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novembro 29, 2005

Fingir que a fraqueza é força

Pirâmide.jpg
O Centro Cultural Calouste Gulbenkian em Paris organizou no passado dia 15 de Novembro um colóquio com o título: " L'Union Européene et la Recherche dans les Sciences biomédicales au Portugal: um regard portugais de l'extérieur". Fernando Tomé (ancien directeur de recherche INSERM em Paris) apresentou o orador, Fernando Lopes da Silva (professeur Émérite da Faculté des Sciences de Amsterdão). Maria de Sousa (professeur, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar do Porto) aceitou perguntas da audiência no debate que se seguiu. A Fundação Calouste Gulbenkian pagou.

Não vou falar em detalhe da apresentação de Lopes da Silva, que mostrou várias séries estatísticas publicadas pelo Observatório da Ciência e do Ensino Superior, visto que o Centro Gulbenkian irá editar um opúsculo com a transcrição do que foi dito na sessão. Vou debater só um ponto aflorado pelo conferencista, quando descrevia as "forças" do Sistema Científico Português.

Lopes da Silva apontou três pontos fortes na Ciência em Portugal: 1) A pirâmide etária, com mais de 60% dos investigadores a terem uma idade inferior a 40 anos, 2) A existência de um número de Laboratórios Associados que são fortes centros de formação de novos investigadores, e 3) A institucionalização de um sistema de avaliação independente. Este sistema é um ponto forte por ser, subentendeu-se, estrangeiro.

Vou-me focar o ponto 1), o mais forte da Ciência Portuguesa na opinião deste famoso conferencista. Achei irónico que ele tivesse apresentado como strong point aquele que é, na minha modesta opinião, a maior fraqueza do Sistema Científico Nacional: Considerando todos os investigadores portugueses, 45% têm menos de 35 anos, 62% têm menos de 40! Os jovens são o futuro do País, disse o orador...

Dou por adquirido que não é após um PhD ou 1, ou sequer 2 post-docs que quem quer que seja adquire a maturidade e a experiência necessárias para ser bem sucedido a organizar um Laboratório de investigação, orientar estudantes, enquadrar post-docs e conseguir ainda ser produtivo em Ciência. Parece-me também óbvio que não é justo (nem sequer avisado) sobrecarregar o início de uma carreira científica com deveres lectivos, administrativos ou de organização das infra-estruturas de apoio à investigação. Biotérios, plataformas tecnológicas, reuniões cientificas, etc devem ser responsabilidade de cientistas já estabelecidos, que tenham situações contractuais mais seguras e por isso horizontes temporais mais dilatados...

O grande erro estratégico que Portugal tem vindo a cometer é apostar no regresso, prematuro, de uma grande parte dos jovens que, com as Bolsas de Doutoramento do Ciência e depois do Praxis XXI, buscaram o estrangeiro para dar os primeiros passos na sua carreira científica. Feito o PhD (ou o DPhil...), por vezes 1 post-doc (sendo que muitos são "falsos post-docs", por terem sido feitos no mesmo Laboratório do PhD), há um País inteiro, ansioso, a aliciá-los para regressar, organizar os seus próprios Laboratórios, procurarem financiamento onde conseguirem, treinarem os seus técnicos e estudantes como puderem, e depois, se sobrar tempo, publicarem seja o que for, seja onde for, para que os relatórios do OCES pareçam bonitos...

Assim se chegou a esta situação caricata de só haver duas categorias de "retornados": Os "jovens" que regressam para iniciar a carreira (após prometedores começos) e os "velhos" que regressam para terminar a carreira em Portugal (após longas e distintas carreiras científicas no exterior).

Ora, a grande verdade, a verdade que se esconde por detrás da La Palissada "os jovens são o futuro do país", é que quem faz mesmo falta para o desenvolvimento do Sistema Científico Português (ou o de qualquer outro País) são os "outros"... os que estão neste momento "a meio" da carreira, já têm posições permanentes, têm experiência em organizar e dirigir um Laboratório, provas dadas de serem capazes de produzir ciência, publicar, e, sobretudo, uma grande vontade, necessidade até, de sucesso.

Os "jovens" não têm experiência que baste, os "velhos" não têm interesse que chegue... o resultado é o sub-desenvolvimento científico de que temos sofrido, crónicamente...

Percebo as razões desta "aposta estratégica": O "preço" destes "jovens" recém-doutorados é bastante inferior ao dos que fazem mesmo falta. Com os limitados recursos existentes é possível trazer múltiplas vezes mais "jovens" que "outros". Os "velhos" são baratos (não precisarei de apontar exemplos concretos, estou certo, todos conhecemos casos notórios...) e por isso as estatísticas nacionais conseguem revelar um fenomenal crescimento no número de investigadores a trabalhar em Portugal. Fica o Ministério contente, fica o País feliz, fica o OCES extasiado, ficam os Directores emocionados, fica a UE espantada, fica a ciência portuguesa a perder...

Portugal só deixará de ser um "País em vias de desenvolvimento", cientificamente falando, quando souber, puder ou quiser atrair esses "outros" que, estabelecidos (e bem sucedidos) no estrangeiro, queiram olhar para Portugal como "um País normal" e se deixem aliciar por uma posição de investigador. Para que isso aconteça é preciso reconhecer que o espectacular progresso estatístico a que temos vindo a assistir esconde um grave problema em Portugal. Talvez nessa altura queiramos mudar de estratégia e corrigir a aberrante pirâmide etária de que tantos se orgulham...

