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outubro 02, 2006
Ah! Eis um debate com graça
Escreve o LUDWIG KRIPPAHL neste interessante post que "a ciência não está limitada ao natural. O Universo é que veio sem acessórios sobrenaturais, e a ciência apenas nos diz que é assim que as coisas são."
O meu agnosticismo militante impede-me de aceitar sem um pio a peremptória afirmação de o Universo não ter sido equipado com "acessórios" sobrenaturais (como é que ele sabe? Foi algum "ser sobrenatural" que lhe garantiu a sua própria não existência?), mas a minha grande discordância é com aquela ideia de a Ciência não estar limitada ao mundo natural.
Esse tal mundo natural, físico, que nos rodeia e pode ser pesado, medido, analisado e quantificado é constituído por átomos (deixo de lado a existência de energia e do universo sub-atómico, que não tenho bagagem para discutir. Não me parece que os argumentos que seguem mudem muito se tomarmos isso em conta).
A descoberta da composição do mundo natural foi talvez o maior avanço da Ciência e abriu-nos as portas a uma verdadeira compreensão da realidade. Os átomos que compõem a matéria organizam-se em Moléculas e, no caso da matéria viva, ainda em Células, Organismos e Populações. Ciência é o estudo das interacções moleculares/atómicas (que são as únicas "causas naturais" existentes) da matéria, organizada em qualquer destes níveis. Os fenómenos naturais ocorrem por interacção entre esses átomos e alargar a definição de Ciência para incluir o estudo de "coisas não-naturais" seria admitir o estudo "científico" de "causas" que não envolvessem interacções entre átomos. Isto não só é negar a "Ciência" tal como a conhecemos hoje em dia, mas também criaria dificuldades graves ao "problema da demarcação" entre o que é Ciência e o que é não-ciência, ou pseudo-ciência.
Ciência é "o estudo das causas naturais dos fenómenos naturais". Por outras palavras: Procura conhecer as interacções atómicas e moleculares que causam os fenómenos que observamos. Só chegamos ao conhecimento total do mundo natural quando um dado fenómeno tem explicação molecular. Mas quando a tem, esse mesmo fenómeno alcança a sua "explicação final". A estrutura do gene ou o mecanismo de geração de diversidade dos anticorpos, por exemplo, nunca mais serão explicados de outra forma porque hoje em dia os conhecemos molecularmente, em todo o detalhe. São dois exemplos de "fenómenos" cujo "paradigma" (à la Kuhn) nunca mais se alterará (em aparte esclareço que sou um opositor acérrimo da noção que toda a verdade científica é provisória e é sempre superseded por uma melhor explicação da realidade...).
Esta raciocínio torna fácil distinguir Ciência do que não é Ciência: Qualquer ramo do conhecimento só pode ser considerado "científico" se alcançar uma "explicação molecular" (segundo este ponto de vista, a Biologia só se tornou científica depois da verdadeira "revolução" que sofreu em consequência dos trabalhos daqueles 3 senhores cuja fotografia se pode ver no meu anterior post...). As "Ciências" Sociais e Humanas, embora possam ser consideradas como ramos da Biologia das Populações, não alcançaram ainda esse nível de explicação dos fenómenos que estudam e por isso não as considero disciplinas científicas.
Um problema inteiramente distinto deste de saber qual é a maneira mais adequada de descrever o que fazemos é a questão de saber o que fazer se algum dia tivermos evidência da ocorrência de fenómenos ou causas não-naturais (ou sobre-naturais... para-naturais... meta-naturais, anyone?).
Entendo que esses putativos fenómenos e causas deverão ser estudados, claro, mas nunca o poderão ser por cientistas. Cientistas que o fizessem estariam a negar a sua própria raison d'être, abandonando o "naturalismo metodológico" que é a verdadeira essência da actividade cientifica...
Aproveitando a embalagem, quero também embirrar com os parágrafos que dizem:
"Vamos supor que queremos melhorar as colheitas, e que consideramos duas hipóteses. Uma, naturalista, diz que devemos irrigar os campos e usar fertilizante. A outra diz que devemos propiciar os deuses para que providenciem uma colheita abundante. Há uma forma clara de determinar a melhor hipótese: irrigamos e fertilizamos metade das plantações, e na outra metade sacrificamos vacas, rezamos, ou seja o que for que a segunda hipótese indique como propiciando melhor os deuses. No final medimos quanto foi produzido e já sabemos o que funciona melhor."
"O método é o mesmo, e é o Universo que determina a melhor alternativa. É pelo Universo ser como é que nós irrigamos os campos em vez de sacrificar vacas, ou levamos o carro avariado ao mecânico em vez de o levar à igreja. A ciência diz-nos que é melhor fazê-lo desta maneira, mas se fosse melhor fazer da outra, também era a ciência que o iria mostrar pela comparação dos resultados."
