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agosto 17, 2006

Visualmente a Comunicar Ciência

Seguindo a tendência deste Verão, hoje trago-vos mais uma convidada. Diana Marques é uma excelente ilustradora científica freelancer e bióloga formada em Portugal e nos Estados Unidos, com experiência de trabalho em comunicação visual de ciência para o público em geral e para a comunidade científica. Divide actualmente o seu tempo entre os Estados Unidos e Portugal, colaborando frequentemente com o museu de história natural do Smithsonian em Washington e trabalhando com clientes nos dois paises. A primeira edição do Workshop de Introdução à Ilustração Científica Digital, o primeiro do género em Portugal, esteve a seu cargo e ocorreu na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa através do Centro de Investigação e Estudos de Anatomia e Ilustração Científica entre Março-Maio deste ano. Esperamos poder contar com futuros posts da Diana. SJA

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Alguma vez ouviram dizer que comunicar ciência é fácil? A favor dos comunicadores está sem dúvida a originalidade e o desconhecimento em geral dos temas por parte da audiência; mas contra, está tudo o resto: a complexidade, a linguagem específica, os mecanismos abstractos, os conceitos difíceis de transmitir e não observáveis...

Foi da necessidade de comunicar ciência e da inerente dificuldade em fazê-lo que nasceu a Ilustração Científica—a Arte ao serviço da Ciência*.

As ilustrações científicas podem ser (e muitas vezes são) obras de arte. Mas a sua finalidade primária e razão de existência é bastante mais prática: comunicar ciência visualmente, auxiliando ou substituindo as palavras escritas e orais, para o público em geral e para a comunidade científica.

São as ilustrações que expõem o que as máquinas fotográficas nunca conseguiram ver, nos livros de Biologia Celular como funcionam os receptores das membranas e nos de Geologia o interior da Terra, para não falar das ilustrações do espaço remoto ou do fundo dos oceanos; são os painéis nas paredes dos museus que nos desvendam a aparência dos dinossauros em vida e as imagens dos artigos científicos os aspectos taxonómicos de novas espécies; são os sites interactivos e as animações que cada vez mais cativam e instruem crianças e adultos sobre o mundo da ciência.

Mas a eficácia de uma ilustração científica não resulta apenas de revelar o que de outro modo não seria observável. Na verdade, cada ilustração é a consequência de um estudo estratégico: tendo em conta a audiência, o conteúdo informativo e o suporte final da mensagem, o ilustrador edita a informação que recolheu de muitas e diferentes fontes e cria uma imagem cientificamente rigorosa, clara e apelativa, que é fácil e eficazmente assimilada.

Será que não existe alguma subjectividade no processo de edição da informação? Sim, com certeza. Por isso é que um ilustrador científico profissional tem uma preparação académica cientifica e artística e trabalha, de um modo geral, em contacto próximo com cientistas. A preocupação primária é o rigor científico, os aspectos estéticos são cuidadosamente tidos em conta de modo a não interferir com o conteúdo e apenas melhorar a sua transmissão.

Em Portugal a ilustração científica já deu os seus primeiros passos e não é arriscado dizer que há algum reconhecimento da sua existência. Workshops e cursos de ilustração científica de técnicas tradicionais e agora também de técnicas digitais ocorrem periodicamente e cada vez mais existe interesse em contar com o trabalho dos ilustradores para a valorização e capacitação da comunicação científica.No entanto, a falta de informação e ideias pré-concebidas sobre o seu uso, custos e aplicações, continuam a interferir com o papel importante que a ilustração científica pode desempenhar.

Um pouco por todo o mundo, institutos de ciência, museus, editoras e media contam com os serviços permanentes ou periódicos de ilustradores científicos e estudantes e cientistas são habilitados durante a sua formação a comunicar melhor visualmente. Como em várias outras situações, temos de olhar para fora das nossas fronteiras e seguir os exemplos de sucesso, procurar optimizar os nossos recursos para melhorar a eficácia dos nossos projectos.

