmara Pestana ficará para outra altura, porque hoje só vou falar de Mário Ramirez que, juntamente com João Coelho, ganhou a Bolsa Pfizer de Investigação em doenças infecciosas - Professor Artur Torres Pereira.

O Mário Ramirez é um dos históricos do 1° ano (graduação Van Uden) do Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina. Realizou o seu trabalho de Tese na Rockfeller, em Nova Iorque, onde me recordo de ele uma vez se ter queixado que a Bolsa de Doutoramento era demasiado curta para lhe permitir ir à Ópera todas as semanas.

Hoje em dia trabalha no IMM e no Instituto de Microbiologia da F.M.L., em Lisboa. Tanto quanto me parece ainda não consegue ir ao Met com a frequência que desejava...

Eis o resumo do projecto premiado em 2005.

(S. pneumoniae apanhados em flagrante delicto)

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Santiago | 11:06 AM | Comentários (2)

novembro 22, 2005

Presidential Intelligence and Design

Leio no Portugal Diário que Mário Soares numa acção de campanha ontem, na Escola Secundária José Afonso, em Loures, afirmou textualmente:

«A minha preocupação principal é com os mais desprotegidos e, por isso, sou socialista. Se acreditasse na selecção natural, em que vencem sempre os mais fortes e os melhores, seria conservador», defendendo, depois, que ao ser humano se «impõe o dever da solidariedade».

É interessante notar a súbita irrupção na campanha presidencial de temas, como por exemplo o Intelligent Design, que temos tratado aqui no Conta. Se esta notícia se confirmar, não quero deixar de chamar a atenção para este presciente post do VMB. Creio que ninguém me desmentirá se eu disser que os indivíduos representados nessa fotografia também não acreditam na selecção natural... problema deles, pô!

Santiago | 04:27 PM | Comentários (7)

novembro 21, 2005

Cartas do Além/Aquém

Nova "Carta do Além". Desta vez não fala de guloseimas.

beyond.jpg

Aquela de se dizer que "os jovens são o nosso futuro" recordou-me uma conferência recente do Fernando Lopes da Silva, no Centro Gulbenkian de Paris. Chamava-se "Un regard portugais de l'exterieur" e discutiu a problemática do desenvolvimento do sistema cientifico nacional. Tomei umas notas e acho que ainda volto a este tema.

Vou publicando estas cartas não só por estarem bem escritas e serem interessantes, mas também com a esperança que o bom do Epicuro, se nos anda a ler, comente estes posts e deixe pistas sobre a sua identidade.

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Santiago | 08:00 PM | Comentários (0)

novembro 20, 2005

As Novas Maçonarias

buzzwithapron.jpgQuando em tempos se falou aqui no Conta de uma lista (errada) dos cientistas portugueses mais citados nos últimos 10 anos, quase que não houve bicho-careta que não corresse logo a chegar-se a frente e a gritar "Parabéns" e a enaltecer "qualidades humanas" e mais o diabo a quatro...

Uns meses depois verifica-se que, 'afinal havia outra' lista. Todos aqueles encómios deviam ter sido dirigidos, mais apropriadamente, ao Manuel Sobrinho Simões e à Maria do Carmo-Fonseca...

O que aconteceu então? Enorme silêncio, entrecortado por balbuceios patetas a explicar porque é que havia quem estivesse tão "mal classificado".

Meus amigos e minhas amigas: É este temor de sugerir que outros merecem tanta, ou mais, admiração que os ídolos (tantas vezes com "pés-de-barro") a que nos habituámos, que tornam tão difícil 'tirar portugal de dentro' de cada um de nós...

É neste terreno que as sociedades secretas funcionam. É por causa desta espécie de "conspiração do silêncio" que acabam a controlar pessoas, organizações, notícias e mesmo acontecimentos...

É verdade que o Conta Natura, no fundo no fundo, é uma espécie de "Loja". Pelo menos não é nem Regular, nem Irregular...

Santiago | 04:55 PM | Comentários (7)

Ciclope cínico

PV.jpgAlzheimer, Doença de 1. Doença neurológica degenerativa descrita pela primeira vez por Aloysius Alzheimer 2. O mais famoso paciente foi um antigo Presidente dos EUA, que quando iniciou funções nao sabia o que queria fazer, e quando as terminou nao se lembrava do que tinha feito 3. O primeiro sintoma é, habitualmente, falta de... uhh... ehm... qualquer coisa 4. Aloysius Alzheimer colaborou com outra pessoa cujo nome agora me falha 5. Desenvolve-se em duas fases: Na primeira o doente nota e os amigos não se preocupam; na segunda o doente não nota, mas os amigos preocupam-se 6. O mais famoso paciente foi Ronald Reagan, antigo Presidente do Irão 7. É má prática médica dar a estes doentes, para ler, repetidamente o mesmo jornal, apesar de eles pensarem sempre que se trata da edição do dia 8. Ronald Reagan é jogador de futebol 9. Quando era pequeno tinha um cavalinho de pau chamado Rolando 10. Ronald Reagan? Nunca ouvi falar...

Santiago | 02:36 PM | Comentários (6)

novembro 19, 2005

Novo Instituto de Investigação

Portugal e Espanha criam instituto de investigação e desenvolvimento

No final do primeiro dia da XXI Cimeira Luso-Espanhola, sexta-feira, no Convento do Espinheiro, não chegou a ser revelada, tanto da parte portuguesa como espanhola, a futura localização desse instituto.

(do Diário Digital)

Sugiro Gibraltar. Os macacos já lá estão...

Santiago | 02:47 PM | Comentários (18)

Vale a pena ler

Este post do bem informado A Minha Rica Casinha

Não deve ser preciso explicar de que "Mandarim" se fala. Consta que é parente afastado do Almirante Gago Coutinho e vive no meio de "laranjas" (e não, não são essas em que estão a pensar...).

Santiago | 08:12 AM | Comentários (1)

novembro 18, 2005

Ciência vs Tecnologia: O eterno conflito...

O responsável pela Unidade de Coordenação do Plano Tecnológico, José Tavares, apresentou hoje a sua demissão por discordar da forma como o ministro da Ciência está a interferir na aplicação do plano.

Lido na TSF, a rádio escrita

Santiago | 10:03 AM | Comentários (0)

novembro 17, 2005

Carta do Além

Recebi uma carta ontem à noite que só não me causou pesadelos por causa de uma bem metida referência a "foie gras truffé", que me deixou a sonhar com guloseimas...

beyond.jpg

Reproduzo essa elegante carta mais abaixo para inaugurar uma nova secção do Conta Natura, as "Cartas do Além", mas antes deixem-me fazer 3 breves notas:

1) Segundo a Infopédia, Ataráxia (do grego: ausência de perturbação) Medicamentosa significa "estado de tranquilidade e de indiferença por efeito de agentes neurolépticos". Desconfio que esta ainda vai parar ao Cíclope...

2) Já que falei de cínicos faço questão de partilhar convosco a minha opinião do Diogenes: Era um velho bacoco...

3) Agradeço ao Epicuro não me ter escrito na sua língua materna...

