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setembro 28, 2006
Grandes Lições de Filosofia: 3a Lição
«[D]ie moderne naturwissenschaftliche Vernunft mit dem ihr innewohnenden platonischen Element eine Frage in sich, die über sie und ihre methodischen Möglichkeiten hinausweist. Sie selber muß die rationale Struktur der Materie wie die Korrespondenz zwischen unserem Geist und den in der Natur waltenden rationalen Strukturen ganz einfach als Gegebenheit annehmen, auf der ihr methodischer Weg beruht. Aber die Frage, warum dies so ist, die besteht doch und muß von der Naturwissenschaft weitergegeben werden an andere Ebenen und Weisen des Denkens – an Philosophie und Theologie. »
Kardinal Joseph Ratzinger, Papst Benedikt XVI
Confirmando, talvez, quão absurda é esta vida, gerou-se uma enorme polémica à volta de um assunto marginal neste discurso.
Toda a filosofia de que um cientista precisa está contida no final deste magnífico texto (baseio-me agora na versão em português, com variantes que, sem criticar a tradução oficial, me parecem mais felizes): "[A] razão cientifica moderna é obrigada a aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais actuantes na natureza como um dado de facto, já que nisso se baseia a sua metodologia. Mas a pergunta: "Por que é que isto é assim?" ainda sobra, e deve ser confiada pelas ciências naturais a outros níveis e modos do pensar - à filosofia e à teologia".
Nenhum cientista (seja ele ou ela naturalista, sobre-naturalista, realista, materialista, monista, causalista, actualista ou o diabo a quatro) discordará desta tese.
É pena que os não-cientistas tenham dificuldade em perceber esta lição...
Publicado por Santiago às setembro 28, 2006 08:24 PM
Comentários
Há-de vir o dia em que também nós cientistas fazemos como o Santo Agostinho e vamos pregar aos peixes ...
Publicado por: Luis Oliveira às setembro 28, 2006 10:50 PM
Era o Sto António, pá!
Não me abandalhes a conversa, que eu, por uma vez, estou a falar a sério...
Publicado por: Santiago às setembro 28, 2006 10:58 PM
Santiago:
Eu troco os santos todos ...
E juro que desta vez não queria abandalhar a conversa, mas acho que responder àqueles gojos é perda de tempo. Admito que se fosse biólogo pensava doutra maneira.
Quanto a isso de "por uma vez" estares a falar a sério, nem estou a acreditar que digas isso, porque eu, believe it or not, acho que falas a sério muitas vezes. Eu é que sou um grande sabotador e pego sempre na coisa da maneira mais cínica de que me consigo lembrar.
Publicado por: Luis Oliveira às setembro 29, 2006 12:38 AM
Eu começo a pensar que quem andou a pregar aos peixes foi o Descartes (e não estou a abandalhar, estou a falar muito a sério).
Quanto à citação do Ratzinger não podia estar mais de acordo, não sei é se o próprio Ratzinger a compreende inteiramente. Há uma outra citação do mesmo discurso em que a separação em Religião e Ciência é muito menos clara
"Só o conseguimos [o uso da razão] (...) se superarmos a limitação autodecretada da razão ao que é verificável na experiência".
Lendo o parágrafo de onde esta citação é retirada, e o anterior, e fica-se com a sensação que o Ratzinger gostaria que a Ciência estivesse submetida aos desígnios do Cristianismo.
Publicado por: Zèd às setembro 29, 2006 08:23 AM
Que estranha e rara sensação esta, a de me sentir obrigado a defender o Papa... no entanto o magnífico texto, em que até o meu herói Monod é referido (embora em tom crítico), merece este esforço...
É claro ele usa a palavra "razão" num sentido que engloba a "metafísica" porque quer falar das "coisas visíveis e invisíveis" (para citar uma parte do mesmo Credo que, por causa daquela parte "do Pai e do Filho", levou ao Grande Cisma e à "deselenização" de que ele se queixa no discurso...). A função dele é a "propaganda da fé" e por isso não me parece que ele pudesse argumentar de outra forma. Mas diz expressamente que não quer voltar aos tempos anteriores ao Iluminismo e apenas pede que a "Ciência" não invada terrenos que a "Ciência" nunca quis invadir... não é aqui que há-de haver conflito...
Permite-me continuar aqui a conversa que começámos noutro lado: É incongruente argumentar que os "Magistérios" são totalmente distintos e depois usar a palavra "conflito" para descrever a relação entre eles...
Publicado por: Santiago às setembro 29, 2006 10:02 AM
Parece-me que essa citação não expressa muito bem a opinião que o Ratzinger defende noutros textos. Mas mesmo assim dá para ver que ele faz uma crítica a determinadas interpretações restritivas de ciência na frase "como um dado de facto, já que nisso se baseia a sua metodologia". Ou seja, ele diz que o método científico se baseia em premissas que não podem ser provadas pelo método científico.
