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dezembro 11, 2005
A Verdadeira Essência do Amor
Não sei se poderá ajudá-lo, mas interesse, certamente terá. Aceite o convite e navegue por aqui e tome conhecimento de uma nova forma de informar e apelar ao tratamento nos países mais favorecidos, como o nosso.
No mundo ocidental há patologias com grande prevalência mas, por um motivo ou por outro, os Ministérios da Saúde (no caso português delega no INFARMED) não as consideram suficientemente graves, ou causadoras de morbilidade que justifique a entrega da tão ambicionada comparticipação.
Como poderá facilmente perceber, até porque diariamente poderá viver experiências semelhantes ou paralelas, há sofrimentos que as instituições de saúde não valorizam e como tal, não atribuem cabimento orçamental. Infelizmente, os orçamentos já estão excessivamente sobrecarregados, em quase todas as economias, e não podemos esquecer a importância das medidas de contenção da despesa. No entanto, não deixamos de constatar uma realidade que surge logo após cada medida mais restritiva e que tornam o sofrimento e a doença um pouco mais dolorosos. Algumas poderão envolver patologias para as quais já existem alguns tratamentos com magros benefícios e pesados efeitos adversos, mas que são incomparavelmente mais baratos, porque mais antigos. Na sua grande maioria, as decisões fármaco-económicas envolvem novos medicamentos, inovações terapêuticas que custam muitos milhões de dólares à industria farmacêutica e que não têm o proporcional retorno. São passos mais ou menos significativos, quer no aumento da eficácia, quer no aumento da segurança ou de ambos, mas que, por terem alternativa mais antiga e mais barata, não são comparticipados.
Nos estados sociais, como a maioria dos modelos de saúde europeus, a comparticipação dos medicamentos é o verdadeiro promotor das suas vendas. Quando assim não é, quando o estado não cobre a totalidade ou a parte do custo do medicamento, a indústria farmacêutica adopta inovadoras estratégias de sedução do doente, através de campanhas de esclarecimento que se apresentam de múltiplas formas.
Nada disto é novo, e o modelo tem sido aplicado, sublinhe-se, com grande sucesso, a muitos outros produtos, dentro e fora do domínio da saúde. Então, o que traz de novo esta iniciativa do Amor Vital que se junta a outras como o Vive Bem ou a mais discreta proprietária do comprimido azul? A novidade é a participação de um rosto conhecido do grande público - Nicolau Breyner- que veio defender a imagem do produto, como se de uma marca de bebidas ou de vestuário desportivo, se tratasse.
Posso explicar-lhes que com outros produtos farmacêuticos o procedimento standard é o de colaborar estreitamente com um ou mais líderes de opinião da área técnica ou científica e colar a imagem do produto, e do laboratório já agora, à imagem isenta do consultor. O efeito tem sempre impacto nos colegas, tanto na área médica, como em qualquer outra actividade profissional (vide debate público sobre o novo aeroporto de Lisboa...). Com este novo marketing pretende-se que seja o doente o alvo directo da campanha e é nessa altura que se abandona o tecnicismo, a objectividade e o rigor (quando presente) e se apela aos afectos e às emoções, a um mundo de comunicação que um poeta descreveria aqui com maior propriedade que eu.
Poderão pensar alguns que se abandona a ciência para dar voz ao teatro, à imagem e ao jogo das palavras, mas a estratégia não é descabida, muito pelo contrário. Vale sempre a pena não subestimar quem tem provas dadas de eficácia e vejamos porquê.
O produto é caro, mesmo contabilizando as forças ocultas que o seu nome comercial deixa revelar- Levitra. No caso vertente, uma embalagem, com quatro comprimidinhos apenas, custa €46,3, pagos integralmente pelo utente e só dá para quatro momentos de paixão... Aqui, ninguém pode acusar o estado de se intromoter na vida privada dos portugueses
O mais importante nesta matéria é, em primeiro lugar, convencer o indivíduo a tomar consciência de que tem um problema, que não está sozinho (o que torna particularmente interessante o profissionalismo do actor, quando deseja que o alvo se identifique com ele) e que existe uma solução à vista, mas que ela só aparecerá se o doente for ao médico! Aqui está, a arte de tornar banal e mesmo público, um verdadeiro tabu e de ajudar a resolvê-lo, quase levando a pessoa pela mão até ao consultório…
Isto é arte, não é ciência. Nada melhor do que um artista para esta tarefa!