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Santiago | 03:37 PM | Comentários (2)

novembro 16, 2005

Ainda o impacto dos cientistas portugueses

Cites.jpg
Uma vez tivemos aqui no Conta Natura uma discussão sobre os cientistas portugueses mais citados. Recordo-me de ter argumentado na altura que a repetição acrítica dos erros de facto, tão frequentemente publicados na imprensa chamada da especialidade, é uma tentação em que os cientistas sérios não devem cair.

Ora, nada como consultar as fontes originais e combater as fantasias que se vão perpetuando por mera preguiça!

Decidi preparar uma curta tabela, extraída do ISI: Essential Science Indicators, que recentemente publicou a lista dos cientistas de maior impacto, segundo o número de citações aos seus artigos, nos últimos 10 anos. Reduzi o meu universo de pesquisa aos imunologistas meus amigos e aos Directores dos grandes Institutos de investigação nacionais. Nem todos fazem parte da lista, mas poderei ter falhado alguns. Juntei ainda, para comparação, os falados Hanna e António Damasio.


Usando o lugar-comum, convém notar que estas listas valem o que valem. Não é a mesma coisa ter 100 auto-citações ou 50, das quais nenhuma é própria, e também não é a mesma coisa ter 100 citações em geologia ou em imunologia. O verdadeiro impacto de um cientista não é apenas este número, mas inclui também a qualidade das revistas onde publica, a média de citações por artigo, etc.

Espero que esta pequena tabela acabe com alguns mitos que parece terem vida própria...

Santiago | 05:22 PM | Comentários (25)

novembro 14, 2005

Momento de Poesia

Camilo Pessanha, poeta maldito, viveu no Oriente escondido pela sombra do outro grande poeta que por lá passou...
Morreu em Macau, de ópio, a 1 de Março de 1926.

Este poema não tem nada que ver com Ciência, mas recorda-nos que Arte também é vida...

Violoncelo.jpg
Legend.jpgVIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Santiago | 03:00 PM | Comentários (5)

novembro 08, 2005

Fraude (s.f.): acto de má-fé praticado com o objectivo de enganar alguém

Sugeriu o Eduardo A. Silva, num comentário lá em baixo, um post sobre os mecanismos existentes para detectar a existência de fraude científica. Como isto não são os discos pedidos, ele não se surpreenderá que eu queira abordar este tema numa perspectiva um pouco diferente...

O pretexto é o desenlace (até agora) de um escândalo que anda há uns meses nas "bocas do mundo": Luk van Parijs foi recentemente despedido do M.I.T., após ter confessado que falsificou resultados cientificos. Este imunologista tinha feito o seu doutoramento com Abul Abbas (alguém muito famoso no campo) e, após um post-doc com David Baltimore (mais famoso ainda... é Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia), era Professor Associado nessa instituição. A história, dizem as tais "bocas do mundo", vai ainda afectar outro doutorando do mesmo Abul Abbas que fez o seu post-doc com outro Prémio Nobel e trabalha agora numa prestigiada instituição sedeada num daqueles Estados quadrados lá pelo meio dos EUA.

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Santiago | 11:28 PM | Comentários (8)

Prevê-se o agravamento das condições do estado do Tempo em todo o território continental...

Buletim.jpg

Imagem enviada por O.B.-D.

Santiago | 04:00 PM | Comentários (0)

outubro 30, 2005

Brain drain, revisited...

Interrompo este coma em que ando apenas para chamar a vossa atenção para a única reflexão inteligente que li por aí, acerca do problema da fuga de cérebros. É escrita por Suzana Toscano, no Quarta Républica.

Vou destacar uma ou outra frase desse post, mas espero que isso não vos iniba de ir lá ler, e sobretudo estudar, o texto completo. Acho que as frases ilustram bem o que aconteceu nesta história do artigo do Massada. Quando o trabalho é medíocre, há gente a dizer "muito bem, bom esforço, estás a ir pelo bom caminho"; se o trabalho fosse bom, ninguém diria nada.

Um dos nossos problemas culturais crónicos é este hábito de (...) desculpar os que não chegam a lado nenhum

Somos condescendentes onde devíamos ser exigentes

Dessa forma não alteramos a quietude, só nos esforçamos "porque acreditamos" ou porque "nos apetece", raramente porque temos essa obrigação e é suposto darmos o nosso melhor em cada momento

Somos muito avarentos nos elogios e muito cruéis na apreciação do trabalho bem feito

Apenas acrescento que o pior é depois amuar com a crítica e, por birra, não fazer nenhum esforço para melhorar...

Santiago | 09:47 AM | Comentários (18)

outubro 26, 2005

Post triplamente hermético

bowl.jpg
Aviso à navegação:

Loiças quebradas entornam caldos...

Santiago | 09:30 PM | Comentários (4)

outubro 25, 2005

A galinha da vizinha é sempre mais gorda que a minha...

Em referência a este post do Rui, é importante que não se pense que só em Portugal há Laboratórios que usam "...tal desespero de características terceiro-mundistas para assegurar o seu bom funcionamento". Em complemento de alguns comentários que o post provocou, transcrevo a seguir uma noticia do Jornal LE FIGARO étudiant que, em Janeiro de 2004, deu voz a Nicolas Legrand, ex-Presidente da Confederação Francesa de Jovens Investigadores.

(vai no francês original)

Continue a ler "A galinha da vizinha é sempre mais gorda que a minha..."

Santiago | 09:30 PM | Comentários (4)

outubro 23, 2005

Ninguém hoje é indiferente ao Expresso e ao que lá se passa...

Na edição do passado sábado o semanário EXPRESSO fez uma amável referência ao Conta Natura, num artigo [link só acessível a assinantes] de Jorge Massada, coordenador do Ciência Hoje, sobre blogues de Ciência.
Como sou o único colaborador deste blogue que conhece por dentro, e por fora, a "casa dos 30 anos", entendi que era apropriado ser eu a registar a gentileza.
Para fazer o link, eu e o VMB decidimos dedicar o seguinte texto de Biologia a todos os jornalistas que trabalham nesse Grande Couraçado da Imprensa Lusa.

mucca-1.jpg

A vaca é quase o melhor amigo do Homem. Se os cães fossem todos Dobbermans e Pitbulls era mesmo o melhor. Com a carne da vaca fazemos os bifes e os MacDonalds, com a pele os casacos e os sapatos, com o leite a manteiga e os iogurtes e com o estômago a minha avó faz uma comida que é uma porcaria.
Quando eu era pequenino (6 anos) julgava que as vacas eram malhadas e os bois castanhos. Mas agora (9 anos) já sei outras diferenças. Eu gosto muito da vaca. Mas o meu irmão (15 anos) gosta mais da filha (17 anos) dos vizinhos do quinto esquerdo. Ele diz que um dia eu também vou gostar mais das vizinhas que das vacas. Mas eu cá não sei. Se até a televisão diz que não há amor como o primeiro, para quê mudar?
A vaca é mulher do boi, mas gosta mesmo é do touro. Se calhar é por isso que a minha mãe (44 anos) chama assim à prima Micas (37 anos), que é muito amiga dum estivador (24 anos).

