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novembro 08, 2005
Fraude (s.f.): acto de má-fé praticado com o objectivo de enganar alguém
Sugeriu o Eduardo A. Silva, num comentário lá em baixo, um post sobre os mecanismos existentes para detectar a existência de fraude científica. Como isto não são os discos pedidos, ele não se surpreenderá que eu queira abordar este tema numa perspectiva um pouco diferente...
O pretexto é o desenlace (até agora) de um escândalo que anda há uns meses nas "bocas do mundo": Luk van Parijs foi recentemente despedido do M.I.T., após ter confessado que falsificou resultados cientificos. Este imunologista tinha feito o seu doutoramento com Abul Abbas (alguém muito famoso no campo) e, após um post-doc com David Baltimore (mais famoso ainda... é Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia), era Professor Associado nessa instituição. A história, dizem as tais "bocas do mundo", vai ainda afectar outro doutorando do mesmo Abul Abbas que fez o seu post-doc com outro Prémio Nobel e trabalha agora numa prestigiada instituição sedeada num daqueles Estados quadrados lá pelo meio dos EUA.
O que me trouxe a este assunto foi a admissão de Abul Abbas ao "Boston Globe" (link fornecido pelo Eduardo) que tinha recebido garantias (de van Parijs, lui même) que não tinha havido falsificação de resultados em dois artigos por eles publicados em 1998 e 1999. Cito: "Van Parijs insisted in an e-mail earlier this month that he did not fabricate the information".
A Nature pôs as coisas de uma forma um tudo nada mais púdica: Abbas says that Van Parijs has e-mailed him and denied falsifying data in more than one paper. "He apologized for the disappointment he has caused" Abbas says. (Nature. 2005. 438: 7)
Consigo imaginar bem o alívio do Abul Abbas por ter, finalmente, algumas garantias que os resultados que ele submeteu e publicou há 8 anos existem mesmo... foi suficientemente grande esse alívio para ter vindo a correr para os jornais gritar: " A data se calhar até existe! Olha só o email que ele me mandou..."
Histórias como esta tem havido muitas ao longo dos tempos. A mais famosa foi talvez o chamado "escândalo Summerlin", no final dos anos 70 do século passado. Esse escândalo veio a custar o Prémio Nobel ao Bob Good (esta história está bem contada pelo Peter Medawar, mais um Prémio Nobel, no livro "The Strange Case of the Spotted Mice", representado na figura).
Anos depois, o Lee Hood teve de retirar um artigo publicado na Cell porque descobriu que os péptidos descritos nesse "trabalho" não tinham sido sequer encomendados, quanto mais sintetizados ou usados (vai sem link porque até parece ilegal falar de artigos que é como se nunca tivessem existido...).
O David Baltimore sofreu um grande enxovalho quando foi forçado a retirar um artigo, e depois retirou a "retiração", acabando por deixar claro para toda a gente que ele não faz a mais pálida ideia do que é a imunologia e não percebia nada do que andava a publicar (quero frisar que a história subjacente a este episódio é mais do que uma história de fraude cientifica, tout court. Há muitos artigos e livros a contar várias versões do affaire, e nem todas elas são correctas. A Thereza Imanishi-Kari veio uma vez a Portugal e, num seminário e numa entrevista ao jornal "O Público", contou a sua versão).
O elemento comum a estas histórias é o facto de envolverem MegaLabs: Sítios onde 20 ou 30 post-docs se acotovelam e atropelam, num ambiente de competição feroz. Nesses laboratórios, publicar ou não publicar o artigo na Cell (ou Science, ou Nature), faz a diferença entre ter lugar numa prestigiada Universidade dum Estado qualquer dos importantes, ou acabar os seus dias algures no Dakota do Norte (ou mesmo no do Sul...).
É óbvio que os Principal Investigators desses laboratórios, ocupados como estão em viagens, committees e telefonemas ameaçadores para Editores de Revistas de topo, não têm tempo nenhum para detalhes comezinhos como por exemplo certificarem-se que as experiências submetidas foram, na realidade, feitas...
Sem querer de forma alguma desculpar os perpetradores de fraude cientifica (que é o único pecado que, no meu entender, está para além da redenção. Para mim: Fraude descoberta = Exclusão da carreira científica...), pergunto-me até que ponto é que todos nós estamos preparados para castigar severamente também os responsáveis que, por desleixo, permitem que estas situações ocorram...
