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fevereiro 25, 2006

Inbreeding na Academia (parte I)

3.jpgMetaforicamente falando, uma universidade com inbreeding é um sítio sem mulatas...

Deve existir uma explicação psicanalítica para a insistência no vocábulo inglês inbreeding quando se descreve o hábito de dar preferência à prata da casa na atribuição de empregos e outros tachos nas universidades, havendo pelo menos três expressões em português equivalentes. Admito, porém, que o eventual título "preocupantes níveis de consanguinidade no departamento de Zoologia da Faculdade de Ciências" fosse erroneamente interpretado como um alerta para um problema de saúde pública. E, apesar de serem as traduções mais exactas, suponho que usar neste contexto os termos "endogamia" ou "endocruzamento" poderia criar um equívoco algo despudorado, tendo em conta um outro hábito académico - a procriação entre colegas de departamento - que é matéria privada e nos interessa pouco.

Nesta discussão mistura-se sempre indignação e conformismo e nunca se chega a lado algum. Este texto não será certamente excepção, mas procurei abordar o problema evitando a fulanização excessiva e os relatos de casos da vida real. Só mesmo no fim a prosa fica um pouco mais inflamada. Não há qualquer originalidade no que escrevo sobre o tema, mas sempre foi uma oportunidade para juntar alguns textos de vários autores que andavam dispersos por aí.

alberocons.jpg1. Depressão intelectual O inbreeding é alvo de duas críticas, na verdade muito distintas. A primeira aponta uma falha de princípio, pois a única forma de uma universidade manter níveis de inbreeding elevados passa por instrumentalizar - aldrabar, se se preferir - concursos públicos que deveriam dar idênticas possibilidades aos candidatos, independentemente do seu grau de contacto prévio com a universidade. A outra crítica incide sobre os resultados deste comportamento e não é uma consequência natural da falha de princípio; há comportamentos de ética duvidosa - certos casos de nepotismo, por exemplo - mas com resultados francamente bons. Dando de barato que a falha de princípio é indefensável, saber se o inbreeding é prejudicial à qualidade da produção académica é quase - dir-se-ia - uma questão académica. Mas como sobra o argumento patusco e reaccionário de que esta é uma prática que se adequa bem ao Homem lusitano, tão habituado ao jeitinho, à cunha e ao nacional-porreirismo, talvez seja pertinente discutir os seus resultados. A levarmos até às últimas consequências a definição biológica de inbreeding - que aponta para a depressão genética - as universidades sofrem de estiolamento intelectual, mediocridade, compadrio e a total ausência de vigor híbrido. O vigor híbrido, um castiço conceito na voz do professor que o explicou recorrendo ao exemplo de incorrecção política dupla que são as mulatas do carnaval brasileiro, tem como equivalente académico a sinergia que resulta da combinação de percursos diferentes. Sambas à parte, no mundo das ideias parece ser consensual que só temos a ganhar com uma partilha de experiências e competências, com a facilidade em se estabelecer colaborações, com a possibilidade de podermos pensar livres dos constrangimentos impostos pela presença de um superior hierárquico que nos orientou, etc. Entre nós, de resto, é essa a opinão de circula por todo o lado e pela internet, em revistas obscuras (I e II), relatórios que ninguém lê (pdf), cartas sensatas enviadas para jornais e, claro, nos blogues (autocitação, aqui e, sobretudo, esta discussão informada). O excesso de opinião terá talvez soterrado e dispensado estudos sobre o tema e apenas encontrei uma análise quantitativa, que aponta para uma diminuição da produtividade com o aumento de inbreeding. Não será propriamente um major breakthrough, mas é reconfortante confirmar uma intuição.