Santiago | 09:00 PM | Comentários (1)

outubro 21, 2005

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgAneurisma s.m.; do Gr. aneúrysma: Dilatação 1. Dilatação localizada de uma artéria. À semelhança das notas de banco, e dos amigos, há os verdadeiros e os falsos. Os verdadeiros envolvem as três camadas da parede arterial (íntíma, muscular e adventícia), enquanto que os falsos se ficam pela intíma 2. O maior problema é que a ruptura duma parede arterial costuma ter consequências catastróficas e é por isso uma grande seca sofrer um Aneurisma Dissecante da Aorta, chamado em inglês: R.I.P.. Os ~ são frequentemente congénitos e só diagnosticados na autópsia, (infelizmente), mas são também raros (felizmente). 3. Rudolfo Bettencourt, autor do tratado Canalizatorum est Gaudium Magnum, revelou grande ousadia poética ao descrever assim o episódio que lhe despertou o gosto pela profissão:

D. Brites Vasconcêlos,
Imp'ratriz da Ilha d'Isma,
dissecou um aneurisma
a lanchar com os Metellos.

Constatando o grande cisma
que ocorrera em sua artéria
chamaram Dona Valéria
(não tinha grande carisma

já que era ortopedista...)
para ser patologista,
mas soltou grande impropério!

..................................................

Assim D. Brites se finou!
O pobre do filho 'inda reinou,
mas depois... acabou-se o Império.

in Mesentéricas e outras dissecções (Edição do Autor)

Santiago | 05:33 PM | Comentários (0)

Ciclope Cínico

ciclopeneg.jpgApófise s.f.; do Gr. apóphysis: Excrescência 1.Anatomia: Saliência dos ossos ou peças cartilagíneas.  Ao contrário do que inúmeras gerações de estudantes de medicina têem aprendido, as ~s Geni do osso Maxilar Inferior não derivam o seu nome do da esposa de quem as descreveu pela primeira vez, mas sim da palavra grega para queixo. ~ mastoideia: O mastoideu que até o Vasco Santana sabia o que era 2. Geologia: Prolongamento da massa eruptiva que penetra na rocha encaixante. Esta definição, tirada da Infopédia.pt ®, só na aparência desmente a lentidão geológica do processo.

Santiago | 12:15 AM | Comentários (0)

outubro 19, 2005

Outro momento de poesia,

dedicado a todos cientistas. Nem os mais empedernidos ateus deixarão de reconhecer neste belo soneto o processo de descoberta científica...

Shadows.jpg

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar escuridade,
Ser uma queda nova cada invento:
 
É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
 
O que há-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida:
Se procura, só acha... o desatino!
 
Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degredo, o Céu destino.


Antero de Quental

Santiago | 04:50 PM | Comentários (8)

setembro 26, 2005

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgAnalfabética adj. 1. o contrário de oralfabética 2. ordenação das entradas num dicionário escrito por dois individuos separados por 6 fusos horarios.

Santiago | 06:00 PM | Comentários (0)

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgArtigo, do lat. articulu, artigo, capitulo s.m. 1. determinante dos substantivos. Pode ser definido ou indefinido e variar em género e número 2. objecto de escritório 3. mercadoria 4. publicação cientifica (pop. papel; ing. 'paper'). Neste caso quanto maior o seu número, mais indefinido o seu género.

Santiago | 03:57 PM | Comentários (0)

Ciclope cínico

ciclopeneg.jpgAnomia, do Grego ánomos, sem lei s. f. 1. ausência de lei fixa 2. ilegalidade 3. perda da faculdade de contar os objectos e de reconhecer os números 4. em zoologia: Molusco bivalve, de concha irregular 5. entre cientistas, diz-se de quem já não sabe a quantas anda. Os cientistas anóminos são os que já perderam a conta ao número de vezes que os responsáveis pelos Institutos lhes mentiram, mas continuam lá alapados, como univalves.

Nota: o Santiago inicia aqui a sua colaboração na empreitada Ciclope Cínico. Somos agora dois e, dada a natureza do projecto, é impossível não pensar na parelha Bouvard et Pécuchet, de Flaubert. A 19 de Agosto de 1872, escrevia o romancista numa carta (o destacado a negrito é meu): "« c'est l'histoire de ces deux bonshommes qui copient, une espèce d'encyclopédie critique en farce. Vous devez en avoir une idée ? Pour cela, il va me falloir beaucoup de choses que j'ignore : la chimie, la médecine, l'agriculture. Je suis maintenant dans la médecine. - Mais il faut être fou et triplement frénétique pour entreprendre un pareil bouquin ! » Numa demonstração de sanidade mental, o romance ficaria inacabado. O mesmo acontecerá com este projecto, mas aqui não devemos confundir preguiça com bom senso. Ah, o Santiago aparecerá com uma caveira em "negativo".

Santiago | 11:31 AM | Comentários (2)

setembro 10, 2005

Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação

O Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação (CSCTI) foi criado pelo DL n.° 150/2003, de 11 de Julho, com o objectivo de trazer de volta à vida o então moribundo Conselho Superior de Ciência e Tecnologia dotando-o simultâneamente de acrescidas competências no domínio da inovação.

É composto por várias personalidades de grande relevo nas áreas em que é chamado a intervir. Está neste Conselho representada toda a dita "Sociedade Civil" (passe o lugar-comum) e, de acordo com o Decreto-Lei que o criou, é o orgão de consulta e aconselhamento do Ministro da Ciência e do Ensino Superior no domínio da política científica e tecnológica e na promoção da inovação.

Trata-se portanto de um instrumento fundamental para o sistema científico nacional. O seu Presidente, João Lobo Antunes da FML-UNL, dispensa grandes apresentações e é, juntamente com os restantes membros (ver a lista completa aqui), uma garantia de qualidade nas actividades do Conselho.

O CSCTI publica um relatório anual de actividades. Infelizmente nenhuma da chamada imprensa que, alegadamente, se interessa pelas coisas da Ciência Portuguesa achou útil publicitar o relatório de 2004. Infelizmente também, o Conselho não criou ainda um Web site que facilite aos interessados a consulta dos documentos aprovados e a habitual "indefinição" associada à mudança dos responsáveis políticos pela C & T & I torna duvidoso que tal venha a acontecer no futuro próximo. Agradeço aqui publicamente à Directora do Serviço de Informação e Documentação da FCT, que é por inerência Secretária do CSCTI, Gabriela Lopes da Silva, a amabilidade de me enviar uma cópia.

Assim, prestando um serviço público como por cá sempre nos orgulhámos de fazer, oferecemos aos nossos leitores a leitura deste relatório. É um documento a todos os títulos notável, um contributo importantíssimo para a Ciência em Portugal que merece a mais ampla divulgação possível e tem por isso honras de Hemeroteca. Recomendo a todos, vivamente, que o leiam, e mais do que isso, que o estudem.

Esperemos que não se deixe o CSCTI cair na mesma catatonia em que vegetou o extinto CSCT. Aqui no Conta Natura continuaremos a seguir com atenção as actividades do Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Santiago | 09:33 AM | Comentários (3)

agosto 19, 2005

The Soul Gene

hum&chimp chrom 2.jpg
(figura adaptada de um interessante texto de Robert Williams)

São notáveis as semelhanças entre o genoma humano e o dos grandes primatas (gorilas, orangutangos, chimpanzés).
As diferenças na sequência de nucleotidos constituem menos de 2% das 3,2 mil megabases presentes nestes genomas, facto que é usualmente interpretado como uma fortíssima evidência para a existência de uma espécie ancestral, comum ao Homem e aos outros Primatas.

