fevereiro 13, 2006
Do verbo à verdade
John
8:31 Then said Jesus to those Jews which believed on him, If ye continue in my word, [then] are ye my disciples indeed;
8:32 And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.
Recentemente vieram à tona algumas fraudes científicas espectaculares. A mais conhecida, amplamente noticiada, foi o caso do Dr Hwang e suas mágicas células estaminais. No espaço de alguns meses, o cientista Koreano navegou os arquétipos da sabedoria asiática de um extremo ao outro. Começou Senhor Myagi e terminou Fu Manchu. Foi uma queda vertiginosa, de 11 linhas de células estaminais humanas obtidas a partir de adultos, a 2 linhas humanas, até finalmente parar em um (01) cão clonado.
Pouco tempo depois, um grupo Norueguês foi acusado de ter inventado um importante estudo de cancro oral, publicado na revista Lancet, que habita, em conjunto com o New England Journal of Medicine, o Olympo das revistas de investigação clínica. Este caso também tem traços de telenovela mexicana (nunca passaria pelo controle de qualidade da Rede Globo): os co-autores do acusado incluem sua mulher e seu irmão gêmeo. O autor sênior, um certo Jon Sudbo, caiu na desgraça científica, mas ascendeu ao panteão dos autores épicos em vista da acusação de fabricar nomes, dados clínicos e diversos outros parâmetros de 908 pacientes. Aos seus pés estão Tolstoy e Dickens e os ridiculamente pobres elencos de clássicos como Guerra e Paz ou A Tale of Two Cities. [nota do editor: Balzac?]
A fraude canónica, o ne plus ultra da sacanagem em Biologia, certamente foi o Homem de Piltdown. Eoanthropus dawsoni era supostamente um hominídeo fóssil datando do Pleistoceno. O nome vulgar seguiu a regra comum em espécimes de hominídeos, sendo derivado do local de descoberta (Homem de Peking, o Homem de Java, etc), Piltdown em Sussex, na Inglaterra. O cavalheiro teve seu debut social ao ser apresentado em reunião da Royal Society em Londres, em dezembro de 1912. Imediatamente se tornou uma sensação, não só na comunidade científica, como também da mídia da época. O Homem de Piltdown seria o famigerado Elo perdido, um título itinerante em biologia humana, que hoje em dia se encontra em posse, diriam alguns, do Presidente Bush, diriam outros, do grande Steven Seagal.
A fraude durou quase meio século, até 1953. A bem da verdade, Eoanthropus não se enquadrava na sequência de hominideos predominante, e mesmo muitos dos antropólogos que não suspeitavam da sua autenticidade acreditavam que ele representava uma linhagem menor, um cul-de-sac da evolução humana.
Se me permitem um momento Martha Stewart [especialista em etiqueta e talentos domésticos, também ex-presidiária] , aqui vai a receita do Homem de Piltdown, segundo uma equipa de investigadores do British Museum:
1 crânio humano medieval
1 mandíbula de orangotango de Sarawak
Dentes fossilizados de chimpanzé a gosto
Temperar com solução férrica e ácido crómico
A historia do Homem de Piltdown tem um elenco enorme de suspeitos; o acusado mais frequente é o próprio descobridor, Charles Dawson. Mas os participantes das escavações em Sussex e da análise de Eoanthropus incluíram figuras como Sir Arthur Woodward, curador de história natural no British Museum, Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e Pierre Teilhard de Chardin*, vários dos quais foram apontados como sendo o culpado. Como a moda de Jack o Estripador, a fraude de Piltdown originou muitas teorias, algumas banais, outras enxergando vastas conspirações.
Em comun com a fraude de Hwang, o caso de Piltdown foi obviamente premeditado e laboriosamente executado. Ambos os casos também escolheram temas de ressonância junto ao grande público. Deste modo, os autores transcendem o dano à comunidade científica em geral, e em particular aos desgraçados que têm como ponto de partida para seus próprios experimentos relatos espúrios. Mas o mais grave é trazerem para um debate público onde a ética já se debatia legitimamente, como no caso das células embrionárias, o estigma da desonestidade.
