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novembro 14, 2005

Momento de Poesia

Camilo Pessanha, poeta maldito, viveu no Oriente escondido pela sombra do outro grande poeta que por lá passou...
Morreu em Macau, de ópio, a 1 de Março de 1926.

Este poema não tem nada que ver com Ciência, mas recorda-nos que Arte também é vida...

Violoncelo.jpg
Legend.jpgVIOLONCELO

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Publicado por Santiago às novembro 14, 2005 03:00 PM

Comentários

Não resisto. Do mesmo autor:

Poema Final

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
-- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias --,
No limbo onde esperais a luz que vos baptize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

Publicado por: MRS às novembro 14, 2005 09:51 PM

Também não resisto:

É um poeta magnífico, não é? Foi uma inspiração importantíssima para a "Geração do Orpheu" (em parte, sem dúvida, por causa da 'mística oriental' associada à sua fama), mas é hoje em dia, infelizmente, tão ignorado...

É um dos meus poemas favoritos! Tem rigorosamente o mesmo ritmo musical que um concerto para violoncelo... melhor do que isto é difícil...

Publicado por: Santiago às novembro 14, 2005 10:51 PM

Não queria revelar a minha insensibiliade, mas o instrumento parece um violino. Com alguma boa vontade ainda podíamos admitir tratar-se de uma viola. Ver ali um violoncelo é mais difícil e implica transformar o arco num taco de baseball e o ratinho numa ratazana dos esgotos...

Publicado por: VMB às novembro 15, 2005 12:18 AM

VMB:

Tens razão, como habitualmente. Podemos, no entanto, ser indulgentes para com o Pessanha, não achas? Afinal, rimas para "violino" (ou mesmo "viola") são bastante mais difíceis de encontrar...

Isto sem falar da métrica, que ficaria totalmente alterada.

Publicado por: Santiago às novembro 15, 2005 08:31 AM

(Acho que o VMB se referia à imagem...)

É isso que o Pessanha tem de absolutamente extraordinário, a cadência, o verso ritmado. Talvez não seja o mais conseguido, mas o meu preferido continua a ser o que tem por mote e inspiração dois versos de Verlaine (il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville).

Publicado por: MRS às novembro 15, 2005 08:45 AM

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