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dezembro 10, 2005
GripePT.Notícias
Apesar da marcha lenta, continua a crescer o número de novos assinantes do GripePT.net e esperemos que com algumas novas iniciativas de divulgação televisiva, consigamos ultrapassar os níveis de participação do estudo que está a decorrer na Holanda e na Bélgica - 32 mil! Julgo que não é pedir muito. Recordo que os portugueses já deram provas, noutros tempos é certo, de que eram capazes de "entupir" os aparelhos de Fax das Nações Unidas... Agora, o Conta Natura pede-lhe que, a bem da Ciência, nos entupa o GripePT com as suas visitas!
Esta semana a Newsletter aborda a problemática das vacinas e faz a actualização da gripe das aves.
Esclarecimentos sobre vacinas
Uma das questões mais pertinentes que convêm esclarecer hoje é a questão das vacinas contra os vários tipos de gripe. Existem? Não existem? São eficazes contra que tipos de gripe?
A vacina mais comum, aquela que todos os anos é produzida e comercializada, é eficaz apenas contra a gripe sazonal, aquela que todos os anos provoca uma epidemia no Inverno. Esta vacina não é eficaz contra a gripe das aves nem contra uma eventual gripe pandémica. Para a gripe das aves importa considerar dois tipos de vacinas: para as aves e para os humanos. Para as aves existem já vacinas, nomeadamente na China, onde o governo planeia vacinar em massa todas as espécies de aves domésticas do país. Para os humanos há algumas vacinas em fase de teste, e a sua produção é possível. No entanto, este seria provavelmente um esforço inútil. Não só o número de vítimas mortais da gripe das aves é diminuto à escala mundial, como a vacinação contra a gripe das aves não confere protecção contra a gripe que causar a temida pandemia.
Contra a gripe que provocará eventualmente uma pandemia não há, nem pode haver, uma vacina, até que se dê a emergência do vírus pandémico e se identifiquem as suas características. A partir do momento em que se isolar o vírus pode finalmente produzir-se a vacina. Esta demora no entanto alguns meses a ser produzida em quantidades suficientes. O maior problema que se põe quando se fala de uma pandemia de gripe é de facto este. Quando finalmente tivermos a vacina disponível já o pior passou. Esforços estão no entanto a ser envidados pela OMS e a comunidade internacional no sentido de reduzir ao máximo o tempo de produção da vacina, aumentando a capacidade de produção, por um lado, e acelerando o processo burocrático de libertação no mercado de um medicamento, por outro.
Actualização da situação da gripe das aves
O veterinário chefe da Ucrânia, Petro Verbytsky, foi esta semana convidado a demitir-se pelo presidente, Viktor Yushchenko. Alegadamente, Verbytsky foi incapaz de dar resposta adequada à detecção em Setembro da presença de uma estirpe H5 em aves daquele país. Yushchenko visitou a península da Crimeia, a zona mais afectada, onde os locais relataram que a morte das aves começou em Setembro de 2005
Na China foi confirmado o quarto caso de gripe das aves, uma menina de 10 anos que se encontra em observação no Hospital. A china é o país mais recentemente afectado por casos humanos de gripe das aves. Na lista de países mais afectados encontramos à cabeça o Vietname, com mais de metade dos casos e mortes provocados pela doença. Os outros países afectados são a Tailândia, a Indonésia e o Cambodja.
A lista de países pode ser acedida no site do projecto nesta página:
http://www.gripept.net/?q=newsletter_5
Publicado por RPA às dezembro 10, 2005 03:36 PM
Comentários
H5N2 no Zimbabwe.
Publicado por: Lowlander às dezembro 11, 2005 10:03 PM
Viva Lowlander!
Valeu a pena esperar... Posso agora adiantar que podemos todos respirar de alívio pelo significado favorável do isolamento do H5N2. Eu recordo que os subtipos H5 e H7 fazem parte dos agentes difundidos habitualmente pelas aves migratórias. É claro que sempre que as aves domésticas são envolvidas, devem ser tomadas medidas especiais em virtude dos contactos frequentes com o Homem e o risco de selecção de mutantes que infectem a nossa espécie.
