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fevereiro 16, 2006
Influenzoscópio
A última semana foi marcada pela entrada e propagação, da gripe aviária, no continente europeu. Estão confirmados novos casos de infecção por H5N1 na Grécia, Itália, Bulgária, Áustria e Alemanha, na costa do mar Báltico. Esta é a primeira vez que o vírus atinge o norte da Europa. Afectou sobretudo cisnes selvagens que apresentam uma especial resistência à gripe podendo por isso mesmo, difundir mais eficazmente o vírus.
A Itália, Suécia, Noruega, Alemanha, Holanda, República Checa, Eslovénia e França ordenaram já aos seus agricultores que recolham as suas produções aviárias para espaços fechados e controlados. O Reino Unido, marcando uma vez mais a sua soberania e independência, ainda não declarou as mesmas medidas presumindo que “there is a low risk of the imminent arrival of the virus in the UK,” segundo as palavras do porta-voz do Departamento para o Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais que a Newscientist reproduz.
Por cá, e em linha com o nosso tradicional aliado, o jornal Público dá-nos conta do optimismo reinante entre os nossos peritos e alguns responsáveis políticos. Alguns escrevem mesmo na Revista da Ordem dos Médicos Veterinários, como é o caso do ornitólogo Vítor Encarnação, que "a possibilidade de risco que as populações destas espécies invernantes possam representar em Portugal é ínfimo". O bastonário da mesma Ordem, José Augusto Resende, corrobora afirmando que "são pequenas as hipóteses de o vírus aparecer nas espécies que emigram para Portugal".
A Subdirectora Geral da Saúde, Graça Freitas, mantém o nível de alerta na fase 3 (numa escala com limite máximo em 6) porque esta “continua a ser uma doença de tipo animal com contágio ocasional de humanos em contacto directo com aves infectadas”.
Tenho afirmado que o dever das autoridades passa pela prevenção e que parte da prevenção é assegurar a informação. Informar é esclarecer, é serenar através do conhecimento e da razão, é evitar o alarmismo.
Também sabemos que a escolaridade média no ambiente rural português é bastante inferior à do norte da Europa e que as medidas de emergência poderão ter impacto tardio por incumprimento e falta de adesão às recomendações. Defendo por isso, e dadas as circunstâncias locais, que deveríamos ter, talvez pela primeira vez na história da nossa saúde pública, um posicionamento mais restritivo do que a tradicional e habitual flexibilidade laxista.
Em Portugal, não está publicada uma carta de risco sísmico em cidades como Lisboa (com risco muitíssimo elevado) por decisão das “autoridades”, por receio de alarme e de aproveitamento ilegítimo das companhias de seguros... Os E.U.A., tal como outros países europeus, têm ambos, sismos e companhias de seguros, mas resolveram o problema de maneira diversa.
Quando escrevemos sobre “países” há sempre alguma estranheza, quase fatalismo, por uns serem mais ricos e desenvolvidos e outros menos. Mas são as pessoas que queremos responsabilizar, aquelas que não tomam as decisões que devem e que aferem as suas bitolas pelo padrão do subdesenvolvimento e da estagnação. São aqueles dirigentes de fraca cultura que revelam uma arrogância no exercício do poder que desconsidera e subestima a inteligência e a fibra do povo que o elegeu.
Os portugueses têm dado prova, desde o 25 de Abril, de que sabem escolher e de que têm como grande património o seu génio, tal como o tem repetido amiúde, o Presidente da República. Os portugueses merecem, por isso, que esse seu património seja respeitado e considerado.
Publicado por RPA às fevereiro 16, 2006 02:35 PM
Comentários
O principal risco para o Reino Unido sao migracoes vindas de sul e nao de leste.
Ibidem para Portugal.
As medidas tomadas pelos paises limitrofes dos actuais casos notificados sao no entanto perfeitamente justificadas.
E este o motivo porque tenho andado extremamente atento ao que se passa em Africa e os problemas no extremo leste da Europa, se bem que nao negligenciaveis, sao menos graves.
Publicado por: Lowlander às fevereiro 16, 2006 04:33 PM
Viva Lowlander,
Pois é verdade, mas essas são as grandes rotas migratórias. Em epidemiologia, basta que um "patinho feio" se desoriente no caminho, e que seja portador da gripe, para os dois países terem de pagar um preço mais alto pelas suas decisões, do que os seus vizinhos.
De qualquer forma, a mesma notícia que citava o bastonário da Ordem dos Veterinários, referia o cálculo feito para o número de patos vindos do nordeste europeu, e que estarão na casa das dezenas de milhares, em comparação com as centenas de milhar ou milhões que migram para França ou Alemanha. Eu continuo a achar que basta apenas um os dados apontam para a vinda de alguns milhares de aves do norte.
Por outro lado, os cálculos economicistas do risco-benefício que agora ponderam as restrições, subestimam os impactos da tragédia...
Publicado por: RPA às fevereiro 16, 2006 04:46 PM
RPA lamento mas nao sei como pode sustentar a afirmacao de que basta um patinho feio, em termos epidemiologicos e precisamente o contrario! O facto de se encontrarem aves mortas na Europa Central e preocupante precisamente porque isto e a ponta de um icebergue...
Acabei de ver as noticias, da Nigeria chegam relatos do presidente da associacao Nigeriana de aves de producao a negar a existencia de H5N1 no pais... a situacao parece fora de controlo com mercados de aves vivas ainda activos nas nas mesmissimas regioes onde se andam a queimar milhares de cadaveres de aves abatidas de emergencia. Isto sim e gravissimo e a ser verdade confirma os meus piores receios, temos mais um mes ou mes e meio, talvez mais que este Inverno esta a ser extraordinariamente rigoroso no hemisferio Norte ate que as primeiras aves anunciem a chegada da Primavera.
