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dezembro 08, 2005

It's a Dog World...

Boxer 1.jpgO Diário Digital tem um texto (que creio ser originalmente da Lusa) em que se fala de um artigo publicado hoje na Nature, com a sequência completa do genoma do melhor amigo do Homem.

O texto da Lusa/Diário Digital consegue ser a coisa mais desinteressante e mal escrita que eu me recordo de ter lido os últimos meses. A começar pelo título "Descodificado genoma do cão, continuando pelo primeiro parágrafo Uma equipa de investigadores decifrou o código genético dos cães, comparou-o com o dos humanos e concluiu que as pessoas poderão ter menos genes do que se pensava, e acabando numa enigmática citação do Autor Principal do artigo ...Lander afirmou que o estudo dos cães "está a conduzir os investigadores à dúvida sobre se serão de facto genes humanos reais", tudo ali é tristemente paradigmático do nível a que o nosso (pseudo-) jornalismo científico chegou. Para recordar velhas guerras muito nossas, o último parágrafo está ao nível da Redacção da Vaca: "Até ao momento, os cientistas já decifraram o ADN de ratos, chimpanzés, galinhas e humanos, bem como de muitos outros organismos.

Não é suposto os jornalistas saberem o que é um "código", antes de falarem em "descodificação"? Ou até uma "cifra", já que usam o verbo "decifrar"? Que jornalista é que traduz o que quer que seja que Eric Lander tenha dito duma maneira que insinua que afinal os genes humanos não são reais?

Seria preciso só um pouco mais de rigor jornalístico para se ter escrito "sequenciação do genoma". Já para explicar que alguns dos supostos 30.000 "genes" identificados no genoma humano são provavelmente resultado de erros do "software" e não correspondem na realidade a verdadeiros "genes" (que codifiquem uma proteina ou sirvam para controlar a sua expressão), era preciso algo mais: Era preciso ter interesse pela matéria sobre a qual se escreve e algum gosto por aprofundar conhecimentos...

Leiam a peça no Diário Digital. Esta peça consegue ignorar tudo o que é importante no estudo que descreve e tem a única virtude de criar nos leitores uma grande vontade de ir ao New York Times perceber o que é que na realidade aconteceu (e percebe-se, apesar de também estes falarem em "descodificação"). A razão que leva a Nature a distribuir antecipadamente os "press releases" é para os jornalistas terem tempo para escrever artigos como no NYT, e não tontices como no Diário Digital/ Lusa...

Os mais interessados podem também ler o News & Views que acompanha o artigo (que depositei, ilegalmente acho eu, na nossa Hemeroteca). Não se exige, obviamente, a um profissional do jornalismo tanto rigor científico como Hans Ellegren revela, mas se os gajos da Lusa começassem a ler (e a estudar...) o "front-end material" das Revistas Cientificas, o jornalismo em Portugal seria bem melhor.

Publicado por Santiago às dezembro 8, 2005 04:05 PM

Comentários

E acreditem que o Hans é umas das pessoas mais rigorasas que conheco!!

Publicado por: Luni às dezembro 9, 2005 11:10 AM

Ha uns meses atrás quis candidatar-me aos estágios de jornalismos científico do Público. Ingenuamente achei que um dos principais objectivos desta iniciativa era conferir algum rigor científico às notícias publicadas. Áfinal não, era para eles no ensinarem a nós. Quando pedi a carta de recomendação ao meu orientador a resposta dele foi "Tens certeza que queres? Olha que eles não percebem nada de jornalismo científico, vão ensinar o quê?". Não fui seleccionada. E começo a achar que estou melhor assim!

Publicado por: Joana às dezembro 12, 2005 11:20 AM

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