2. Data Há dados sobre os níveis de inbreeding universitário, mas o tópico é tão interessante como melindroso, o que talvez explique algumas lacunas. Por exemplo, entre 1938 e 1960 nem mesmo nos EUA foram publicados estudos sobre o inbreeding. Se é verdade que os tempos mudaram, parece existir um país que resiste, ainda e sempre. Em Espanha, sabemos pela Nature que o nível de inbreeding se cifra nos 95%. Dependendo da metodologia e da amostra, nos EUA a percentagem é 7% ou 15%. E em Portugal? Entre nós a percentagem é "altíssima" ou então as taxas são "demasiado elevadas", segundo as fontes. Com a ressalva de uma citação de memória que aponta para os 93% de inbreeding lusitano, os únicos dados que descobri foram um ranking que faz dos departamentos de Ecologia e Zoologia portugueses os Habsburgos da ecologia Europeia (91% de inbreeding, contra 88% na Espanha e 5% no Reino Unido) e um relatório (pdf) onde se mostra que entre 1990 e 2002 a percentagem de professores auxiliares contratados pelo Instituto Superior Técnico com grau de doutor obtido na mesma instituição andou sempre acima dos 60%. São poucos elementos para uma questão tão grave e tão comentada. Parece faltar um estudo sistemático e abrangente. Alguém conhece em pormenor as percentagens de inbreeding por região, por universidade, por departamento? Alguém sabe qual é a tendência actual, tendo em conta o aumento da população de doutorados? Meus amigos, este é um trabalhinho sujo, mas para ser feito. Não se encontra por aí uma equipa de sociólogos capaz de dar conta do recado, doa a quem doer? Não é tarefa difícil de executar e nem sequer ficaria muito caro, mas desconfio que durante muitos anos teremos mais facilmente acesso ao coeficiente de consanguinidade do puro sangue lusitano (sem ofensa para os criadores de cavalos).
O exemplo espanhol é triplamente esclarecedor. A começar, porque são nuestros hermanos e a proximidade cultural tem relevância, a seguir, pela cifra de 95% de inbreeding e, finalmente, porque no já longínquo ano de 1984 - e por decreto real! - se escrevia que o mérito do candidato deve ser o principal critério de selecção. A situação, ao que parece, só piorou. Conclui-se então que não podemos contar com Dom Duarte Pio, Duque de Bragança, para desemaranhar a academia. Mas o grande ensinamento a retirar é que as palavras não chegam, mesmo quando se trata da palavra da lei. As palavras, aliás, têm contribuído mais para agravar o problema do que para a sua resolução.

(Nas próximas semanas publicarei as segunda e terceira partes)

Publicado por Conta Natura às fevereiro 25, 2006 03:05 PM

Comentários

Caro Vasco,
Acho que poderemos ficar descansados e confiar no fim do inbreeding, à medida que o numero de vagas tende assimptoticamente para zero...

Publicado por: DL às fevereiro 27, 2006 04:53 PM

Outra estatística relacionada com o problema - causa, consequência ou evento ligado é mais difícil de ver - Portugal é o país europeu em que vão menos estudantes para fora, apesar de ser aquele em que os estudantes melhor falam uma língua estrangeira

Publicado por: Maya às fevereiro 28, 2006 03:57 PM

"Metaforicamente falando, uma universidade com inbreeding é um sítio sem mulatas..." Um início de texto desnecessário, outdated, e de muito mau gosto, uma vez que remete para a velha máxima de que o colonialismo português foi positivo por ter alegremente criado as belas mulatas (para re-uso).

Publicado por: Armando às março 3, 2006 02:03 PM

São truques para chamar a atenção, Armando. No corpo do texto faço a autocrítica necessária.

Publicado por: VMB às março 3, 2006 06:10 PM

Felicito-o pela excelente texto!
Há cerca de 12 anos foi lançado um concurso, na Fac. de Psicologia da Univ. Coimbra, para sete (7!!!) vagas de assistente estagiário. Entando eu, naquele momento, a concluir o Mestrado no Porto, achei que deveria concorrer. Pois, julgava eu, na minha humilde ingenuidade, que se eram 7 as vagas, uma poderia ser para mim... Fui pessoalmente a Coimbra, procurei o secretário da Faculdade, e questionei-o nos seguintes termos:
- Diga-me, por favor - off record - se, em sua opinião, tenho alguma chance, atendendo ao meu curriculum e às minhas médias. É que eu não gostaria de alimentar falsas expectativas....
A resposta não podia ter sido mais frontal:
- De facto, o senhor tem um excelente curriculum... Mas não alimente expectativas, porque os MENINOS já cá estão. Este concurso é só uma formalidade, para que o Tribunal de Contas aprove os vencimentos.
Desde então, tudo o que tenho visto confirma invariavelmente este cenário de endogamia.

Publicado por: Francisco Dias às junho 1, 2006 12:27 AM

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