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outubro 22, 2005

Política ao Natural

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"Introduzir a Biologia na análise política não implica legitimar ou condenar actos e medidas pelo simples facto de, respectivamente, se encontrar ou não um paralelo no mundo animal."

INICIO aos Sábados uma nova série: Política ao Natural. A inspiração para o nome, forma e estilo adoptados será óbvia.

Mas mais do que tentar um pastiche, creio que há lugar para a biologia na análise da actualidade política nacional.

Por um lado, o filão histriónico é inesgotável. Até que ponto é útil conhecer os trabalhos de E.O. Wilson sobre adaptações das espécies insulares quando tentamos perceber o fenómeno Alberto João Jardim? É o que veremos.

Num registo mais sério, tenho constatado que os fazedores de opinião da pátria tanto abusam do mundo natural como o desprezam. Por exemplo, para Miguel Sousa Tavares a adopção de crianças por casais homossexuais não deve ser autorizada, pois na natureza não vemos "elefantes gays ou focas lésbicas a criarem filhos em comum". O argumento é arrepiante.

A fazer lei da natureza, quantos cenários de terror podemos imaginar para a nossa espécie?

HÁ DEPOIS o outro lado.

O desprezo com que se trata a natureza.

A arrogância de quem se recusa a ver o homem como o primata inteligente que é.

E o medo que o reducionismo biológico faça tremer sedutoras e complexas construções teóricas.

Numa discussão sobre a homossexualidade entre António Guerreiro e João Pereira Coutinho, um vê a orientação sexual como um fenómeno natural e o outro, pelo contrário, como uma construção social. Mas nenhum deles se deu ao trabalho de alicerçar a sua posição, preferindo apenas esgrimir o contencioso no plano das consequências.

Para não sair da mesma causa fracturante, quando inocentemente perguntaram ao Prof. Amaral Dias se o "gene da homossexualidade" existe, a resposta foi intempestiva, como se alguém lhe estivesse a armadilhar a cátedra com explosivos plásticos.

Há nestas posições muito a corrigir.

UM EFEITO pernicioso da hegemonia das Humanidades, das Ciências Sociais e Humanas, da Economia e do Direito.

Introduzir a Biologia na análise política não implica legitimar ou condenar actos e medidas pelo simples facto de, respectivamente, se encontrar ou não um paralelo no mundo animal.

Esta é uma análise que deve ser feita sem complexos, mas com cautela.

O intercâmbio entre a Biologia e a Política não tem produzido coisas bonitas.

Do eugenismo ao capitalismo selvagem, parece ser sempre possível pedir contas à família Darwin.

A ingerência da política na Biologia pariu Lisenkos.

E o politicamente correcto branqueia as diferenças, ignorando a grande lição da Biologia: o valor diversidade.

Não são motivos para recuarmos.

AQUI ABORDAREI a actualidade política nacional (a internacional também, faltando assunto) segundo o ângulo da biologia.

O LEITOR poderá contar com uma análise coerente e serena, mas em que procurarei fazer rupturas nos momentos certos.

É importante saber fazer rupturas, não perder a juventude, arriscar quando é preciso.

Marcamos já encontro para o próximo Sábado.

O primeiro dos Sábados que nos restam.

Publicado por Conta Natura às outubro 22, 2005 12:00 AM

Comentários

E aposto que vais comecar pelo aborto. Espero que nao sejam outras 10 paginas para vires agora justificar o "nao referendo" que Socrates esta a preparar. Mais uma facada que Socrates espeta nas costas do povo Portugues. Ou sera Jorge Coelho a espetar, uma vez que Socrates cada vez mais parece um roberto articulado nas maos do Coelho.
"Sr.Professor, por favor, meta o pe no acelerador e mande os "xuxas" para o assador." (com a bem conhecida musica para quem foi de autocarro a colonias de ferias quando crianca)

Publicado por: HHH às outubro 22, 2005 03:33 PM

"se bater, nao faz mal, vamos todos para o hospital"
E o RPA trata de nos.

Publicado por: HHH às outubro 22, 2005 03:36 PM

HHH,

Impõe-se um esclarecimento: nesta série usarei a biologia para comentar a política, o que não quer dizer que aborde as questões políticas que tocam directamente nos problemas da bioética ou do financiamento de projectos científicos. Aliás, esses temas (o aborto, por exemplo) não serão prioritários aqui. Adianto já que os temas das próximas duas semanas serão "Gerontocracia: dos primatas aos presidenciáveis", e "Saraiva e Lombroso: a estranha tese do político cara de pau". A biologia aqui não será objecto de estudo, mas sim ferramenta de análise.

Em todo o caso, eu ou algum dos meus colegas por certo comentará as trapalhadas sobre a proposta de despenalização do aborto. Sobre a questão de fundo, mantenho o que escrevi neste blogue em Outubro de 2004 e só corrijo as gralhas.

Publicado por: VMB às outubro 22, 2005 03:56 PM

Eu apoio...estou curiosa :)

Publicado por: Stela às outubro 22, 2005 07:31 PM

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