PS- Mais adiante falaremos de disfunção eréctil, com um pouco mais de Ciência do que de Arte, espero bem.
Publicado por RPA às dezembro 11, 2005 06:10 PM
Comentários
Fiquei sem perceber se RPA defende a comparticipação de medicamentos como este.
Publicado por: MRS às dezembro 12, 2005 04:36 PM
Viva MRS! Já tinha saudades...
Como poderá imaginar, a ambiguidade não foi inocente. Ando a experimentar novos estilos literários que obriguem os nossos leitores a participar no Conta com mais visibilidade.
Essa questão, por si só, mereceria um outro post mas não vou deixá-la à espera.
Nos últimos três a quatro anos tem havido uma política muito restrictiva da comparticipação de novos medicamentos. Se consultar as newsletter do INFARMED verá que há mesmo anos em que nenhuma comparticipação foi dada a novas moléculas, apenas a formulações genéricas. Esta atitute, para além de grave, parece-me irresponsável e castradora do progresso da qualidade técnica da medicina praticada no Serviço Nacional de Saúde.
Devo também revelar-lhe que pertenço a uma minoria de médicos que julga ser absolutamente indispensável uma gestão rigorosa dos dinheiros da saúde e que têm de ser estabelecidas prioridades nos gastos. Como sabe, não é facil poupar o que quer que seja em Portugal. Nunca foi, não é e duvido que essa cultura alguma vez seja apreendida.
Na realidade há um conjunto de patologias em que as terapêuticas têm tido significativos avanços técnicos que não são para todos os doentes, mas apenas para aqueles que podem pagar. Falo-lhe de casos particulares, de especial gravidade, em que as novas medicações são incomparavelmente melhores que as anteriores, mas não convencem as autoridades de saúde e por isso permanecem sem comparticipação. Algumas situações são mesmo casos dramáticos (conheci uma família em que pai e mãe deixaram de fumar para pagar a medicação do filho).
Já agora, também recordo que este governo tomou a iniciativa de retirar a comparticipação do escalão 100% a muitos medicamentos para inúmeras patologias crónicas. É uma medida que os "utentes" (palavra que detesto, mas muito na moda) não compreendem, mas com a qual concordo.
Tendo como base estes recuos nos gastos do estado, (e recordo que os gastos totais têm aumentado todos os anos) poderá já imaginar como se posiciona a minha opinião para com a comparticipação de medicamentos do grupo da disfunção eréctil...
Reconheço o impacto desta patologia e julgo até que está subestimado. Estou convencido que num país mais rico do que o nosso essa comparticipação deveria estar disponível, mas dar a comparticipação a um grupo de medicamentos que não "salvam vidas" enquanto não se melhora a terapêutica em áreas críticas para crianças e idosos, parece-me inaceitável. O ideal seria dar a comparticipação ao grupo dos paraplégicos e a outras patologias neurológicas, mas os serviços portugueses não têm essa flexibilidade intelectual.
Publicado por: RPA às dezembro 13, 2005 10:57 AM
Ah, estamos de acordo, então. Pelo menos quanto à comparticipação de cuidados médicos / medicamentos na área da disfunção eréctil.
“nenhuma comparticipação foi dada a novas moléculas, apenas a formulações genéricas” -- terá de explicar a diferença.
Não creio que o “progresso da qualidade técnica da medicina praticada no Serviço Nacional de Saúde” deva ser feito à custa de comparticipações, tendencialmente indiferenciadoras dos seus destinatários. De resto, já antes abordámos esta questão, a propósito do fim da comparticipação da pílula contraceptiva. Na altura, como julgo que lhe disse, estava em causa a constatação pelo MS de que quem beneficiava da comparticipação era quem menos dela precisava -- as mulheres que tinham acesso facilitado a um médico e a uma receita.
