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janeiro 12, 2006
Cientistas portugueses: o regresso com sucesso?
Seguindo o exemplo da RTP1 e com um atraso ainda maior, deixo-vos aqui o meu relato e as minhas impressões sobre o debate Cientistas Portugueses: o regresso com sucesso?, que teve lugar no IGC no passado dia 27 de Dezembro de 2005.
Juntámo-nos para discutir o regresso dos cientistas portugueses a Portugal e para debater o futuro e as possibilidades da Ciência portuguesa. O painel era formado por ex-alunos do Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, alguns “regressados”, outros não. Na audiência estavam muitos ex-alunos dos Programas Gulbenkian de Doutoramento, cientistas portugueses e estrangeiros, jornalistas e políticos. Uma mistura explosiva. Um grupo de pessoas com capacidade para discutir o futuro da Ciência e o que há a fazer por ele.
O tempo era escasso. Depois de uma breve introdução de António Jacinto, os (muitos) membros do painel começaram por expor as suas ideias sobre o regresso com ou sem sucesso, moderados pelo microfone e o estridente timer da Mónica Bettencourt-Dias. A Isabel Palmeirim abriu a discussão falando da importância da dedicação à investigação a 100%, dos problemas das Universidades portuguesas e da falta de carreiras de investigação. Seguiu-se-lhe o Miguel Martins que explicou porque ainda não voltou a Portugal, falou na falta de contractos de investigação e a grande lacuna que é não haver um esquema de “career development awards” em Portugal. Tal como o Miguel, tanto o Henrique Teotónio como eu, em diferentes momentos do debate, discutimos estas ideias e focámos os mesmos aspectos negativos do fazer ciência em Portugal. O pós-doc chefe, a falta de carreiras de investigação em Portugal, a falta de pessoal técnico. Eu falei no exemplo espanhol que, apesar de não ser perfeito, poderia ser um exemplo a seguir em Portugal. O Rui Costa discutiu o problema (importante) das irregularidades de financiamento científico e da falta de perspectiva de continuidade na atribuição de bolsas. O Miguel Castelo-Branco falou sobre a carreira de investigação nas Universidades, o problema do “inbreeding” e como podemos combatê-lo. Ouvimos também as opiniões de Ana Coutinho e Nuno Arantes e Oliveira, ambos com carreiras alternativas em Ciência. A Ana falou da importância da carreira de comunicador de ciência e o Nuno discutiu a importância do investimento estrangeiro no financiamento de pequenas e médias empresas em Portugal.
Depois destas apresentações, a discussão foi aberta à audiência. Muitos foram os que mencionaram os buracos no financiamento, a falta de carreiras científicas e “career development awards” (o que se passa com as bolsas Damião de Góis, por exemplo?). Mas nem tudo foram queixas e negativismo. Comentou-se o bom que é fazer Ciência em alguns institutos em Portugal, como por exemplo o IGC, o IBMC e o ITQB. Discutiu-se que o importante é fazer com que Portugal seja atractivo não só para os portugueses regressarem, mas essencialmente para que se torne um destino de trabalho para cientistas de qualidade, portugueses ou não.
No final a palavra foi dada a quem de poder. Infelizmente, pareceu-me que a interpretação que transpareceu do debate foi algo errónea e as que as nossas palavras foram tomadas como um conjunto de queixas sem sentido. No entanto pergunto-me: “não é natural que falemos do que está mal, quando estamos perante as pessoas que o podem mudar?” Felizmente, o discurso do Sr. Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, sobre os esforços a fazer para regularizar o financiamento científico foi bastante positivo e dentro do âmbito do que se tinha feito ouvir dos cientistas durante o debate. O mesmo já não se pode dizer do (longo) discurso do Sr. Ministro da Saúde, Correia de Campos. Começando por dizer que em Portugal não são necessárias (e possivelmente não existirão) iniciativas do tipo Ramón y Cajal (do exemplo espanhol) para o desenvolvimento das carreiras científicas, continuou com o já (muito ouvido) discurso de que num mundo global como o de hoje, não é necessário que os cientistas portugueses voltem a Portugal. Lembro-me de quando ouvi exactamente as mesmas ideias proferidas pelo então Secretário de Estado da Educação Pedro Lynce, num encontro da Curia de já há alguns anos (caso para dizer que o governo de então era outro, mas o discurso mantém-se assustadoramente o mesmo). É pena que assim seja. Boa ciência é sempre boa ciência (e tem mesmo que ser internacional e globalizante), mas se não a levarmos activamente até Portugal, vamos ter que acarretar com as consequências da falta de conhecimento que continuará a exisitir no nosso país. E sem querer cair em frases feitas, sem conhecimento não há progresso. Ainda estamos a tempo de mudar algumas das coisas que estão mal. Como disse o Prof. António Coutinho, no único que achei aproveitável do seu (emocional) discurso que finalizou o debate, temos que ser nós (os jovens cientistas portugueses) a fazer tudo para mudar o que está mal. No entanto, contraponho, não o podemos fazer sem um certo número de infra-estruturas necessárias e muito menos sem o apoio do poder português. Para pôr bem o que mal está temos que poder falar sobre os problemas existentes e propor alternativas viáveis sem que nos apelidem de queixinhas.