Infelizmente a esses outros responsáveis continua a permitir-se que andem por aí...
Publicado por Santiago às novembro 8, 2005 11:28 PM
Comentários
não será um pouco injusto os poderosos safarem-se sempre... quem é responsavel por esses trabalhos não são só os alunos de doutoramento mas tambem os professores responsaveis por estes, que por alguma razão não prestam a devida atenção ao trabalho apresentado pelos seus alunos nos laboratorios de que são responsaveis... se calhar deviam ser considerados cumplices por não estarem preocupados com o trabalho do aluno
Publicado por: m às novembro 9, 2005 11:17 AM
Para não mencionar o artigo da Cell do laboratório de Gary Struhl e muitos outros...
Eu concordo que muitas vezes os chefes deviam estar mais "dentro" do que se passa nos laboratórios. Mas tem que haver um certo grau de confiança no aluno, senão mais vale tornarmo-nos ermitas científicos. Se eu não confiar em todas as experiências que faz a minha estudante, terei que as repetir todas eu mesma, o que faz com que não valha a pena ter uma estudante. Isto já para não falar em pósdocs que o que têm de bom é serem ainda mais independentes.
Ou seja, a responsabilização nestes casos tem que ser feita com muito cuidado.
Publicado por: SJA às novembro 9, 2005 12:39 PM
Salve Santiago
Este foi um dos casos raros de fraude pura e simples, estive recentemente cercado por membros da tribo Baltimore e parece que o cidadao simplesmente inventou experiencias que nao existiam. Concordo contigo, o ambiente de alta pressao de certos laboratorios, combinados com a ausencia de supervisao directa dos chefes destes labs e' o ideal para a genese da fraude. Mas tambem creio que estes casos sao mais conhecidos pq tendem a ser fraudes com temas de grande interesse- alguns anos atras uma capa da Science sobre mecanismos de accao da AID (enzima responsavel pela hipermutacao somatica nas celulas B) tambem foi inteiramente retirado. Este ano mesmo um artigo Brasileiro na Cell foi removido pelo corpo editorial da revista sem o acordo dos autores. O trabalho demonstrava integracao de fragmentos do genoma do parasita Trypanossoma cruzi no genoma de varias especies de hospedeiros. A descoberta seria de enorme importancia, pois a doenca de Chagas causada por este parasita e' frequentemente seguida, decadas depois, por uma inflamacao cardiaca de obscura origem autoimune. Pois bem, alguem leu o trabalho e seguiu os links ate' as sequencias (as revistas cientificas obrigam os autores a depositarem em bancos de dados de acesso publico todas as sequencias geneticas primarias mencionadas no artigo) e ao que parece, nada corresponde ao que deveria ser. Neste caso vale nao so perguntar onde estava o chefe de laboratorio, mas tambem o que estariam fazendo os referees do artigo.
A fraude high-profile e' algo estupido pq a natureza da ciencia garante que em poucos meses diversos grupos vao estar repetindo as suas experiencias- nao por nao confiarem (ou quase nunca por nao confiarem, e sim porque as grandes descobertas servem como plataforma de lancamento de novas perguntas e linhas de investigacao.
Faz mais sentido um caso tambem recente na Alemanha onde um catedratico de anatomia foi pego apos varias decadas de pequenas fraudes em revistas obscuras.
SJA- a questao de confiar nos nossos colaboradores ou nao se impoe com urgencia. Recentemente tivemos que re-orientar um projecto pq um dos fundamentos teoricos, um paper na Science tambem foi retirado por fraude. Neste caso acho que vale como diria o Ronald Reagan "trust, but verify". O investigador senior tem a responsabilidade de verificar os dados primarios, e nao so de ler e assinar o manuscrito. Ate' pq muitas vezes erros honestos mais serios sao cometidos na analise.
