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março 15, 2006
PsicoNeuroParalogias...
Informa-nos o inevitável Dr. Luís Portela, no Jornal de Notícias de hoje, que entre 29 de Março e 1 de Abril a Fundação Bial organizará o 6° Simposium Bial, este ano subordinado ao tema "Aquém e Além do Cérebro". Algumas sessões deste Simpósio ameaçam ser até interessantes, mas não tanto como a terceira, que terá como tema: "A relação entre a memória e os fenómenos parapsicológicos" (espero que esta sessão se realize a 1 de Abril - é o dia certo!).
Uma das conferencistas deste fascinante Simpósio é Caroline Watts, apresentada como "Professora de Parapsicologia" na Universidade de Edimburgo. Fui dar com o currículo desta, sem dúvida eminente, investigadora no website da Universidade e constatei que a Snra Watts tem vários artigos publicados no Journal of Parapsychology (e também um, com o intrigante título Tacit information in remote staring research: The Wiseman-Schlitz interviews, publicado numa coisa chamada Paranormal Review).
Adorava ler estes artigos, mas o Journal of Parapsychology não sente, obviamente, necessidade de ter um website. Já o pessoal do European Journal of Parapsychology, revelando alguma falta de fé na sua própria definição do que estudam (e.g.:"communication or interaction between organisms and their environment that do not appear to rely on the established sensorimotor channels") oferecem a Table of Contents aos que, como eu, são pouco dotados nestas artes telepáticas.
Alguém conseguirá transmitir-me, por qualquer meio, o artigo de Yung-Jong Shiah e Wai-Cheong Carl Tam com o título Do human fingers "see" ? - "Finger-reading" studies in the East and West? Prometo recompensar, por canais sensorimotores não estabelecidos, com uma grande quantidade de notas de 20 euros...
Publicado por Santiago às março 15, 2006 01:44 PM
Comentários
Pelo menos o título- "Aquém e Além do Cérebro"- é honesto. Confirma-se a natureza acéfala do encontro.
Publicado por: VMB às março 15, 2006 02:27 PM
Brilhante. É destas energias que fluem do ser que estamos cheios, muitas vezes sem energia para gargalhar!
Publicado por: Sofia Loureiro dos Santos às março 15, 2006 06:04 PM
Serve este comentário para dizer que discordo completamente do tom com que falam do encontro da Bial. A qualidade do simpósio é geralmente muito boa para quem se interessa por neurocìências cognitivas. Só no último encontro, a que assisti, estiveram presentes oradores como Patricia Churchland, Fernando Lopes da Silva, Stephen Kosslyn, Geraint Rees, Stanislas Dehaene. E isto só para mencionar os que me recordo neste momento. Todos estes são investigadores mundialmente respeitados e reconhecidos pelo seu trabalho. Conheço melhor a investigação dos dois últimos e garanto que publicam em todas as boas revistas de neurociências e também com alguma frequência na Nature e na Science.
Mas, além destes há os 'outros'! Talvez venha daqui o título (Aquém e Além do Cérebro), que aliás não corresponde só ao encontro deste ano, mas é o tema de todos os encontros da Bial. Os outros falam de coisas estranhíssimas, publicam em revistas desconhecidas, mas são no entanto muito aplaudidos quando acabam de falar. Foi pelo menos essa impressão que retive do último encontro. Mas este facto é mais relevante para formar opiniões acerca do público do que da conferência em si.
Mas garanto que os 'outros' costumam ser poucos (mas não vi o programa deste ano)... E como são tão pequenos em relação aos grandes podem ser facilmente ignorados. Porque, no geral, o encontro costuma valer muito a pena.
Publicado por: Lúcia Garrido às março 15, 2006 11:55 PM
Sim, de facto isto parece uma grande banha da cobra e há primeira vista dá vontade de rir. No entanto apesar dos titulos um pouco surrealistas, uma olhadela pelo trabalho feito por alguns dos nomes que citas no post mostra que o trabalho deles é cientifico e pode ser interessante (descontarmos as palavras ESP e parapsicologia). Vê por exemplo http://moebius.psy.ed.ac.uk/Bio_Hsia.php3 que fala do trabalho por detrás do paper "Do human fingers "see" ? ". Na verdade se procurares bem encontras online papers deste fulano sobre o tal "finger reading" ( http://sclee.ee.ntu.edu.tw/english/mind/humandoc/finger%20reading.pdf) Do mesmo autor chinês podes encontrar um proceeding online em http://m0134.fmg.uva.nl/research/PSI%20research/papers/45.pdf que prova que ele não é um crédulo parvinho do paranormal.
A mim o que me parece é que muitas vezes em neurociências quando se estão a estudar assuntos nas fronteiras do conhecimento e não se conseguem interpretar os factos com base em teorias cientificas fundamentadas (porque ainda não existem) é fácil resvalar para o uso de termos como ESP e paranormal. Há que dar um desconto e ser menos preconceituoso, que também não significa que não tenhamos espirito crítico.