Publicado por SJA às janeiro 12, 2006 12:11 PM
Comentários
Texto interessante. Em benefício de uma leitura atenta e integral, sugiro o espaçamento entre parágrafos. Afinal, o melhor vem, de facto, no fim -- e não é certo que lá se chegue, dada a sua formatação.
Publicado por: MRS às janeiro 12, 2006 01:41 PM
Infelizmente não pude estar presente no encontro. Ainda me faltam alguns anos até que a situação de regresso a Portugal se ponha, mas acho preocupante que apesar das insistentes críticas, (todos os encontros da Curia as tinham) que não podem de forma alguma ser apelidadas de injustas, as pessoas que têm a possibilidade de melhorar (não digo resolver porque é extremamente difícil mudar mentalidades enraízadas há tanto tempo em Portugal) a situação da investigação científica não tenham a vontade para o fazer.
Publicado por: Paulo Ribeiro às janeiro 12, 2006 02:38 PM
" Cientistas Portugueses: o regresso com sucesso?"
"O painel era formado por ex-alunos do Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina"
"Na audiência estavam muitos ex-alunos dos Programas Gulbenkian de Doutoramento"
"O Miguel Castelo-Branco falou sobre a carreira de investigação nas Universidades, o problema do “inbreeding” e como podemos combatê-lo."
Publicado por: PGDBM às janeiro 12, 2006 03:03 PM
Porque o debate se inseria no encontro anual dos alunos do Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina. Mil perdões por não o ter mencionado aqui, mas este pormenor já tinha sido escrito e comentado neste post anterior.
Publicado por: SJA às janeiro 12, 2006 03:08 PM
Confesso que tenho uma perspectiva muito cínica sobre este problema. A meu ver os responsáveis, todos os responsáveis (políticos ou não - estou a incluir nesta designação todos os que têm poder para mudar a situação), não estão interessados que Portugal seja realmente competitivo em Investigação Cientifica.
O que os move é a procura de elogios nos jornais. Para isso trabalham para maquilhar os indicadores estatísticos louvando-se dos números de financiamento atribuído, de Bolsas concedidas, de equipamentos comprados. É natural que recusem as críticas e se queixem das queixas... à falta de argumentos que defendam as políticas seguidas apontam o espectacular aumento no número de "cientistas" em Portugal...
Vou dar alguns exemplos de políticas que acho erradas, mas que são seguidas com gosto:
1) Os "post-docs chefes". É uma situação totalmente aberrante que seria muito fácil de corrigir se houvesse verdadeira vontade de desenvolver o Sistema Cientifico Nacional... basta que a FCT (que sabe muito bem o abuso a que o instrumento Bolsa de Post-Doc tem sido sujeito) recusasse as Bolsas e deixasse de colaborar nesta "fraude".
Acho incrível que, tendo sido abordada esta questão, nenhum "dos do poder" tenha balbuciado sequer uma defesa.
Obviamente que quando existisse coragem para fazer as coisas correctamente passaria a haver menos "investigadores" porque só haveria dinheiro para menos regressos. Lá se iam os famosos indicadores de (pseudo) progresso estatístico... como não vai ser por esse lado que o problema se resolve, o melhor é mesmo que os cientistas passem a recusar colaborar nesta palhaçada.
2) As Bolsas de Cientista Convidado. Não sei se ainda existem, mas em tempos deram origem a casos escandalosos de abuso. Grande parte deste dinheiro foi deitado à rua embora tivesse causado evidentes melhorias nos indicadores estatísticos: Houve tempos em que Portugal até parecia um país muito atraente para cientistas estrangeiros...
3) Os projectos da FCT. Com taxas de aprovação acima dos 30%, de certeza que há dinheiro a ser gasto em projectos que não seriam aprovados em mais país nenhum do mundo. É claro que se forem mais exigentes nos concursos passam a distribuir menos dinheiro...