Numa época em que todos os tostões contam, julgo que o apoio do Estado não deve ser cego. Por outras palavras, só deve ter acesso a comparticipações quem delas efectivamente precisa. E esta necessidade não pode ser definida por uma prescrição médica ou pelo estatuto de doente crónico. Tem de ser aferida em função dos rendimentos do doente e do seu agregado familiar. Dito isto, ou as declarações de rendimentos anuais permitem a correcção das desigualdades relativas ou (e porque há certos medicamentos que atingem preços proibitivos) essa desigualdade (económica) é desde logo reconhecida e o “utente” tratado em conformidade.
Pensando na Protecção Social Aos Funcionários e Agentes da Administração Pública (ADSE), não lhe parece pouco razoável que Director-Geral e Motorista usufruam de comparticipações idênticas apenas porque trabalham para o Estado?
Está a ser muito bem sucedido na experimentação de novos estilos literários. Aliás, folgo em ver que fez uso de apenas dois pontos de exclamação… ;-) E com títulos como este, há-de ir longe.
Publicado por: MRS às dezembro 13, 2005 03:43 PM
"Formulação genérica" referia-se a qualquer medicamento genérico- medicamentos produzidos por qualquer laboratório, uma vez livres de direitos de propriedade que expiram ao fim de 10 anos.
Como poderá imaginar, a produção em larga escala é barata e por isso os genéricos são mais baratos, ou devem ser... (Há casos de medicamentos genéricos mais caros do que os de marca, porque a casa mãe tem maior capacidade para baixar os preços do que os pequenos laboratórios especializados em genéricos, mas isto só aqui em Portugal)
Sobre a comparticipação também concordamos mas enquanto as declarações de rendimentos não tiverem credibilidade, penso que não teremos alternativa.
No entanto, não podemos esquecer que há encargos de saúde mesmo muito pesados e que a doença crónica, por definição, deverá ter atenção especial da entidade avaliadora. Por outro lado, a comparticipação garante a distribuição pelas farmácias de medicamentos fornecidos gratuitamente nos hospitais. De outro modo, para terem acesso aos medicamentos gratuitos têm que ir ao hospital (o desperdício é o mesmo, mas têm que percorrer quilómetros)
Eu posso aqui afirmar-lhe que mesmo que os hospitais públicos quisessem cobrar os cuidados prestados a alguns doentes (de mas elevado escalão de IRS), não o conseguiriam fazer porque não sabem quanto gastam. Aliás, o Ministério da Saúde tão pouco. (!) ;-)
Sobre a ADSE concordo, mas parece que o senhor Primeiro Ministro não concorda e até acha que quanto maior o estatuto na função pública, maiores as comparticipações...
..."Está a ser muito bem sucedido na experimentação de novos estilos literários"...
Muito obrigado, MRS. Quanto aos pontos de exclamação, já uma vez fui admoestado pelo Vasco, o nosso VMB, mas a tentação é grande. Se me visse a escrever, via que os pontos de exclamação saltam por todos os lados... Este é um caso em que todos os pontos que tinha já saltaram há algum tempo atrás, na instituição própria e no momento certo. O resultado foi nulo, daí a serenidade.
Publicado por: RPA às dezembro 13, 2005 07:48 PM
Acho incrível que os do "amor vital" falem dos carinhosos 44% de homens "vitalsexual" descobertos a partir de uma sondagem telefónica de 5000 chamadas quando, dois "cliques" antes, mencionam o "natural" acanhamento/vergonha do macho em discutir o assunto com a mulher.
Então o doce vital sexual não tem coragem de tratar do tema com a companheira na sua "relação estável" (que é isso? 44% na Europa? Que Europa?) mas pode desabafar abertamente com um estranho ao telefone?
Não é provável que o número de "vitalsexuais" esteja um bocadinho sobrestimado? Não será que uma grande percentagem de homens só fala de sexo ao telefone se for para chamar o 6969-HOTCALL?