Para o Dr Hwang, ao lago com botas de cimento.
Legenda das figuras: Dick Vigarista e Muttley, em 1969 (cartoon), e Dick Vigarista e Muttley, em 2005 (fotografia).
Thiago Lopes-Carvalho
[nota final: a coluna do Senhor não foi publicada ontem por falha minha; o Senhor Thiago foi de irrepreensível pontualidade.]
* Pierre Teilhard de Chardin foi um padre Jesuíta que se dedicou a biologia, tentando adaptá-la aos desígneos Divinos. Em termos objetivos, está para a Biologia séria, com B maiúsculo, como Britney Spears está para a mecânica quântica. Sua obra The Phenomenon of Man foi objecto de uma devastadora crítica do nobelista brasileiro Peter Medawar, disponível online http://www.cscs.umich.edu/~crshalizi/Medawar/phenomenon-of-man.html
e de onde tiro esta pérola: “It would have been a great disappointment to me if Vibration did not did not somewhere make itself felt, for all scientistic mystics either vibrate in person or find themselves resonant with cosmic vibrations; but I am happy to say that on page 266 Teilhard will be found to do so.”
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fevereiro 06, 2006
Exodus
7 And the LORD said, I have surely seen the affliction of my people which are in Egypt, and have heard their cry by reason of their taskmasters; for I know their sorrows;
8 And I am come down to deliver them out of the hand of the Egyptians, and to bring them up out of that land unto a good land and a large, unto a land flowing with milk and honey; unto the place of the Canaanites, and the Hittites, and the Amorites, and the Perizzites, and the Hivites, and the Jebusites.
9 Now therefore, behold, the cry of the children of Israel is come unto me: and I have also seen the oppression wherewith the Egyptians oppress them.
10 Come now therefore, and I will send thee unto Pharaoh, that thou mayest bring forth my people the children of Israel out of Egypt.
Ao contrário das células tronco embrionárias pluripotentes, o actual Santo Graal da medicina, as células estaminais (ou tronco) do sistema hematopoiético (HSC)- que têm a capacidade de gerar todas as outras células do sangue- fazem parte da realidade clínica. As HSCs normalmente se encontram na medula óssea, muito próximas da superfície do osso, numa zona acessível apenas pela via dolorosa da biopsia. A citoquina* G-CSF (granulocyte-colony stimulating factor) é desde longa data usada como factor de mobilização das HSCs. A mobilização se refere à migração de grandes números destas células para a corrente sanguínea. O G-CSF pode não ser um sinal tão dramático quanto o arbusto em chamas a falar com Moisés, mas essencialmente os dois estão a dizer a mesma coisa: “hit the road, Jack”.
Entretanto, o mecanismo desta mobilização das HSCs pelo G-CSF não é conhecido em detalhe. Recentemente na revista Cell Yoshio Katayama** e colaboradores propõem uma nova interacção durante o processo de mobilização, através da acção do sistema nervoso. Antes que alguém se ponha a fazer ioga ou meditação transcendental para por as células tronco a correr, cabe a ressalva que o trabalho se refere ao sistema nervoso autónomo, no seu ramo mais casmurro, paradoxalmente conhecido como o simpático. Como meus dois leitores devem se recordar da fisiologia do secundário, o sistema nervoso pode ser dividido em somático e autonómico. O sistema nervoso somático (SNS) recebe sinais dos orgãos sensoriais (os olhos, ouvidos, etc), e através dele efectuamos respostas usando os músculos esqueletais. Por exemplo, é através do SNS que a sensação de desconforto nos testículos da origem ao tradicional gesto da mais fina elegância masculina que na minha terra se chama “coçar o saco”. Em geral isto tudo se processa no córtex cerebral de modo consciente. Já o sistema nervoso autónomo (SNA) trata principalmente dos estímulos dos órgãos internos, regulando por exemplo o batimento cardíaco e o movimento do diafragma- embora o SNA também responda a estímulos externos, como mudanças de temperatura. Em geral estes sinais se processam em regiões que na minha época se diriam mais primitivas do cérebro, como a medula e o hipotálamo. Finalmente, o SNA se divide em parassimpático e simpático. Alguns componentes do sistema parassimpático estão sob o controle pelo menos parcialmente consciente- felizmente ainda temos direito a alguma opinião sobre o abrir e fechar de certos esfíncters. O SNA simpático entretanto, com perdão da indelicadeza, está a se cagar para o que queremos ou deixamos de querer. E aqui retomamos nosso filme, o G-CSF, as HSCs e o SNA simpático- A Vingança dos Acrónimos.