O objectivo parece ser o de financiar o mais possível, em vez de financiar o melhor possível... creio que isto demonstra o que disse acima: "... não estão interessados que Portugal seja realmente competitivo em Investigação Cientifica"
Publicado por: Santiago às janeiro 12, 2006 03:42 PM
Paulo, o problema de ninguém querer fazer nada para melhorar a situação não é só os cientistas portugueses não poderem voltar a Portugal, mas também, e mais importante, o de outros cientistas que nunca porão sequer a hipótese de trabalhar em Portugal.
Os portugueses voltam, na maioria dos casos, por razões pessoais. Por isso aceitam a situação precária em que os poem.
Publicado por: SJA às janeiro 12, 2006 03:45 PM
Eu também acho ridícula, hipócrita, etc, a situação dos pós-docs chefes. Para ser sincera, nem sequer compreendo por que é que continua a existir. A FCT sabe perfeitamente que as bolsas são para pagar a PIs. O único que tem que fazer é chamar-lhes um nome diferente e abrir um concurso transparente com um certo número de bolsas a atribuir cada ano. Afinal de contas o dinheiro virá sempre do mesmo "saco". O insistir nesta situação mal definida é que não me parece que deva continuar.
Mas, claro, compreendo quem aceita a situação. Prende-se, não só, com as razões pessoais acima mencionadas, mas também com razões de carreira. O que pode fazer o cientista X que até já tem um projecto aprovado, mas não arranja quem lhe pague um salário? Que propomos ao cientista Y que se quer tornar independente, mas não consegue uma das (ínfimas) bolsas de laboratório associado?...
Publicado por: SJA às janeiro 12, 2006 04:31 PM
"A FCT sabe perfeitamente que as bolsas são para pagar a PIs. O único que tem que fazer é chamar-lhes um nome diferente e abrir um concurso transparente com um certo número de bolsas a atribuir cada ano. Afinal de contas o dinheiro virá sempre do mesmo "saco". O insistir nesta situação mal definida é que não me parece que deva continuar."
Isto bate no ponto exacto, não é? Alguns dos recursos que são usados em BPD podem ser, em vez disso, atribuidos a novas "Career Development Fellowships". Eventualmente incluindo financiamento para um pequeno grupo (2-3 pessoas)...
Claro que as BPD não podiam durar 6 anos e haveria menor número de CDF do que BPD. Haveria competição à saída do post-doc, e os preciosos indicadores estatísticos não seriam tão bons como têm sido...
Mais acima eu não estava a criticar os que "aceitam a situação", mas sim os que a criaram e a consentem... mas agora quero criticar a Comunidade Cientifica por não ser ela a liderar o combate por um sistema que levará inevitavelmente a uma redução do número de cientistas...
Publicado por: Santiago às janeiro 12, 2006 04:49 PM
Viva,
Em primeiro lugar tenho a fazer um comentario ao ambiente que rodeia o debate. Que os alunos do PGDB achem que sao os melhores do mundo, e' la' com eles e sao livres de o achar e expressar como melhor o entenderem. No entanto, nao posso deixar de achar piada a essa nocao de "bolha de excelencia" avancada por um aluno do PGDB justificando que vai ser uma catastrofe deixar de haver PGDB e MEUS DEUS, o q vai ser de portugal sem o PGDB e entao o melhor e' meter-mos todos ca' de volta quanto antes. Pessoalmente, acho que a coisa e' bem ao contrario. Bolsa de excelencia sao os portugueses que nao precisam de PGDBs/GABBA/CNCs para nada e vao com bolsas de qualquer lado do mundo fazerem o que bem lhes apetece, sem andarem em programas para serem catapultados para com a sua bolsa, pois claro... E contra mim falo visto pertencer ao GABBA. No entanto, parece-me q ainda subsiste uma panaceia geral a este respeito...
Apenas uma correccao Sofia, o Rui Costa e' GABBA...
Posto isto, tenho tb que discordar de ti Sofia qdo achaste bem o que o Manuel Heitor disse. Ele apenas disse amen ao debate e ficou-se por ai. Por outro lado, eu concordo sim com o que disse o ministro da Saude, que se dignou a falar mais que 1 min para dizer Amen. Disse o que pensava e que a realidade e' mesmo essa: Vivemos num mundo global. A mim nao me preocupa perder tempo a saber o regresso dos cientistas portugueses. Preocupa-me sim e' porque e' que Portugal nao consegue atrair bons cientistas, sejam eles de que pais forem. Isso e' que importa saber.
