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novembro 03, 2005
Artigo do Expresso: Resposta de Jorge Massada
Só hoje, 3 de Novembro, tive oportunidade de ler os comentários feitos no Conta Natura a propósito de um artigo sobre blogues de ciência que escrevi no Expresso. Desejo, muito sinceramente, que a qualidade do trabalho científico dos autores seja superior à qualidade dos comentários.
Comecemos pela história da vaca, a que alguém se referiu como de crítica bem humorada. Meus amigos, punhamos os nomes aos bois: trata-se do uso da piada rasca, unica, pura e simplemente, tão ao jeito dos detentores da verdade, entes superiores inexistentes... felizmente.
Thiago de Carvalho fala de uma certa superficialidade do artigo. É o tipo de crítica que aceito - o do direito à opinião e diferença. Mas vamos ser claros: o Expresso deu-me 3500 caracteres para o trabalho. Pouco mais do que duas páginas A4.
Eu desafio qualquer dos comentadores a fazerem um trabalho aprofundado com este espaço. Podem explicar-me (eu agradeço, sou um dos que pensa que é bom aprender pela vida fora)o que aprofundariam? Vou dizer-vos uma coisa: nada ou um aspecto determinado apenas. Duvido que isso se chame aprofundar.
Eu penso que desvalorizaram o que para mim era essencial (e isto admito que não o seja para todos): informar, divulgar que estavam a aparecer blogues de ciência em Portugal, sobre o que se debruçavam e quem os fazia. No fundo, era tentar trazer à superfície o que não está à vista dos olhos de todos.
E isso, mesmo com falhas - não era possível nem jornalisticamente desejável sob a pena de correr o risco de me limitar a uma simples enunciação de nomes.
Diz o VMB que o artigo manifestamente não tem qualidade. Vivemos numa sociedade em que o direito à crítica é um dos pilares que nos sustentam mesmo quando a crítica é superficial. Porque tempo com o assunto perdi-o eu. Procurei recolher o máximo possível de informações para as dar. Algumas respostas davam para entrevistas independentes e não era isso que se pretendia. Outras chegaram depois de o artigo ter saído.
Como se sabe, a Internet representa muito no Mundo actual mas permite também que a coberto do anonimato se publiquem barbaridades. Há um tal sapo cocas (ou será um sapo de cócoras?) cujo artigo deveria ter merecido qualquer tipo de edição. Em primeiro lugar acusa-me de dar destaque às pessoas que colaboram na folha oficial. Meu caro sapo: quem me dera que fosse uma folha oficial, talvez ganhasse algum dinheiro com ela. Mas oficial de quê? Você sabe o que diz?
Eu comecei a interessar-me por esta história dos blogues por causa de um artigo que a SJAraújo escreveu no Ciência Hoje e conheci a Mafalda Resende por causa do blogue que ela mantém. Há alguma anormalidade em citá-las? O David Luz escreveu há muito tempo no CH dois textos e eu desconhecia que ele fosse o autor do blog que produz.Não devia citá-lo?
Este cocas ou é ficção ou, no caso de trabalhar em ciência, uma vocação errada. Talvez devesse fazer letras para o Quim Barreiros, mas duvido que fizesse melhor.
Fala nos vastos apoios oficiais de que disponho. Quem me dera! Por exemplo, o Ciência Viva está há vários meses como apoiante do CH e pagou, em velho dinheiro português, 130 contos para isso que é o que eu devo hoje à Netcabo e que vou ter de pagar do meu bolso.
Concorri a uns fundos comunitários atribuídos pelo ex-POSI, ou actual POSC, como quiserem. Entre 267 projectos fiquei em 29º lugar depois de uma avaliação de um painel externo. É público que me foram atribuídos 11 mil contos, dos quais recebi até hoje 600. É que por cada um que recebo tenho de pôr dois e o que é pago são computadores, consumíveis, etc.
Que o sapo teça considerações sobre o meu trabalho é lá com ele. Que o considere de má qualidade também. Não me consta que seja a opiniãode dez cientistas portugueses que entrevistei em dois livros: António Coutinho, Sobrinho Simões, Arsélio Pato de Carvalho, Alexandre Quintanilha, Fernando Lopes da Silva, Irene Fonseca, Maria do Carmo Fonseca, Boaventura Sousa Santos, João Lobo Antunes e Manuel Paiva.
Agora, o que é grave é que mesmo um blog se permita aceitar insinuações de que recebi dinheiro por trabalhos que não fiz. O Cocas ou lá o que é que venha dizer do que se trata ou então os responsáveis pelo Conta Natura devem tirar esta afirmação sob a pena de serem coniventes com ela. Eu não o seria...
Um último comentário a um «toque» de MRS: na verdade tinha posto todos os endereços ou não tinha posto nenhum. Era minha intenção acabar o artigo com os endereços de todos, mesmo daqueles que não falei. Não tive espaço para isso. Aliás, o artigo acabou por ser cortado em 700 caracteres.
