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outubro 10, 2005

There Comes The Flu

p_flu-virus-penetrating.jpgÀ medida que o planeta diminui de tamanho, que o Homem vai ocupando habitats que pertenciam a outras espécies, que as densidades populacionais ultrapassam todos os limites e promovem os contactos entre todos, as epidemias florescem. O conjunto é heterogéneo, existem as que estão directamente ligadas às más condições de higiene, ao fraco desenvolvimento socio-económico, à pobreza, e aquelas que são completamente democráticas e que não se fazem rogadas a qualquer grupo populacional, qualquer que seja a sua língua, religião, nível económico ou cor da pele.

A gripe é uma destas doenças, que por constituir ameaça, tanto para o Oriente como para o Ocidente, para o Norte como para o Sul, acaba por nos unir a todos no esforço de a compreendermos para que a possamos controlar. O meu contributo segue aqui, agora e nas próximas intervenções.

Ao falarmos de gripe, descrevemos acima de tudo uma patologia infecciosa frequente, envolvendo o aparelho respiratório, as vias aéreas superiores (fossas nasais, faringe e laringe) e principais ramos da árvore traqueo-brônquica. É causada por um vírus, o vírus Influenza que no hemisfério norte, infecta predominantemente no período de Inverso e Primavera, correspondendo aos meses de Novembro a Março, coincidindo com as baixas temperaturas e as chuvas. No gráfico apresentado, a distribuição da actividade da epidemia ao longo dos meses de risco, revela que o mês de Fevereiro foi o que mais frequentemente registou recordes de actividade da gripe. E já agora, uma medida do seu impacto é o envolvimento de 10- 20% da população americana, todos os anos.

Peak_Months_for_Flu.jpg Habitualmente, manifesta-se com o aparecimento de febre, cefaleias, astenia/fadiga, dores musculares, congestão nasal, dores de garganta e tosse seca com uma evolução favorável ao fim de 1-2 semanas. Por vezes a síndrome gripal evoluirá para complicações mais graves como a pneumonia e a bronquite, ou menos graves como as otites e as sinusites. As primeiras são causa de mortalidade significativa anual nos EUA, que ronda os 36 000 doentes de cerca de 200 000 internamentos, segundo os dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention). A mortalidade afecta sobretudo os grupos de risco etário, idosos e crianças e também os doentes crónicos, debilitados, com imunodeficiências ou doenças respiratórias crónicas, tal como a Asma Brônquica, a Bronquite crónica ou o Enfisema.

Para alertar para a importância desta aparente banalidade infecciosa, este vírus foi responsável pela morte de mais de 20 milhões de pessoas, entre 1918-1919, um valor de vítimas muito acima do alcançado pela Primeira Guerra Mundial!

Nesta doença, como em tantas outras, a nossa espécie não é privilegiada como hospedeiro. Por outras palavras, a gripe é uma antropo-zoonose, isto é, uma doença pouco selectiva, que afecta tanto humanos como outras espécies animais. Os cavalos, as aves, porcos e até as focas são também alvos possíveis de lesão respiratória por este agente.

Como todos sabemos, a gripe é uma doença muito contagiosa, em que a via mais usada é o meio aéreo. Os resultados da transmissão saem reforçados pelo impulso dos mecanismos autónomos de defesa das vias aéreas, como a tosse e o espirro, que são capazes de projectar, a distâncias de metros, as gotículas das secreções carregadas de partículas virais. O papel de objectos contaminados com secreções infectadas é menor, mas é eficaz, no caso de contacto entre o objecto infectado e as mucosas da boca ou do nariz. Um dia antes do aparecimento dos sintomas até 3-7 dias após a sua manifestação, no caso dos adultos, e para lá da primeira semana nas crianças, são os limites temporais para o período de contágio.

Cada virion ou partícula viral tem uma estrutura constituída por uma camada exterior ou invólucro, composta por uma membrana fosfolipídica, e que corresponde à membrana plasmática da célula epitelial donde a partícula é proveniente. No momento do abandono da célula infectada, as partículas virais revestem-se com a “pele do cordeiro”. Nesta camada existem duas glicoproteínas de origem viral, a Hemaglutinina (HA) e a Neuraminidase (NA), que são visíveis em imagens obtidas a partir da microscopia electrónica e que se projectam radialmente. A HA organiza-se em trímeros (conjunto de 3 moléculas) que se ligam aos resíduos de ácido siálico de glicoproteínas e glicolípidos da membrana das células do epitélio respiratório. Existem cerca de 1000 moléculas por cada partícula viral que apresenta uma décima milésima parte do milímetro de diâmetro médio, muito peque como poderá imaginar. O papel da NA não é tão claro. Sabe-se que a NA cliva resíduos de ácido siálico de glicoproteínas do próprio vírus e do hospedeiro e que terá importância nos mecanismos de evasão da célula hospedeira.

influenzafigure1.jpgMais interiormente, uma outra camada de proteínas da matriz que, por sua vez, envolve a região mais central da partícula ou nucleocapsídeo. Este núcleo alberga o material mais precioso: a informação genética contida em 8 segmentos de cadeia única de RNA, e que codificam uma ou mais proteínas, associados a proteínas de suporte (nucleoproteínas) e à polimerase de RNA. Esta última tem a importância basilar da duplicação das cadeias do ácido ribonucleico.