E volto a dizer que o Antonio Coutinho disse no final tem razao. Compreendo que tenha sido um balde de agua fria naquele ambiente ter dito que os alunos dos PGDBs eram um previligiados e que tinham nascido com o rabo virado para a lua. Por outro lado, ele nao se insurgiu tanto contra as queixinhas. O que ele quis dizer e' que de queixinhas ja' o Pais esta' farto e que o que importa nao e' tanto os portugueses voltarem ou nao. O que importa e' globalmente nao atrair-mos cientistas de todo o lado.
O debate foi importante mas pecou pela miopia com que foi pensado e organizado. Talvez um misto de ter sido inserido nos alumni e de nostalgia o tenha enviezado...
BA
Publicado por: Bruno Afonso às janeiro 12, 2006 11:00 PM
Olá a todos,
Como coordenador da organização deste encontro de Gulbenkian Alumni gostaria de partilhar convosco a minha opinião sobre alguns pontos do debate:
1- O debate não foi pensado como uma forma dos alunos do PGDB se queixarem sobre as dificuldades que estão a ter em voltar a Portugal. Estes alunos, apesar de terem nascido "cientificamente" com o rabo virado para a lua não pensam que são os melhores do mundo nem acham que agora Portugal tem de lhes estender uma passadeira vermelha para voltarem.
2- A ideia principal foi debater uma série de experiências diversas de regresso ou não a Portugal, para trabalhar em investigação ou outras actividades ligadas à ciência. O que me pareceu foi que até agora as razões para o regresso têm sido mais pessoais do que as científicas, que voltar implica enfrentar algumas dificuldades não existentes noutros países, e que se todos nos empenharmos, incluindo os responsáveis pelas decisões, é possível resolver muitos dos problemas.
3- Não estava subjacente ao debate a ideia de atrair só portugueses para Portugal, a razão do debate se ter centrado nos portugueses foi porque nós somos portugueses e a maioria dos cientistas estrangeiros nem sequer pensa no assunto, tentámos ter estrangeiros que trabalham em Portugal no painel mas não funcionou porque são muito poucos e a maioria não passou cá o Natal. Concordo que o grande desafio é conseguirmos atrair bons cientistas independentemente da nacionalidade mas acho muito preocupante que o nosso sistema até tenha dificuldade em atrair os bons portugueses.
4- Acho que a maioria das pessoas que lá estiveram não saíram com a impressão de ter estado numa sessão de queixinhas, penso que se alguém ficou com essa ideia isso se deverá em grande parte à intervenção do Prof. António Coutinho, não tanto pelo que disse, e com o qual concordo, mas sim pela forma como o disse e pelo facto de ele ser um cientista que tanto admiramos e respeitamos. Os problemas que foram discutidos no debate existem de facto em Portugal e parece-me que na sua maioria já foram resolvidos noutros países. Também temos de ser capazes de os resolver.
5- O debate pode ter sido míope mas gerou certamente discussão e exposição mediática. Para o ano conseguiremos fazer melhor, será organizado com mais tempo e teremos outro coordenador. Como ainda não foi anunciado, por favor, enviem sugestões sobre o tema e formato do debate do próximo ano para mim (ajacinto@fm.ul.pt), estou certo que as vossos comentários serão tidos em conta.
Aproveito também para dizer que concordo com o Santiago quando afirma que até agora a política científica portuguesa tem previligiado o "mais" e não o "melhor". Sou no entanto mais optimista do que ele porque acho que as estatísticas estão a ficar cada vez mais compostas e que nos próximos anos teremos uma aposta mais forte na qualidade. Os objectivos da Fundação Champalimaud, recentemente anunciados, e a política de recrutamento de algumas instituições cientificas de referência em Portugal são bons sinais para o futuro.
Finalmente, aparentemente ao contrário do Bruno, acho que os programas de doutoramento foram uma iniciativa fantástica que contribuiu a criar uma comunidade global de cientistas que se preocupam com a ciência e com Portugal, e que entre outras coisas deram à luz o Conta Natura.
Publicado por: Antonio Jacinto às janeiro 13, 2006 02:21 AM
Ola' Antonio,
Fui duro demais e talvez esteja a ser mal interpretado (claramente, apos ler o teu ultimo paragrafo).
Respondendo aos teus pontos, parece-me obvio que as pessoas vao para onde vao principalmente devido a razoes pessoais. Isto e' normal, seja em Portugal, seja em qualquer lado!! Somos animais sociais e as pessoas que gerem a sua vida praticamente em funcao da sua profissao sao a minoria. Posto isto, e' obvio que nao me choca ***nada*** que alguem decida voltar para o seu pais, neste caso concreto, Portugal. E concordo com a Sofia... quando queremos voltar ao pais devido a varias razoes pessoais, as pessoas infelizmente sujeitam-se a coisas que nao deviam, mas sao impotentes para poder mudar a situacao. Nao estao no poder e fora dos lobbies. Acho perfeitamente legitimo que estejamos todos preocupados com a situacao actual. No entanto, tb acho que nao estamos a fazer mais do que a nossa obrigacao...