Mas poderão alguma vez na vida reagir como pessoas que não são do meio e tentar perceber o que pensaram todos - e são milhares e talvez milhões - os que nunca tinham ouvido falar ou lido alguma coisa sobre esta matéria? Vale uma aposta em como para elas foi bom ter conhecido o que se passava? É para elas que escrevo!
Jorge Massada
Publicado por maradona às novembro 3, 2005 06:12 PM
Comentários
(Houve dois comentários anteriores que foram deletados)
Todas as pessoas têm direito o direito de defender o seu bom nome. O "Direito de Resposta" acima postado oferece agora essa possibilidade a Jorge Massada.
Com este Direito de Resposta encerra-se a polémica que eu, sem ter querido, acabei por desencadear. O propósito não era, obviamente, dar azo a que, a coberto do anonimato, viesse alguém atentar contra a honra de Jorge Massada. Foi pena o que aconteceu, mas convém recordar o reduzido grau de exposição pública que este blogue tem. Noutros blogues, bem mais populares, escrevem-se coisas bem piores a propósito de pessoas com bem mais responsabilidades na condução dos destinos do País e do Mundo. Isto não nos justifica, é claro, mas talvez ajude a sarar as feridas.
Acho que eventualmente teremos que aprender a conviver com boatos, insinuações e até calúnias que aparecem na forma escrita, na Web, em vez de só "de bouche à oreille".
Quero agora frizar que, como é regra na blogosfera, as opiniões escritas nos comentários não comprometem nenhum dos colaboradores deste blogue, em particular os que dão a cara por tudo o que escrevem.
Não pretendo de forma alguma que o que acima foi dito relativize (ou finja ignorar) as ofensas que Jorge Massada sofreu à sua honra e dignidade. Oferecemos-lhe neste post a possibilidade de contra-atacar. É triste que as coisas se tenham passado desta forma, quando a provocação original nem sequer foi dele. Ele foi obrigado a reagir a ataques de outros e, com todo o gosto, lhe publicamos a resposta.
Termino repetindo: Esta polémica acaba aqui! Quaisquer comentários posteriores ao meu serão apagados.
PS: Já agora, e para os que ainda não o sabem: Assino neste blogue com o nome de Santiago, embora o meu verdadeiro nome seja Paulo Vieira. Tenho 46 anos de idade e sou investigador do Institut Pasteur de Paris.
Publicado por: Santiago às novembro 3, 2005 08:36 PM
(Sem contradizer o que acima ficou dito... )
Jorge Massada replicou a um comentário (que foi repetido, e depois apagado, neste post). Já que o post dos Marretas está bem lá no fundo, aqui reproduzo a réplica
Pois, este seu comentário é bem diferente do seu apoio à (tristeza) da vaca. Não basta achincalhar os jornalistas do Expresso (de resto, neste momento sou só colaborador)para se dar ares de mais esperto. Não o conheço mas não o tenho nessa conta.
A história mostra (subjectivamente, mas mostra) que na batalha jornalistas/ cientistas estes ficam a perder. Se um dia tiver tempo dê uma vista de olhos no IV Congresso Mundial de Jornalistas Científicos que se realizou em Montréal no Canadá em Setembro do ano passado (creio). Alguns dos jornalistas de ciência que não de jornais generalistas são ex-cientistas. Eles explicam bem as coisas.
Se com a piada da vaca o Conta Natura ou parte dele pretendeu dar a entender que os outros (nós) são incultos ou o que quer que seja, peço-vos que pelo menos no meu caso se desiludam. Aprendo diariamente até com as críticas.
Aquilo que você gostaria de ver escrito seria um artigo que provavelmente nenhum jornal português publicaria. Penso que antes de se partir para um artigo desse género era importante saber que há um fenómeno novo, dar-lhe alguma visibilidade e alguns rostos (neste caso, nomes). Estou perfeitamente convencido que isto deve ser aasim.
Quantos visitantes únicos, quantas visitas, quantas páginas tem de procura o Conta Natura, por exemplo? Creio que o vosso caso nem é dos piores.
Faz sentido, nesta fase do campeonato, estar a comparar pequeníssimas realidades, ou é melhor explicar às pessoas que há uma nova realidade a despontar, a do interesse pelos blogs de ciência que em muitos casos são pessoais, misturam coisas do domínia da ciência com coisas do domínio pessoal?
Meu caro amigo, aproveitando a boleia da vaca diria que você está a pôr o carro à frente dos bois. Por muito que lhe custe, a visão dos jornalistas e dos cientistas não é coincidente, mesmo no caso de gente que, como o Granado, tem formação científica. Deixe-me dizer que, felizmente, são os jornalistas que fazem os jornais e, por que não reconhecer?, felizmente que são os cientistas que fazem a ciência.