Neste momento, o importante é passar a mensagem de tranquilidade sobre a evolução da epizootia até aqui e desejar que o continente africano se mantenha livre de mais um flagelo sanitário e económico.
Não está esquecida a actualização do Influenzoscópio.
Publicado por: RPA às dezembro 12, 2005 12:31 PM
Sim, felizmente e a estirpe e diferente. Mas mesmo assim e um HPAI, nunca reportado no Zimbabwe, veremos como evolui a situacao no terreno.
Outro factor que deveria ser investigado seriamente em minha opiniao e porque so agora ocorrer um surto no Zimbabwe? Serao as exploracoes envolvidas (avestruzes, portanto necessariamente em regime extensivo) recentes e construidas perto de zonas humidas? Sera resultado de uma vigililancia sanitaria mais apertada por la? O H5N2 em 2003 nos EUA comecou e LPAI e poucos meses depois mutou para HPAI podera o mesmo ter sucedido ali com evolucao discreta do LPAI a passar despercebida aos produtores?
Controlar surtos e obviamente importante mas conhecer as suas causas e creio eu um exercicio muito mais frutuoso a longo prazo.
Publicado por: Lowlqnder às dezembro 13, 2005 08:51 AM
So mais uma nota:
"O veterinário chefe da Ucrânia, Petro Verbytsky, foi esta semana convidado a
demitir-se pelo presidente, Viktor Yushchenko. Alegadamente, Verbytsky foi incapaz
de dar resposta adequada à detecção em Setembro da presença de uma estirpe H5 em
aves daquele país. Yushchenko visitou a península da Crimeia, a zona mais afectada,
onde os locais relataram que a morte das aves começou em Setembro de 2005"
Para mim isto e uma pessima actuacao do chefe de governo revelando populismo, demagogia e acima de tudo uma falta de profissionalismo gritante que envia a pior mensagem possivel a quem quer que seja que esteja por la a trabalhar no terreno. Nem os servicos veterinarios de um pais sao uma equipa de futebol nem as politicas de sanidade animal sao campeonatos da 1a ou 2a Liga...
Publicado por: Lowlander às dezembro 13, 2005 08:58 AM
Sim, Lowlander! É como diz, uma estirpe de patogenicidade elevada, mas a origem só agora poderá ser determinada. A sequênciação do genoma do vírus pode ajudar a determinar com elevada probabilidade a sua origem através da elaboração de árvores generalógicas. De qualquer forma, tenho dificuldade em imaginar os EUA a exportarem o que quer que seja para o Zimbabwe...
Por outro lado, o continente africano só agora tem explorações agrícolas e pecuárias de grande dimensão. Assim sendo, as incubadoras de vírus novos e de patogenicidade elevada, não existiam anteriormente.
Sobre a Ucrânia o que diz é certamente correcto mas também poderá imaginar a contrária: um veterinário chefe verdadeiramente incompetente e um líder político franco e honesto, despreocupado com as "sondagens" e apostado em resolver, a bem ou a mal, um problema muito grave! Saberá bem que há problemas parecidos no nosso país que não se resolvem assim com receio do escândalo e da "imagem do estado democrático"...
Publicado por: RPA às dezembro 13, 2005 11:24 AM
"Por outro lado, o continente africano só agora tem explorações agrícolas e pecuárias de grande dimensão. Assim sendo, as incubadoras de vírus novos e de patogenicidade elevada, não existiam anteriormente."
Isto nao e inteiramente verdade no continente e certamente e incorrecto no Zimbabwe. Alias, ate fiquei surprendido de ainda existir por la pecuaria depois das ocupacoes de terras promovidas pelo maluco do Mugabe...
Publicado por: Lowlander às dezembro 13, 2005 04:23 PM
Ok, mas se olharmos para as epidemias aviárias dos últimos 15 anos há alguma evidência no sentido do aumento da frequência e da gravidade. No entanto, há controversia e a conclusão não é inteiramente segura.