Creio que mais pernicioso e' problema das pequenas fraudes cotidianas, "death by a thousand cuts": a execucao sumaria de outliers statiscos, a omissao de controles, o 'melhoramento' cosmetico de geis, a 'experiencia representativa' que na verdade representa so' ela propria, etc E' aqui que cabe a vigilancia constante, de nos mesmos e de nossos colaboradores honestos. Contra a fraude maliciosa cometida por alguem razoavelmente inteligente nao ha' defesa infalivel, se alguem quiser trocar rotulos ou inventar fotos so' saberemos tarde demais, quando alguem tentar repetir algo e assim desencadear o lento processo arqueologico de descobrir as inconsistencias no trabalho original.
If not Santiago, we can always call the church police
Publicado por: Thiago Carvalho às novembro 9, 2005 04:03 PM
Vale a pena dizer que neste caso, Luk van Parijs, foi apanhado / denunciado pelos seus proprios estudantes. Tanto quanto sei o incidente inicial (ha um pouco mais de um ano) foram figuras num "grant" pura e simplemente inventadas, em que os estudantes que supostamente teriam feito as experiencias nao reconheceram os dados - van Parijs foi imediatamente suspenso do MIT. O escandalo rebentou quando van Parijs ja era PI ha bastante tempo...
Ainda ha esperanca para as novas geracoes...
Tambem vale a pena acrescentar que David Baltimore nunca esteve directamente envolvido em fraude, mas teve a infelicidade (politica) de apoiar publicamente um colaborador que ele sim estaria envolvido directamente.
O David Baltimore pode, como diz o Santiago, nao perceber nada do que os seus laboratorios fazem. O que e facto e que entre a direccao e criacao de algumas das mais importantes intituicoes de investigacao dos EUA, ganhou um Nobel aos 35 anos, e os seus laboratorios ja produziram material para potencialmente mais dois.
Nada mau...
Publicado por: Luis às novembro 9, 2005 07:31 PM
A historia do Dr Baltimore apoiar publicamente a Imanishi-Kari nao chega a ser uma nodoa na sua reputacao. Pelo menos na minha leitura dos factos, foi um caso de desorganizacao e nao de fraude cientifica.
As unicas instituicoes que se comportaram de maneira incontestavelmente indigna no caso foram os laboratorios forenses que produziram as besteiras de sempre.
Ninguem duvida que o Baltimore tem um grande passado cientifico, e' que deixou (ou esta deixando) um legado importante em termos dos individuos que treinou. Mas concordo, num tom mais diplomatico, com o Santiago: olhando ao CV do senhor nos ultimos 15 anos e' dificil de imaginar que ele tenha estado directamente involvido na cotidiano da investigacao no seu laboratorio. Enfim, dificil, mas nao impossivel, pode ser so uma imaginacao limitada de nossa parte.
Publicado por: Thiago Carvalho às novembro 9, 2005 08:49 PM
Luis:
Registo e nem sequer discordo.
É verdade que "ainda há esperança para as novas geracões...". Digo isto confessando ao mesmo tempo, e com toda a honestidade, que não sei o que é que eu teria feito se fosse 20 anos mais novo e me visse confrontado com esta situação...
Não pretendi menosprezar os "sucessos" do Baltimore. Tentei foi criticar severamente uma forma (popular) de organizar Laboratórios de Investigação que permite que estas coisas aconteçam.
Desculpá-lo com o argumento das "infelicidades" não é mais do que branquear a parte da responsabilidade que lhe cabe... e que ele, como um homenzinho, devia ter sido capaz de assumir...
Publicado por: Santiago às novembro 9, 2005 09:03 PM
Esta discussão está de facto muito interessante.
Do meu ponto de vista a questão da responsabilidade é importante, mas de dificil análise porque os actos fraudulentos são cometidos sempre com dolo (a às vezes com conivências) e portanto, a culpa tende ou a morrer solteira, ou o culpado é o electricista.
Á casos mais interessantes o dos bugs em simulações.
Geralmente os bugs que se encontram são inofensivos. Inofensivos no que respeita ao tempo perdido devido a esse bug. O problema é que às vezes há outros menos inofensivos, e neste caso a questão da responsabilidade é facil de resolver: é de quem escreveu o código.
Publicado por: Luis Oliveira às novembro 10, 2005 02:43 AM
Bugs em código ? Isso nunca acontece :)
ass: bioinformatico
Publicado por: Pedro Beltrao às novembro 10, 2005 01:34 PM