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maio 04, 2006

Fórum Novas Ciências - Manuel Sobrinho Simões

SSimoes.jpgSem querer dar a impressão de andar "a reboque" da Ciência HOJE, considero muito positiva e digna de comentário a compilação de transcrições dos discursos proferidos durante o Fórum Novas Fronteiras. Venho pois, por este meio, discordar com o que li da intervenção de Sobrinho Simões.

As constatações feitas pelo director do IPATIMUP acerca do Ensino Português são argutas e pertinentes, embora não me pareça que haja alguém a quem não se tenham afigurado óbvias. É como viver no Portugal de 1984 e proclamar solenemente a descoberta de que as estradas do país estão repletas de buracos. Ao que não dou apreço no discurso é o modo paternalista com que se inicia. Independentemente da diversidade académica do público daquele fórum, Sobrinho Simões denota uma certa falta de pontaria ao tentar identificar os reais interesses de quem exerce a sua investigação no domínio das "Ciências da Vida". Eu (e muitos outros cientistas, jovens e "idosos") não reconheço como fim último desta vocação o "...ser capaz de fazer vida". Nem creio ser realmente esta "...a última fronteira das nossas Ciências". De um ponto de vista pragmático, o que queremos mesmo é publicar muito para poder obter o financiamento necessário à continuação da investigação. O nosso interesse é apenas parcialmente regido pelo que de facto nos dá gozo descobrir. A força que orienta a nossa mão durante um determinado procedimento experimental é pouco "romântica" e muito associada ao que é "moda" ou "quente" na mente dos editores da Cell. Tampouco é possível negar que muitos investigadores exercem por falta de outro remédio.

Como geneticista, também entristeço-me (isto é, não rio) com o frequente recurso, por parte de Sobrinho Simões, ao que "tem graça" ou "piada" neste ramo (ou, na verdade, em qualquer outro) da Biologia. Creio que a intenção de referir aqueles três exemplos de sucesso conseguido por geneticistas portugueses era a de estimular a audiência a aceitar a importância do nosso trabalho. A presença do poder PS na sala exigia uma certa "venda de peixe". Porém, não obstante a benignidade da essência, a forma apresentou-se nociva. Para lá da introdução em formato "Avô-Cantigas-vai-ao-jardim-de-infância", cada um dos exemplos tem um porte inconsequente. O significado real da descoberta da homologia entre H. sapiens e D. rerio para o "gene das riscas" deste último, passa incógnito e NÃO É HUMILHANTE. Além disso, óptimos geneticistas "...como a Luísa Mota Vieira", não devem ter encontrado a sua força motriz científica no paralelismo entre a Nokia e o riso do Primeiro Ministro. A menos, é claro, que adorem a adulação recíproca (o que, de resto, não é incomum).

Por outro lado, a mobilidade como arma de combate ao inbreeding nem sempre significa que é saudável o realce sistemático de "... jovens que fazem trajectórias super-rápidas". Não digo isto como lamento pelo crescimento (igualmente rápido) da minha calvície, mas porque com tal política os "óptimos cientistas" que investem fortemente o seu capital de "tempo" em bons mas arriscados projectos, seriam injustamente punidos. Em que estado encontraríamos a Genética moderna se Gregor Mendel tivesse achado demasiado o tempo de geração de uma ervilheira?

Repetindo-me: é certo que a crítica de Sobrinho Simões tecida ao nosso sistema de ensino foi imprescindível (como toda a crítica deveria ser). A projecção de um "sistema científico" capaz de accionar mudanças fundamentais ao nível da academia tem um considerável valor (dado aquele não estar já irremediavelmente apodrecido com os males desta). Do mesmo modo, é necessária a desdramatização pública do objecto dos cientistas ditos "... da vida". Mas também é importante a aproximação correcta do protagonista ao espectador (e usando as mesmas figuras de estilo do orador), como a do futebolista aos seus fãs ou a do político ao eleitorado. Da minha nebulosa identidade ouso sugerir a Sobrinho Simões que redimensione a sua propaganda em prol da Genética e que visite, ao menos por um instante, o colóquio do próximo 3 de Junho, organizado pela associação Viver a Ciência.

Publicado por VB às maio 4, 2006 04:07 PM

Comentários

Sem discordar do texto parece-me que foste demasiado critico do "Avô Cantigas"... talvez as expectativas que ele tinha à entrada do encontro não fossem iguais às dos outros oradores... cada um tem o seu estilo e o dele, com todas as criticas que se lhe podem fazer, acaba por ser eficaz...

Estas transcrições que o Ciência Hoje está a fazer dão pano para mangas e são capazes de provocar muitos posts aqui no Conta. Para a semana hei-de falar da intervenção do Hélder. Foi fracota (ele que me perdõe), mas deixou uma ou duas ideias interessantes e que me merecem comentários...