Vejamos : Quantos séculos demorámos a convencer-nos que a terra era redonda?
Publicado por: A.R.Ray às março 16, 2006 10:29 AM
Lúcia,
um grupo de membros deste blog no qual estou incluído, demarca-se de certos princípios "científicos" da Fundação Bial. Tal reprovação não é de agora e tem por base pelo menos dois aspectos:
1. A falta de esclarecimento acerca do que é "experimentável".
2. O modo como o ponto anterior pode afectar a legitimidade do trabalho de todos os bons cientistas que mencionas.
Presentemente há muito que debater acerca do impacto da ciência na nossa civilização, da convergência de variados campos científicos e consequentes tecnologias emergentes ou do código moral na actividade do investigador... contudo a Bial posiciona-se fora deste debate por associar irreparavelmente a negação à afirmação. O carácter esquizofrénico daí resultante não pode ser saudável para o avanço do conhecimento. As premissas bem definidas sobre as quais se vão construindo as teorias, mesmo no campo das ciências cognitivas, deveriam excluir os "páras" porque a parapsicologia não é, segundo o meu dicionário, uma ciência.
Não entendo o compromisso que a Patrícia, o Fernando, o Estêvão e tu própria assumem ao assistir e aplaudir a exposição dos trabalhos de uns e dos "outros". Para além de dar prémios em pecúnia, que mais fará a fundação? Recomendar um honoris causa para o Tom Cruise?
Embora sem entender a tua frase acerca da importância da conferência e das opiniões do público, aproveito o tema para também perguntar: um cientista não sofrerá qualquer incómodo ao testemunhar como a Bial lança alhos e bugalhos à opinião pública? Parece-te que esta, ao inteirar-se da dita conferência acabará mais esclarecida acerca do "conjunto organizado de conhecimentos baseados em relações objectivas verificáveis e dotados de valor universal"?
Também foi aqui repetido que embora discordando com o financiamento de tantos projectos "para-científicos" pela Bial, não nos compete criticar o uso legítimo que qualquer entidade privada faz do seu capital. Sendo cientista desesperada (como a maioria) por sustento do teu trabalho, não hesites em receber da Bial. Mas tenta não fazer alarido.
Publicado por: VB às março 16, 2006 04:36 PM
VB,
Acho que nao leste bem o meu comentario. Nao fiz nenhuma afirmacao acerca da Fundacao Bial. Alias, concordo com grande parte do que dizes.
Contudo, o meu comentario foi acerca do modo como foram apresentadas aqui no Conta os encontros da Fundacao Bial "Aquem e Alem do Cerebero". Volto a repetir que estes encontros sao geralmente muito bons para os interessados em neurociencias, e que trouxeram ao Porto em anos anteriores oradores que fazem trabalho de muito boa qualidade. Gostava que ficasse claro que estes nao sao cientistas que sao aplaudidos apenas pela Patrícia, o Fernando, o Estêvão ou eu propria, mas sao cientistas que publicam nas melhores revistas incluindo Nature e Science. Basta fazer uma procura no pubmed de alguns dos convidados dos anos anteriores.
Eu tambem disse que havia normalmente outros convidados, os que nao fazem ciencia e dizem coisas muito bizarras. Mas acrescentei que este sao normalmente poucos e as suas palestras podem ser facilmente evitadas.
Publicado por: Lucia Garrido às março 16, 2006 08:00 PM
Bom, deixem-me tentar pôr alguma água nesta fervura:
É verdade que o meeting é muito bom. Para além de todos os que já foram destacados saliento a presença do Alcino Silva e do Nuno Grande. Trata-se de gente "acima de qualquer suspeita" e foi por isso que referi que "Algumas sessões deste Simpósio ameaçam ser até interessantes", antes de derivar pela piada fácil de achar incongruente que Revistas de Parapsicologia sintam necessidade de divulgar os seus artigos por meios tão convencionais como a internet...
No entanto, concordando com o que disse o VB, não deixo de estranhar que cientistas com tantos "pergaminhos" emprestem o seu nome a esta tentativa de legitimar o que, para todos os efeitos, não passa de "wacky science". Não quero crer que todos eles tenham sido informados da participação de uma "Professora de Parapsicologia" (título que aliás não existe na U. de Edimburgo - a senhora tem o título bem mais prosaico de Senior Lecturer na School of Philosophy, Psychology and Language Sciences desta conceituada Universidade) numa reunião que é facilmente descrita como um Simpósio sobre Neurobiologia.
Preferia que a Fundação Bial "separasse as águas" claramente e se desse ao trabalho de organizar dois Simpósios distintos... vejo grandes riscos na eventual confusão (deliberada confusão, acrescento) que se poderá estabelecer no público entre o que fica "Aquém" e o que fica "Além"...