O nosso sistema tem problemas em atrair os bons portugueses tal como tem em atrair os bons espanhois, etc. Agora, tem o trunfo 'a partida de sermos Portugueses a quererem voltar ao seu Pais! Mas isso por vezes nao chega e por isso e' que temos que pensar em mudar o sistema actual, que claramente nao funciona se pensarmos a nivel global.
Apesar de ter achado o debate miope na sua concretizacao final, nao o achei mau nem tao pouco achei que perdi o meu tempo em la' ir. Espero que iste fique claro. Tenho grande pena que nao tenha realmente existido tempo para se debaterem assuntos importantes, num momento tao especial como aquele em que estavam reunidas pessoas q trabalham ou trabalharam em todo o mundo. Mas para o ano havera' mais, espero eu. :)
Quanto ao ultimo paragrafo, parece-me que estas a ser deselegante pois nao acho correcto pores palavras que eu nao disse na minha boca. (confesso que isso me faz saltar a tampa) Longe de mim achar que os programas nao sao uma iniciativa espetacular. No entanto, acho que e' preciso perspectiva ao se falar dos programas...
Abraco
BA
ps: engracado q estou a entrar no campo q tu dizes q seria bom para se entrar agora, stem cells ;)
Publicado por: Bruno Afonso às janeiro 13, 2006 03:06 AM
Acho que o comentario do PGDBM diz tudo!! Excelente!!
Publicado por: Luni às janeiro 13, 2006 11:03 AM
Antes de mais quero deixar claro que não penso que o debate tenha sido um “debate queixinhas”. Contra isto me pronunciei. Os participantes no debate falaram mais do que está mal do que o que está bem, mas nestas ocasiões é necessário pôr ênfase no que está mal para que se possam encontrar soluções e torná-lo um pouco melhor.
Não concordo com o Bruno quando diz que o discurso do Sr. Ministro da Saúde foi de acordo com a realidade e melhor que o discurso do Sr. Secretário de Estado da Ciência. Obviamente não disse, nem digo, que o discurso do Sr. Ministro estivesse errado. É claro que vivemos num mundo global. Mas qual é o papel de Portugal nesse mundo global? Vamos continuar na sombra a regozijarmo-nos pelo facto de termos um António Damásio a contribuir para a ciência global?
Lamento Bruno, mas de frases feitas e discursos cliché está o mundo político cheio.
Quanto às palavras do Prof. António Coutinho, concordo com o António Jacinto, não foi tanto o que disse, mas como o disse. Se não fosse o tom paternalista usado se calhar agora lembrar-nos-íamos melhor dalgumas partes positivas do discurso (como, por exemplo, o ênfase na importância da regularização do financiamento científico) em vez de só falarmos do malfadado “rabo virado para a lua” dos alunos do PGDBM.
E para tema do debate no próximo ano, que tal discutirmos (a sério) o financiamento privado? Afinal, neste mundo global em que vivemos, tanto a ciência básica como a aplicada só sobreviverão se houver maior e mais diverso financiamento privado.
Publicado por: SJA às janeiro 13, 2006 11:49 AM
Por favor, retirem a frase "aparentemente ao contrario do Bruno" do meu comentário anterior, afinal concordamos.
Relativamente aos assuntos abordados no debate também me parece que o problema do “inbreeding” é dos que mais preocupam os investigadores. Não estou a ver bem qual a solução porque a resistência de algumas das nossas universidades à mudança é enorme.
Ideias para resolver o nosso “inbreeding” ???
Talvez fosse interessante continuarmos a discutir isso neste thread ou alguém da redacção fazer um post específico sobre o assunto.
Publicado por: Antonio Jacinto às janeiro 13, 2006 12:56 PM
O "inbreeding" merece, de facto, um post (ou mais) só para ele e para a discussão das suas vertentes.
Também não era má ideia para um debate no próximo GAMeets. Mas talvez se tornasse demasiado uma "lavagem de roupa suja"...
Publicado por: SJA às janeiro 13, 2006 06:10 PM
A Ciência em Portugal não evoluirá muito se tentar reabsorver os inúmeros cientistas portugueses espalhados pelo mundo que desejam arduamente regressar ao país... por motivos pessoais. Acho que deviam apostar em absorver cientistas que estejam interessados em fazer ciência em Portugal por motivos profissionais! Para isso, tal como tem sido sublinhado extensivamente pelo Santiago, a aposta tem que ser em cientistas Senior, Junior-quase-Seniors, em suma, construir uma "casa" pelos alicerces.