Existem 3 tipos básicos de vírus Influenza: Tipo A, B e C. As diferenças são determinadas pelas diferentes sequências das suas nucleoproteínas e das proteínas da matriz. O tipo mais comum é o tipo A e é também o mais preocupante por ser responsável pelas principais pandemias humanas. Como o nome sugere, refiro-me a epidemias à escala planetária. Tanto o tipo A como o tipo B são responsáveis por epidemias de gripe com impacto clínico, enquanto o tipo C corresponde a formas clínicas mais ligeiras.

A diversidade dentro de cada um dos tipos é dada pela variabilidade nas HAs e nas NAs, o que permite distinguir os vários subtipos de vírusInfluenza.

De acordo com normas estabelecidas na OMS, cada estirpe de Influenza é caracterizada numa expressão codificada que tem por base estas cinco informações colocadas por esta ordem:

1) O animal de origem: Homem (sem sigla), porcos (sw), cavalos (Eq) e aves (por extenso: chicken, turkey, duck...).
2) A origem geográfica: Estado ou País.
3) Número da estirpe
4) Ano do Isolamento
5) Descrição antigénica das HA e NA.

Por isso, os nosso leitores compreenderão agora que a estirpe Influenza – A/ Sw/ Iowa/ 15/ 30 (H1N1)- corresponde à estirpe A, isolada a partir de porcos, do estado americano do Iowa, da amostra 15, em 1930 e que apresenta os subtipos antigénicos 1 da HA e da NA. Já agora, é importante perceber que existem, no tipo A, dezasseis subtipos diferentes de HA e nove de NA. O Tipo B não está dividido em subtipos e apresenta uma outra particularidade, muito importante, veremos adiante, a de infectar apenas os humanos.

Qual é então a grande preocupação com este vírus? As atenções viram-se para a camada exterior, as proteínas do invólucro viral, para a sua diversidade e para a rapidez com que mutam, em suma, para a sua variabilidade.

Mais tarde apresentarei os mecanismos desta preocupação.


PS- Aproveito aqui esta oportunidade para recordar aos leitores que padeçam de uma síndrome gripal se abstenham de tomar terapêutica contendo ácido acetilsalicílico, pelos riscos envolvidos de doença hepática.

Publicado por RPA às outubro 10, 2005 01:14 PM

Comentários

Muchas gracias por este resumen tan interesante.
MD

Publicado por: Maria Dominguez às outubro 10, 2005 03:52 PM

Muchas gracias por este resumen tan interesante.
MD

Publicado por: Maria Dominguez às outubro 10, 2005 03:52 PM

Talvez seja interessante acrescentar que no fundo a gravidade de qualquer estirpe de gripe esta' relacionada com o grau de semelhança com as estirpes de gripe que a população humana foi previamente exposta. Na maioria dos anos as novas estirpes de gripe resumem-se a pequenos rearranjos da invólucro do virus, pequenas questões estéticas que um sistema imune saudável consegue regra geral neutralizar.

No entanto de tempos a tempos um vírus humano pode recombinar por exemplo com um vírus da gripe das aves ou de outros mamíferos. Se esta estirpe for infecciosa em humanos pode criar um surto de gripe mais grave porque neste caso o sistema imune e' exposto a algo relativamente novo. Tal aconteceu nos anos 50 e nos anos 60, quando ocorreram pandemias de média dimensão.

No entanto muito raramente um vírus da gripe (por exemplo das aves) pode saltar de repente para o ser humano. Neste caso a situação e' potencialmente extraordinariamente grave porque estamos confrontados com algo totalmente novo e imprevisível.

De facto e' muito dificil prever o que pode acontecer neste caso, o vírus pode se tornar mais ou menos letal ao evoluir dentro do hospedeiro humano, pode não ser muito infeccioso. Igualmente e' difícil de prever como o sistema imune do ser humano vai reagir a este vírus. Um bom exemplo desta situação e' a pandemia gripal de 1918/1919.

O razão porque neste momento existe uma enorme preocupação acerca do vírus H5N1 gripe das aves e' porque este virus esta' nitidamente a "tentar" saltar para o ser humano. Ate' agora sem grande sucesso. Neste momento e' impossível saber se vai alguma vez conseguir ter sucesso. Outra questão grave acerca deste vírus e' que muitos pacientes parecem morrer devido a uma reacção inflamatória nos pulmões. Ou seja, o vírus induz uma reacção imunológica brutal que leva 'a destruição do tecido pulmonar. Curiosamente em outros pacientes o vírus não causa mais do que uma gripe muito ligeira.

Resumindo, pouco se sabe, pode não ser nada mas pode ser muito grave porque com este vírus (tal como em 1918) a humanidade "is going where no man has been before".

Publicado por: Rui Martinho às outubro 10, 2005 05:21 PM

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