Uma citação mais interessante do Ratzinger:
The separation of physics from metaphysics achieved by Christian thinking is being steadily canceled. Everything is to become "physics" again. The theory of evolution has increasingly emerged as the way to make metaphysics disappear, to make "the hypothesis of God" (Laplace) superfluous, and to formulate a strictly "scientific" explanation of the world. A comprehensive theory of evolution, intended to explain the whole of reality, has become a kind of "first philosophy," which represents, as it were, the true foundation for an enlightened understanding of the world. Any attempt to involve any basic elements other than those worked out within the terms of such a "positive" theory, any attempt at "metaphysics," necessarily appears as a relapse from the standards of enlightenment, as abandoning the universal claims of science.
Ou seja, ele critica o mundo científico por considerar que tudo é natural e que nada pode existir fora do mundo natural (uma alegação que também não pode ser provada pelo método científico). É muito bonito dizer-se que a ciência é a "busca de causas naturais para fenómenos naturais" sem admitir que são cientístas muitos dos que alegam, no exercício da sua actividade, que todas as causas são necessariamente naturais. Muitos cientistas defendem que a única metafísica possível é a praticada pela ciência.
Texto completo aqui:
Publicado por: JoãoMiranda às setembro 29, 2006 10:43 AM
João Miranda:
Pois... confesso que não tenho seguido em profundidade o pensamento do Cardeal Ratzinger e me estava a basear apenas nesta "aula". Esse pensamento parece estar a evoluir, em qualquer caso, e o que leio na Nature é que o resultado final vai ser bastante confortável para quem, agnóstico como eu, estude apenas as "causas naturais dos fenómenos naturais"...
Esse outro texto é também magnífico, não é? (Qualquer alusão a Monod me deixa em extâse, é verdade, mas mesmo os que não gostam dele apreciarão um texto bem escrito e bem argumentado). Cito outra parte:
"The question is whether reality originated on the basis of chance and necessity...". A resposta vem no parágrafo anterior: "In the end this concerns a choice that can no longer be made on purely scientific grounds or basically on philosophical grounds"...
Há aqui um problema que me confunde um bocadinho: Porquê a insistência que Ciência é algo mais do que "a busca de causas naturais para fenómenos naturais"? É o próprio Papa quem explicitamente recusa chamar ciência à filosofia e à teologia, portanto que birra é essa?
É verdade que existe outro problema, mas esse não me confunde nada. A noção de "todas as causas [serem] necessariamente naturais" não é uma exigência do método (da praxis) científico e, na minha opinião, nem sequer deve ser defendida por quem se dedica à actividade científica. Mas isso sou eu, que sou agnóstico e acho que se algum dia encontrarmos "causas sobre-naturais" para um fenómeno natural as deveríamos também investigar...
Quem defende que "todas as causas" são naturais é ateu! Isso não tem nada a ver com ser ou não ser cientista. Apesar de muitos cientistas (talvez a maioria deles) defenderem que "a única metafísica possível é a praticada pela ciência", o teu problema não é na realidade com o facto de eles serem cientistas, mas sim com o facto de serem ateus... ou percebi mal?
Publicado por: Santiago às setembro 29, 2006 11:39 AM
Só mais uma coisa:
Depois daquela cena de toda a gente começar a recomendar leituras a toda a gente, já não me atrevo a recomendar a ninguém que leia este artigo do Steven Schafersman... permitam-me por isso que apenas chame a vossa atenção para o meu último post na nossa Hemeroteca.
Este fim-de-semana faço um post aqui a linkar esse belo artigo que diz essencialmente tudo aquilo com que eu concodo...
Publicado por: Santiago às setembro 29, 2006 12:01 PM
Santiago,
Permite-me esclarecer a questão dos "Magistérios" serem ou não separados. O que eu quis dizer é que eles estão separados ao nível dos princípios, mas não o estão de facto. Num mundo perfeito, em que o conhecimento soubesse tudo e tudo pudesse explicar, essa separação seria nítida, mas não vivemos nesse mundo. Há todo um território que nos é desconhecido, e por isso o confundimos com metafísico, mas há também um terreno "realmente" metafísico. O conhecimento, por ignorância, não consegue distinguir um e outro. E é quando a Ciência avança, e o que parecia metafísico entra para a área do explicável cientificamente que o potencial conflito existe. Se houver da parte da religião uma atitude de defesa desse território, o conflito passa de potencial a real. Mais uma vez, o Evolucionismo é disso exemplo.
Quanto ao papa Ratzinger, temo que ele venha a ter, ou tenha já, numa tentativa de defesa do seu território, uma atitude hostil para com a Ciência. Para além dos dois parágrafos da lição de Regensburg que já referi, a citação que nos trouxe o João Miranda é também um excelente exemplo do que Ratzinger pensa que a Ciência deveria ser, e quer-me parecer que o gostaria muito que a prática da Ciência estivesse sujeita à ética e doutrina Cristãs. Atenção, eu concordo que o papa está apenas a cumprir o seu papel de pregador, e está no seu direito, tal como eu estou no meu de discordar da sua visão do que a Ciência deve ser. Como dizes quando Ratzinger usa o termo razão está a englobar "o visível e o invisível", no que respeita ao invisível não há problemas (enquanto for invisível, mas pode um dia deixar de o ser...), já quanto ao visível podemos não estar de acordo, e não estamos (eu e o papa).
