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novembro 14, 2005

Uma história de morcegos sem o Robin

bat.jpgLev 11:13 And these [are they which] ye shall have in abomination among the fowls; they shall not be eaten, they [are] an abomination: the eagle, and the ossifrage, and the ospray,
Lev 11:14 And the vulture, and the kite after his kind;
Lev 11:15 Every raven after his kind;
Lev 11:16 And the owl, and the night hawk, and the cuckoo, and the hawk after his kind,
Lev 11:17 And the little owl, and the cormorant, and the great owl,
Lev 11:18 And the swan, and the pelican, and the gier eagle,
Lev 11:19 And the stork, the heron after her kind, and the lapwing, and the bat.


Liber Leviticus é o terceiro dos cinco livros do Pentateuco, que tratam da história do mundo e do povo escolhido, da sua Gênese até à morte de Moisés. Consiste essencialmente numa coleção de leis para os Hebreus, em especial para a mão de obra do Templo- aquele, com T maiúsculo- que deveria ser composta pelos membros da tribo de Levi. Por isso é um dos livros bíblicos favoritos dos estraga-prazeres. É lá, por exemplo, que se proíbe comer mariscos, lagostas e mesmo os fantásticos camarões-tigre que fazem no restaurante Torre Mar na praia de Carcavelos:“Whatsoever hath no fins nor scales in the waters, that [shall be] an abomination unto you.” (Lev 11:12)

BATMAN7.jpgFelizmente também é um livro particularmente útil no debate com os fundamentalistas que querem trazer a interpretação literal estrita das escrituras para dentro da educação científica (aqui no Alabama não são uma curiosidade que encontro nos jornais, e sim gente que encontro na rua). A passagem acima claramente classifica os morcegos como parte das Aves- acho que podemos todos concordar que não é o caso. Mas para dissipar todas as dúvidas estou a incluir uma foto do Batman (versão George Clooney), onde com um pouco de esforço os meus três leitores poderão idenficar algumas características taxonómicas que o colocam nos mamíferos (…para terminar o suspense: as glândulas mamárias).

(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)


Mais surpreendente para os não biólogos - e os biólogos que abandonaram os caminhos da luz pelas trevas da biologia molecular - é que os morcegos, os ratos alados, tão pouco são roedores. Como se vê na árvore, a filogenia mais aceite actualmente coloca os morcegos (Chiroptera) mais próximos dos Primata do que dos Rodentia.
phylogeny.gif

Há mais de novecentas espécies vivas de morcego, e recentemente três delas, do gênero Rhinolophus, foram parar nas páginas do noticiário científico por razões não muito agradáveis. Dois artigos recentes, um na revista Science (Li et al, Science 310:676-678) e outro no Proceedings of the National Academy of Sciences USA (Lau et al, PNAS 102:14040), identificaram estas espécies como reservatórios naturais dos coronavírus causadores da Síndrome Respiratória Aguda Severa, a popular SARS. Não é o primeiro hospedeiro animal identificado para o vírus da SARS- já havia sido encontrado em pequenos mamíferos carnívoros, os civets. Mas neste caso eram animais vendidos em feiras no sudeste asiático, e não se acreditava que eram os hospedeiros naturais, seriam somente hospedeiros intermediários - o vírus era encontrado nos civets em cativeiro, mas não nas populacões naturais. Já no caso dos morcegos, Lau e colaboradores encontraram o próprio patógeno em 39% das amostras em populacões selvagens de morcegos (pela agradável via dos swabs anais), e exames serológicos demonstraram que 84% dos individuos amostrados tem anticorpos contra o vírus. Apesar da alta prevalência, não há nenhuma indicação que a infecção é prejudicial aos morcegos. Li e coloboradores também concluem que os morcegos são reservatório natural dos coronavírus da SARS. Estudando diversas espécies do gênero encontram uma grande diversidade genética do vírus- muito superior aquela encontrada nos civets ou em humanos, indicando que a infecção está há muito tempo disseminada nos morcegos.

