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janeiro 15, 2006
GripePT.Notícias
Começo por recordar a conferência do Carl Koppeschaar no dia 9 de Janeiro, a convite do GripePT.net.
O Conta esteve presente e testemunhou a resistência, de alguns colegas que trabalham na área da epidemiologia, para as novas tecnologias. De facto, há quem receie que esta iniciativa possa diminuir a importância e o impacto da vigilância coordenada pelo INSARJ. Mantenhamos a serenidade, porque estamos em Portugal e a proveitemos a oportunidade como momento de humor. A jornalista Ana Sousa Dias esteve lá e, com a naturalidade e inteligência que lhe reconheço relembrou a importância dos consensos nestas, como noutras, alturas.
Parece-me oportuno, e voltarei ao tema, que começemos já a identificar quais as pessoas que, a nível nacional e a nível hospitalar, vão coordenar as equipas de gripe. Quem são aqueles que terão de programar e tomar medidas de combate à disseminação da infecção, com especial atenção para os hospitais e centros de saúde? Lamento não conseguir compreender o alcance de não estarem ainda desenhados todos os planos de emergência hospitalar. Apenas o Hospital de São João tem o seu plano completo. Estaremos à espera da chegada dos primeiros casos a Portugal para assistirmos a declarações infelizes de alguns responsáveis hospitalares sobre as suas condições de trabalho? Por favor, sejamos responsáveis!
Eu recordo que o vírus ainda é agente infectante maioritário (não exclusivo) de aves. No entanto, todo os cuidados devem ser tomados na prevenção de contágios. Quanto menor o número de entradas no corpo humano, menores as possibilidades de adaptação do vírus à nossa espécie.
Apresentamos agora a newsletter desta semana do Gripept.net.
Dois tipos de pandemia
As diferenças entre a pandemia de 1918 e as duas pandemias de 1957 e 1968 não se ficam pelo facto de a primeira ter provocado um número de mortes muitíssimo mais elevado que as duas últimas. Uma pandemia, na sua essência, após o surgimento do vírus, é sempre o mesmo tipo de evento, mas na origem do vírus que a pode provocar estão na realidade dois mecanismos distintos.
Nas pandemias de 57 e 68, os respectivos vírus H2N2 e H3N2 (ver newsletter nº2) tiveram origem num evento de recombinação entre o vírus humano em circulação anteriormente, H1N1 e H2N2 respectivamente, e um vírus das aves. Se os dois vírus, humano e das aves, infectarem ao mesmo tempo uma pessoa, ou possivelmente um porco, pode acontecer que estes troquem os seus segmentos de RNA e gerem um novo vírus.
Na pandemia de 1957 o novo vírus H2N2, que sucedeu ao H1N1, continha 5 segmentos do H1N1 e três segmentos de um vírus das aves, num total de 8 que o vírus influenza A possui. Os segmentos substituídos incluíam aqueles que são usados na produção das moléculas de hemaglutinina e neuraminidase (H e N), fazendo com que o novo vírus mudasse para H2N2 (hemaglutinina tipo 2 e neuraminidase tipo 2). Na pandemia de 1968 o vírus adquiriu dois novos segmentos de um vírus das aves, que substituíram dois dos três adquiridos em 1957, fazendo com que o novo vírus H3N2, em circulação ainda hoje, possua 5 segmentos de RNA do vírus de 1918, um adquirido em 1957, e dois adquiridos em 1968, um deles codificando para um novo tipo de hemaglutinina, e daí– a mudança para H3N2.
Já em 1918 o que se passou foi diferente. O vírus que provocou a mortífera gripe espanhola não resultou de uma recombinação do vírus anterior, mas evoluiu gradualmente a partir de um vírus das aves, sendo todos os seus segmentos novos. O que aconteceu, e se teme que possa vir a acontecer com o vírus H5N1, foi uma adaptação ao ser humano através de mutações pontuais no genoma de um novo vírus, que ganhou eventualmente a capacidade de se transmitir entre humanos e assim provocar a referida pandemia de 1918. O esforço actual de contenção da propagação da gripe das aves prende-se com o medo de que a mesma situação se repita com o vírus H5N1. Quanto mais pessoas infectadas com o vírus maior a probabilidade de este se adaptar aos seres humanos e provocar uma pandemia.
