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novembro 17, 2005
Carta do Além
Recebi uma carta ontem à noite que só não me causou pesadelos por causa de uma bem metida referência a "foie gras truffé", que me deixou a sonhar com guloseimas...

Reproduzo essa elegante carta mais abaixo para inaugurar uma nova secção do Conta Natura, as "Cartas do Além", mas antes deixem-me fazer 3 breves notas:
1) Segundo a Infopédia, Ataráxia (do grego: ausência de perturbação) Medicamentosa significa "estado de tranquilidade e de indiferença por efeito de agentes neurolépticos". Desconfio que esta ainda vai parar ao Cíclope...
2) Já que falei de cínicos faço questão de partilhar convosco a minha opinião do Diogenes: Era um velho bacoco...
3) Agradeço ao Epicuro não me ter escrito na sua língua materna...
From: epicuro@clix.pt
Subject: Cartas do além
Date: 16 November 2005 20:29:24 GMT+01:00
To: Pensadores@pasteur.fr
Cc: democrito@olimpo.net, lucrecio@olimpo.net, aristoteles@olimpo.net
Já há tempos que Zeus achou que era bom eu voltar à terra e, não sei porquê, despachou-me para Portugal. Demócrito, Empédocles e Lucrécio foram para outras paragens e não nos temos contactado. Eu ando por cá, invisível, a observar. Tive de me actualizar em muita coisa, entre as quais, imprescindível, no uso da Internet. Aí, depois de consultar muitos blogues, recolhi uma lista de endereços de pessoas pensadoras e com espírito critico. De vez em quando, escrever-lhes-ei algumas cartas. Hoje fico pela primeira impressão sobre esta minha introdução a essa coisa muito estimulante que é o Google (nem Zeus, Júpiter, Jeová ou Alá sabem como isto lhes virou a criação).
Tive curiosidade de procurar o meu nome e fiquei indignado. Algumas dezenas de textos sobre os meus escritos, dispersos entre muitas centenas de coisas relativas a restaurantes, revistas de cozinha ou clubes gastronómicos. Foi para isto que tanto reflecti? A minha filosofia do prazer reduzida ao "foie gras truffé" ou, à vossa maneira, ao bacalhau com natas!
O que eu escrevi sempre é que o prazer e a dor são os nossos dois motores fundamentais. A propósito, tendo já lido os excelentes livros de um vosso compatriota, António Damásio, vou ver se o inspiro a um próximo "Ao encontro de Epicuro". O meu amigo Demócrito também vai gostar. Espero que ele, onde esteja, tenha sentido grande prazer por verificar que, afinal, os átomos sempre existem. Não sei é se ele entenderá coisas tão difíceis como mesões e quarks.
Mas sempre distingui vários tipos de prazer. No nível mais baixo da minha hierarquia estão os prazeres vãos: poder, saúde, riqueza, fama e outros que tais. O grande prazer é o de estar bem consigo próprio, ter prazer no conhecimento e no movimento da nossa mente, na ética virtuosa. Mas aqui não estou muito de acordo com o meu amigo Zenão e os outros estóicos. Não considero a virtude como um fim em si, mas como instrumento para a felicidade da realização pessoal.
Também não gosto que reduzam a esquemas o que escrevi. A minha ideia central é a de que todos os homens actuam movidos pelo prazer e pela fuga à dor. São as minhas categorias absolutas. Mas, voltando aos estóicos, acho que só enriqueci a sua visão, porque também eu penso que uma vida virtuosa e moderadamente ascética é uma boa maneira de assegurar o prazer e a felicidade. Talvez menos compreensível seja a relação não contraditória que tenho com os meus colegas hedonistas. Mas não tem sido impossível, desde que nos entendamos sobre a valorização relativa dos prazeres.
Isto faz-me lembrar uma troca de correspondência com um de vós. Ele dizia-se uma mistura de epicuriano, estóico e hedonista. Fiquei a pensar nisto porque, quando era vivo, não fazíamos estas classificações. Depois escrevi-lhe a dizer que não havia nada de contraditório nessa mistura ecléctica, com a ressalva de que o eclectismo tem de ser muito racional e ponderado, senão fica um prato incomestível. Ainda por cima, aquilo de que ele estava à procura era da ataráxia. Se quiserem, explico depois.
Já me apresentei. A próxima carta será sobre coisas vossas, da actualidade, mas vistas na perspectiva deste velho milenário.
Vosso velho amigo,
Epicuro
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Nada é suficiente para quem não se conforma com pouco,
Epicuro (eu)
Publicado por Santiago às novembro 17, 2005 03:37 PM
Comentários
Também recebi e fiquei enaltecido por ter sido incluído numa lista de pensadores. Fico com muita curiosidade no que vier, a visão de Epicuro da nossa época. Já agora, que ele também dê algum lugar na escrita ao seu discípulo Lucrécio.
Publicado por: JVC às novembro 19, 2005 04:19 PM
Ora viva João, bem-vindo a estas bandas.
Já agora diz lá se concordas que o Diogenes era bacoco...
Publicado por: P Vieira às novembro 19, 2005 04:27 PM