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maio 17, 2006

Tecnologia não é Ciência

Wolpert.jpg

Entendo que "Ciência" e "Tecnologia" são actividades fundamentalmente diferentes, apesar de intimamente relacionadas. São ambas essenciais para o progresso, claro, e é por isso importante que as políticas públicas promovam o desenvolvimento tanto de uma como da outra...

Não devemos no entanto confundi-las. Elas diferem nas suas origens civilizacionais, nos seus objectivos, nos seus métodos de actuação e, sobretudo, nos critérios de avaliação do sucesso. Perceber essas diferenças é crucial para poder desenhar políticas correctas de apoio a cada uma delas.

Num capítulo de um livro de que tenho falado muito, Lewis Wolpert discute, com algum humor, as distinções essenciais entre Ciência e Tecnologia. Esse capítulo ("Technology is not Science") está disponível na nossa Hemeroteca em 5 partes, com 2 páginas cada uma (800-900 KB cada).

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Nesse capítulo Wolpert fala do seu Teorema dos Cinco Minutos ("if a structure was built and remained standing for five minutes after the supports had been removed, it was assumed it would stand up forever"). Se 5 minutos bastam, então Mestre Afonso Domingues deve ter tido outras razões para ficar tantos dias debaixo daquela abóbada...

Publicado por Santiago às maio 17, 2006 01:35 PM

Comentários

Isto faz-me lembrar as dicussões de Karl Popper sobre o significado da verdade. Ele punha muita enfase no facto de a verdade não poder (ou pelo menos não dever) ter um valor instrumental. [Com esta referência a Karl Popper já deve haver para aí gente e perguntar-se se eu não estarei com problemas fisiológicos ...]

Mas dizia eu ... Gosto de concordar com o Karl Popper, mas suspeito que a realidade geralmente é um pouquinho diferente, não sei porquê ... Eu estou a dizer isto, mas acreditem que é mesmo para discordarem.

Eu tenho uma t-shirt que tem escritos uns versos gregos (no grego original): "Não sei nada, nada tenho, sou livre.". As pessoas quando me encontram com aquela coisa vestida peguntam sempre "O que é que essas letras gregas significam?" eu lá lhes digo acrescentando com alguma ironia "Três mentirolas".

O problema é quando deixam de ser mentirolas ... quando perdem o valor instrumental ...

Publicado por: Luis Oliveira às maio 17, 2006 10:46 PM

Luís:
Não sei se percebi bem o alcance do comentário (que me pareceu "A riddle wrapped in a mystery inside an enigma"), talvez porque embirro um pouco com o Dear Sir Karl... seja como for, gosto de pensar que existe uma "verdade científica" absoluta: Não sou relativista.

Quando me falam filosofias gregas recordo-me logo dos Monthy Pyton:

Yes Socrates himself is particularly missed...
A lovely little thinker,
but a bugger when he's pissed!

Publicado por: Santiago às maio 18, 2006 12:13 PM

Santiago:

"A riddle wrapped in a mystery inside an enigma".
Tens razão.

Quanto ao relativismo, concordo que deve ser evitado sim senhor (e a minha experiência nesta matéria também é muito rica, provavelmente rica demais).

Sócrates? Mas quem é que falou no Sócrates? Tu já pareces o JPG. Deves estar a falar no nosso primeiro é o que é ...

Mas tu vê lá quando apanhares o "Sócrates" (seja lá ele quem for) no estado "pissed off", não lhe dês mais trela do que o gajo merece ...

Um abraço

Publicado por: Luis Oliveira às maio 18, 2006 01:14 PM

Surpreende-me que ninguém tenha usado a Philosopher's Song para descrever o estado da governação... já ninguém conhece os clássicos, é o que é...

Publicado por: Santiago às maio 18, 2006 01:39 PM

Santiago:

O tipo que eu gosto mais é aquele que protestou contra as legiões romanas que marcharam sobre os desenhos dele na areia. Acho que era o Aristóteles.

Quanto ao Estado da governação Santiago, hoje estás com azar, hoje não me apetece mesmo nada sujar as mãos na questão dos partidos. Não estou para me massar.

Publicado por: Luis Oliveira às maio 18, 2006 01:48 PM

Lapidar! Entre nós, ministros incluídos, há muita gente que não saber separar as águas. Pior, acham que ciência só vale se for tecnologia à mistura.

Publicado por: JVC às maio 18, 2006 02:33 PM

Lapidar! Entre nós, ministros incluídos, há muita gente que não sabe separar as águas. Pior, acham que ciência só vale se for tecnologia à mistura.