Katayama et al demonstram mais uma vez o quanto Pasteur estava certo quando disse que “o acaso favorece o jogador com quatro ases”. O grupo estudava outro mecanismo de regulação da mobilização das HSCs, através da síntese de uma moécula chamada sulfatide. Usando murganhos geneticamente modificados para não produzirem uma enzima (Cgt) necessária à síntese de sulfatide, revelaram uma deficiência na mobilização de HSCs em reposta a G-CSF. Até aí, tudo ia conforme o esperado. Mas testes subsequentes demonstraram que a mobilização deficiente era independente da síntese ou não de sulfatide. Uma das consequências da deficiência de Cgt é uma produção precária da bainha de mielina, uma proteína que reveste as fibras nervosas, agindo como isolamento elétrico e garantindo a integridade da transmissão dos sinais nervosos (a progressiva desmielinização dos nervos em humanos tem uma consequencia trágica, a esclerose múltipla). Partindo desta observação os autores examinaram diversos modelos genéticos e farmacológicos onde a sinalização do sistema nervoso se encontrava alterada e concluíram que a produção de noradrenalina pelo SNA simpático é em grande parte responsável pelos efeitos mobilizadores do G-CSF.
O artigo inaugura uma linha de investigação promissora não só pelas possibilidades terapêuticas e farmacológicas, mas também do ponto de vista da ciência básica. Qual será a importância do sistema nervoso na fisiologia da hematopoiese? Alguns editores desta página se têm dedicado ao estudo das diferentes fases da produção das células sanguíneas, que tem uma aspecto cigano, começando em primordios embrionários com nomes giros como esplancnopleura paraortica (gesundheit!), passando pelo fígado fetal e o baço do recém nascido, até se instalar definitivamente na medula óssea. Estará este êxodo ligado ao desenvolvimento dos nervos periféricos? Ou então à produção de noradrenalina? Conseguirão nossos heróis escapar da diabólica armadilha do Coringa?
Join us next week...
Até lá, Bom Domingo. And by the way, if you are reading this, Happy Birthday, Laura Linney. Call me.
Thiago Lopes-Carvalho

* Citoquinas são moléculas usadas para comunicação entre células- quando por exemplo um linfócito produz a citoquina interferão-gama está frequentemente avisando outras células que foi detectada uma infecção viral. O nome, como no caso do G-CSF, em geral denota a primeira observação empírica do efeito da molécula- mesmo que com a passagem do tempo este não se tenha revelado o mais importante.
** “Signals from the Sympathetic Nervous System Regulate Hematopoietic Stem Cell Egress from Bone Marrow.” Yoshio Katayama, Michela Battista, Wei-Ming Kao, Andrés Hidalgo, Anna J. Peired, Steven A. Thomas, and Paul S. Frenette. Cell, Vol 124, 407-421, 27 January 2006.
*** Nota do editor (VMB): a citação original, que o Thiago parafraseia à la Monte-Carlo, pervertendo-a(!) é: "Dans les champs de l’observation, le hazard ne favorise que les esprits préparés".
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novembro 21, 2005
Da possibilidade do humor germânico
Titus
1:12 One of themselves, even a prophet of their own, said, The Cretians are alway liars, evil beasts, slow bellies.
1:13 This witness is true. Wherefore rebuke them sharply, that they may be sound in the faith.