Publicado por: Lowlander às fevereiro 16, 2006 07:31 PM
Quanto a analise de risco que se faz, nao encontro falhas ate agora. Ninguem esta a escamotear o impacto deste problema, na pior das hipoteses e concebivel que se estejam a substimar probabilidades de ocorrencia... mas sinceramente duvido que alguem seja capaz de prever melhor que os que la estao neste momento.
E a economia por tras dos animais de producao nao e um factor menor. Colocar por exemplo aves em regime indoor tem custos enormes para a economia, custos que alguem tem de pagar, e esse alguem e agora e sempre o consumidor.
Publicado por: Lowlander às fevereiro 16, 2006 07:36 PM
"isto e a ponta de um icebergue" Eu julgo que estamos de acordo em relação a este ponto. E por isso "um patinho feio" assume uma importância maior do que aquela que lhe poderá ser atribuída. Todas as epidemias começam por surtos, começam pelo "efeito fundador" de um ou de uns poucos de infectados. Quando um agente é altamente infeccioso, capaz de um grande número de contágios, o risco de apenas um deve ser avaliada com cautela.
Por isso mesmo, estou persuadido de que estão a subestimar as "probabilidades de ocorrência"... Melhor do que o que foi feito, é o que a lista de paises que citei fez, colocar a produção de aves em regime indoor obrigatório.
Poderão ser medidas securitárias? Aceito a crítica. São elevados os custos envolvidos? Serão sem dúvida. Mas repare bem Lowlander, o consumidor (que somos todos nós, afinal) pagará sempre, de uma forma ou de outra... Julgo que a maioria prefere dar o triplo do preço pelo frango ou pelo peru de Natal, a não ter a felicidade de aqui estar para o ano a celebrar...
Um dos parâmetros de avaliação do desenvolvimento de um país é o valor que atribui a UMA vida humana. O que eu pretendia dizer no post, era comparar aquilo que o Lowlander relata sobre o que está a ocorrer em África com as medidas "economicistas" portuguesas. A questão britânica é e sempre será uma questão à parte, como bem saberá!
De qualquer forma, se o vejo preocupado com a questão africana, e se, como dizia ontem "O principal risco para o Reino Unido são migracões vindas de sul e não de leste. Ibidem para Portugal.", então não deveriam ser tomadas as mesmas medidas que o resto da Europa está a tomar, mesmo apesar das diferentes origens migratórias? Além disso a primavera está a chegar...
Publicado por: RPA às fevereiro 17, 2006 10:30 AM
"Julgo que a maioria prefere dar o triplo do preço pelo frango ou pelo peru de Natal, a não ter a felicidade de aqui estar para o ano a celebrar..."
Nao aceito este argumento.
Pois mas o que se ve na pratica e exactamente o contrario! A carne de frango tal como e produzida actualmente causa a volta de um milhar de mortos por ano so nos EUA (numeros de 2000) por toxinfeccoes alimentares, isto e sao 10x mais mortos por ano do que todas as vitimas mortais em quase 10 anos de H5N1, e nao estou sequer a contabilizar custos economicos e sociais escondidos por baixo da linha de agua com dor, sofrimento e custos hospitalares.
Existe tecnologia para reduzir estes numeros? Sim existe! Mas nao e posta em pratica devido aos custos envolvidos, nao nos podemos esquecer que seguranca alimentar e secundaria no nivel de prioridades a abundacia de alimentos, ou como os ingleses melhor poem, food security precedes food safety.
Publicado por: Lowlander às fevereiro 17, 2006 11:42 AM
"De qualquer forma, se o vejo preocupado com a questão africana, e se, como dizia ontem "O principal risco para o Reino Unido são migracões vindas de sul e não de leste. Ibidem para Portugal.", então não deveriam ser tomadas as mesmas medidas que o resto da Europa está a tomar, mesmo apesar das diferentes origens migratórias? Além disso a primavera está a chegar..."
Mais importante do que isso seria um importantissimo investimento em Africa para controlar o surto la e nao esperar que as aves migratorias criem populacoes reservatorio na Europa. Isto sim, seria medicina preventiva.
Publicado por: Lowlander às fevereiro 17, 2006 11:45 AM
Lowlander,
Eu não gosto de ser pessimista, e desejo bem que à semelhança da doença das vacas loucas, do Marburgo em Angola, da Pneumonia atípica e da febre aftosa, esta gripe aviária se autolimite e se extinga. De qualquer forma, uma pandemia com a gravidade da gripe espanhola, e que já aqui foi recordada, não foi ainda afastada por nenhuma autoridade de saúde, de nenhum país.
Para mim, só essa hipótese remota nos deveria levar a fazer outro tipo de contas, do que aquelas que refere.
Eu conheço alguns desses cálculos e também conheço outros... Um absentismo de 40% na REN poderá deixar o nosso país sem electricidade, por exemplo.
Num país de obesos, a questão neste momento não é a de food security e tão pouco food safety, mas uma outra muito mais séria e preocupante.
Mas como lhe digo, desejo sinceramente que a decisão já tomada seja a mais correcta e que eu não venha a ter tardiamente razão. Seria muito mau sinal.
Sobre a intervenção directa em África, na Nigéria, eu julgo que na reunião da FAO em Novembro, onde se aprovou um enorme pacote financeiro, ficou contemplada a ajuda financeira directa aos países africanos. Mas é sempre mais dificil em África produzir efeitos rápidos, por alguns dos motivos que já referi.
Publicado por: RPA às fevereiro 17, 2006 02:29 PM