E como vão os europeus maus, os "mortalsexuais", os perpetradores de ofensas como a violação? Bem sei que falando disso como "crime oficial" é sempre difícil incluir os episódios familiares, os menores, a violência homossexual ou o tráfico de mulheres do Este e do Sul. Nos EUA, o Departamento de Justiça do FBI contabiliza no seu relatório de 2004 um aumento do volume total de violações com uso da força ("forcible rape") de 5-6% nos três anos anteriores. Como o número da população feminina também cresceu, a taxa de violações por 10000 mulheres "apenas" aumentou de 1 a 3% durante o mesmo período.
Pessoalmente não colocaria a DE em último lugar, caso alguém tonto me pedisse uma lista das piores disfunções que eu pudesse imaginar. Mas tampouco apoio o modo descaradamente leviano com que os "Glaxo-Smith-Kline-Bayer-Schering-Ploughs" pagam ao Breyner para levantar o... polegar.
Publicado por: VB às dezembro 14, 2005 09:17 PM
Já estava à espera dessa análise, meu amigo. Isto é apenas uma pequena amostra do que pode ser feito nesta área.
Neste momento circula por aqui um anuncio ao crédito bancário que descreve o jovem com 30-35 anos, protótipo, que quer ter como alvo o maior número de destinatários. O retorno é o efeito de exclusão de todos aqueles que não entram no perfil, os que se divorciaram, os que só têm um filho, os que só tiveram um emprego... Há esta necessidade humana pueril de fazer parte do grupo maioritário. O VMB tem uma imagem de um agrupamento de "políticos" numa crónica recente que explica bem as origens desta natureza...
Mas noutras áreas para além da indústria farmacêutica, não é diferente. Tenho de me debruçar sobre as margarinas e os iogurtes, um destes dias.
Espero não me desequilibrar, ofuscado pela ilusão da saúde eterna!
Publicado por: RPA às dezembro 15, 2005 10:20 AM
Bem sei que as declarações de rendimentos têm pouca credibilidade, mas, estando em causa pessoas singulares, as comparticipações só seriam admissíveis quando estivessem rendimentos abaixo de determinado escalão e isso, apesar de toda a fuga ao fisco que há, não seria assim tão comum -- até porque os rendimentos podem ser baixos, mas os sinais exteriores de riqueza que também são declarados não deixam grande margem de manobra.
Quanto a os médicos não fazerem ideia do quanto custam os cuidados que prestam, não é novidade. Aliás, se soubessem, quero acreditar que não seriam tão levianos na altura de prescrever a realização de exames caríssimos. Um amigo holandês, hoje radicado em Portugal, descreve Portugal como o paraíso dos hipocondríacos. Por causa de uma doença crónica, tem feito exames em Portugal que na Holanda só muito excepcionalmente são feitos, dados os seus elevados custos.
Publicado por: MRS às dezembro 16, 2005 10:56 PM
Eu sou ainda muito céptico relativamente à declaração dos sinais exteriores de riqueza. Parece que só agora a maquinaria fiscal dá claros sinais de querer corrigir e punir a fraude nessa matéria.
Sobre os meus colegas, eu lamento, mas não é por falta de informação. De uma maneira geral os clínicos têm especial cuidado na prescrição de medicamentos a famílias desfavorecidas, porque sabem que a selecção dos medicamentos poderá ser feita nas farmácias, de acordo com a carteira da doente, e não com a prioridade terapêutica. Por isso mesmo, redobram e cuidados na prescrição de medicamentos mais baratos.
O grande problema é a prática hospitalar. Aí são muitos poucos (ainda conheço alguns) que fazem alguma gestão dos seus actos médicos. Convém não esquecer que há uma outra máquina reguladora das compras hospitalares que nem sempre é bem gerida e onde os médicos não têm palavra a dar...
Fica a promessa de regressar a este tema.
Publicado por: RPA às dezembro 18, 2005 06:37 PM
Ficamos à espera.
Publicado por: MRS às dezembro 19, 2005 03:26 PM