Este livro do Novo Testamento e’ uma das 13 Epístolas de São Paulo, cartas sobre a nova fé endereçadas a diversos recipientes, donde o nome dos livros (Romanos, Coríntios, Timóteo, etc…), cujo conteúdo enfatiza instruções para o bom funcionamento das Igrejas locais. Como se sabe, Paulo, ou Saulo de Tarso, perseguia cristãos até sua miraculousa conversão a caminho de Damasco, efetuada por ninguém menos que Jesus Cristo em pessoa (dois milénios depois, outro grande líder, W, também agradeceria a JC lui-même, “for changing my heart”). Timóteo 1 e 2 e Titus são as chamadas Epístolas Pastorais, aos dois jovens responsáveis por novos rebanhos, Timóteo em Ephesus na actual Turquia e Titus numa certa ilha Mediterrânea. Na carta, destinada a Titus, um gentio convertido ao cristianismo com o fim de ajudá-lo a estabelecer o seu ministério, Paulo registra um preconceito da época. A gentileza com os nativos de Creta não é gratuita: Paulo durante a sua peregrinação missionária estabeleceu lá uma Igreja e deixou Titus encarregado de seu ministério, e a carta tem como um dos seus fins encorajá-lo… 
A idéia do carácter nacional, como uma certa aldeia gaulesa, resiste agora e sempre. Aliás, nós, no Novo Mundo, aprendemos enquanto miúdos os estereótipos europeus pela brilhante pena de Goscinny (os Portugueses fazem uma aparição fugaz no Domínio dos Deuses, declarando “Nós Lusitanos não sabemos cantar, mas se quiserem podemos recitar alguma coisa.”*). Reconhecemos alguns arquétipos imediatamente, e ninguém precisa que lhe expliquem velhas anedotas, como a do inferno europeu (polícia alemã, cozinheiro inglês, o amante suíço, organizador italiano, etc) ou dos preservativos africanos (em três tamanhos, grande, médio e caucasiano). Era inevitável que isto se tornasse tema de tese d’alguém em algum canto, mas ainda assim, me surpreendeu ver recentemente nas páginas da Science um paper com autores da Nova Zelândia até ao Brasil, passando por uma verdadeira ONU de colaboradores, que tinha por objectivo estudar objetivamente o fenômeno do “carácter nacional”. O titulo já diz tudo: “National Character Does Not Reflect Mean Personality Trait Levels in 49 Cultures” (Terraciano et muitos, muitos altri, Science 310:96).
Mais importante em estudos deste tipo do que as conclusões é examinar com cuidado a metodologia, como se aborda algo que é de início tão subjectivo. Afinal é pelo menos formalmente possível que os ingleses apreciem a sua própria culinária ou que os alemães acreditem ter imensa piada. Os autores explicam assim sua abordagem:
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
Stereotypes are oversimplified judgments, but if they have some “kernel of truth”, national character should reflect the average emotional, interpersonal, experiential, attitudional, and motivational styles of members of the culture.
Pode parecer ao leitor uma declaração demasiado vaga e abrangente para servir de base a uma aboradagem experimental, mas segundo os autores:
However, recent advances in personality psychology and cross-cultural research make it possible to compare and perceived national character with aggregate personality data (that is, the means of a sample of assessments of individuals) across a wide range of cultures.

Ferpeitamente! Seguindo um modelo supostamente consensual da psicologia moderna (eu não acreditava existirem modelos consensuais na psicologia, mas confesso que meus estudos do assunto começam e terminam com sua ridicularização, em nota de rodapé, por Thomas Kuhn, como sendo pré-científica), o “modelo dos cinco factores”, examinam dicotomias fundamentais, e determinantes de outras mais complexas. São elas: neuroticismo vs. estabilidade emocional; extraversão vs. introversão; receptividade a novas experiências ou não; hostilidade vs. amabilidade; e conscientiousness (tenho que decepcionar o leitor também na qualidade de tradutor, seria algo como responsabilidade e algo mais). Pode estar claro a alguns, a mim ainda parece ser um pouco… vago- imagino investigadores a mostrarem o Rocky Horror Picture Show em Burkina Faso e medirem a resposta da platéia (receptividade a novas experiências ou não) ou então a repetirem a rotina clássica dos Python, “is your wife a goer, nudge, nudge, say no more” ad nauseum até levarem uma bofetada.