Publicado por: Santiago às maio 4, 2006 10:36 PM

Talvez tenhas razão. Aborrece-me, no entanto, que tenhamos que ser tão "espertos" para vender o nosso projecto aos da Human Frontiers e depois ver um tão bom cientista apresentar tão pobremente o que de bom se faz em Genética. Portanto, retirarei a expressão "meninos com síndroma de Down" do texto.

Publicado por: VB às maio 4, 2006 10:59 PM

Concordo com o Santiago: a intervencao do Manuel Sobrinho Simoes foi util e apesar de ja ter ouvido melhores exemplos aqui em inglaterra de investigacao genetica para dar a nao-cientistas, a verdade e que em Portugal esta tradicao esta a comecar. Melhor do que nada, portanto...
Folgo tambem em saber que o Forum esta-se a tornar uma especie de 'sleeper hit', bem merece. Para quem esteve la, houve a sensacao palpavel de que algo estava a mudar para melhor. Quantas mais discussoes houver sobre as intervencoes, melhor.

Publicado por: Maya às maio 5, 2006 12:10 PM

Meu caro VB: quando eu tiver de andar a reboque do Conta Natura fá-lo-ei com todo o gosto. Os únicos reboques que me chateiam - embora necessários - são os do tipo Automóvel Club de Portugal. Houve um que até me robocou o carro depois de um estúpido acidente a caminho da Régua por causa da má sinalização das estradas portuguesas.

No entanto, é meu dever avisá-lo que as intervenções também estão disponíveis no site do PS onde são colocadas depois de sairem no Ciência Hoje. Pode ser um reboque mais interessante, não sei. O que acontece é que o Ciência Hoje, embora on-line, é um jornal que publica notícias de ciência e é, por acaso, o único que tem estas intervenções em seu poder. Achei por bem dar a conhecê-las, sobretudo por terem sido feitas por cientistas de craveira, uns mais velhos, outros mais novos, que aproveitaram uma oportunidade rara para poderem dizer ao Poder, na cara deste e em reunião pública onde estiveram mais de 600 pessoas, o que pensam ser importante.

Talvez por imodéstia eu creio que o Ciência Hoje não é assim tão mau que obrigue a que se diga não querer andar a reboque dele. Já agora, informo-o que faltam ainda as intervenções de José Sócrates, Mariano Gago, Alexandre Quintanilha (IBMC), Alcino Silva (UCLA), Tito Trindade (Universidade de Aveiro), Adelino Canário (Universidade do Algarve) e Fernando Lopes da Silva (Amesterdão, como julgo que todos sabem).

Espero que seja possível publicá-las todas, o que só depende das orrecções feitas pelos autores.

Depois, é só escolher o reboque!

Publicado por: Jorge Massada às maio 5, 2006 04:34 PM

Perderemos tempo prolongando o olhar
sobre a semasiologia do reboque, na primeira frase deste post. Por achar de considerável interesse a série compilada pelo Ciência HOJE (ler o que resta daquela mesma frase), considero que o Conta Natura poderia intercalar a sua "vida própria" com uma discussão alimentada pelo material fornecido naquele site. Caso não se trate de extrema susceptibilidade ao melindre ou simples má vontade em relação ao Conta, julgo admirável a energia e prontidão com que Jorge Massada defende o seu jornal. Ninguém com interesse no "que vai acontecendo" poderá queixar-se do LUXO de poder receber headlines diárias na sua caixa do correio electrónico. Mais, agradeço e espero com ansiedade as restantes transcrições.

Publicado por: VB às maio 5, 2006 06:51 PM

Touché! Nem melindre, nem má vontade, de qualquer forma. Penso que a discussão é interessantíssima e que não deveria ser o Ciência Hoje a promovê-la, tanto mais que grande parte dos oradores foi convidada por mim e não ficou combinado que as suas intervenções seriam debatidas no CH. Este (C N) é um fórum muito mais alargado e justifica o modelo seguido: intervenções curtas, quase todas de cinco minutos, muita gente nova. Isso possibilita, por exemplo, que a «gente» do Conta possa referir-se a intervenções muito diferenciadas. Pessoalmente, espero que a do prof. Fernando Lopes da Silva levante muitas questões.

Publicado por: Jorge Massada às maio 5, 2006 08:17 PM

Como é que é essa estória da "descoberta da homologia entre H. sapiens e D. rerio para o gene das riscas" cujo significado "passa incógnito"? Não estou sabendo, mas queria saber. Há algum artigo na internet? Melhores saudações evolutivas a todos!

OBS: Quanto ao estado das estradas, as piores condições possam reinar nos EUA, onde o perigo de um bicicletista ser atropelado é muitas, múltiplas vezes maior do que na Holanda!

Publicado por: Thomas Schlemmermeyer às maio 6, 2006 10:39 PM

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