Publicado por: Joao Pereira às janeiro 13, 2006 11:10 PM
Oh Sofia,
O Manuel Heitor falou 30 segundos e eu fiquei na mesma. Disse que concordava com os problemas mas nao o vi falar nem de solucoes nem sequer tao pouco deu a sua opiniao sobre eles. Pessoalmente faz-me confusao estar num debate durante 2h e nao ter nada para dizer mas ok... O ministro falou de varios projectos que estao a avancar, desde financiamentos de empresas privadas, etc. Parece-me bem melhor... de boas intencoes esta' o mundo cheio...
Quanto 'as universidades, a questao e' delicada. Em primeiro lugar e' tudo do estado e as pessoas tem contratos feitos e nao podem perder direitos adquiridos normalmente... Vamos esperar ate' as pessoas morrerem? Resolvera' o problema? Ate' morrerem ensinam os outros... :-)
Pessoalmente, salvo raras excepcoes, a ciencia de topo em portugal nao vai passar pelas faculdades nos proximos anos. O problema que me preocupa e' como evitar o inbreeding nos institutos relativamente novos pois as faculdades para mim sao um caso relativamente perdido, no enquadramento das mesmas actualmente... Ou acham que nao existe inbreeding fora das universidades?
BA
Publicado por: Bruno Afonso às janeiro 14, 2006 12:33 AM
Parece-me que a questão do regresso dos cientistas e do seu salário está ligado a várias coisas:
Desenvolvimento de estratégias de política de investigação nos institutos e centros universitários, obrigatório na maioria dos países para obtenção de financiamento público, com capacidade de contratar ou comprar tempo de investigação.
Convém pensar porque é que Portugal usa bolsas de post-doutoramento para controlar a questão das contratações. Já pensaram certamente que os fundos que estão a pagar essas bolsas são os estruturais. O mecanismo das bolsas como remédio a curto prazo para a questão do emprego científico foi usado pelos políticos e FCT e organizações científicas para não resolver a questão do emprego e do que queremos com os institutos públicos e universidades. Também porque centros de investigação não contratam pessoas mas vivem dos salários pagos por terceiros, confortável assim obter o tempo de investigação de graça, não? Isto implica escolhas, estratégias, financiamento próprio, controlo da qualidade que ninguém quer fazer pois todos estão comprometidos de uma forma ou doutra e um sistema não controlado dá muitos graus de liberdade em termos individuais em detrimento do colectivo.
Toda a gente sabe dos abusos que se passam nas bolsas da FCT, doutorandos a receber dinheiro para estar no estrangeiro e quase nunca saem de Portugal, cientistas convidados que vem passar três a quatro dias por mês a Portugal incluindo fim-de-semana e que recebem como se estivessem a tempo inteiro. Eu pergunto porque é que a FCT e os cientistas em geral se preocupam tanto com a selecção de bolsas e projectos e nada com os resultados e o acompanhamento? Não convém nem a uns nem a outros. Se a FCT fosse autónoma do Governo e gerida com credibilidade se calhar tudo isto seria diferente, mas não está presa pelos interesses de quem se vai alternando como ministro. A FCT só tem duas pessoas a decidir o Presidente e o Ministro. Conhecem outro caso assim? Eu não nem sequer era essa a tradição em Portugal.
Porque é que a avaliação dos programas e dos $ investido da FCT não é feito por equipas internacionais? Os campeões do modelo internacional deveriam demonstrar primeiro que querem a sua acção seja avaliada, mas não por uns estrangeiros amigos, à la ciencia viva, mas por equipas credíveis. Não basta falar de transparência e acusar os outros é preciso ser como a mulher de César....e há muito poucas infelizmente nos tempos que correm.
A resolução do emprego científico passa por concursos com juris independentes que seleccionem os melhores para o cargo, no caso das universidades e institutos públicos ou universitários ou por escolhas/convite comprovadamente de qualidade. Passa também pela avaliação do pessoal contratado e com posição permanente. Se a avaliação fosse feita pelo mérito e trabalho produzido o dinheiro investido tinha mais rentabilidade e certamente menos professores universitários na política, no governo, nas direcções-gerais. Eles tem um salário e uma posição mas não o justificam na sua carreira e ainda vão ocupar cargos para os quais não teem competência específica.