Mas não temam, estas características são apenas aparentemente subjetivas, podem ser decompostas em componentes objectivos, como neste exemplo (ainda segundo Terraciano et al):
For example, the extraversion factor in the Revised NEO Personality Inventory is defined by warmth, gregariousness, assertiveness, activity, excitement seeking, and positive emotions facets.
I stand corrected. Na prática, o que os autores fizeram foi distribuir um questionário em várias línguas (27 ao todo) a estudantes universitários em 49 “culturas”. O questionário consiste em uma série de 30 escalas, onde os voluntários optaram entre pólos como “unreliable, undependable” vs. “dutiful, scrupulous” ou “modest, humble, self-effacing” vs. “arrogant, conceited” para descrever os compatriotas**.
A conclusão dos autores?
Perceptions of national character thus appear to be unfounded stereotypes that may serve the function of maintaining a national identity.
Aguardo agora a conclusão dos meus leitores, quando voltarem da Missa.
* Para alguns isto denota uma ignorância da cultura musical portuguesa, seja o Carlos Paredes amado pelo editor-chefe desta página, seja o fado desde Amália até a auxiliar de cozinha cantante na Adega do Ribatejo. Eu que creio na omniciência de Goscinny prefiro interpretar como referência subtil ao gênio de Camões.
** “Compatriotas” não é o melhor termo:
Most cultures corresponded to nations; however, where sub-cultures could be identified on the basis of history (e.g. England versus Northern Ireland) or language (e.g. French- versus German-speaking Swiss), they were treated as separate samples.
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
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novembro 14, 2005
Uma história de morcegos sem o Robin
Lev 11:13 And these [are they which] ye shall have in abomination among the fowls; they shall not be eaten, they [are] an abomination: the eagle, and the ossifrage, and the ospray,
Lev 11:14 And the vulture, and the kite after his kind;
Lev 11:15 Every raven after his kind;
Lev 11:16 And the owl, and the night hawk, and the cuckoo, and the hawk after his kind,
Lev 11:17 And the little owl, and the cormorant, and the great owl,
Lev 11:18 And the swan, and the pelican, and the gier eagle,
Lev 11:19 And the stork, the heron after her kind, and the lapwing, and the bat.
Liber Leviticus é o terceiro dos cinco livros do Pentateuco, que tratam da história do mundo e do povo escolhido, da sua Gênese até à morte de Moisés. Consiste essencialmente numa coleção de leis para os Hebreus, em especial para a mão de obra do Templo- aquele, com T maiúsculo- que deveria ser composta pelos membros da tribo de Levi. Por isso é um dos livros bíblicos favoritos dos estraga-prazeres. É lá, por exemplo, que se proíbe comer mariscos, lagostas e mesmo os fantásticos camarões-tigre que fazem no restaurante Torre Mar na praia de Carcavelos:“Whatsoever hath no fins nor scales in the waters, that [shall be] an abomination unto you.” (Lev 11:12)
Felizmente também é um livro particularmente útil no debate com os fundamentalistas que querem trazer a interpretação literal estrita das escrituras para dentro da educação científica (aqui no Alabama não são uma curiosidade que encontro nos jornais, e sim gente que encontro na rua). A passagem acima claramente classifica os morcegos como parte das Aves- acho que podemos todos concordar que não é o caso. Mas para dissipar todas as dúvidas estou a incluir uma foto do Batman (versão George Clooney), onde com um pouco de esforço os meus três leitores poderão idenficar algumas características taxonómicas que o colocam nos mamíferos (…para terminar o suspense: as glândulas mamárias).
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
Mais surpreendente para os não biólogos - e os biólogos que abandonaram os caminhos da luz pelas trevas da biologia molecular - é que os morcegos, os ratos alados, tão pouco são roedores. Como se vê na árvore, a filogenia mais aceite actualmente coloca os morcegos (Chiroptera) mais próximos dos Primata do que dos Rodentia.

