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outubro 09, 2005
St. Matthew 16:26
“For what is a man profited, if he shall gain the whole world, and loses his own soul? or what shall a man give in exchange for his soul?”
Recentemente a chegada de brinquedos novos e caros, mas também volumosos, no nosso laboratório nos forçou a buscar algum canto apropriado para recebê-los. Tendo falhado nesta busca por um espaço vazio, fomos então à opção B: tentar determinar o que poderíamos descartar. A tarefa é complexa porque laboratórios de uma certa idade como o em que estou agora (30 anos de funcionamento) se tornam uma quimera de máquinas de museu com equipamentos de última geração. O problema é que algumas peças de colecção funcionam melhor do que as recém-copiadas dos engenheiros da NASA- embora às vezes precisem de carinho, e como as pessoas de uma certa idade têm lá suas manias. No nosso caso foi decidido mandar para o cadafalso uma grande parte de nossa colecção de periódicos científicos das últimas três décadas. Este massacre das letras tem ocorrido em vários cantos, por várias razões, não só de espaço. Mais recentemente, o acesso electrónico às revistas científicas tem motivado o desaparecimento das cópias impressas. Juntando-se a isto o facto de que a maior parte dos trabalhos actuais não cita quase nada com mais de 5 anos de idade, o descaso com as revistas antigas é a norma e não a excepção.
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
O que pude fazer foi minha própria listinha de Schindler, e salvei algumas ‘Cell’, ‘Nature’e ‘Science’, empilhando o quanto foi possível na minha mesa. Assim, nos intervalos em que as centrífugas giram e os gels correm, fui folheando clássicos (e não poucos classicamente errados) do passado. Blast from the past, como dizem aqui. Entre eles estava um comentário interessante do Bruce Alberts publicado na Cell de Junho de 1985 (41:337-8)*, intitulado “Limits to Growth: In Biology, Small Science is Good Science”. Alberts é um bioquimico destacado que até recentemente era presidente da National Academy of Sciences dos EUA (1993-2005), além de ser um dos autores de um livro texto de biologia molecular/celular de grande sucesso. Neste pequeno texto Alberts lamenta a expansão desenfreada dos grandes laboratórios de investigação, aquelas grandes fábricas em geral associadas a grandes nomes nas grandes instituições- onde não é difícil encontrar grupos com 30 ou mais pessoas. Para pôr comida na mesa (enzimas na bancada desta multidão), uma boa fracção das grants governamentais e privadas vai parar nestes grupos. A crítica do Senhor Presidente se baseia em alguns pontos práticos e teóricos.
Em primeiro lugar, nos diz que o cientista chefe do grupo, o famigerado Principal Investigator (PI), está impossibilitado de trabalhar como cientista: a maior parte do seu tempo será necessariamente gasto mantendo os fundos do laboratório, prestando contas, servindo em comités, fazendo world tours de conferências que deixariam até os Rolling Stones admirados (ok, talvez não o Keith Richards). Isto se reflete não só na execução e planejamento dos experimentos (afinal é para isto que estamos lá), mas também, como diz Alberts: “Grants can sometimes even be renewed with minimal input from the principal investigator, being largely ‘ghostwritten’ by younger colleagues”. A culminação do processo é a acumulação de grants de longa duração sem revisão. Este seria o sonho último do pesquisador, mas aqui novamente Bruce nos chateia com ideias incovenientes:
“When rewarded with too much money, there is very little impetus to choose priorities carefully as is required to use one’s intellectual resources wisely. Moreover, because of the need to maintain the operation at a certain level of activity, it is inevitable that most of the work being done is rarely innovative or outstading.”
Para os que não estão familiarizados com o sistema de financiamento de investigação nos EUA, um detalhe importante: enquanto em Portugal ou no Brasil os pós docs e doutorandos em geral têm suas próprias bolsas de investigação, na América a maior parte tem seus salários pagos pelas grants do laboratorio (inclusos aqui o próprio PI e os auxiliares técnicos). O período de renovação de grants se torna algo verdadeiramente crítico, porque dependendo do caso, a não renovação ou atribuição pode resultar na demissão de várias pessoas, ou numa redução de salários.
Os argumentos continuam, mas além de reclamar. Alberts propõe uma solução drástica: que o NIH (a principal agência governamental financiadora em investigação biomédica nos EUA) adopte um tecto de financiamento por laboratório; em 1985 ele propõe que este tecto seja em torno de $400 000 por ano- obviamente seria preciso fazer ajustes a este número. Um efeito colateral deste plano seria também garantir uma melhor distribuição de fundos. Actualmente a idade média do investigador ao obter seu primeiro grant do NIH está em 42 anos!
Voltando a Mateus, “Ye cannot serve God and mammon”.
*Infelizmente não há acesso gratuito online- para quem tiver acesso institucional, os artigos em PDF da Cell Online agora remontam a 1974.
(Thiago Lopes-Carvalho, A coluna do senhor)
Publicado por Conta Natura às outubro 9, 2005 11:51 PM