Não me parece particularmente feliz ir buscar o exemplo de uma actividade puramente tecnológica (a agricultura) para argumentar que devemos preferir a explicação científica por ser a mais bem sucedida. Nem os mais ferrenhos sobre-naturalistas se furtam, na maior parte dos casos, aos confortos que a tecnologia moderna põe à sua disposição...
Mas embirro mesmo é por não achar que o "argumento do sucesso", tão subjectivo como é, seja bom para justificar a actividade cientifica. Não há tanta gente que (negando embora o que a mim parece óbvio) nega as explicações científicas e só se convence com explicações sobre-naturais? Não é difícil perceber que este argumento os deixe bastante indiferentes e por isso os ouçamos argumentar (como infelizmente argumentam por vezes) que a actividade científica é desnecessária (ou até errada) como mecanismo de compreensão do mundo em vivemos.
Como eles aceitam que, pelo menos nalguns casos, os fenómenos naturais têm causas naturais, creio que deixar de lado o argumento do sucesso será a melhor maneira de eles nos deixarem em paz...
Publicado por Santiago às outubro 2, 2006 02:39 PM
Comentários
Santiago,
Concordo que concordo com a tua crítica ao Ludwig Krippahl, e a defesa do naturalismo. O exemplo da rega que ele dá não é um bom exemplo porque o objecto de estudo não está definido. Os Deuses não são um objecto que possa ser estudado, medido, analizado, e a "experiência" que ele propõe, comparar a rega do campos com o sacrifício de vacas aos Deuses, sem um objecto de estudo definido torna-se numa mera observação empírica, que não oferece uma explicação científica ao fenómeno em questão. Definir um objecto de estudo preciso e concreto vai de encontro ao argumento naturalista.
Já não concordo é com a visão de que qualquer análise científica visa em última análise a explicação molecular. E porque não atómica em vez de molecular? E porque não sub-atómica em vez de atómica? Parece-me que uma abordagem científica pode ocorrer a qualquer nível, desde o sub-atómico ao da biologia de populações. Desde que tenhamos um objecto de estudo bem definido e uma hipótese testável podemos formular uma questão de forma científica. Podemos olhar para uma célula enquanto célula, enquanto unidade, sem saber, ou sem querer saber qual é a sua composição molecular. Podemos até estudar economia ou sociologia da mesma maneira, não são (na minha humilde opinião) menos científicos por isso. Conquanto haja um objecto e uma hipótese testável pode haver Ciência.
Também não concordo com que a estrutura do gene ou do anti-corpo seja uma verdade absoluta e definitiva. Cheira-me a outro debate potencialmente interessante.
Publicado por: Zèd às outubro 2, 2006 09:40 PM
Zéd:
Acho que não estamos muito distantes um do outro... (ah! ah! ah! esta tem dois sentidos ;))
O texto saíu-me um bocado "a quente" depois de ler o texto do Ludwig e podia ter sido mais bem escrito e claro no argumento. Não quero fazer finca-pé com o problema de a "explicação" ser atómica/molecular ou sub-atómica. Acho que poderia traduzir a minha linguagem para o mundo dos quarks ou dos leptons, mas estou muito pouco à vontade no uso desse vocabulário...
O meu ponto é que acho que há um momento em que a explicação de um fenómeno se torna "definitiva", "final", não "muda" mais...
A certa altura não ocorrem mais "paradigm shifts" porque chegámos à "última" resposta... acho que existe uma coisa a que se pode chamar a "explicação definitiva", e ela atinge-se quando estamos a explicar "a causa dos coisas" recorrendo aos "constituintes básicos" da matéria.
Tudo isto talvez por, trabalhando em Biologia, ter sido tão influenciado pelo What is life", que foi escrito por um físico... não consigo aceitar, de todo, a ideia de não existir uma "verdade científica"... acho que atingimos essa "verdade" com o nível atómico/molecular (ou o sub-atómico, se quisermos ir ao "detalhe"...).
Quanto à aplicação desta noção a conceitos biológicos cujo vocabulário me deixa muito à vontade (estrutura do gene ou dos anticorpos): Bom debate! Com graça, também! Vamos a ele?
Publicado por: Santiago às outubro 2, 2006 10:24 PM
Vamos a ele, ao debate, eu vou fazer o meu trabalhinho de casa.
Apesar de estarmos próximos há ainda uma distância que nos separa (uns 15 minutos a pé, mais ou menos).
Publicado por: Zèd às outubro 2, 2006 11:14 PM
Ah! Ah! Ah!
Vamos a isso... your place or mine?
Publicado por: Santiago às outubro 2, 2006 11:20 PM
Tricky question... Very tricky!