Se bem que esta discussão me preocuparia muito pouco se ela se restringisse ao seio da Igreja Católica Apostólica Romana como se deveria restringir se vivessemos numa sociedade realmente laica (o que me parece por demais desejável em democracia). Mas não vivemos, e o que pode potencialmente criar problemas à Ciência, é se as posições do papa tiverem repercursões políticas. Isso já começa a acontecer nos EUA com o estudo da Evolução desde que a administração Bush está na Casa Branca (por exemplo o financiamento da NSF), e preocupa-me que possa vir a acontecer na Europa. Ou mesmo que não haja implicações políticas em sentido estrito, o aumento de uma hostilidade da sociedade ou das instituições políticas em relação à Ciência, motivados por uma hostilidade do Vaticano.
Publicado por: Zèd às setembro 29, 2006 05:25 PM
Zèd:
Acerca do Papa, reconheço que estou muito influenciado por aquela notícia na Nature que dizia "Religion is religion, science is science, and good fences make good neighbours. That seems likely to be the thrust of an expected clarification by the Roman Catholic Church of its position on biological evolution, according to a prominent biologist who spoke at a retreat on the topic held last weekend by Pope Benedict XVI." (o que até é bastante irónico, em face da minha opinião sobre grande parte das coisas que lá leio...).
Se isso se vier a confirmar, a maioria dos teus (dos nossos) receios desvanecer-se-ão, espero. Latrão ainda dispõe de uma eficaz máquina publicitária que fará maravilhas ao serviço da ideia das good fences...
Publicado por: Santiago às setembro 29, 2006 05:50 PM
Santiago,
Também fiquei muito agradado com a notícia da Nature de que falas, mas essa notícia refere-se apenas ao caso concreto da Evoulução, e não necessariamente para toda a Ciência. No caso da Evolução as evidências empíricas são mais que sólidas, seria difícil à Igreja ter uma posição contrária sem se expôr ao ridículo, como já tive ocasião de escrever, parece-me que a previsível aceitação da teoria da Evolução pela da Igreja é mais por cálculo estratégico do que por razões teológicas ou científicas.
Já quanto ao resto, já no tempo em que ainda era cardeal, Ratzinger tomou posições bem claras contra os "males" do Racionalismo moderno, nomeadamente contra o Relativismo, e como se vê pelas citações referidas nos comentários mais ali para cima, acho que há razões para os cientístas se preocuparem. Mas ainda vamos ter que esperar para ver.
Publicado por: Zèd às setembro 29, 2006 09:11 PM
Caro Santiago,
No Zohar pode-se ler:
´Os relatos da Doutrina não são mais do que a sua vestimenta. O ignorante considera apenas a roupagem exterior, isto é, os relatos da Doutrina; e nada mais percebe. O erudito, porém, não vê só a vestimenta, mas também o que ela encobre.' Zohar (III, 152; Franck,119.)
Qual é hoje a Doutrina vigente? Ciência ou Religião? Depende dos assuntos versados. A religião impera como Doutrina vigente apenas quando a razão está encoberta. As doutrinas da evolução do homem são disso um bom exemplo. Hoje, já nem a própria igreja católica acredita na sua doutrina da origem do homem. A Ciência é a Doutrina da razão, que constroi bem fundo os seus alicerces. A Religião é a Doutrina da fé na razão de alguém (Deus). A Doutrina da Fé e da Razão são incompatíveis, à medida que uma é construída outra é destruída! É esta disputa entre Doutrinas que Ratzinger teme e deseja travar! Pois, os cientistas questionam as suas 'vestes' e esta teme de morte a sua anunciada nudez!
Outra coisa completamente diferente é a dicotomia entre Agnósticismo e Gnosticimo.
Para ambos o exterior é resultante do fenómeno. Mas discordam quanto à natureza do fenómeno, sendo esta aleatória para os agnósticos, ou oriunda do pensamento para os gnósticos. Para ambos não há verdades eternas e absolutas (Doutrinas). No entanto, os primeiros acreditam que é o caos que nos governa, enquanto os outros preferem acreditar que tudo é movimento que tende para a ordem. Os primeiros não acreditam em Deus, os segundos acreditam que Deus se manifesta em todas as coisas.
Há cientistas gnósticos e agnósticos. Einstein foi um grande exemplo de um cientista gnóstico, tal como ficou expresso na sua celébre frase 'Deus não joga aos dados'.
De Agnóstico a Gnóstico é só um saltinho! Um saltinho que pode trazer a beleza, a harmonia...
Publicado por: Poimandro às setembro 30, 2006 12:39 AM