Publicado por: JVC às maio 18, 2006 02:36 PM

Santiago:

E que tal um dicionário?... Não é tudo, mas às vezes ajuda:

ciência - conhecimento rigoroso e racional de qualquer assunto; conjunto organizado de conhecimentos baseados em relações objectivas verificáveis e dotados de valor universal;

tecnologia - teoria geral e estudos especializados sobre os procedimentos, instrumentos e objectos próprios de qualquer técnica, arte ou ofício;

A de tecnologia parece-me bem. A de ciência é um bocado vaga, mas também o conceito de ciência é mais amplo. A questão aqui será saber se é suficientemente amplo para incluir a tecnologia... O teu "intimamente relacionadas", tendo em conta o contexto, deixa antever uma simples relação de dependência e não de parceria. A tecnologia será, então, uma mera aplicação da ciência e não uma ciência aplicada?... Ou será que as ciências aplicadas também não são ciências?...Eu não vejo qual o probema em que seja tudo ciência, desde que respeite o tal do conhecimento rigoroso, racional e objectivo. Isso não se passa assim com as tecnologias?...Não há produção de conhecimento?...Ou essa produção não é rigorosa?...O que faz, então, a tecnologia?...

Luis:

[Sim, sou eu!] O tipo dos desenhos era Arquimedes.

Publicado por: cristina às maio 19, 2006 12:21 AM

cristina:

A definição que dei no outro post parece-me melhor... sem menosprezo para com o pessoal da Priberam parece-me que os americanos do "Lexico Publishing Group, LLC" sabem mais do assunto "tecnologia"... tecnologia é "aplicação de ciência" e por isso não é ciência... o problema de usar a expressão "ciência aplicada" é depois ficar a pensar que tecnologia nada mais é do que isso... mais grave ainda é haver quem fique a pensar que apoiar "ciência aplicada" é apoiar ciência...

Quero chamar a atenção para a diferença entre "produção de conhecimento" e a "aplicação do conhecimento produzido". Perceber essa diferença é muito importante para debates sobre a ética, por exmplo, mas também para decidir onde investir dinheiro, quanto, etc.

Como diz o Wolpert, a Tecnologia surgiu muito cedo durante a evolução da espécie humana e, é importante notar, em todas (ou quase todas) as civilizações conhecidas. O progresso que a tecnologia sofreu antes de ter input cientifico (isto é: Antes de passar a ser uma mera "ciência aplicada") foi verdadeiramente notável (muito maior do que o que a ciência conheceu antes de beneficiar do progresso tecnológico que entretanto tinha ocorrido...). Isto só é importante para dizer que, estando estas actividades inter-dependentes, talvez a ciência dependa mais da tecnologia do que o contrário...

Não percebo porque é que "exiges" que eu use a palavra parceria (em vez de dependência), mas estou pronto a aceitar que ambas têm cabimento...

Depois de tudo o que já disse, dos elogios que fiz à tecnologia e confessando que não acho que "ser cientista" confira um estatuto superior ao dos "tecnologistas", não percebi também essa distinção que fazes entre "mera aplicação da ciência" e "ciência aplicada". Como deveria eu interpretar a tua frase se a tivesses escrito ao contrário (eg: "A tecnologia será, então, uma aplicação da ciência e não uma mera ciência aplicada?...)

Publicado por: Santiago às maio 19, 2006 12:04 PM

(O pessoal da Priberam estava mais à mão... e eu tinha concordado com a definição dada de tecnologia).

"Parceria" em vez de "dependência", no sentido em que a dependência seria unilateral: a ciência produz e a tecnologia aplica. A partir do momento em que a "dependência" é "inter-dependência" a distinção deixa de fazer sentido.

O meu "mera aplicação da ciência" tem por trás uma suposição de que esta parte seria consensual: a tecnologia aplica conhecimento produzido. O que estaria em causa seria a parte da produção... Portanto, na tal frase a ordem das palavras não foi arbitrária. Mas, pelos vistos, a suposição pode não ser assim tão unânime...

Fiquei sem perceber se consideras que, hoje, a tecnologia produz conhecimento...

Publicado por: cristina às maio 19, 2006 01:44 PM

Sem dúvida! A tecnologia também produz conhecimento. Para dar só um exmplo que toda a gente conhece, toda a história da agricultura levou à acumulação de uma gigantesca quantidade de conhecimento...

No entanto, por não ser essa a sua "raison d'être", o julgamento sobre o "sucesso" de uma dado projecto tecnológico (ao contrário do que se passa com um projecto científico) não depende dessa "produção". Daí sucede, na minha opinião, que as estratégias devem ser diferentes num caso e noutro.

Acho que um problema que tem andado a contaminar toda a discussão sobre as diferenças entre ciência e tecnologia é a percepção (totalmente errada e até injusta) que "ciência" é de certa forma uma maneira "superior" de contribuir para o progresso e para a aquisição de conhecimentos.

Se calhar ainda hei-de fazer um post sobre isso... desta vez a embirrar com os cientistas que têm a mania que são superiores, esquecendo-se da famosa (e certeira) observação do Jim Watson:

"One could not be a successful scientist without realizing that, in contrast to the popular conception supported by newspapers and mothers of scientists, a goodly number of scientists are not only narrow-minded and dull, but also just stupid"

Publicado por: Santiago às maio 19, 2006 04:02 PM

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