Os poderes públicos presentes, pela descrição, só comprovaram que não sabem como avançar e que não estão dispostos a partilhar o poder de decisão e pensamento a encontrar com os outros o melhor caminho. Era isso que seria de esperar dos representantes do governo que são nomeados para coordenar a coisa pública não para impor as suas visões. Deviam de ter aproveitado a sessão para propor um método para identificar soluções. Pois contrariamente ao que se diz, os diagnósticos não estão feitos, nem sequer identificados os caminhos a seguir. Isto é uma tarefa de todos!
Publicado por: MariaLuna às janeiro 14, 2006 03:06 PM
Oh Bruno, francamente, é impressão minha ou tu também estiveste 2 horas no debate e não disseste nada para contribuir?
Quanto ao inbreeding, lembro-vos do que disse o Sr. Ministro da Saúde (nem tudo foi mau, afinal de contas!). Cuidado que o inbreeding è bastante contagioso!
Publicado por: SJA às janeiro 14, 2006 03:08 PM
Um pouco a despropósito, mas não inteiramente, acabei de verificar que um portal de ciência tem apenas e só 40 cientistas no seu conselho científico! Estou a falar do CIENCIA HOJE, o portal de um dos assessores do ministro para a ciência e tecnologia, Jorge Massada.
Não conheço nenhum instituto ou research council no mundo que tenha um conselho científico que funcione com 40 pessoas. Esta é a máxima nacional mais em uso, a aparente democracia, juntar muita gente para que nada se faça, pois é impossível uma reunião de aconselhamento funcionar com 40 stars!!!!! Só quem não sabe de reuniões deste género.
e asssim vai este país!
e assim vai a nossa ciência.
Fico pasmada como estes cientistas, que para mim são pessoas credíveis, embarcaram nesta cabala. Só para dar o nome? a troco de quê?
Publicado por: sara às janeiro 15, 2006 11:06 AM
Em relação à questão do "inbreeding", e já que p António Jacinto pediu possíveis questões para uma futura discussão:
Embora concorde que parece que se está a desenvolver um certo "inbreeding" à volta dos antigos alunos PGDBM/PGDB (vês, Sofia, não usei "alumínios"),já existe há muito tempo um "inbreeding" muito pior em Portugal, e que era uma das intenções do programa combater. Falo, óbviamente, daqueles casos em que o aluno faz o curso de ciências numa Universidade, faz lá o estágio, trabalha mais uns meses para o mesmo grupo de graça, depois lá se consegue uma BIC, depois um mestrado, depois o doutoramento (que pode durar ai uns dez anos), depois um pos-doc...tudo sem nunca sair das mesmas quatro paredes e da esfera de influência do mesmo PI. O programa ao menos expõe alunos a professores estrangeiros, encoraja-os a ir para fora, a fazer "lab rotations" noutros laboratórios...Claro que remexer assim as coisas de maneira a arejar as cabeças custa caro, e tira influência a PIs individuais.
Apresento desde já uma possível medida para combater este tipo de "inbreeding" (não gosto nada de debates em que se passa o tempo todo a debater o que está mal sem deixar tempo igual para pensar em soluções concretas): no meu curso (Bioquímica do Porto) verifico que tem estado a aumentar o número de alunos que faz o estágio do 4o ano, de seis meses, no estrangeiro. Esses alunos, se voltam, normalmente procuram empregos mais diversos, de qualquer maneira, já sairam da esfera de influência de um grupo; muitos prolongam a estadia lá fora, indo para outros sítios. Trazem sempre um contributo enriquecedor para a ciência portuguesa. Devia-se incentivar os estágios laboratoriais de fim de curso no estrangeiro, e já agora arranjar uma maneira decente de financiar os alunos, porque neste momento só vão para fora aqueles que tem dinheiro dos papás.
Publicado por: Maya às janeiro 15, 2006 11:34 AM
Apenas um comentário.
Não culpem tanto o sistema como se fosse algo de exterior a todos os que aqui escrevem. Somos todos parte do sistema e antes de criticar o sistema, seria bom que nos perguntássemos o que estamos a fazer para o mudar.
É que combater o sistema tem que começar dentro de cada um de nós. Por exemplo, se há tantos golpes nas bolsas da FCT, como aqui foi escrito, não digam que a culpa é da FCT por falta de controle. Quem dá os golpes são afinal os cientistas e não há controlo possível que o evite. Ou pensam que o MRC perde tempo demais a fiscalizar a veracidade das bolsas inglesas?? É claro que não. Porque existe um padrão de comportamento nos cientistas em Inglaterra que não os leva a dar golpes, é uma atitude que parte de dentro deles.
É como todos criticarem que se conduz mal em Portugal e que a culpa é da falta de policia nas estradas, mas quando estão ao volante comportam-se iguais aos outros. Ou não me digam que não estacionam o vosso pópó em cima do passeio?????