Para aquela gente que aproveitou o blog para manifestar a sua veemente condenação pela minha falta de qualidade resta-me o orgulho de durante os últimos anos ter sido um dos (se não o) jornalistas que mais divulgou o o trabalho de investigadores portugueses.
Gostaria de dizer que há mais de dois anos tenho vindo a coligir notas para um trabalho que eventualmente poderei publicar no Ciência Hoje: um Dicionário de Cientistas Portugueses Contemporâneos. Que se publicar poderá causar até um terramoto. Tenho mais de mil nomes coligidos, em parte sugeridos pelos seus pares.
Há já dois anos eu tinha referenciado, por exemplo, a figura do Tiago Outeiro. Há muitos outros que não estão lá. Para bom entendedor...
Finalmente, sobre a questão do anonimato e da censura do comentário prévio. Meu caro amigo, não pode haver liberdade para a calúnia. E isso não é censura. O facto de dar direito de resposta não iliba das responsabilidades. Tenho mais do que fazer do que andar virado para os tribunais, lgo eu que tenho a minha vida académica feita na Faculdade de Direito. Mas, imagine que eu me aborrecia a sério com um tipo qualquer que andava a apregoar que eu ganho dinheiro por trabalhos que não faço. Ninguém sabe, por exemplo, quem é o dito tipo. De quem é responsabilidade se não dos responsáveis do blog?
Posso assegurar-lhe que se por hipótese algum inimigo seu escrevesse para o Ciência Hoje a dizer que o VMB era isto e aquilo eu não precisaria de lhe dar a si o direito de resposta porque nunca publicaria tal coisa.
Toda a gente que anda nestas coisas sabe que o desmentido nunca ou raramente tem a força daquilo que quer desmentir. Poderá algum dos arguidos do caso Casa Pia vir a ser absolvido que nunca tirará da testa o selo de pedófilo. Escreva sempre. Aliás, o Ciência Hoje está à sua disposição. Mas, apesar dos gigantescos apoios oficiais, não tem infelizmente dinheiro para lhe pagar. Oxalá (que é a forma soft de dizer Queira Deus) eu conseguisse fazê-lo.
Jorge Massada
Publicado por: Santiago às novembro 3, 2005 10:50 PM
(Paulo, com as devidas desculpas, vejo-me forçado a comentar a resposta anterior).
Não estou a par da responsabilidade legal que nós, enquanto editores do Conta, temos perante um caso de calúnia. A decisão de permitir comentários às entradas que vamos fazendo implica alguns riscos. Censurar comentários não é uma boa solução, por vários motivos:
1. Nenhum de nós tem tempo para andar a aprovar previamente os comentários.
2. Com tal sistema em prática, perderíamos os já poucos comentadores que temos, pois ninguém gosta de uma imposição desse tipo.
3. Perante uma situação situação de calúnia, censurar o comentário a posteriori é condenar o blogue a uma praga de comentários futuros da mesma pessoa, provavelmente sobre o mesmo assunto e em escalada de gravidade. Há algumas formas de tentar minorar este efeito (bloquear endereços de IP, por exemplo), mas qualquer pessoa minimamente inteligente e motivada encontraria sempre forma de voltar a escrever no Conta. A solução de último recurso - e inevivável - seria acabar com os comentários no Conta. Apesar do respeito que o Jorge Massada nos merece, não estou disposto a chegar a tal extremo.
4. Se alguém nos enviasse uma carta a dizer que o o Jorge Massada era isto e aquilo, não a publicaríamos, como é óbvio. As caixas de comentários obedecem a regras diferentes.
5. No seu caso, a situação terá sido melindrosa porque o comentário calunioso ficou muitos dias sem direito de resposta. Será que somos responsáveis por não lhe termos enviado uma mensagem imediatamente a seguir à publicação de tal comentário? Ou de não termos averiguado se o comentário tinha ou não fundamento?
6. Quando entendeu responder, demos-lhe imediatamente honra de "primeira página" (o comentário passou a "post"), coisa que os jornais geralmente não fazem.
7. Censurar agora o comentário original seria contraproducente pois a sua resposta deixaria de fazer sentido. Censurar o comentário e a sua resposta, ou seja, limpar o Conta deste infeliz episódio, não seria limpar o seu nome, pois entretanto a história já se espalhou. A vantagem de deixar o comentário e a sua resposta é que pelo menos agora qualquer pessoa pode ler o que se passou e tirar as suas próprias conclusões.
8. Tem razão quanto à força relativa dos desmentidos. Só me resta lamentar que o desenvolvimento ao "post da vaca" tenha sido o que se viu. Porém, se alguém fica com o seu nome manchado não me parece que seja o Jorge Massada nem os editores do Conta. Enfim, haverá talvez alguma falta de imparcialidade da minha parte, mas é o que sinceramente penso sobre este assunto.
Publicado por: VMB às novembro 4, 2005 02:35 PM