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setembro 14, 2006

Debates sem graça

Meaning of Life.jpgO João Miranda, no seu jeito habitual, decidiu desafiar o pessoal para um debate entre criacionismo e evolucionismo. O desafio é apresentado ao estilo Monthy Python com um texto que me fez lembrar a fala final de The Meaning of Life. Cito:

Finally, here are some completely gratuitous pictures of penises to annoy the censors and to hopefully spark some sort of controversy, which, it seems, is the only way, these days, to get the jaded, video-sated public off their fucking arses and back in the sodding cinema.

(Fim de citação. Remeto para outros web sites os amáveis leitores em busca das tais ilustrações)

O post é enfeitado com três "ilustrações gratuitas":

1. Não se deve chamar ignorante ao adversário por muito que ele pareça ignorante

E "demonstra" que Jónatas Machado não é um "ignorante científico" (como foi acusado por Paulo Gama Mota) com um review dele a um livro (à venda na Amazon) chamado Genetic Entropy & the Mistery of the Genome. Da leitura desse review extraí uma conclusão diametralmente oposta à do João Miranda, mas confesso que, tal como um amigo meu, me sinto derrotado por K.O. técnico em face do tipo de argumentação que o Dr. J Machado utiliza.
Leiam o review e tirem as vossa próprias conclusões.

2. Deve-se perceber o que o adversário diz antes de lhe responder

Não vou discutir a "profundidade" da frase. Note-se que ela serve para argumentar que as "ciências históricas requerem uma teoria metafísica sobre o tempo", interrrogando-se depois o João Miranda como é que Paulo Gama da Mota prova que o tempo existe.
Não é problema que me tire o sono (nem ao P G da Mota, quero crer), mas sempre acrescento que Ciência é uma actividade que procura explicar o mundo natural por causas naturais. Invocar nesta discussão "metafísicas" (sobre o tempo, sobre o espaço ou até sobre o comportamento da vizinha do 5° esquerdo) é fugir daquela parte que diz "causas naturais", para desviar a conversa para o campo da controvérsia estéril, onde o João Miranda se sente bem. Se ele quiser discutir ciência com cientistas não devia puxar a conversa para fora do mundo natural e das causas naturais.
Afinal, os Monthy Python não precisaram para nada de "ilustrações gratuitas de pénis" para levar o pessoal a ver o filme deles. O João Miranda é bom que chegue no campo mencionado e também não devia precisar delas.

3. É um erro pensar que se pode ensinar ciência sem ensinar filosofia

Esta frase é mais uma "ilustração gratuita": Expressa uma opinião, respeitável sem dúvida, mas não mais que uma opinião. Fica essa opinião a carecer de uma definição do que entende o João Miranda por "filosofia". Eu, que sou cientista, digo-lhe de caras exactamente o oposto: "É um erro pensar que é preciso ensinar filosofia para ensinar ciência".

Se os problemas do João Miranda são a "metafísica" [da] "existência de uma realidade independente do observador", [a metafísica da] "existência de espaço" e [a metafísica da] "existência de um tempo que se prolonga até a um passado remoto" então não é ciência que ele quer discutir. O que ele quer é desviar a conversa para fora do campo das "coisas naturais" (ie: das coisas observáveis, mensuráveis, pesáveis e quantificáveis) para os chamados terrenos do blah, blah. Muito poucos cientistas o acompanharão nessas paragens.


Não debato nenhuma dessas "gratuitous pictures", sobretudo com o João Miranda. Sugiro um debate diferente, centrado nas duas proposições seguintes:

1) Não existe uma "ciência da metafísica", nem sequer uma "metafísica da ciência". Todas as Ciências são "ciências físicas".
É possível que, no fim de contas, o mundo natural não possa ser explicado unicamente por "causas naturais" e por isso os cientistas deviam ser agnósticos. É importante notar que a consequência lógica do "postulado fundamental" da actividade científica não é a metafísica de pacotilha, mas sim o aprofundamento da investigação científica sobre as causas naturais dos fenómenos naturais...

2) A Teoria da Evolução (chamemos-lhe assim) é um péssimo exemplo da necessidade de invocar "forças sobrenaturais" para explicar o mundo em que vivemos. Usar um fenómeno que podemos explicar inteiramente pela acção de "causas naturais", como evidência da operação de "forças sobrenaturais" é absurdo.
A Segunda Lei da Termodinâmica é bem mais sugestiva da intervenção de "Entidades Superiores" nos nossos "current affairs". Não seria mais inteligente debater essa "metafísica", e deixar o pobre do Darwin em paz?

Publicado por Santiago às setembro 14, 2006 03:34 PM

Comentários

Exacto. Excelente post.

Publicado por: Lowlander às setembro 14, 2006 07:06 PM

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