Gripe das aves na Turquia
A gripe das aves provocou a semana passada as suas primeiras vítimas na Turquia. Três jovens irmãos, de 15, 14 e 11 anos, residentes em Dogubaiazit, província de Van, leste da Turquia, faleceram vítimas de infecção com H5N1, após estarem em contacto com aves infectadas. Estes casos fatais foram apenas 3 de um total de 15 verificados naquele país até agora, que são os primeiros casos de gripe das aves em humanos fora do sudeste asiático e China, e ocorrem preocupantemente próximo da Europa, embora ainda não haja sinais de transmissão pessoa-a-pessoa.
Nas aves, a doença começa a espalhar-se pela Turquia, aparentemente progredindo para o ocidente, passando pela capital, Ancara, e chegando mesmo a Istambul, do lado europeu da Turquia. O aumento súbito do número de surtos em aves, bem como os casos em humanos, preocupa as autoridades dos países limítrofes, que impuseram restrições à circulação de pessoas nas suas fronteiras com a Turquia. O governo russo foi mesmo mais longe, recomendando aos seus cidadãos que não viajassem para a Turquia, destino preferido de férias de muitos Russos.
As autoridades turcas estão a desenvolver uma campanha de informação da população de forma a que esta evite o contacto com as aves e relate quaisquer sintomas suspeitos sem demora. Entretanto, o extermínio em massa de aves domésticas está a ser dificultado pelo rigoroso Inverno do leste da Turquia. Por fim, 100.000 novas doses de Tamiflu chegaram à Turquia para reforçar a capacidade de reposta deste país a uma eventual pandemia.
Publicado por RPA às janeiro 15, 2006 11:07 AM
Comentários
Nunca ouviram dizer que gato escaldado da água fria tem medo. O grupo da Gripe do Ricardo Jorge existe ainda a maioria de vós não era nascida. E os laboratórios de estado estão um pouco escaldados e com razão.
Primeira pergunta será então o que suponho se faria em qualquer país europeu, será que o Gripe net tem envolver ou colaborar com o INSA? se sim parabéns, senão peço imensa desculpa mas têm razão em apresentar reservas se a sua colaboração é pedida durante uma conferência.
Não sei quais os conhecimentos de política científica da jornalista Ana Sousa Dias, mas como está na moda, fica sempre bem em qualquer actividade, certamente! é decorativa. Mas não sabe certamente como se montam parcerias e como as instituições funcionam em ciência em Portugal, é preciso mais que fazer charme em entrevistas, é uma questão técnica e científica e de política institucional.
Com isto não estou atacar ninguém, apenas a lembrar se queremos que as pessoas colaborem temos que as tratar como parceiros, ou então se não lhes reconhecemos competência, temos de provar porquê ao fim destes anos o INSA não compre a sua missão na vigilância da gripe. Temos ainda de pendar como é que uma colaboração com o Gripe net pode melhorar essa função permanente do INSA. É preciso não esquecer que o Gripe net é um projecto que existe enquanto tiver financiamento e resultados científicos, mas Portugal precisa que alguém faça isso com carácter de permanência.
Esta posição é pessoal e não envolve terceiros.
Publicado por: Luisa Henriques às janeiro 16, 2006 12:58 PM
Viva Luisa,
A título de introdução devo esclarecer que o projecto Gripept envolve instituições do estado ou por ele tuteladas (DGS e Ciência Viva) e teve o apoio do próprio director do INSA, quando o projecto foi apresentado e com ele discutido. Tem na sua equipa epidemiologistas de renome internacional que são suficientemente bons para colaborarem com centros epidemiológicos do Welcome Trust ou com a Univ. de Oxford.
Será também importante esclarecer que este projecto recebeu financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, tal como quatro outros projectos na mesma área, em que um deles é do INSA.
Quanto à Ana Sousa Dias, para lhe fazer justiça e tal como tinha afirmado, fez muito mais do que "decorar a mesa", porque com a legitimidade de quem está fora e desconhece "como as instituições funcionam em ciência em Portugal" revelou a sua incompreensão para uma certa resistência que ali foi revelada.
Sejamos claros, este projecto não irá nunca substituir o sistema clássica de vigilância da gripe porque lhe falta o isolamento dos próprios vírus e a certificação de que são infecções por Influenza. Por outro lado, tem um questionário validado por médicos e epidemiologistas que permite, através da vulgar história clínica, excluir um largo grupo de diagnósticos diferenciais, em competição, o que é o mesmo que fará o bom médico de família. O diagnóstico clínico de gripe feito pelo médico de família pode ser equiparável ao diagnóstico de um questionário bem respondido neste site. O médico de família também não saberá se se trata de uma infecção por Influenza, de um VSR ou de um outro qualquer, se não pedir o teste.