A diferença mais significativa entre os genomas destas espécies é cariotípica e está ilustrada na figura: O cromossoma 2 humano é o resultado de uma fusão, topo a topo, de dois cromossomas (chamados 2p e 2q) independentes, que existem nos outros Primatas. Chimpanzés, no exemplo da figura.

A evidência experimental para a ocorrência desta fusão parece ser irrefutável: Na figura, as setas indicam que (A) o cromossoma 2 humano reteve o centrómero do cromossoma 2p, (B) a sequência do centrómero do cromossoma 2q do chimpanzé é reconhecível numa região pseudo-centromérica presente no cromossoma 2 humano e finalmente (C) o resquício dos dois telómeros originais se encontra na posição esperada...

Continue a ler "The Soul Gene"

Santiago | 04:24 PM | Comentários (2)

agosto 06, 2005

No hay que creer en ellas, pero que las hay... las hay...

Dizia o Ricardo num comentário ao post mais escaldante aqui no Conta que 'Há prioridades para a política externa, para a agricultura e pescas, para a Defesa, mas ninguém sabe muito bem quais são as da área da Ciência.'

Ele perdoar-me-á certamente por eu dizer que não tem razão... as prioridades existem, são bem definidas e estão aí à vista de todos... como alguém certamente deve ter dito alguma vez: 'It's the money, stoopid!'

graph1.jpg

Dados do OCES,Financiamento das Despesas de I & D 1995-2001

O quadro mostra a percentagem de fundos do Estado investidos no apoio às Ciências Sociais e Humanas em 1995 e em 2001- aumentou de 17.2% para 23.9% do total. Para comparação indicam-se também as percentagens investidas na área das Ciências da Saúde- diminuiram de 10.4% para 9.96%.

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Santiago | 01:36 PM | Comentários (9)

abril 28, 2005

Nature, 28 de Abril de 2005

Darwin[1].jpg
Fonte: Gallup (via Nature 434, 1062)

A Nature desta semana tem um interessante artigo de Geoff Brumfiel sobre a 'guerra' em curso, em várias Universidades Norte-Americanas, entre criacionistas e evolucionistas.
Retirei esta figura desse artigo. É uma achega interessante para algumas conversas que já tivemos aqui no Conta Natura, mas convém ter muito cuidado (e nenhum snobismo intelectual) na sua interpretação... afinal, se a pergunta fosse: 'Quem é que acredita no Pai Natal?', aposto que o resultado seria ainda mais marcante.
Interrogo-me agora: que teria eu respondido quando acabei o Liceu?

Santiago | 11:27 AM | Comentários (5)

abril 14, 2005

Ciências Sociais e Humanas: Esse parente pobre da Investigação...

Publications.jpg

(fonte: OCES)

Desta vez não me ocorre nenhuma pergunta, apesar de faltarem muitas respostas...

Santiago | 02:12 PM | Comentários (5)

março 30, 2005

Ciências da Saúde: Esse parente pobre da Investigação...

Financiamento de I&D 2.jpg

(fonte: OCES)

Três perguntas
1) Por que cargas de água é que a Engenharia e a Tecnologia são consideradas Ciências?
2) Não andamos a gastar dinheiro a mais nas Ciências Sociais e Humanas?
3) A Saúde não devia ser uma prioridade no financiamento do sistema científico nacional?

Santiago | 10:38 PM | Comentários (12)

março 24, 2005

Journal Club no Conta II

Provavelmente numa violação escandalosa do copyright do Nature Publishing Group copio aqui uma Letter to Nature publicada no número de 24 de Março de 2005.

Só não digo que não acredito numa única palavra deste paper porque, como alguns ainda se recordarão, uma vez disse exactamente o mesmo do fenómeno de RNA interference (eu era mais novo nesse tempo...). Agora que este paper desafia a minha credulidade, ai lá isso desafia... tanto como alguns dos acontecimentos que supostamente ocorreram na Judeia há quase 2000 anos e que se celebram durante esta semana...
É um artigo que vem muito a propósito de uma discussão que tive com o Vasco lá em baixo: A Comissão Europeia que me perdoe, mas acho que era muito bom se mais alguém conseguisse reproduzir este resultado.

Continue a ler "Journal Club no Conta II"

Santiago | 03:54 PM | Comentários (3)

março 23, 2005

Todos os artigos cientificos são fraudulentos...

P Medawar.jpg
The scientific paper in its orthodox form does embody a totally mistaken conception, even a travesty, of the nature of scientific thought.
Peter B Medawar

Um episódio recente recordou-me um texto de Peter Medawar ('Is the scientific paper a fraud?'. Pode ser obtido na íntegra na nossa Hemeroteca):

Submetemos um artigo para publicação. Os 'reviewers' foram simpáticos e um deles até sugeriu varias coisas, entre elas que fizéssemos uma certa experiência.
Não vem agora ao caso os detalhes dessa experiência. Vem ao caso que, feita a dita experiência, o resultado é bastante bom e reforça em muito as conclusões do paper.
Uma nova versão do artigo vai agora ser submetida e coloca-se-nos a questão de decidir onde incluir este novo resultado. Por razões de lógica, e para facilitar a exposição do raciocínio, o que faz sentido é incluir uma nova figura entre as antigas Figuras 3 e 4 (renumerando a Fig 4 para Fig 5).
O argumento no novo manuscripto vai ser assim: Depois de obtermos o resultado que mostramos na Fig 3 decidimos fazer a experiência descrita na (nova) Fig 4. Por causa deste resultado tornou-se evidente a importância de fazer a experiência que descrevemos na (renumerada) Fig 5...etc etc

Tudo isto é obviamente treta e o paper vai contar uma mentira!!!
O raciocínio não foi, de todo, o que vai ser explicado aos leitores da revista (se o paper for publicado, como espero...).
Trata-se por isso de uma fraude, como Medawar explicou... curiosamente (e irónicamente) uma fraude só possivel devido à cumplicidade activa dos reviewers e dos editores da revista...
É coisa que não me preocupa minimamente, claro. Afinal é o que toda a gente faz.

Não é um pouco preocupante, tanta despreocupação?

Santiago | 02:31 PM | Comentários (10)

março 22, 2005

Para Memória Futura

Aqui fica um excerpto (sublinhados meus) do Programa do XVII Governo Constitucional. Há mais quem, como eu, possa tomar este Programa a benefício de inventário...