Publicado por: Zèd às outubro 3, 2006 08:26 AM
Imaginem que o vosso objecto de estudo _ microorganismo, célula, organismo ou universo _ é um televisor, e que desconhecem o seu modo de funcionamento. Imaginem que o fenómeno que estudam é o filme ou programa que passa a um determinado momento no televisor, e as vossas moléculas ou átomos (ou electrões) os componentes do mesmo televisor. Imagninem tudo isso! E agora pergunto, onde está a causa natural dos filmes que passam no televisor? A causa é mais que natural, não há nada de sobrenatural na sua natureza. Quando se concentram apenas no televisor, e nos fenómenos que dele imanam, o que podem concluir acerca da sua natureza?
Pois bem, como um bom gnóstico que sou, acredito que Deus é o fluxo ordenado de energia que trespassa toda a natureza. Não há nada de sobrenatural na sua essência. Apenas a desconheço.
Publicado por: Poimandro às outubro 4, 2006 02:18 AM
Poimandro:
Desculpe mas só hoje é que vi o seu comentário.
A minha grande dificuldade em responder-lhe é que acho que o problema é, justamente, o facto de o nosso objecto de estudo não ser "um televisor", e o fenómeno que estudo não ser "o filme ou programa que passa a um determinado momento no televisor"... a "causa natural dos filmes que passam no seu televisor" tem uma natureza totalmente distinta das causas que eu investigo...
As "suas causas" são já conhecidas, fazem parte do "acquis scientifique", senão não haveria sequer televisor para ilustrar essa parábola.
As "minhas causas" são (ainda) desconhecidas, por isso não há ilustração para mim, nem me conseguem convencer com parábolas.
Acho que devemos ter muito cuidado quando as usamos. Têm uma utilidade semelhante à dos candeeiros de rua sem lâmpada: Dão apoio, mas não iluminam...
Publicado por: Santiago às outubro 6, 2006 10:57 PM
Pois é, o homem das cavernas também pensava que era por causa dos seus actos que a trovoada ocorria!
As 'suas causas' são desconhecidas, no entanto, têm que ser mensuráveis pelos instrumentos da vossa razão! Encontram apenas o que testam, e nunca o que acontece naturalmente.
Não preciso de objectos para me apoiar, muito menos de candeiros, sou cego e estou habituado a tactear.... E, tenho também humildade suficiente para aceitar que desconheço, que não controlo muito do que estudo. Que estou preso à superfície dos fenómenos, limitado pelos meios e conhecimento que possuo.
Publicado por: Poimandro às outubro 7, 2006 03:31 AM
Pois é, o homem das cavernas também pensava que era por causa dos seus actos que a trovoada ocorria!
As 'suas causas' são desconhecidas, no entanto, têm que ser mensuráveis pelos instrumentos da vossa razão! Encontram apenas o que testam, e nunca o que acontece naturalmente.
Não preciso de objectos para me apoiar, muito menos de candeiros, sou cego e estou habituado a tactear.... E, tenho também humildade suficiente para aceitar que desconheço, que não controlo muito do que estudo. Que estou preso à superfície dos fenómenos, limitado pelos meios e conhecimento que possuo.
Publicado por: Poimandro às outubro 7, 2006 03:33 AM
« saber o que fazer se algum dia tivermos evidência da ocorrência de fenómenos ou causas não-naturais (ou sobre-naturais... para-naturais... meta-naturais, anyone?)
« Entendo que esses putativos fenómenos e causas deverão ser estudados, claro, mas nunca o poderão ser por cientistas. Cientistas que o fizessem estariam a negar a sua própria raison d'être, abandonando o "naturalismo metodológico" que é a verdadeira essência da actividade cientifica...»
Ora bem, a ciência estuda ou tenta estudar tudo o que lhe passa pela frente - está na sua génese! E, portanto, esses putativos fenómenos também passariam obrigatoriamente pelas mãos dos cientistas. A especificidade da ciência está no método e não no objecto! No hipotético cenário de a coisa ser sobre-natural (whatever!), quem e como se decretaria tal estatuto? A menos que seja a Ciência, não me parece nada razoável que o cientista tenha de abandonar o campo. E o que dirá então? Após vários estudos, descobrimos que isto não pode nunca ser estudado?!
Uma outra posição pode ser assumida se partirmos do pressuposto que a Ciência só estuda aquilo que é mensurável. Aí estamos no ponto contrário: enquanto não o conseguirmos medir, não é objecto científico. Mas não quer dizer que não o possamos fazer um dia mais tarde. E, entretanto, o assunto, que ainda não é científico, vai sendo motivo de investigação...
Um cientista querer estudar um fenómeno que não entende não me parece uma negação da sua "raison d'être", muito pelo contrário. Aceitar o desconhecimento "ad eternum" é que é um abandono "naturalismo metodológico". Mas isto é o que eu digo hoje, que reconheço claramente toldado pela minha incapacidade de imaginar tal hipotética situação...
Publicado por: cristina às outubro 10, 2006 01:17 PM