Da parte dos ilustradores os esforços de sensibilização e divulgação vão com certeza continuar e vocês, da próxima vez que jocosamente vos perguntarem “queres que te faça um desenho?”, já sabem o que hão de responder... “Sim!”

Texto e ilustração de Diana Marques (*alguns dos conceitos usados foram extraídos do livro “The Guild Handbook of Scientific Illustration”, editado por Elaine Hodges, John Wiley and Sons, 2003)

Publicado por SJA às agosto 17, 2006 08:23 AM

Comentários

Parabéns pelo mosquito!
Ninguém pode duvidar da eficácia da ilustração para o entendimento de um modelo, hipótese ou conceito.
Além disso, com contribuições mais assíduas de ilustradores como a Diana Marques o Conta ganha outra (muito melhor) cara.
Não comparto, contudo, duas opiniões neste post.

Uma refere-se à extensão da qualidade "Obra de Arte" à ilustração científica. A ilustração científica é ilustração científica, se me é permitida a imitação do sujeito de La Palisse. Usa elementos artísticos (como o título do livro de Elaine Hodges indica) mas não deve ser classificada como Obra de Arte. Haveria porém que discutir com maior detalhe (sem menoscabo dos nossos minutos contados) a natureza da Obra de Arte, a sua finalidade primária e razão de existência e o que pretende a autora debater com o complemento circunstancial que define a tal natureza (ou seja, com o significado da expressão ...muitas vezes).
Exemplificando com a pintura: a Obra de Arte está mais em função da beleza no direito, que da matéria inteligível (ou significante) no avesso de uma tela. Aquela é normalmente gratuita (descontando, claro, as sociedades fascizantes que cobram dinheiro a quem quer entrar no museu ou, pior ainda, que permitem à arte ser escondida nos bunkers dos ricos) enquanto que esta custa perseverança e propinas na escola e universidade. Não excluo que tanto uma pessoa sem a quarta classe como um burguês intelectual possam sentir-se bem ao lado de uma ilustração de dinossauros. Mas se esta pretende ser uma ilustração científica, tem por objectivo reunir visualmente dados recolhidos pelo rigor de uma ciência, não ser bonita ou feia. A mistura dos bugalhos seria indigesta tanto para um campo como para o outro. Na minha opinião, a Arte comprometeria a objectividade da Ciência e, ao mesmo tempo, restaria menos "limpa" com a sua "matéria fria". Concordo muito mais com outros qualificativos para a ilustração científica, oferecidos pela Diana: clara e apelativa, que é fácil e eficazmente assimilada.

No entanto, outra discórdia vive nessa mesma frase: o ilustrador [...] cria uma imagem cientificamente rigorosa. Embora seja o rigor o principal instrumento da descoberta científica, nada há de definitivo entre as "verdades" da Ciência (se queremos realmente ser, enfim, rigorosos). Mais, se as ilustrações, como se diz no texto, expõem o que as máquinas fotográficas nunca conseguiram ver, não podem senão manifestar visualmente uma hipótese. Os receptores da membrana disso são exemplo: porque nunca ninguém os viu, a sua ilustração no livro de Biologia Celular é mais uma sombra na caverna do Platão. Aliás disto culpo um pouco os comunicadores científicos (embora ache a acusação pouco grave e o "crime" quiçá até necessário): o de dar aos nossos olhos uma ideia demasiado “macroscópica” do que é molecular. Por vezes a experiência quotidiana é excessiva nas alegorias para entender o "quântico" que talvez reja cada célula. Refiro-me aqui aos braços mecânicos, aos vagões sobre carris, às "pilhas" ou "moedas" de ATP, etc...

