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junho 06, 2006
Um evento não-científico
Na passada quarta-feira fui a um “Café Scientifique” em Cambridge, que era ao mesmo tempo, em evento “Naked Scientist”. Passo a explicar, do pouco que eu sei:
Os “Café Scientifique” existem em vários países (não em Portugal, pelo menos que eu saiba) e pretendem ser debates sobre questões científicas, em ambiente de café, com o público em geral. Aliás já estão a ver que é uma pena não haver em Portugal, com a sua cultura de café e a tradição das tertúlias, seria um sucesso. Porque em Cambridge teve que ser numa livraria, daquelas de cadeia, aberta até mais tarde só porque estava a vender livros dos convidados para o debate. O “Naked Scientist” é divulgação científica, que por esta altura faz-se sobretudo via um programa de rádio com bastante sucesso dirigido pelo Chris Smith. Isto sim, é específico de Cambridge. Portanto este evento era um encontro de café sobre ciência moderado pelo Chris Smith, com o tema “The Science of Happiness”. Até aqui muito prometedor.
O problema era que nem os convidados nem o público eram cientistas. Ou pelo menos era o que parecia – os únicos cientistas presentes pareciam ser eu e mais duas amigas, e o Chris Smith. O que por um lado até foi melhor, considerando que o primeiro convidado escreveu um livro com o principal objectivo de parar com a experimentação animal, usando como argumento que os animais também tem sentimentos. Não percebi muito bem porque é que não estavam lá mais dos milhentos cientistas que habitam Cambridge. Falta de divulgação? Falta de interesse? Ou será que já sabiam que isto não ia ser um evento para cientistas? Porque apesar do primeiro convidado intitular-se cientista, definitivamente não estava lá a falar como cientista, ele pôs isso logo claro. A segunda convidada era psicóloga, veio falar do seu livro “The Science of Well-Being” que pelo que eu percebi não era nada sobre Ciência, mas sim um daqueles livros de auto-ajuda. A audiência (cerca de 15 pessoas) estava lá ou para se ouvir, ou para ver se ficavam um pouco mais felizes. O Chris Smith inicialmente defendeu a experimentação em animais com alguns exemplos pouco aprofundados, e depois contentou-se em deixar aquilo prosseguir num tom não-científico, fazendo de vez em quando um comentário numa voz que deve resultar muito bem com um microfone de rádio à frente, mas que ao vivo não se ouvia muito bem.
Antes de ficarem a pensar que isto foi uma desgraça, não foi. Porque é muito melhor haver coisas deste género do que não haver nada. E é sempre fácil melhorar. Por isso, aqui fica lançado o desafio: porque não fazer um café científico (a sério) em Portugal?
Publicado por MM às junho 6, 2006 10:18 AM
Comentários
Maya, temo discordar. Um café scientifique não é uma reunião de cientistas. Um café scientifique é um espaço para discussão de temas científicos por públicos sem formação científica. Na mesa estarão alguns cientistas especialistas no tema a discutir e, claro, é sempre melhor se também há cientistas na audiência. Mas não é necessário.
Publicado por: SJA às junho 9, 2006 05:59 PM
Soltando as palavras, primeiro a Maya:
Bem, acho que o clima em Portugal talvez seja frio demais para se plantar um pé de café cientificamente? Mas talvez possa haver ciência também em torno do processamento e da estocagem dos grãos? Ou, quem sabe, na propria filtragem do extrato marrom, almejado? Finalmente, eu sempre lembro meus alunos que o café é praticamente a única droga popular e amplamente usada, que não caiu em desgraça. Pois quem hoje em dia fuma ou bebe em grande escala, já está quase "out" socialmente falando, nem por falar nas drogas ilegais. Mas a cafeina, sem dúvida nenhuma, é uma droga que atua sobre o sistema fisiológico, e a qual nunca caiu em forte desprezo. Me parece (me lembro vagamente de já ter lido algo sobre, sem agora saber os detalhes) que cafeina evite a decomposição de um segundo mensageiro (AMP ciclico?), este emitido em consequencia da Adrenalina? Mas eu não posso agora afirmar isso com certeza. Agora, essa coisa de tomar café num lugar, encontrar-se, para debater etc., é coisa de Sartre e Beauvoir, não é, pode acabar num café filosofico, em vez de científico? E Friedrich Nietzsche disse (espero que me lembre corretamente) que homens precisam andar nas montanhas para se tornarem bonzinhos, ou seja, só tomar café, sem nenhum passeio associado, talvez seja um pouco improdutivo?
Depois a Sofia Jorge Araujo:
Discussão de temas científicos por públicos sem formação científica, pode, mas não deve, incluir também cientistas de outros ramos, uma vez que a fragmentação do conhecimento tenha como resultado que um cientista da física, por exemplo, não tenha bases científicos para debater o melhoramento genético, digamos, de arroz? Ou seja, trata-se da comunicação de cientistas com públicos não-científicos, ou seria mais correto afirmar que se trate da comunicação de especialistas para públicos não-especializados?
Publicado por: Thomas Schlemmermeyer às junho 9, 2006 09:57 PM
Thomas (ainda por Portugal?), eu diria mais comunicação COM (em vez de para) públicos não especializados. A ideia dos cafés scientifique, é a de ter especialistas sobre o tema a discutir na mesa (do café). Donde, um café scientifique sobre melhoramento genético contaria com cientistas que de algum modo fizessem investigação sobre melhoramento genético. O Físico de particulas poderia lá estar, mas mais numa categoria mais de audiência que de especialista.
Publicado por: SJA às junho 10, 2006 12:35 PM
Sim Sofia, ainda estou em Portugal, até amanha, estou em Lisboa hoje e amanha talvez também, na Quinta vou embora! Estive naquela exposição sobre fisica e Einstein em Coimbra (ela fora mencionada no evento em Oeiras). Achei legal que lá fizeram uma mistura entre vivências pessoais com os diversos objetos e assuntos da exposição, e ao mesmo tempo acompanharam os visitantes, abrindo assim uma comunicação direta sobre os conteudos da exposição. E ao mesmo tempo houve meios audiovisuais (filmes) que detalharam alguns assuntos. Ficou muito interessante!
Publicado por: Thomas Schlemmermeyer às junho 13, 2006 02:51 PM
parabéns pelo blog . valeu...
Publicado por: criação às junho 15, 2006 12:23 AM