Publicado por: Santiago às março 16, 2006 08:52 PM
É interessante saber que o coment que aqui fiz ontem não foi publicado. Pode saber-se porquê? Isto é um blog de cientistas que estão abertos a discussões construtivas ou um espaço talibanesco?
Publicado por: A.R.RAy às março 17, 2006 10:39 AM
Não deixa de ser interessante re-verificar a definição que o European Journal of Parapsychology, faz de si mesmo e da sua área de estudo: "communication or interaction between organisms and their environment that do not appear to rely on the established sensorimotor channels". Isto é tão vago que assusta desde logo, mas creio que para estes tipos quanto mais vago melhor. Conheço pelo menos uma área, "stigmergia" onde é o próprio ambiente e o trabalho nele desenvolvido que serve de "meio comunicacional" entre as partes, e que daria para encaixar aqui, e que eu saiba até hoje nenhum insecto demonstrou capacidades telepáticas, ou outras do género. Com um bocadinho de esforço telepático, do jogo das damas, do xadrez ou até do chuinquilho, poderia-mos dizer o mesmo. Os jogadores comunicam entre si quebrando configurações anteriores, construindo novas, através do tabuleiro. E que eu tenha notado, não vi nenhuma peça se mexer sozinha! Mas confesso que existem tipos com muitas capacidades.
Já o VB aqui nos comentários sugere uma eventual recomendação de um honoris causa para o Tom Cruise. Eu acho que a bial seguindo este caminho, melhor seria que estivesse atenta a este senhor e a este aparelho: The E-Meter. Aqui a coisa vai bastante mais longe e traz potencialidades inimagináveis.
Publicado por: v. às março 17, 2006 12:21 PM
...
Publicado por: M às março 17, 2006 12:49 PM
A. R. Ray:
Desculpe o que aconteceu. De repente os comentários com mais de 2 hyperlinks passaram a precisar de ser autorizados, mas como não eu não recebo nenhum aviso que eles estão à espera de aprovação só sei deles quando as pessoas avisam (como você fez...). Já aprovei o comentário que saiu na posição n° 4 (ou seja: Publicado por: A.R.Ray às março 16, 2006 10:29 AM).
Creio que tem obviamente razão. Precisamos de ter cuidado para não "deitar fora a criança com a água do banho", mas o outro risco também existe: Confundirmos tudo ao ponto de não distinguirmos o bébé da água suja... tenho sempre receio que estas organizações conjuntas sejam formas insidiosas de levar o público a atribuir credibilidade a coisas que (ainda) não o merecem...
Publicado por: Santiago às março 17, 2006 01:30 PM
E viva a Fundação BIAL!!
Há que financiar os aspectos culaterais da ciência, não temos que andar todos a trabalhar nas Interleucinas e/ou nas células T. Afinal também há memória imunológica, não é? Logo, pode haver falhas de memória, não é? E se se esquecem coisas, não se pode ser cientista, pois não? Logo, há que ouvir tudo sobre as neurociências cugnitivas e tenho fé que estes senhores cientistas profissionais ainda um dia se irão arrepender deste seu cinismo. Afinal, somos um povo de fé e só temos que nos orgulhar das nossas capacidades para-normais.
Publicado por: Pinto Calçudo às março 17, 2006 02:19 PM
Calçudo,
Perdão pela ingenuidade, mas não consigo distinguir claramente a ironia da convicção no seu comentário. Se a primeira for inexistente, teria muito gosto em discutir consigo os seguintes conceitos: cinismo, fé e povo.
Mas de que é que estávamos a falar?
Publicado por: VB às março 17, 2006 03:55 PM
Tenho pena que as pessoas que defendem tão possesivamente o método científico sejam tão pouco científicos na análise que fazem neste blog. No caso destes simpósios da Bial, há que dizer claramente que todos os anos o simpósio conta com alguns dos melhores cientistas mundiais na áera da neurociência. Já falaram nestes simpósios o António Damásio, o Lopes da Silva e o Alcino Silva, do Miguel Castelo-Branco, ou seja dos melhores neurocientistas portugueses. Na primeira sessão deste ano,os palestrantes foram gente muito séria que estuda a neuroanatomia do hippocampo. Será que anatomia rigorosíssima não é ciência? É importante salientar que as sessões de parapsicologia são num dia distinto e só vai quem quer, e que a Fundação Bial apoia investigação em neurociência. Muitos dos neurocientistas que vieram a Portugal falar nos últimos anos só o fizeram devido à Bial. E finalmente, embora eu não considere a parapsicologia como uma “ciência” (pelo menos pelos métodos que utiliza até hoje), a única certeza que temos é que a ciência em Portugal é fraquita...e a falta de rigor nos comentários pode exlicar porquê...por isso sugiro que se fale não com pré-conceitos mas pós-conceitos, levantem o rabinho e vejam antes de falar.
Publicado por: vigilante às abril 4, 2006 04:21 AM