Publicado por Santiago às novembro 29, 2005 11:43 AM

Comentários

"Dou por adquirido que não é após um PhD ou 1, ou sequer 2 post-docs que quem quer que seja adquire a maturidade e a experiência necessárias para ser bem sucedido a organizar um Laboratório de investigação..."

Aqui no EMBL, este facto não é dado como adquirido. Imensos group leaders são contratados exactamente após um ou dois pos docs. Concordo que também é necessário tentar levar para Portugal pessoas que estão no pico de carreiras cientificas mas discordo com a esta afirmação do autor.

Publicado por: Pedro Beltrao às novembro 29, 2005 02:10 PM

Santiago,

Tenho pena que não nos tenhas transmitido os outros temas em debate nesse interessante colóquio. A minha curiosidade vai especialmente para a opinião do audiência francesa sobre as ideias dos portugueses, para Portugal.


Apesar de concordar contigo, não posso esquecer que há muita gente que nunca aquirirá maturidade para a formação, por muitos post-Docs que faça. De facto, acho mesmo que se tem registado uma progressiva infantilização dos investigadores nos últimos 30 anos, fruto da abundância de oferta de "cabeça de obra". Estou certo que conseguirás rever de memória uma lista de grandes cientistas que ao longo da história fizeram grande trabalho, muito antes dos 40!

Estou também convencido de que, em parte, as dificuldades e as carências na geração do meio têm que ver com as suas exigências. Os mais novos pouco pedem e pouco exigem e, de uma forma ou de outra, envelhecem a passos largos... Estou surpreendido com alguns "retornados" há 6 ou 12 meses; alguns, até parece que nunca de cá saíram!

Publicado por: RPA às novembro 29, 2005 03:25 PM

Pedro, concordo em parte contigo. Existem de facto pessoas com grande capacidade que conseguem montar laboratorios mto bem sucedidos apos 1 pos-doc, em qualquer instituto de topo do mundo. No entanto, a maior parte dessas pessoas sao a excepcao.

A EMBL tem capacidade de atrair se calhar grande parte dessa excepcao primeiro porque consegue atrair pessoas do mundo inteiro (Portugal nao me parece que o consiga) e depois porque tem $ para se tornar apelativa para essa mesma excepcao.

Mais, a embl apesar de atrair essa excepcao pode sempre livrar-se de escolhas menos infelizes devido 'a sua politica de 4+5 anos. Tambem considero relevante o facto de a embl ter muitas das suas outstations no fim do mundo, criando na pratica o efeito psicologico de univs fora das grandes cidades.

Penso que realisticamente, nao podemos nos arrogar de pensar que nessa excepcao exista uma maior % de portugueses que de outro pais qualquer. Nao considero - olhando para a nossa historia cientifica - razoes para tal. Se calhar, devido 'a mentalidade impregnada no nosso povo (ver recente texto de eduardo prado coelho), ate' encontro razoes para achar que teremos uma % inferior a muitos paises.

Assim, pragmaticamente, acho que temos que pensar que o que atrai investigadores com 1-2 pos-docs que querem ter o ser lab em Portugal e':

- Serem portugueses e tudo o que isso implica ao voltar para o seu pais de origem

- querer voltar para trabalhar com algumas pessoas/laboratorios em particular. No entanto, o que o santiago diz neste posto e' fulcral: Salvos raras excepcoes, pessoas que se tornem atractivas a portugueses e nao so' nao estao a voltar para Portugal.


Com isto nao quero menosprezar qualquer cientista portugues ou nao portugues em portugal pois temos cientistas brilhantes. Apenas acho que olhar para estes assuntos de forma analitica e' a melhor forma e nao adianta andar com rodeios...

Ha' uns tempos disse-me uma pessoa que estava a ponderar ofertas de portugal e dos US o seguinte:

"So' vou voltar se puder fazer o que pretendo e posso nos US, aqui".

Ai percebi que jamais essa pessoa se instalaria em Portugal, e o tempo deu-me razao, infelizumente para o pais.


RPA: o meio ambiente tolda a psicologia das pessoas. Admiro-me que te surpreendas tanto. Eu ja' perdi ilusoes a esse respeito. Posso dizer-te que infelizmente que os profissionais com mentalidade "nao portuguesa tradicional" (os tais q parecem que nunca de ca' sairam) sao a minoria dos que o que conheco. Dentro e fora da ciencia.

BA

Publicado por: Bruno Afonso às novembro 30, 2005 04:36 PM

Concordo com Santiago mas também não posso deixar de concordar com o Fernando; parece-me que as diferenças de opinião destes distintos comentadores são semânticas. Acho que o facto de a maioria dos investigadores em Portugal serem jovens deve ser encarado como uma oportunidade e um ponto forte numa perspectiva de evolução do sistema, e não como um ponto fraco, aceitando que a situação actual é estática como parece ser a opinião do Santiago. Por outro lado é óbvio que faltam investigadores "estabelecidos" excelentes no nosso país e que o nosso sistema está muito desequilibrado. No entanto o que me parece verdadeiramente importante é que é quem escolhe tenha "tomates" para tomar decisões, para escolher quem tem mais potencial, e para aceitar as consequências dessas decisões. Se é verdade que nem todos os jovens se tornam bons "estabelecidos" também é verdade que alguns "estabelecidos" se tornam "velhos" muito rapidamente. O que é que é melhor, um "jovem" barato que está prestes a torrar-se estabelecido ou um "estabelecido" caro que está prestes a tornar-se "velho"?

Publicado por: caracol às dezembro 1, 2005 01:59 AM

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