CAPÍTULO I UMA ESTRATÉGIA DE CRESCIMENTO PARA A PRÓXIMA DÉCADA
II. UM PLANO TECNOLÓGICO PARA UMA AGENDA DE CRESCIMENTO
3. Vencer o atraso científico e tecnológico

(...)
Assim, assumimos como principais metas para esta legislatura:
Triplicar o esforço privado em I&D empresarial (que hoje não ultrapassa 0, 26% do PIB), criando as condições de estímulo necessárias;
Triplicar o número de patentes registadas;
Duplicar o investimento público em I&D, de forma a que atinja 1% do PIB;
Fazer crescer em 50% os recursos humanos em I&D e a produção científica referenciada internacionalmente. Fazer crescer para 1500 por ano o número de doutoramentos em Portugal e no estrangeiro;
Estimular o emprego científico no sector público e privado. O Estado promoverá a criação e o preenchimento progressivo, de forma competitiva, de 1000 lugares adicionais para I&D, por contrapartida da extinção do número necessário de lugares menos qualificados noutros sectores da Administração;
Tornar obrigatória a prática experimental em disciplinas científicas e técnicas no Ensino Básico e Secundário;
Organizar capacidades científicas e técnicas para a minimização e prevenção de riscos públicos, a segurança do País e o reforço das instituições reguladoras e de vigilância.

Continue a ler "Para Memória Futura"

Santiago | 11:52 AM | Comentários (2)

março 16, 2005

Da Responsabilidade Profissional dos Cientistas

EU Commission.jpg
A 11 de Março a Comissão Europeia, num daqueles exercícios cujo alcance honestamente me escapa, produziu uma recomendação aos Estados Membros no sentido de estes adoptarem uma European Charter for Researchers.
Entre muitas pieguices piedosas (embrulhadas em vacuidades banais) contidas nessa Carta dos Investigadores é possível encontrar a seguinte observação, lapidar, àcerca da responsabilidade profissional dos cientistas:

'Researchers should make every effort to ensure that their research is relevant to society and does not duplicate research previously carried out elsewhere'.

Eis aqui uma grande verdade! Infelizmente, há quem ainda não saiba...

Santiago | 02:57 PM | Comentários (5)

março 11, 2005

As parcerias começam com o convívio


Da alguma experiência que tenho em contratos com a indústria, dá-me a impressão que os problemas fulcrais da relação entre o sector académico e a indústria prendem-se primeiro com o desconhecimento recíproco e segundo com os conflitos inevitáveis associados a dois grupos profissionais com interesses e objectivos diferentes. O segundo é bem conhecido, os indústriais querem fazer dinheiro e os académicos (spin-offistas à parte) estão mais interessados em fazer ciência. Tudo o que não respeite uma boa relação custo/benefício faz alergia aos primeiros, tudo o que faça perder demasiado tempo mental faz alergia aos segundos. A forma de resolver este dilema passa pela indústria pagar o suficiente para entusiamar o académico e pelo académico aceitar de vez em quando sujar as mãos. No entanto, parece-me que o primeiro problema, o do desconhecimento recíproco, é que tem sido mais subestimado. Quantos académicos conhecem e encontram frequentemente indústriais? Se as pessoas não se encontram nem discutem, seguramente que nunca chegarão ao estado de conflicto de interesses. E não penso que o fosso entre as duas comunidades seja únicamente por causa da pouca visibilidade da ciência portuguesa, que o problema existe também noutros países. Trabalhando em bioinformática, de que a maioria dos indústriais e cientistas percebem pouco, recebo com frequência contactos de indústriais com pedidos de colaboração. A maioria das vezes recuso a colaboração formal, não porque não os possa ajudar, mas simplesmente porque a resposta pode ser dada imediatamente com um programa existente ou a partir de um paper publicado numa revista mais ou menos obscura. Por outro lado, não deixo de ficar surpreendido como um ou outro pequeno programa feito no laboratório e que nunca nos demos ao trabalho de publicar pela sua trivialidade (e/ou por perguiça) pode ser útil a outrém. Este desconhecimento das últimas novidades da ciência fundamental (por parte do privado) e das necessidades e possibilidades de aproveitamento do trabalho já feito (por parte do académico) também contribui para bloquear muitas colaborações potenciais. Das três ou quatro colaborações formais com indústriais que fiz nos últimos anos, todas começaram em frente de um copo entre amigos ou colegas em que se discutia ciência. Por acaso, ou talvez não, apercebemo-nos assim das possibilidades de colaborar com grande proveito... para um mínimo de trabalho.
Visto que incubadoras de empresas é o que não falta em Portugal, quem se propõe abrir o primeiro restaurante ?
Eduardo Rocha

O Eduardo Rocha é estrangeirado (em parte por vocação), licenciado em engenharia (química) sem ser engenheiro, mestre em matemática aplicada, tem dificuldades em fazer uma conta de dividir à mão, e, finalmente, é doutorado em genética molecular apesar das más línguas insistirem que ele não sabe fazer um PCR (e têm razão...). Trabalha entre a evolução e a genética, sobre bactérias e sem sujar as mãos (bioinformática). Trinta e poucos, funcionário público do Estado Francês. (ER)


Seja bem vindo ao Conta Natura. Espero que colabore muitas vezes.

Santiago | 12:00 PM

março 10, 2005

Quem se priva do dinheiro público?


Amgen.jpg
(AMGEN INC., Thousand Oaks, California)
Dizia o Eduardo Rocha num comentário ali em baixo:

"A questão tem que se pôr: como fazer o privado investir mais? A solução recente tem sido dar dinheiro público ao privado para "investir" no público. Algo circular como sistema..."

Como, na realidade, estimular o investimento privado em Investigação? (O investimento privado de que estou a falar é uma coisa diferente do Mecenato que, frequentemente, já recebe apoio público por via fiscal)

Eu cá acho que ajudava muito se a Comunidade Científica perdesse um certo fundamentalismo, de que muitos ainda sofrem pela investigação dita básica.
Afinal os privados só investirão em Ciência, se os cientistas se disponibilizarem para lhes dar algo em troca. A biotecnologia, por exemplo, financia product-oriented research...

Iniciativas como a Associação Viver a Ciência merecem ser seguidas com atenção (e apoiadas, obviamente). É por aí que querem ir?

Post-Scriptum
Ainda sobre este tema, destaque para a interessante série de posts do Luis Moutinho: Partnerships for Innovation (I), (II) e (III)

Santiago | 02:10 PM | Comentários (1)

março 04, 2005

Uma Má Notícia


Mariano Gago é o novo Ministro da Ciência...

Santiago | 08:13 PM

Uma Boa Notícia


Mariano Gago é o novo Ministro da Ciência...

Santiago | 08:11 PM

Nature, 3 de Março de 2005

434010a-f1.2.jpg
A Nature de 3 de Março de 2005 traz duas coisas interessantes (entre outras, claro):


1) Uma carta de um neurocientista sobre o que lhe aconteceu depois de se oferecer como voluntário para uma Ressonância Magnética. Ha dois ou três pontos neste testemunho que me fizeram pensar e a carta merece ser lida por todos os nossos amáveis leitores (Nature. 2005. 434:17 - O texto vai reproduzido abaixo). Tenciono voltar ao tema...


2) Um interessante artigo (pg 10: Upstart states) sobre as gritantes desigualdades na distribuição de fundos federais para I & D entre os 50 Estados Norte-Americanos: Os valores per capita variam entre os $206 do Maryland (pop: 5.2 milhões) e os $18 do South Dakota (pop: 750.000). O artigo discute de que forma alguns dos Estados mais desfavorecidos (como por exemplo a Florida, que recebe menos de US $30 por cabeça) tentam agora posicionar-se para melhor captar fundos públicos.