Quanto ao sistema de vigilância nacional da gripe, também não está isento de falhas. Não tem uma amostra populacional representativa da população portuguesa, o que se pode conseguir com um projecto como o Gripept.net e tenho dificuldade em compreender como funcionará numa situação de catástrofe.
Se 1% da população portuguesa correr para os hospitais, estes terão que encerrar... Não imagino os técnicos do INSA a recolherem amostras nessas condições. No entanto, um sistema via internet com as características do Gripept pode ser um meio muito apropriado para seguir a pandemia e fazer aconselhamento à distância, sem contacto físico.
Julgo que ninguém da equipe do Gripept quis competir com o INSA, não têm essa presunção, mas foi curioso ver a reacção das pessoas, muito curioso.
Publicado por: RPA às janeiro 16, 2006 04:00 PM
Ricardo, viva
A minha questão é porque não se estabelecem pontos de colaboração entre os dois IGC e INSA, enriquecendo assim o trabalho de ambos e ficando todos nós a ganhar, desde o gripe.net ao INSA, e até nós Portugueses. O INSA e o IGC são complementares não competidores! A cooperação e não a competição é que fez evoluir a humanidade, como alguém parece ter provado (cito outrem de cor)
A minha sugestão é essa cooperar. É trabalhando com as pessoas, dialogando com elas que estabelecem pontes e colaborações que se aprende e avança. Se podemos cooperar com os estrangeiros, porque não fazer isso cá dentro.
Obrigada pela info eu sabia e tenho acompanhado o gripe net, como é meu dever profissional o projecto. Mas as entidades que mencionou são promotores ou financiadores. O INSA é vosso interlocutor. Por isso eu não entender porque não se conseguem estabelecer parcerias. Exige trabalho, tempo e paciência. A União Europeia a 25 é um exemplo que é possível cooperar na diferença em não sei quantas linguas diferentes, outras tantas culturas e histórias.
Publicado por: Luisa Henriques às janeiro 16, 2006 06:36 PM
O gripept.net nunca competiu nem vai competir com ninguém. Muito pelo contrário, foi concebido como um modelo receptivo a participação de todos. A sua implementação organiza-se em 4 fases:
1) Construção do site e lançamento (a partir de Setembro 2005);
2) Divulgação e análise do nível de adesão (a partir de Novembro 2005);
3) Alargamento as escolas (a partir de Janeiro 2006);
4) Análise de resultados (quando houver resultados).
Para dar resposta ao nível de exigência do projecto com os recursos humanos de que dispomos, temos que ir movendo os nossos esforços consoante a fase em que estamos. Nas fases iniciais, em que o projecto pretende atrair participantes, é fundamental o apoio dos jornalistas em acções de divulgação e o conhecimento aprofundado dos níveis de acesso da população à internet. Daí o formato da conferência de Carl Koppeschaar, e o meu grande reconhecimento pela colaboração de Ana Sousa Dias e Luís Magalhães. Estamos agora a iniciar um conjunto de actividades escolares em que é fundamental o apoio dos professores. Estamos naturalmente a concentrar os nossos esforços nesse sentido e toda a informação será regularmente actualizada em www.gripept.net. A seu tempo, prosseguiremos com a analíse de dados e a colaboração do INSA será, como sempre, recebida de braços abertos.
Não vamos estragar o bom que é ser cientista! Com toda a sinceridade penso que deviamos todos encarar o nosso trabalho com entusiasmo e abertura. Há suficiente para ocupar todos a tempo inteiro e ainda ficar muito por fazer. Ainda por cima, em ciência, quanto mais se faz mais há para fazer...
Publicado por: Gabriela Gomes às janeiro 16, 2006 11:29 PM
Folgo em saber da vontade de cooperar com os outros parceiros. Não havia sido óbvio no postal do Ricardo a cooperação com o INSA, antes pelo contrário, daí a minha reacção.
A colaboração com as organizações mais a juzante e mais perto das populações é uma garantia para uma boa transferência de conhecimentos e um reconhecimento da função social/económica da investigação. Os fundos públicos "pagam", quer sejam nacionais ou europeus ou mesmo privados, para que todos tenhamos um retorno desse investimento,independemente da sua natureza.
Continuarei a seguir com atenção o Gripe.net, como faço em termos gerais com a investigação que se faz em Portugal.
Publicado por: LH às janeiro 17, 2006 04:01 PM