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setembro 18, 2006

Os Batas-molhadas

labcoat11.jpgNão se refere este post a um qualquer concurso estival para a eleição da(o) mais sexy cientista do ano. O título, por afinidade à sempiterna problemática de quem cruza a fronteira a salto, alude a um outro tipo de problema: qual o nível de tolerância racial dos cientistas. Ou, ainda mais simplesmente: os chineses.

Tenho encontrado vários elementos de racismo antiasiático no comportamento de um número crescente de colegas. Um desses elementos é o estereótipo fácil, invariavelmente associado a aspectos "desagradáveis" à "etiqueta ocidental". Outro é a frequência com que a etnia é usada na identificação do sujeito pelo narrador caucasiano em acções condenáveis: "O chinês deu uma canelada ao John". Um último exemplo é, como analisa Cornell West no seu Race Matters, o constante relevo dado às acções imorais dos marginalizados ignorando a responsabilidade pública pela circunstâncias imorais que os afectam.

A extensão destes e outros "sacramentos racistas" à nossa comunidade científica tem como grande bode expiatório o vínculo entre raça e cheap labour. Não são incomuns os casos de pos-docs chineses a ganhar muito menos que "os outros", apenas descobrindo o "ardil" anos mais tarde, na hora do despedimento. Talvez isto se deva em parte ao preconceito comum de que os chineses comem qualquer coisa e vivem todos juntos, naquele quarteirão onde tudo é mais barato. Aliás a própria "guetização" dos cientistas chineses é apresentada como consequência exclusiva do comportamento dos mesmos. Também conhecem-se exemplos de investigadores principais que vêem as mãos chinesas como laboriosas, incansáveis e dispostas a trabalhos de terraplanagem. Dessas sobre as quais depositam um estojo para géis de electroforese antes de trancá-las no armário do vão da escada e esperar o "Pdf" num par de horas.

Sendo o racismo independente da educação, não deveríamos esperar ao menos algo da inteligência? Pessoas com doutoramento em ciências ainda são capazes de cair na armadilha do "vêm para cá roubar-nos as posições"?
E quem poderá ainda crer naquela máxima de velhos apaziguados: "Em ciência só conta a razão"? Com efeito, acho mesmo o contrário, isto é, que com tantos desconfortos antichineses esquecemo-nos de perguntar o que se faz no país que levou a cabo a sequenciação da Oryza sativa. A sabe-lo, nós os falantes de inglês esqueceríamos o mito do tecnológico chinês e descobriríamos a utilidade de mais traduções de relatórios. É mais vantajosa a tolerância que a simples utilização de beldades para salvar a honra a filmes de terceira.

Publicado por VB às setembro 18, 2006 12:45 AM

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