Vejam a figura acima, retirada desse artigo: a média de despesa pública em I & D nos EUA é de $66 por habitante!
Em Portugal (dados do OCES relativos ao mesmo ano de 2000) ela era, a preços correntes, de 71 euros por cabeça (US $93 à taxa de câmbio actual. 88 euros/$114 em 2003). Não se esqueçam que uma elevada percentagem do orçamento público de I&D dos EUA se destina a aplicações militares, ao contrário do que se passa em Portugal...
Agora respondam a esta pergunta:


Porque é que anda gente a dizer que é necessário duplicar os fundos públicos para Investigação e Desenvolvimento?

Continue a ler "Nature, 3 de Março de 2005"

Santiago | 03:32 PM | Comentários (7)

fevereiro 21, 2005

Das vantagens de ter muitos estudantes e até, ocasionalmente, post-Docs...


Grizzly_Bears.jpg
(visto numa janela do Beckman Center)

Santiago | 04:32 PM

fevereiro 07, 2005

Ora, nem mais...


"Há quem diga: temos que atingir a média europeia de despesa em ciência. Esta tese parece reforçada pelo facto de a União Europeia (UE) também pretender aumentar as despesas em I&D. Mas a tese é errada. Nos últimos anos acelerámos os nossos indicadores científicos e a UE desacelerou. A questão não é o ritmo de crescimento da nossa ciência: é se cresce bem."

Luis Salgado de Matos, hoje no Público

Santiago | 10:28 AM | Comentários (11)

fevereiro 05, 2005

Lucros privados, Publicos dinheiros

Calvin & Hobbes.jpg
(Calvin & Hobbes de Bill Watterson)
O Fio de Ariana chama a atenção para um problema curioso:
O CEPESE viu aprovado pela FCT um projecto, num valor superior a 100.000 euros, para recuperar o Arquivo Histórico da Real Companhia Velha. Esta Companhia, recorde-se, foi fundada ao tempo do Marquês de Pombal para administrar a primeira Região Demarcada na história: a Região Demarcada do Douro.
Não está em causa o interesse do projecto, nem a justeza do financiamento que lhe foi atribuido. Está em causa que a entidade que beneficiou deste financiamento público possa depois cobrar cerca de 50 euros por dia aos investigadores que querem consultar o Arquivo recuperado.
Independentemente de os 50 euros/dia serem ou não exagerados para cobrir os custos de manutenção e/ou edição do dito Arquivo, aproveito esta situação para fazer a seguinte pergunta:
Até que ponto é justo que o dinheiro público possa ser usado para permitir que uma entidade particular (mesmo que sem fins lucrativos, como o CEPESE) ganhe dinheiro à custa do público que quer depois aproveitar o resultado do projecto?
Parece-me que este problema é mais geral do que isto.
1) Os Bolseiros da FCT (de Doutoramento, de Pos-Doutoramento, etc) são pagos por fundos públicos. Deverão estes bolseiros ter direito a lucrar com as patentes a que o seu trabalho de investigação venha eventualmente a dar origem?
2) Os investigadores (e a fortiori os das Universidades públicas) poderão fundar companhias privadas destinadas a comercializar os 'produtos' (de diagnóstico, terapêutica, etc) que desenvolvem em projectos de investigação financiados com recurso a dinheiro público?
3) Há mais: a grande maioria dos Institutos privados (mesmo os que não têem fins lucrativos como por exemplo o Instituto Pasteur - para dar um exemplo que conheço bem) conservam a propriedade intelectual das descobertas feitas pelos investigadores que neles trabalham e limitam-lhes o beneficio individual... Não deveria o Estado fazer o mesmo? Contratualizar a cedência, a favor do Estado, dos eventuais lucros obtidos com os projectos que esse mesmo Estado financia?
É uma questão interessante em que não sei o que é mais justo... Escandaliza-me por exemplo o caso daquele famoso investigador da Califórnia que embolsou mais de 29 megadolares em resultado de trabalho financiado pelos National Institutes of Health. Mas por outro lado também é verdade que se isso não pudesse acontecer não havia biotecnologia para ninguém...

Santiago | 02:12 PM | Comentários (1)

janeiro 21, 2005

Destaque para um comentário


(repescado dos comentários ao post Inter-Cidades:
Antes de mais queria dar os parabéns aos "criadores" deste site... espero que fomente a interligação entre cientistas lusófonos...
Gostei da intervenção da Luísa pois acho que é essencial estabelecer o que é que se quer da Ciência feita em Portugal.
Queremos algo que nos dê reconhecimento internacional (e aqui acho que só lá vamos pela especialização numa ou duas àreas de investigação) ou que fique como está em que todos os professores universitários tem algum dinheiro para "brincar" aos cientistas (não quero ofender ninguém, mas eu considero que fazer investigação científica com 500 contos por ano é "brincar" aos cientistas)?
Para mim, a solução será algo intermédio, em que haverá duas ou três àreas (não mais do que isso) em que o investimento será muito forte e que permita concorrer a nível internacional (cerca de 70% do investimento), havendo outras àreas onde o investimento é forte (cerca de 20% do investimento), sendo que o resto dos 10% terá de ser distribuído por novos investigadores (independentemente da àrea) cujo projecto é suficientemente atractivo para merecer uma oportunidade para mostrarem se merecem ou não continuar a receber investimento. Na totalidade, menos de 30% dos docentes universitários iriam receber $$, mas qdo recebessem permitia realizar "investigação" a sério...
Claro que esta questão terá implicação nas carreiras docentes e não só, pois vamos ter os docentes universitários que fazem investigação e os que dão aulas (que eu acho que deveria ser a principal função de um docente universitário)...
Um abraço
André

Santiago | 10:13 AM | Comentários (14)

janeiro 03, 2005

Verdes são os campos...