Por isso, é que acho que ao aceitarem ser group leaders com bolsas de post-doc, estão a ser parte do sistema e a contribuir para a sua manutenção, apesar das desculpas bem intencionadas que apresentam.
Em que é que são diferentes dos outros golpistas??
Em Inglaterra, aceitavam essa situação como normal e depois iam queixar-se ao ministro??
Antes de nos queixarmos e criticar o dito sistema, preocupemo-nos mais em adoptar na nossa vida diária como cientistas os padrões que tão bem adoptamos quando estamos fora e que muitas vezes esquecemos quando aqui chegamos. Se todos fizerem isso quando regressarem, a coisa vai. Agora se fazem como os que sempre cá estiveram, então calem-se e não se queixem.
Publicado por: Pinto Calçudo às janeiro 15, 2006 11:32 PM
Oh Bruno, francamente, é impressão minha ou tu também estiveste 2 horas no debate e não disseste nada para contribuir?
1) Eu nao tenho responsabilidades politicas nem fui convidado institucionalmente para estar presente.
2) Pessoalmente nao me da' prazer dar a minha opiniao sem discussao posterior, que foi o que aconteceu nos moldes em que a coisa foi organizada devido 'a falta de tempo. Concordaras que e' a discussao que e' mais interessante...
3) Acho que ambos ouvimos os mesmos discursos, apenas com um bias diferente. :-)
BA
Publicado por: Bruno Afonso às janeiro 16, 2006 02:42 PM
(peco desde ja desculpa pela falta de acentos)
Devo concordar com o Bruno Afonso quando ele diz:
"Bolsa de excelencia sao os portugueses que nao precisam de PGDBs/GABBA/CNCs para nada e vao com bolsas de qualquer lado do mundo fazerem o que bem lhes apetece, sem andarem em programas para serem catapultados para com a sua bolsa, pois claro...".
Estou neste preciso momento a participar na seleccao para o programa internacional de Phd EMBL na Alemanha, e nao posso deixar de sorrir quando olho para tras e penso em todo o processo de humilhacao que passsei em portugal nas entrevistas onde fui. E' de crer que estando seleccionado para um programa de tanto prestigio na Europa seria facil para mim encontraruma bolsa em portugal, fosse ela uma BIC ou um doutoramento. O que 'e certo 'e que se chega ao limite de as pessoas nem sequer responderem 'as minhas candidaturas. Seria comico nao estivessem os meus sonhos postos em causa.
Algo de muito estranho tambem se passa nos programas doutorais (GABBA, IGC e CNC). Nao existe qualquer processo minimamente coerente de preseleccao dos candidatos e depois sao chamados 150 candidatos para ocuparem 12 vagas. Com uma entrevista de 15 minutos onde se psicanalisam os candidatos e se espera encontrar "the one and only", o pseudogeniozinho, o labfreak...nem sequer consigo verbalizar o tipo de candidato que realmente procuram. No EMBL tive ja cerca de 11 entrevistas com os diferentes lideres de grupos, fui encorajado a perder um dia para visitar os laboratorios e os Posdoc que ai trabalham e hoje mesmo tive que passa por um teste oral teorico perante um juri de 5 PI. Mas isto ciencia do melor que ha no mundo...E com grande pena que digo que nao posso esperar o mesmo do meu pais!
Um abraco
Publicado por: ELHARAIM às janeiro 26, 2006 02:30 PM
Caro ELHARAIM,
O processo de seleccao do EMBL e muito interessante mas nao tao especial assim.
Primeiro, o teste teorico e um proforma, so para averiguar que o candidato tem conhecimentos minimos relativos a educacao que teve. Se o candidato tiver estudado fisica tem perguntas de biologia muito basicas, se tiver estudado bioquimica ja tem perguntas mais especificas. Muito raramente e alguem eliminado por causa deste exame.
Segundo, das entrevistas com os group leaders todos o que conta e um ou dois deles gostarem de um candidato e vice-versa. Provavelmente os criterios aqui sao tambem bastante subjetivos.
Terceiro, o visitar os laboratorios e falar com as pessoas que la trabalham so faz sentido porque o candidato esta a escolher nesse momento o laboratorio onde vai ficar. No caso dos programas portugueses nao, a visita aos laboratorios faz-se depois.
Processos de seleccao em que esteja envolvido uma entrevista sao sempre subjectivos. Programas de 12 vagas com 150 candidatos hao-de sempre deixar pessoas com valor de fora.
Boa sorte na abertura dos envelopes
Luis
Publicado por: Luis Teixeira às janeiro 26, 2006 06:57 PM