Há mais de novecentas espécies vivas de morcego, e recentemente três delas, do gênero Rhinolophus, foram parar nas páginas do noticiário científico por razões não muito agradáveis. Dois artigos recentes, um na revista Science (Li et al, Science 310:676-678) e outro no Proceedings of the National Academy of Sciences USA (Lau et al, PNAS 102:14040), identificaram estas espécies como reservatórios naturais dos coronavírus causadores da Síndrome Respiratória Aguda Severa, a popular SARS. Não é o primeiro hospedeiro animal identificado para o vírus da SARS- já havia sido encontrado em pequenos mamíferos carnívoros, os civets. Mas neste caso eram animais vendidos em feiras no sudeste asiático, e não se acreditava que eram os hospedeiros naturais, seriam somente hospedeiros intermediários - o vírus era encontrado nos civets em cativeiro, mas não nas populacões naturais. Já no caso dos morcegos, Lau e colaboradores encontraram o próprio patógeno em 39% das amostras em populacões selvagens de morcegos (pela agradável via dos swabs anais), e exames serológicos demonstraram que 84% dos individuos amostrados tem anticorpos contra o vírus. Apesar da alta prevalência, não há nenhuma indicação que a infecção é prejudicial aos morcegos. Li e coloboradores também concluem que os morcegos são reservatório natural dos coronavírus da SARS. Estudando diversas espécies do gênero encontram uma grande diversidade genética do vírus- muito superior aquela encontrada nos civets ou em humanos, indicando que a infecção está há muito tempo disseminada nos morcegos.
Se o leitor teme a vingança dos herdeiros de Vlad Tepes, o impalador, filho do Dragão (daí Draculya… o impalador eu acho que se explica sozinho), não é necessário investir em alho e crucifixos: como a maior parte da subordem Microchiroptera, Rhinolophus é um gênero de insectívoros, e não se acredita que o vampirismo seja via de transmissão para humanos. Para os adeptos da antropologia, os chineses incluem a carne de morcego na sua culinária e utilizam as suas fezes na medicina tradicional (aparentemente uma das indicações é no tratamento da asma). Por isso, morcegos vivos são frequentes nos mercados de animais. Em situação semelhante à da emergência de novas formas de gripe, a proximidade de muitas espécies animais diversas e humanos em alta densidade forma o ambiente ideal para que um patógeno se adapte a múltiplos hospedeiros. Como no caso dos coronavirus a infecção entérica (do trato digestivo) dos morcegos foi facilmente demonstrada, é provavel que o virus espalhe para outras espécies por via das fezes dos morcegos (mesmo sem contar o consumo directo das mesmas pelos chineses asmáticos). Embora a pandemia de SARS que alguns temiam não tenha se materializado, o surto de 2002/2003 matou pelo menos 774 pessoas, infectou mais de 8000 e arruinou a economia da região. Dada a enorme diversidade de vírus relacionados ao que causou este susto, num gênero de morcego cuja distribuição geográfica vai da Austrália até a Europa, urge empregar mais biólogos!
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
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outubro 24, 2005
A coluna do Senhor: Polio.
Num 16:46 And Moses said unto Aaron, Take a censer, and put fire therein from off the altar, and put on incense, and go quickly unto the congregation, and make an atonement for them: for there is wrath gone out from the LORD; the plague is begun.
Num 16:47 And Aaron took as Moses commanded, and ran into the midst of the congregation; and, behold, the plague was begun among the people: and he put on incense, and made an atonement for the people.
Num 16:48 And he stood between the dead and the living; and the plague was stayed.
