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março 15, 2006
Ficção Natural: vade ultra
O Superman gritou desesperado porque a mocinha morrera e voou furioso levado pela vontade cega de contrariar aquela realidade. Destacou-se assim o aspecto humano da sua super-natureza. Mas as semelhanças a Cristo não acabaram ali: ao ascender ao céu o Super-Homem também ultrapassou a estratosfera. A diferença esteve no facto de que Kal-El quis mudar o rumo à história, embora sempre com uma ressurreição em mente. Rodopiou em torno da Terra a uma velocidade de fazer corar a luz mas no sentido contrário ao da diária viagem planetária. Deu tantas voltas que o globo, por razões electromagnéticas ou extra físicas de todo desconhecidas dos astrónomos, teólogos e demais comedores de pipocas, mudou de spin retroagindo com ele o tempo. Foi assim que a comunidade "hollywoodesca" reflectiu boquiaberta acerca da função "Rew" no controlo remoto de Deus.
O biólogo, não precisou de cabine telefónica nem de super-amendoins. Desesperado pela lentidão da sua carreira, pelo comprimento das suas horas de trabalho e pela música estocástica que lhe guiava o bailarico da vida, quis negar a realidade e criar algo de memorável. Destacou-se assim o divino na sua natureza humana. Limpou a gordura do esparguete aos flancos encardidos da bata como se pudesse fazer o mesmo à memória dos oito meses de gestação imposta ao seu manuscrito por parte de um revisteca praticamente internacional. Naquele dia daria à história um devir alternativo através de uma sua auto infligida experiência: manipular os factores determinantes da actividade da DNA Polimerase de modo a reverter a sua função. Assim, ao transformar as suas próprias células com esse(s) gene(s), o biólogo fez com que a mega enzima desfizesse o que estava feito, soltando um poeiral de nucleótidos com apreciável libertação de energia. De fazer corar qualquer mitocôndria. Porém, sempre com a regressão em mente, o biólogo produziu afinal um recuo apenas fisiológico da sua própria constituição, uma redução semi-conservativa do seu material genético. Restava uma célula onde antes havia duas, diminuindo o tamanho do tecido, revertendo a morfogénese do órgão, recuando o desenvolvimento do sistema. O cabelo voltou a crescer-lhe, a barba era cada vez mais rara e a sua voz cada vez mais aguda. Rapidamente assistiu-se à reencarnação de um novo e real Benjamin Button, narrando ao vivo a adivinhação de Fitzgerald. A metamorfose foi tão significativa que o próprio biólogo passou a caminhar com os pulinhos coordenados de uma macaca imaginária. Após uma adolescência e infância galopantes o nosso herói expirou no fundo de uma alcofa, num infantário para órfãos algures na cidade. Desapareceu deixando apenas uma única célula diplóide sem saber o que fazer (e também alguns conhecidos boquiabertos).
Publicado por VB às março 15, 2006 12:04 AM
Comentários
Depreendo que a fecundação é o "limite". Pode ser que o movimento pró-vida não dê com a tua prosa, VB. Em todo o caso, esta série está a ficar catita.
Publicado por: VMB às março 15, 2006 12:03 PM
Vasco. Já vi a tua mensagem de fumo no MI! E enviei-te email, mas pelos vistos existe qq problema. de qq modo fica aqui o meu email: primeironome.últimonome@alfa.ist.utl.pt
Publicado por: v. às março 17, 2006 11:46 AM
V,
Vê se recebeste a mensagem.
V
Publicado por: VMB às março 17, 2006 07:17 PM