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agosto 21, 2006
Ficção Natural: guevedoce.
Conta a lenda que perdida num oceano pouco distante havia uma ilha de gente invulgar, onde a pergunta Menina ou menino? raramente era feita à pertinaz gestante a respeito do seu embrião, mas ao(à) adolescente acerca de si próprio(a).
A culpa por tal dúvida de género provinha de uma herdada deficiência que intimidava o genótipo masculino por de trás do fenótipo oposto. Diz-se que a insuficiente produção de 5-alfa-reductase aplacava o primeiro pico de actividade da testosterona durante o desenvolvimento do macho humano. Só na adolescência viam os testículos a luz do dia, crescia desproporcionadamente o que antes se julgava clítoris, soava o soprano onde primeiro tinia o contralto e eriçava-se de penugem o que antes era "dermicamente" macio.
Naturalmente, a gente dessa ilha teria constituído uma Atlântida para os antropólogos. O conceito de comportamento desviante era necessariamente distinto do nosso. Nas festas de escola secundária, nada de dramas: ninguém era obrigado a dançar aos pares. O cor-de-rosa era considerada uma tonalidade do vermelho não apenas desprovida de nexo mas também de sexo. A primeira geração nunca fazia e (sobretudo!) impunha planos para o futuro da segunda. Cada pessoa possuía assim uma predisposição acentuada para o "normal absoluto", isto é, para a bissexualidade descomplexada.
Quanto de doença haverá afinal na insensibilidade a androgénios?
Publicado por VB às agosto 21, 2006 12:00 AM
Comentários
Excelente texto.
Publicado por: João Carvas às agosto 21, 2006 12:37 PM
"Vade ultra", "ad fruges", e agora também esta, "guevedoce", são fascinantes peças literárias de um gênero que eu antes não conhecia bem. Novas peças deste gênero sempre serão estudadas com assíduo! Valeu!
Publicado por: Thomas Schlemmermeyer às setembro 6, 2006 02:38 AM