dracula.jpgSe o leitor teme a vingança dos herdeiros de Vlad Tepes, o impalador, filho do Dragão (daí Draculya… o impalador eu acho que se explica sozinho), não é necessário investir em alho e crucifixos: como a maior parte da subordem Microchiroptera, Rhinolophus é um gênero de insectívoros, e não se acredita que o vampirismo seja via de transmissão para humanos. Para os adeptos da antropologia, os chineses incluem a carne de morcego na sua culinária e utilizam as suas fezes na medicina tradicional (aparentemente uma das indicações é no tratamento da asma). Por isso, morcegos vivos são frequentes nos mercados de animais. Em situação semelhante à da emergência de novas formas de gripe, a proximidade de muitas espécies animais diversas e humanos em alta densidade forma o ambiente ideal para que um patógeno se adapte a múltiplos hospedeiros. Como no caso dos coronavirus a infecção entérica (do trato digestivo) dos morcegos foi facilmente demonstrada, é provavel que o virus espalhe para outras espécies por via das fezes dos morcegos (mesmo sem contar o consumo directo das mesmas pelos chineses asmáticos). Embora a pandemia de SARS que alguns temiam não tenha se materializado, o surto de 2002/2003 matou pelo menos 774 pessoas, infectou mais de 8000 e arruinou a economia da região. Dada a enorme diversidade de vírus relacionados ao que causou este susto, num gênero de morcego cuja distribuição geográfica vai da Austrália até a Europa, urge empregar mais biólogos!

(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)


Publicado por Conta Natura às novembro 14, 2005 01:26 AM

Comentários

Belo texto. Vou lê-lo enquanto oiço "Die Fledermaus"...

Publicado por: Santiago às novembro 14, 2005 06:32 AM

Belo texto sim senhor. Aos domingos já não vou à missa mas venho sempre ao conta natura.
Estive a ler enquanto ouvia Lynyrd Skynyrd ;-)

Publicado por: vitor paixao às novembro 14, 2005 05:30 PM

Questão batida, mas que em nada retira interesse a um artigo muito ao jeito dest'A coluna do senhor -- "On Abortion, It's the Bible of Ambiguity" (NYT) / http://www.nytimes.com/2005/11/13/weekinreview/13luo.html?ei=5088&en=e10f84bb7c54a2be&ex=1289538000&partner=rssnyt&emc=rss&pagewanted=print

Publicado por: MRS às novembro 16, 2005 02:11 PM

Algum lugar entre Skynnyrd e Strauss esta a banda sonora adequada, talvez uma sweet waltz alabama

MRS, obrigado pelo link, tinha visto isto no Times de domingo mas me escapou de colocar na coluna.
Exigir coerencia na Biblia e' complicado, seja no Antigo Testamento onde vale a anedota "two jews, three opinions", seja no Novo, mesmo antes da moda do DaVinci Code. Exigir coerencia nas interpretacoes da Biblia, como no artigo do Times de Domingo, ai entao nem se fala...

Publicado por: Thiago Carvalho às novembro 16, 2005 09:38 PM

Folgo em vê-lo tão capaz nas artes da taxonomia. O Barão teria orgulho.

Quanto ao morcego, belo animal... mas comê-lo?? Relativismo cultural tem limites...

Um colunista aqui da Folha de S. Paulo criticou muito a histeria a respeito da gripe aviária, dizendo que só deve preocupar quem dorme com galinhas. E parece que é o caso em vilarejos pobres da ásia.

Aqui no Brasil o governo já está preparado para gastar milhões dos cofres da viúva, comprando kits para combater a gripe aviária. É incrível as desculpas que aparecem para justificar o saque da verba pública.
A propósito: o george clooney fica bem de batman, hein?

Publicado por: brunobuys às novembro 22, 2005 10:27 PM

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