Este mês nos EUA se deu um fato epidemiológico preocupante: um surto de Polio no Minnesota. As quatro criancas representam os primeiros casos de infecção pelo vírus da polio no lar dos livres e bravos nos últimos 26 anos. O caso tem diversas particularidades, sendo a mais proeminente a fé Amish dos infectados (o último surto, em 1979, também se deu nas comunidades Amish)(1). Os Amish são uma seita protestante de origem principalmente holandesa e alemã, que os leitores da minha geração provavelmente vieram a ouvir falar no mesmo contexto que eu, no filme “A Testemunha”, com Harrison Ford a se esconder numa de suas comunidades. Os Amish rejeitam a maior parte dos avanços tecnológicos, com o núcleo duro, os chamados Old Order Amish, vivendo sem electricidade, telefone e outros recursos que muitos de nós consideramos essenciais (eu, para a irritação permanente de amigos e familiares, junto-me a eles na aversão ao telefone). Infelizmente incluem também nesta lista as vacinações e a maior parte das intervenções da medicina moderna. Talvez um bom tema para debate no nosso espaco seria a responsabilidade do estado e das autoridades de saúde pública frente aos pais que põem a vida das criancas em perigo por convicções religiosas- os casos limites são as testemunhas de Jeová e outros grupos que recusam simples transfusões sanguíneas aos seus filhos. Como este não é o tema que quero tratar aqui hoje, espreitarei o problema por outro ângulo: a dificuldade de erradicar doenças infecciosas.
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
Em Abril deste ano celebraramos os 50 anos da primeira vacina eficaz e segura contra a Polio, fruto do esforço de Jonas Salk e sua equipa. É difícil hoje imaginar o medo que a polio causava, infectando principalmente crianças com menos de três anos, paralisando algumas por toda a vida e matando outras por paralisia da musculatura respiratória. Durante as epidemias recorrentes muitas comunidades pequenas chegaram a interditar a entrada nas suas cidades às famílias com crianças pequenas. Assim, a doenca se manifesta regularmente, em geral em zonas do terceiro mundo (como cidadão do terceiro mundo, dispenso eufemismos do estilo “nações em curso de desenvolvimento” pela mesma razão que não quero ser tratado por “folicularmente desafiado” (2)). Até à detecção dos casos deste mês, os Centers for Disease Control (CDC) dos EUA afirmavam na sua webpage que “… polio was eliminated from the Americas in 1994”, mas a Polio tem razões particulares para ser de difícil erradicação.
A vacina desenvolvida por Salk consiste num preparado do vírus morto via tratamento com formaldeído e era originalmente injectada em 4 doses consecutivas (hoje em dia creio que são duas doses intramusculares). Apesar de proteger eficazmente o vacinado dos sintomas da doenca, a vacina Salk não bloqueia completamente a transmissão viral. Isto porque a imunidade sistémica que ela induz evita a infecção do sistema nervoso pelo vírus, mas não a replicação viral no trato digestivo. No início dos anos 60, o Dr. Albert Sabin introduziu sua vacina oral (esta é em geral a via natural de infecção pelo tipo selvagem do vírus polio) utilizando uma cepa viral viável mas atenuada por passagens múltiplas em culturas celulares, incapaz de produzir a doença. Ao contrário da vacina Salk, a vacina Sabin nao só evita a doença no vacinado, mas efetivamente bloqueia a transmissão do vírus ao induzir imunidade na mucosa. Como o indivíduo vacinado excreta o virus atenuado, a vacina Sabin tem ainda um efeito protector comunitário, pois pode infectar outros hospedeiros. Por isso a vacina Sabin oral rapidamente dominou (3) as campanhas globais de eliminação do polio (e também porque não exige pessoal qualificado para sua adminstração). Mas o uso da vacina oral tem seu próprio risco: o vírus atenuado reverte para a forma virulenta numa frequência de 1 em cada 13 milhões de doses administradas (ou, segundo outra fonte, 4 por milhão). A reversão da cepa atenuada do vírus foi a origem dos últimos casos de infecção no Minnesota. Como o bebé não foi vacinado, adquiriu o vírus por transmissão a partir de outra pessoa. Isto se confirmou na análise genética das mutações, investigadores do CDC determinaram que o vírus divergiu da cepa Sabin há mais ou menos dois anos, ou seja, mais do dobro da idade do pequeno paciente. O mais estranho e preocupante é que a vacina oral com esta cepa nao é usada nos EUA desde 2000- a vacina injectada voltou a ser o padrão nos países desenvolvidos. Este é o yin-yang da vacinação do Polio: uma forma da vacina protege o indivíduo mas não a comunidade (Salk) e a outra protege a comunidade (Sabin) mas nao permite a erradicação porque é, ela própria, um reservatório do vírus. Adicione a isto a prevalência de infecções silenciosas sobre os casos sintomáticos (no caso da varíola era facil monitorar as infecções) e vemos porque tem sido tão difícil exterminar esta chaga.