Eu continuo a não estar muito inclinado para a importação, talvez esteja enganado. Vejo o continente africano (sub sariano) mais como um exportador de HIV, de Ébola, de Marburgo, etc...
Publicado por: RPA às dezembro 13, 2005 08:05 PM
Caro RPA,
Os exemplos que cita nao servem para a sua teoria, pelo menos as febres hemorragicas. Nao se sabe muito bem qual e a especie reservatorio dessas zoonoses mas pensa-se que serao ou simios ou morcegos, ora em abos os casos Africa e o continente mais rico em exemplares dessas especies pelo que e natural que seja a incubadora de tais virus e posterior exportador.
Nao e caso do HPAI (pelo desculpa pelas iniciais em ingles mas acho mais elegante que em portugues... manias...). O sudoeste asiatico e o maior produtor (e consumidor) mundial de aves e portanto naturalissimo que incube e exporte HPAI.
Quanto ao aumento da frequencia e impacto das epidemias aviarias nos ultimos anos e uma consequencia logica da seleccao genetica e intensificacao da producao aviaria, avanco-lhe apenas com um dado: nos ultimos 15 anos a velocidade de crescimento de uma broiler (frango de carne) mais que duplicou. Mas mesmo considerando isto, nunca os efectivos aviarios foram em termos relativos tao saudaveis como hoje, engracado nao acha?
Publicado por: Lowlander às dezembro 14, 2005 06:51 AM
Caro Lowlander,
Claro que África é mais rica em reservatórios, por isso mesmo defendia o efeito exportador e verá que se aplica a qualquer agente.
Por outro lado, é verdade que os chineses têm colonizado fortemente o continente africano nos últimos anos. Terá isso algum impacto? Sabe que as pessoas poderão ser portadoras de patogénios não-humanos de uns locais para outros, o que poderia ter contribuído muito para este caso...
HPAI e LPAI são versões aleatórias de um vírus. A quantidade de reservatórios aumenta a possibilidade de mutação, mas a diversidade africana poderá dar um grande contributo, sendo um estímulo adicional à selecção de mutantes. São especulações que em breve serão esclarecidas, esperemos.
Publicado por: RPA às dezembro 14, 2005 11:36 AM
Sim, o potencial contacto do virus com outras especies, em especial mamiferos e preocupante.
Publicado por: Lowlander às dezembro 15, 2005 04:39 PM
Por outro lado nao concordo em absoluto com as pessoas a serem um vector de transmissao do influenza virus aviario.
1 - E um virus com capsula lipidica, por regra sao mais vulneraveis ao meio ambiente.
2 - Este em especial necessita de muita agua para persistir fora de um hospedeiro.
3 - Last but not least, a UE baniu importacoes de produtos aviarios do extremo oriente nao tratados termicamente pelo menos a 70 celsius pelo que o comite veterinario considera as fomites como um risco negligenciavel.
Publicado por: Lowlander às dezembro 15, 2005 04:45 PM
Nao existe um unico caso reportado de humanos portadores do virus sem manifestarem sinais clinicos, apesar de haver casos reportados com outros mamiferos. Mas aqui uma vez mais, o tranporte de animais vivos, alem de ser complicado entre continentes diferentes e fortemente regulado.
Cumprimentos.
Publicado por: Lowlander às dezembro 15, 2005 04:47 PM
Viva Lowlander!
Desculpe, não fui suficientemente claro. Eu falava em vector de transmissão, não necessariamente como veículo infectado, mas como portador de material contaminado: roupa, material, etc...
Apesar da fragilidade que refere e que é correcta, não se pode afastar essa possibilidade de contágio. Existe alguma resistência térmica e alguma resistência a "ambientes" desidratados (os objectos são veículos de gripe humana, por exemplo).
Sobre a sua última referência eu era capaz de prever isso mesmo. Os xenovírus não nos infectam, apenas deixam rasto, com alguns anticorpos circulantes.
Publicado por: RPA às dezembro 15, 2005 05:01 PM