Freedom in a commons brings ruin to all(Garrett Hardin: The Tragedy of the Commons)
al_St_Exupery14_Les_Moutons.jpg(moutons de Antoine de St.-Exupéry)
Hardin foi buscar o título do seu artigo a um texto publicado em 1833 por William Foster Lloyd. Nesse texto Lloyd alertava para o perigo que correria uma aldeia em que existisse um Campo de Pastoreio ('the commons') aonde todos os habitantes fossem livres de levar os seus rebanhos a pastar. O curso natural, se cada habitante tentasse maximizar o seu proveito individual, seria o aumento contínuo do número de ovelhas: o prejuízo que cada um suportaria por ter mais uma ovelha (em diminuição da quantidade de pasto disponível) era dividido por todos (porque o campo era propriedade comum), enquanto que o lucro seria só dele (porque as suas ovelhas não eram de mais ninguém).
O resultado final deste comportamento egoísta, se generalizado, é a exaustão eventual dos recursos e a morte à fome de todas as ovelhas.
(É interessante notar aqui que data do Séc XVI a primeira publicação fazendo referência a este tema:
Gados que pasceis/Com contentamento/ Vosso mantimento/ Não no entendereis. Ofereço esta quadra, como lema, à Comunidade Científica Portuguesa)
O panfleto de Lloyd foi usado como refutação à Mão Invisível de Adam Smith. O artigo de Hardin generalizou o argumento para concluir da necessidade imperiosa de limitar o aumento populacional no nosso Planeta. Esta problemática continua em acesa discussão, como sabemos…
Este post não é para discutir ciência económica, nem para me queixar de o Luis Vaz nunca ter sido citado por nenhum Grande Economista. É só para alertar para as consequências de distribuir recursos finitos (sejam eles ‘ervas’, sejam eles ‘finanças públicas’) por um número crescente de consumidores (sejam eles 'ovelhas', sejam eles 'laboratórios associados’)…
Dantes havia 15 Laboratorios Associados, agora há 21, e anuncia-se que em Janeiro mais cogumelos como estes florirão(*) neste jardim à beira-mar plantado.
Meus amigos, o financiamento total aprovado para sustentar esta mushroom cloud é 238 MegaEuros, a distribuir por 10 anos. Dividam por 15: dá uma média de 15.86 MegaEuros por Lab. Dividam agora por 21, dividam depois por >21... etc etc etc, ad infinitum... Vai haver cada vez menos euros por Laboratório e por ano, não vai?
Ah! Resolva-se o problema aumentando os 238 MegaEuros originalmente orçamentados... Brilhante ideia esta! Há três maneiras de fazer isto sem obrigar esta Pátria nossa amada a violar o Pacto de Estabilidade e Crescimento e a perder os fundos europeus... (e então: TILT!!! GAME OVER!!! INSERT COIN!!!).
São elas:
1) cortar dinheiro noutras areas de C&T, por exemplo no financiamento de projectos: Até era boa ideia, por acaso... andar a financiar mais de 30% deles é mais do que absurdo: é coisa que só em Portugal...
2) cortar dinheiro noutros sectores do OGE, por exemplo as pensões, ou a prevenção rodoviária, ou os salários da função pública, ou os subsídio de desemprego ou a prevenção de fogos florestais, ou…: Digam lá onde querem cortar... e depois digam se acreditam mesmo que existe a mais mínima das condições políticas...
3) aumentar os impostos: esta não precisa de discussão, pois não?
Aqui fica por isso uma crítica (muito soft, conforme prometido) a estas medidas: é má ideia criar tantos Laboratórios Associados...
(*) Os cogumelos não dão flor, pois não? Bolas, lá estou eu outra vez a misturar as minhas metáforas.

Santiago | 09:30 PM | Comentários (4)

dezembro 21, 2004

FELIZ NATAL

5babbo_big.jpg
(Desenho de Roberto Mangosi)
Após esta Quadra Natalícia aqui no Conta Natura haverá uma crítica (muito soft) à proliferação de Laboratórios Associados. Eles medram agora como cogumelos num campo abandonado...
Entretanto Boas Festas para todos. A minha prenda de Natal é o artigo "The Tragedy of the Commons" de Garrett Hardin (Science (1968). 162:1243-1248).

Santiago | 01:27 PM | Comentários (1)

dezembro 09, 2004

Uma Excelente Notícia

Segundo o Diário de Notícias de hoje, o IPATIMUP vai receber apoio financeiro de 17 empresas, a título de Mecenato Científico. Entre estas empresas é de realçar a presença de alguns gigantes farmacêuticos, que assim gastam melhor alguns dos enormes lucros que realizam à custa do Serviço Nacional de Saúde. Esta é uma bela ideia e tanto o IPATIMUP como o seu Director, Manuel Sobrinho-Simões, merecem as nossas felicitações pela sua concretização.
Os montantes envolvidos não são muito elevados, é verdade. Suspeito que isto é porque a Industria Farmacêutica ainda acha que é melhor investimento pagar aos Snrs Drs Médicos as idas aqueles famosos (oh! e tão imprescindíveis...) congressos na Tailândia. É de saudar, no entanto, a iniciativa de financiar investigação de qualidade em centros de excelência nacionais porque pelo menos é um passo na direcção certa.
Bom seria que agora os Snrs Directores dos outros Laboratórios Associados fossem eles também à procura de financiamentos no sector privado. Se levantassem o rabinho da cadeira para trabalhar, talvez não os ouvissemos tantas vezes a choramingarem-se com o pouco dinheiro fácil que recebem do Orçamento de um Estado financeiramente exangue...

Santiago | 10:28 AM | Comentários (4)

novembro 02, 2004

Biblioteca mínima: THINKING ABOUT SCIENCE Max Delbrück and the Origins of Molecular Biology, por Ernst Peter Fischer e Carol Lipson

Le nez de Cléopâtre: s'il eût été plus court, toute la face de la terre aurait été changé
Blaise Pascal, Pensées

A Biologia Molecular nasceu em Novembro de 1943 com a publicação de um artigo* num número da revista Genetics (número esse que por sinal saíu já em 1944), assinado por Salvadore Luria e Max Delbrück com o título : ‘Mutations of bacteria from virus sensitivity to virus resistance’ (Genetics.1943. vol:28, page:491).
Este artigo demonstra que a resistência (hereditária) de uma bactéria particular (Escherichia coli tipo B) a um vírus específico (alpha, hoje em dia chamado T1) é uma propriedade adquirida pela bactéria antes de contactar com o vírus. Dito de outra forma: o fenótipo hereditário não resulta da «adaptação» da bactéria pós-contacto com o vírus, mas sim de uma mutação genética prévia.
Essa demonstração revelou-se fundamental na história da Biologia. É a prova formal que a teoria da evolução das espécies proposta por Darwin é correcta no seu essencial (não me façam aqui entrar em polémicas, por favor), enquanto que Lamarck, e a hereditariedade dos caracteres adquiridos, ficaram definitivamente enterrados algures entre esse fim de 1943 e esse início de 1944. Nomeio por isso este artigo para o Concurso das Grandes Experiências Em Biologia*
Os argumentos, essencialmente matemáticos, apresentados são explicados numa linguagem que prima pela clareza e simplicidade. Tão legíveis, e claros, e simples, e irrebatíveis são eles que até os biólogos daquele tempo (notòriamente incapazes de compreender argumentos matemáticos que exigissem conhecimentos para além das quatro operações elementares...) não tiveram dúvidas: é uma obra de génio!
Uma Opera Prima que, juntamente com a (justa) publicidade obtida pela divulgação do modelo propondo que mutações genéticas são afinal descontinuidades quânticas*, colocaram Max Delbrück na posição de mais influente personagem da Ciência Biológica após o fim da guerra.
Max, Luria e ainda Al Hershey (um que há-de merecer um post só para si, contando como ele demonstrou que a tecnologia é fundamental para o progresso científico: usando o que de mais moderno havia na altura (um copo misturador) provou que o acido nucleico é o constituinte do fago responsável pela sua infecciosidade) foram galardoados com o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina de 1969. Estes três criaram o Phage Group, recrutado de entre os participantes dos cursos que Delbrück leccionou em Cold Spring Harbour durante 26 anos. Nesse grupo encontramos grande parte dos que, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados dos anos 60 do século passado, descobriram o segredo da vida (ler, a propósito, The Eight Day of Creation por Horace Freeland Judson).
Este livro conta a vida deste personagem singular. É o resultado de um projecto, iniciado como dissertação de Doutoramento por Carolyn Kopp, cujo objectivo era preservar a memória de Max Delbrück. Em grande parte transcreve as suas próprias palavras e mostra bem como ele analisava, humildemente, as suas enormes contribuições para o espectacular progresso científico que o Século XX testemunhou.
Para além de uma nova disciplina devemos também a Max Delbrück o Institut für Genetik-Universität zu Köln, onde ele trabalhou entre 1961 e 1963. Este Instituto relançou a investigação universitária na Alemanha do pós-guerra e foi o maior legado que este cientista de excepção deixou à sua terra natal. Funcionava, em moldes revolucionários para a época, tendo como Co-Directores todos os responsáveis dos diversos departamentos (os quais podiam ser, ou não, Professores Catedráticos da Universidade de Colónia). Revezavam-se no cargo de ‘Chairman’ da Direcção, estando assim impedidos de utilizar a posição de Director (que, na realidade, não existia) como veículo de auto-propaganda, ou como base para o exercício, tantas vezes mesquinho, de poder pessoal.
A propósito desta inovadora regra de gestão institucional escreveu Max Delbrück, numa carta dos EUA para o Reitor da Universidade de Colónia:
‘I thought we had created a new type of Institute for Germany and Europe and hoped that would set an example. The main point for me was to set up a group of people within the university, that could compete with the best modern institutes in teaching molecular genetics and in the corresponding research. In addition to that I wanted to demonstrate ad oculos at a European university the polycephaly principle as it is known here. It is this principle and not the money that is the true secret weapon of the American universities’
Isto aplica-se tanto à triste Alemanha de 1964 como, passados os habituais 40 anos de atraso, ao pobre Portugal de hoje...