Publicado por: VB às agosto 17, 2006 05:00 PM

Obrigada pelo comentário VB, alguns argumentos que, espero, esclarecedores:

1) Uma Ilustração Científica pode ser considerada uma Obra de Arte por ser a criação de um artista que recorre aos seus conhecimentos estéticos e sensibilidade para comunicar uma mensagem. “Muitas vezes...” a categoria de obra de arte é atribuída a uma ilustração por parte da audiência que, ao ser suscitada por uma reacção visual forte, a coloca lado a lado com o que mais vulgarmente se considera uma obra de arte, como no exemplo da pintura em museus. Isto é evidente aquando da realização de exposições de ilustração científica—situações em que obras inicialmente produzidas para serem reproduzidas, impressas, integradas em publicações científicas ou outros fins, servem simultaneamente o mesmo propósito de uma exposição de desenho ou pintura numa galeria.
As diferenças que se levantam entre a ilustração científica e o mais tradicionalmente chamado obra de arte não são a “beleza” nem o “custo”, mas sim o facto de que a mensagem do artista/ilustrador científico não é uma mensagem pessoal mas uma mensagem ditada pelo conhecimento científico e de que existem regras e convenções que têm de ser respeitadas durante o processo criativo (embora estes pontos dependam certamente do período da história da arte que temos em conta). Estas regras, a preparação profissional dos ilustradores e o seu trabalho em proximidade com os cientistas previnem que “a arte comprometa a ciência”.

2) Se pusermos em causa a ciência vamos naturalmente pôr em causa tudo o que lhe está relacionado, incluindo a ilustração científica. Esta, entre outras coisas, encarrega-se de mostrar aquilo em que a comunidade científica acredita, aquilo que a comunidade científica nunca viu mas consegue descrever o funcionamento, o aspecto, os mecanismos, baseando-se na análise de dados experimentais. A ilustração é cientificamente rigorosa porque rigorosamente representa aquilo em que a ciência acredita.

Publicado por: Diana Marques às agosto 18, 2006 04:34 AM

Diana,

acho que já percebi. Eu pensava que a Arte só existia no campo da subjectividade criada pelo tom pessoal da mensagem do criador. Se continuasses a contribuir com os teus trabalhos (ou de outros), poderíamos chegar ao ponto de produzir aqui não uma série de posts mas um portfólio de ilustrações científicas. Como notas, o que até agora mais se aproxima a isso é a Montra Natura (a Ilustração, pelo que se vê estaria melhor categorizada de Cartoon), feita de imagens reais com algo de agradável a mais do que um par de olhos.

Outro aspecto da ilustração científica que demonstra a preocupação crescente do público restrito, leitor de revistas de ciência, é o recurso de um número cada vez maior de periódicos a uma capa ilustrada. Para mim passou a ser mais agradável procurar artigos na Genetics, na Developmental Biology ou na FEBS Letters. Por outro lado, sinto que aqui começam também algumas extravagâncias, relativismos, o bonito, o feio ou o concurso às maiores audiências usando temas mais relacionados com o ser que com a matéria. Penso por exemplo no foto da coreografia de anõezinhos fantasiados de Morte, na capa de um número que tratava de small RNAs e apoptose...

A representação visual (artística) do conhecimento poderia assim tornar-se instrumento para uma espécie de extensão dos títulos (diz que) "humorísticos" que há décadas encimam quase todos os artigos de revisão. Era neste sentido que assinalava o perigo de, com um único golpe, vulgarizar a arte e a ciência. Sinceramente sinto muito mais pena por aquela que por esta.
Pode ser que tudo isto se deva a uma inevitável tendência dos humanos à distracção, ao entretenimento ou ao uso deste para disfarçar uma imagem mais "ontológica" de nerd patético. Mas também é possível se trate de algo "corrigível" ou "redireccionável". Sobretudo tratando-se da divulgação científica ao Grande Público, este debate seria afinal semelhante ao (e talvez tão importante como o) da forma de comunicar dos mass media, afim de se evitar a "biguechoussicação" da Ciência (e da Arte).

Publicado por: VB às agosto 21, 2006 01:36 PM

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