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setembro 11, 2006
Mosquito na Sopa
Sendo uma das principais causas de morte entre membros da nossa espécie, a infecção por Plasmodium falciparum através de vectores do género Anopheles duplicou nos últimos vinte anos e duplicará novamente no próximo par de décadas. Esta e outras doenças de epidemiologia semelhante, continuam a ser o estigma dos países pobres.
O uso de vectores geneticamente modificados no combate a doenças transmitidas por insectos conheceu um incentivo recente com a atribuição de cerca de 20 milhões de dólares a um grupo de investigação sediado em Irvine, Califórnia, por parte da Fundação Bill e Melinda Gates. Com o objectivo de impedir a transmissão substituindo populações de vectores por outras de mosquitos resistentes, a iniciativa tem suscitado um debate que já vai entrando na adolescência. Alguns pontos óbvios nesta contenda:
1. A dificuldade em produzir transgénicos viáveis e resistentes aos respectivos parasitas.
2. A desigualdade nas prioridades: de um lado as ditas "modernas", reforçando a Biologia da molécula, do outro, as "retrógradas", que têm em conta a das populações e a Ecologia.
3. O desvio de fundos de programas de luta antivectorial já vigentes.
4. O impacto do uso de organismos geneticamente modificados para o combate de uma doença sobre a epidemiologia de outras doenças que partilhem a geografia.
5. Os mecanismos de selecção de agentes que escapem à resistência dos novos vectores. Este é um ponto de particular atrito entre "molecularistas" e "acautelados", sobretudo após a sequenciação do genoma dos quatro agentes do paludismo humano de um dos seus numerosos vectores.
6. O perigo de um reducionismo déjà vu (as plantas geneticamente modificadas acabarão com a fome no mundo!) que permita a paliação das consciências "bem", de preferência acompanhada por uma "lubrificação" de impostos avultados.
A democratização da ciência e da tecnologia é um termo que surge com frequência na discussão global acerca da luta contra o paludismo. Consequentemente, também neste campo a neblina impera sobre as definições. Segundo Christophe Boëte, investigador francês em Ecologia Evolutiva e autor de um artigo recente abordando este assunto, dos quatro principais fóruns realizados até à data afim de clarificar a "sociedade civil" sobre esta abordagem científica, apenas um ocorreu em solo africano (Nairobi, 2004).
O paludismo foi erradicado da Europa e América do Norte (Canadá, EUA e México, para os menos informados) sem recurso a conhecimentos genómicos e por acção de desenvolvimentos económicos e sociais gerados por uma evidente vontade política. Que dividendos poderá tirar um investimento em tecnologia "de ponta" sem uma campanha durável, abrangente e sustentada?
Publicado por VB às setembro 11, 2006 03:58 AM
Comentários
A malaria foi eliminada da Europa, EUA e Mexico drenando pantanos e aplicados largas doses de insecticidas antes da ecologia passar a ser "mainstream"... ainda hoje se se procurar cuidadosamente se podem encontrar residuos de DDT em alguns campos nas margens do Tejo...
Publicado por: lowlander às setembro 13, 2006 04:56 PM
Lowlander,
a drenagem só parece ter sido eficaz quando acompanhada por uma melhoria da qualidade do habitat e por um tratamento sistemático de acessos palustres. Na Europa como, creio eu, em qualquer parte, a vontade política não deixou de ser inerente a tal efeito. Aparentemente, Portugal foi o último dos europeus a assumir essa vontade.
É certo que a metodologia tradicional, digamos simples, enfrenta de momento graves obstáculos de concretização: a aplicação de mosquiteiros, por exemplo, foi provavelmente levada a cabo por menos de 2% da população africana contradizendo claramente a Declaração de Abuja, que estipulou em 2000 a adopção de tal método a 60% da mesma população em 2005. A documentação que encontrei aponta portanto para a escolha de meios "drásticos" que alcançam tecnologias mais ou menos futuristas como as tratadas neste post. Contudo, as mesmas dificuldades de concretização de tecnologias tradicionais de combate antivectorial suscitam igualmente a dúvida oposta: se a utilização de meios tão simples não funcionam, que vantagem trará a implementação de mosquitos geneticamente modificados nas áreas afectadas?
Por outro lado, o tema do DDT por ti levantado é claramente pertinente. Apesar do efeito ambiental deste e de outros poluentes orgânicos persistentes ter sido publicitado desde 1962 (por sinal, antes do último caso de malária em Portugal) e do seu emprego ser proibido em vários países, o recurso ao DDT conhece ultimamente um certo revivalismo. A sua defesa é sempre alimentada por poucas mas muito poderosas vozes (de consultores científicos de instituições como o Competitive Enterprise Institute, patrocinado pela Ford, Philip Morris, Pfizer e Coca-Cola...). Estas avocam razões morais bastante radicais do tipo Michael Crichton: "proteger o ambiente ou causar mais mortes que Hitler?"
Publicado por: VB às setembro 13, 2006 06:45 PM
"Lowlander,
a drenagem só parece ter sido eficaz quando acompanhada por uma melhoria da qualidade do habitat e por um tratamento sistemático de acessos palustres. Na Europa como, creio eu, em qualquer parte, a vontade política não deixou de ser inerente a tal efeito. Aparentemente, Portugal foi o último dos europeus a assumir essa vontade."
Correctissimo, mas a destruicao de milhares de hectares de habitats naturais nao deixa por isso de ter sido factor essencial no controlo do vector.
"se a utilização de meios tão simples não funcionam, que vantagem trará a implementação de mosquitos geneticamente modificados nas áreas afectadas?"
Porque os meios "drasticos" devido a sua natureza exigem fortes investimentos canalizados e coordenados atraves de governos centrais. Eu sei que ali a turma liberal gosta muito de liberdade individual mas em questoes de saude publica nunca vi um unico problema ser resolvido quando deixado a merce da "liberdade individual"... os "metodos tradicionais" sao regra geral menos eficazes devido a exigirem pequenos investimentos mantidos de forma persistente ao longo do tempo (coisa que os governos centrais fazem mal) e geralmente dependem tambem da livre vontade das populacoes alvo.
Quero no entanto frisar aqui que nao sou de forma alguma um Michael Crichton, o DDT foi banido e pena e que muito outros disruptores endocrinos nao o tenham sido e actuacoes drasticas nos ecossistemas naturais tem "externalidades negativas" como os economistas lhes gostam de chamar demasiado altas.
O meu ponto e que nao expliquei bem e: nao podemos comparar o passado com o momento actual na luta contra a malaria porque o mundo evoluiu politica, social e no ramo do conhecimento cientifico. E por isso que nao encaro com cepticismo os dividendos da manipulacao genetica mas encaro com ainda mais cepticismo os dividendos das ferramentas que temos neste momento a nossa disposicao.
Publicado por: Lowlander às setembro 14, 2006 10:53 AM