Santiago | 01:28 PM | Comentários (1)

outubro 25, 2004

A grande t(r)eta

Começou a esboçar-se uma discussão, soterrada já sob imensos posts, acerca do Sistema Científico Nacional. É uma discussão que me agrada, mas que não deve ser inquinada, à partida, por mitos e preconceitos (pseudo-)ideológicos sobre a dicotomia esquerda/direita. Sou, muito sinceramente, da opinião que, neste caso particular, todos merecem iguais elogios e vou tentar demonstrar isso com alguns números.
Tenho esperança que, removida essa distracção, possamos iniciar um debate útil sobre assuntos de financiamentos e de ciência e do que fazer e do que queremos ser. Há muitas perguntas importantes a fazer e em próximos posts irei dando conta de quais, no meu modesto entender, são elas.
Por hoje, terminarei esta contribuição com uma só dessas perguntas. Vai escrita de forma deliberadamente provocatória.

Continue a ler "A grande t(r)eta"

Santiago | 03:13 PM | Comentários (12)

outubro 23, 2004

Biblioteca mínima: What is life? de Erwin Schrödinger

Was%20ist%20Leben%20(1)-OG.JPGQue bela pergunta esta! Reparem que não se pergunta porquê, não se pergunta como, mas sim: O QUE É?
Suspeito que para os crentes esta questão não fará muito sentido. Eles (e elas) sabem bem como, saberão ainda melhor porquê, mas quanto ao que é… bom, seria engraçado saber, claro, mas não é uma questão particularmente importante, pois não?
Agnósticos como nós, no entanto, preocupam-se mais com o que as coisas são, do que com o porquê ou como...
Schrödinger foi galardoado (juntamente com Paul Dirac) com o Prémio Nobel da Física em 1933 pelos seus trabalhos em Mecânica Quântica. Foi um dos mais brilhantes expoentes daquela larga colecção de Físicos Teóricos cujo interesse por problemas biológicos (surgido já na meia-idade e após distintíssimas carreiras cientificas) veio a estar na origem da Grande Revolução do Século XX. Se houve um Pai na Biologia Molecular (e eu, que não sou crente, acho que houve, assim como acho que houve um Filho e que houve Espiritos Santos – terei ocasião de falar deles futuramente, já que uma biblioteca mínima oferece muitos pretextos), Schrödinger foi-o (mais correctamente: foi-O), sem a menor das dúvidas.
Trata-se do texto, em linguagem corrente, de uma série de licções públicas que Schrödinger proferiu em Dublin durante o período a que ele chamou ‘My Long Exile’, período esse que, grosso modo, corresponde aos anos da Guerra. Foi publicado em 1944 e oferece uma perspectiva fascinante das questões fundamentais da Biologia no fim da 2a Guerra Mundial (recordo aqui que o artigo de Oswald Avery, provando que a informação genética é transmitida pelo DNA, é do mesmo ano). A edição que eu tenho inclui ainda os ensaios Mind and Matter e Autobiographical Sketches.
Vou citar do livro: ‘The large and important and very much discussed question is :How can the events in space and time which take place whithin the spacial boundary of a living organism be accounted for by physics and chemistry ?’A resposta, óbvia para qualquer mente inteligente naquele ano de 1944, é:‘The obvious inability of present-day physics and chemistry to account for such events is no reason at all for doubting that they can be accounted for by those sciences’
Com um rigor que parece ser inato em Físicos Teóricos (Honni soit...), Schrödinger discute brilhantemente o problema da vida numa perspectiva molecular e indica que tipo de soluções poderão existir que, por um lado expliquem a magna questão da hereditariedade, e por outro sejam compatíveis com as Leis da Física. Foi isto que eu aprendi com este livro: a Biologia, afinal, é parte da Física. Se for verdade que as Ciências Sociais e Humanas (e até a Economia) são ramos da Biologia das Populações (como eu acredito), e se, além disso, a Biologia das Populações for uma disciplina biológica (do que ninguém duvida), então, meus amigos, andamos todos, há anos e anos, a trabalhar na mesma coisa...
Diz Schrödinger num subtitulo: ‘The Working Of An Organism Requires Exact Physical Laws’. Este conceito foi de enorme profundidade na época, e revelou-se capaz de inspirar até um gigante como Francis Crick (desapareceu este ano, infelizmente).
É um livro de uma enorme importância na História da Biologia. Apresentou ao mundo outro Físico, Max Delbrück de seu nome, que, a meu ver, é a única personalidade cientifica àcerca da qual se pode dizer o mesmo que se diz do nariz de Cleópatra (se fosse outro, este mundo seria diferente). A discussão do ‘Delbrück’s Model’ (que, sinteticamente, diz que a estabilidade da informação genética , tal como a estabilidade de qualquer molécula, obedece às leis da Fisica Quântica) é imperdível. Imperdível é também o capitulo 7 ‘Is Life Based on the Laws of Physics?’, e a citação de Unamuno : ‘Si un hombre nunca se contradice, será porque nunca dice nada’ (que grande verdade)...
E depois a vida (afinal o que é isso?) continuou... A guerra acabou... Jim Watson leu este livro e, eventualmente, aderiu ao ‘Phage Group’... O Oitavo Dia da Criação lá passou...

and...

the rest...

as they say...

is history...


Santiago | 09:44 PM | Comentários (3)