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novembro 08, 2005
Lombroso rules*
O leitor recorda-se certamente da fantasia futurista descrita no filme O Planeta dos Macacos. Pense no mesmo enredo, mas com cães. Cães superiormente inteligentes. Que sociedade teriam eles desenvolvido? Haveria televisão? Não seria mais plausível imaginarmos uma máquina que substituísse o ar na transmissão de odores e pusesse um Lobo da Alsácia em contacto com um Spaniel Tibetano? Seria tal aparelho capaz de aterrorizar uma plateia com o cheiro dos ancestrais canis do Estado, do tempo em que os homens ainda dominavam e os cães eram apenas cães?
Trata-se de um delírio, dirá o leitor. Mas o olfacto é para muitas espécies o sentido mais apurado. Ora, faz sentido pensar numa sociedade organizada em torno do sentido dominante.
O homem é um animal visual. Dos cinco sentidos, a visão impera. Repare: diz-se que uma imagem vale por mil palavras.
Somos também medíocres na discriminação dos cheiros, mas sem treino específico distinguimos milhares de rostos. Todo o homem é um fisionomista.
Esta pequena deambulação surge a propósito de uma teoria de José António Saraiva, imortalizada nos arquivos da TSF, numa entrevista que deu Margarida Marante, já há alguns meses.
Estimulado por um comentário de Soares, que lhe teria dito que ele só apreciava políticos com "cara-de-pau", Saraiva desenvolveu uma fantástica tese: os políticos eficientes e com capacidade de decisão são magros, secos de carnes (Saraiva pensa em Cavaco) e os políticos balofos são pouco eficazes e titubeantes (Saraiva pensa em Guterres).
Esta ideia peregrina funde autismo e simplicidade, características típicas no pensamento de Saraiva.
É autista, no sentido em que está desligada da realidade. Pensemos num Churchill em tempo de guerra. Não consta que tivesse perdido peso. Enfim, é inútil calcular aqui o índice de massa corporal para os grandes políticos do século XX, mas quem se quiser entreter a testar a tese de Saraiva tem agora uma boa oportunidade.
É também uma tese simples e formulada de um modo claro, um produto do raciocínio em chave-dicotómica de Saraiva.
Para quê então perder tempo com ideia peregrina que, de resto, é de um narcisismo atroz (haverá, afinal, editorialista mais seco de carnes e com cara-de-pau do que o próprio Saraiva?)
Por um motivo apenas, mas que é determinante.
A verdade é que Saraiva verbaliza - com desconcertante candura - o que muitos pensam e comentam em surdina, mas jamais diriam em público.
É trivial dizer-se que a imagem dos políticos tem importância, mas nem sempre distinguimos entre a "pose de Estado", o sex- appeal e o carisma. Ora, estes termos não são equivalentes.
A "pose de Estado", parece escapar ao determinismo biológico. Qualquer político esforçado, minimamente inteligente e com o assessor de imagem certo pode conquistá-la. Recordemos a título de exemplo Paulo Portas, que foi vítima de uma overdose de "pose de Estado".
O sex-appeal, pelo contrário, é fortemente determinada pela biologia, ao ponto de ninguém achar escandaloso que se diga de um político que é atraente. O que pode indignar são os dividendos de que os políticos com um palmo de cara beneficiam. A este tema voltarei em crónica futura.
Sobra o carisma, uma espécie de aura que paira sobre determinados políticos. O carisma resulta de um cruzamento da personalidade do político e do impacto das suas palavras e acções. De certa forma, o carisma ultrapassa a simples imagem, mas esta é essencial, pois não há carisma sem um rosto. Dos três tipos que discutimos, o carisma é, como se percebe, o mais integrador. Talvez por isso, ninguém sabe muito bem explicar a sua génese. Por isso também, o carisma nem sempre está associado à "autoridade moral" e é uma propriedade volátil, como o ex-carismático Santana Lopes duplamente ilustra.
A tese de Saraiva vai além destes lugares comuns sobre a imagem dos políticos, porque estabelece uma correspondência inequívoca entre características físicas e traços psicológicos. Saraiva emerge assim como um Lombroso à Portuguesa.
Cesare Lombroso (1935-1909) foi um médico italiano que fundou a escola positivista de criminologia. Segundo ele, a tendência para o crime está determinada biologicamente e pode ser antecipada pelo estudo das características físicas. O criminoso apresenta uma série de atavismos (os "estigmas atávicos") e para o italiano, na imagem retirada do seu livro L'uomo criminale (1875), o olho bem treinado conseguiria identificar o grupo dos carteiristas, dos assassinos, dos aldrabões, dos raptores, etc. O leitor interessado em saber se consegue distinguir um violador de um pilha-galinhas pode comparar o seu palpite com os dados de Lombroso aqui. 
Lombroso é um produto do século XIX, quando o positivismo e as ideias de Darwin estavam na moda. O positivismo está hoje -digamos - mais amadurecido, o darwinismo social mais vigiado e a teoria de Lombroso ganhou entretanto o estatuto de fóssil intelectual. Porém, as ideias do italiano têm antecedentes (a começar na pseudociência que é a Fisiognomia, legitimada até por Aristóteles) que ainda hoje subsistem, quer na cultura popular, quer pairando como ameaça à liberdade individual na era do estudo do genoma.
A persistência desta tentação em se ver a alma das pessoas estampada no rosto (e agora nos genes) é em parte servida pela arte, sobretudo a arte medíocre. Há séculos que na literatura, na pintura e no teatro, e mais recentemente no cinema e na banda desenhada, o tipo de personagem unidimensional, sem conflitos, integralmente bom ou irrecuperável, sai reforçado pelas associações a características físicas estereotipadas.
Na arena política, o fenómeno também se revitaliza em parte devido a raciocínios falaciosos. Se há uma predisposição, temos tendência a recordar os exemplos que a confirmam e a ignorar todos os casos que vão contra o estereótipo. Por outras palavras, para o cidadão comum, um Nixon, um Bush e um Valentim Loureiro reforçam a ideia de que a cara de um político traduz as suas características psicológicas.
Porque Nixon era paranóico, tinha sede de poder e era manipulador; olhando para a sua cara, alguém se espanta?
Porque Bush é limitado intelectualmente e, olhando para as suas feições simiescas e para os olhos tão juntos um do outro, quem poderia dizer o contrário?
Porque Valentim Loureiro, enfim, tem cara de Valentim Loureiro.
O problema deste exercício, independentemente de se concordar ou não com o retrato psicológico, é que para cada 3 destes "casos gritantes" há 300 outros em que tal associação não pode ser estabelecida e que naturalmente temos tendência a esquecer.
A verdade é que enquanto houver editorialistas de responsabilidade a dar à adiposidade de um político o valor preditivo dos estigmas atávicos de Lombroso, não parece que nos vejamos livres deste vício tão cedo.
A visão é o mais rico dos sentidos. Mas as tal mil palavras ditas em silêncio que acompanham cada imagem, muitas vezes são as vozes da multidão que nos precedeu.
Para as lombrigas conhecemos a purga. Difícil mesmo é livrarmo-nos do Lombroso que nos habita.
*A série Política ao Natural procura reproduzir o estilo e a lógica (mas não forçosamente as ideias) de José António Saraiva, filho de um ilustre, arquitecto, visionário, futurologista, romancista, eminência parda auto-intitulada, director do Expresso e autor da coluna "Política à Portuguesa".
Publicado por Conta Natura às novembro 8, 2005 06:00 PM