Alguns dos outros fatores que dificultam a erradicação total de doenças por vacinação incluem os casos onde há um reservatório natural, isto é, um hospedeiro animal como, por exemplo, na doenca de Lyme. Nestas doencas (que não são infrequentes) a vacinação da população humana pode prevenir novos casos, mas se for interrompida a doenca pode re-emergir em gerações subsequentes. Uma variação sobre este tema é a mutacao de patogenos animais em formas infecciosas para humanos- vários resultados apontam para uma família viral em símios que poderá vir a dar à luz uma nova espécie viral de varíola. Finalmente, o bebé imuno-deficiente aponta para outro factor complicante: o alto número de indivíduos com imunidade comprometida, que representam potenciais “incubadoras” de novas cepas de patogenos e reservatórios a longo prazo das formas mais tradicionais de agentes virulentos. Fora as razões científicas, as campanhas de vacinação encontram diversas dificuldades de ordem prática. Nos países onde a infra-estrutura é precária, o problema básico é como chegar a todas as comunidades- um colega uma vez descreveu-me uma solucao interessante: pediram ajuda à Coca Cola, pois a Coca Cola conseguia distribuir seu produto nos cantos mais remotos do planeta... O acesso é particularmente difícil em zonas de conflito, e é frequentemente nestas áreas onde os surtos ocorrem. Mas, como vimos, a juntar aos problemas científicos, médicos e práticos, há ainda a dimensão cultural e religiosa. Muitos focos de doenças infecciosas correspondem a comunidades com crenças que excluem a intervenção da medicina moderna, como os Amish, ou em grupos étnicos que acreditam que as campanhas de imunização sao parte de um plano para erradicar não a doença e sim a eles. Parece ficção, mas nao é; diversas populações muçulmanas na África foram vitimadas pelo mito de que as vacinas eram na verdade uma estratégia de esterilização, como no caso do ultimo grande foco de polio na Nigéria (4).
Enfim, como ja foi discutido no Conta, as vacinas representam um dos grandes, talvez o maior, sucesso da medicina. Mas os obstáculos para o êxito da vacinação são enormes, e boa parte deles não dependem da ciência e sim da educação e vontade política. A gota d’água nos dias de hoje é a possibilidade de vencermos todos estes obstáculos e nos vermos face a outro problema, como o que se discute hoje para a variola: a possibilidade de algum cretino dispersar um destes agentes intencionalmente, mas neste assunto não vou entrar.
Uma boa semana de trabalho aos meus dois ou três leitores (mãe?).
1.Uma das criancas infectadas, o primeiro caso detectado, é um bebé de 7 meses que sofre de uma imuno-deficiência congénita severa. Felizmente nenhuma das criancas desenvolveu ainda sintomas da doenca.
2. Nota do editor: o Thiago tem uma calvície incipiente.
3. Após superar alguns obstáculos políticos, pois não foi desenvolvida na América e muitos dos seus primeiros testes em larga escala foram na falecida USSR- a história da vacinação contra a polio é fascinante, mas não temos cá espaco para abordá-la em detalhes. Recomendo
“A Brief History of Polio Vaccines” Stuart Blume and Ingrid Geesink, Science, Vol 288, Issue 5471, 1593-1594, 2 June 2000.
4. Recentemente foi desprovada uma outra teoria, a de que os primeiros hospedeiros humanos teriam contraído o HIV a partir de preparados da vacina de polio em culturas de células de chimpanzé (Nature 410, 1035-1036 (26 Apr 2001)). Para ler um bom texto sobre o surto africano: Science, Vol 305, Issue 5680, 24-25 , 2 July 2004.
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
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