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outubro 13, 2005

Influenzoscópio

Avian-flu-188.gifDepois do apoio dos nossos leitores e dos meus colegas do Conta, inicio convosco esta caminhada informativa, fazendo votos sinceros de que só vos traga boas notícias e que deixe rapidamente de ter utilidade.

Esta bonita imagem pode esconder um verdadeiro pesadelo para os criadores de aves e empresários da indústria alimentar.

Ainda ontem referia a chegada da epidemia de Gripe Aviaria à porta leste da Europa. Hoje confirmam-se as suspeitas sobre a Turquia que tem já uma grande colónia de perus infectados que estão a ser cuidadosamente abatidos. Aqui, o advérbio não é atribuído com qualquer ironia, mas como sinal de preocupação.

As dúvidas que pairavam relativamente aos patos da Roménia também se desfizeram hoje, e muitas das amostras colhidas deram resultado positivo para o H5N1.

De assinalar, em Portugal, o comentário do Subdirector Geral de Saúde da República que afirmou peremptoriamente que não havia qualquer perigo de transmissão homem-homem após infecção a partir das aves doentes… Eu gostaria de saber, que conhecimentos tem S. Exa para ter estas certezas?

Entre aves, a infecciosidade, isto é, a potência de contágio é muito elevada, com uma mortalidade de quase 100%. De qualquer forma nós recordamos que, neste momento, e de acordo com os números, o risco de contágio directo ou indirecto, do pessoal que manipula estas aves infectadas, é reduzido. No entanto, tendo em conta que a mortalidade ronda os 50%, convém não arriscar. Ainda, do ponto de vista epidemiológico, quanto menores forem as infecções de humanos, menor a probabilidade de uma Deriva Antigénica pró-humana ou de um nova Mudança Antigénica radical, em indivíduos duplamente infectados

Clarifico que este vírus é conhecido desde 1961, tendo sido isolado na África do Sul depois de uma epidemia ter afectado aves marinhas (Sterna paradisaea).

Por último, recordo que não está disposta ainda uma vacina para o H5N1. Primeiro, porque estas soluções não se encontram em 48 horas como no famoso filme Outbreak e segundo, levanto aqui a suspeita, as autoridades da OMS talvez tenham tardado em investigar uma vacina para este vírus que já se sabe poder infectar humanos desde 1997. Em 2003 alastrou para 8 países: Camboja, China, Laos, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Vietname. Também recordo que quem morreu não andava engravatado!…

Enfim, parece que os primeiros testes para a vacina anti-H5N1 já começaram em Abril do corrente. Em análise está já outra para o H9N2, outro subtipo das aves. Vêm por que razão levanto a suspeita?

PS- A Europa também tem o seu Centro de prevenção e controlo da doença (ECDC) que se tem afirmado com competência e atenção, como poderão confirmar.

Publicado por RPA às outubro 13, 2005 11:45 PM

Comentários

O comentário do Subdirector Geral de Saúde da República e' simplesmente assustador. Sera' que o governo portugues vai recapitular erros passados? Simplesmente criminoso...

Deixo aqui excertos de um ensaio acerca da gripe de 1918:


Lessons from the 1918 Flu

[...]

"But it wasn't just the virus. As with Hurricane Katrina, some of the deaths in 1918 were the government's responsibility. Surgeon General Rupert Blue was his day's Mike Brown. Despite months of indications that the disease would erupt, Blue made no preparations. When the flu hit, he told the nation, "There is no cause for alarm."

[...]

"False reassurances from the government and newspapers added to the death rate. They also destroyed trust in authority, as Americans quickly realized they were being lied to. The result: society began to break apart. Confidential Red Cross reports noted "panic akin to the terror of the Middle Ages of the plague" and victims starving to death "not from lack of food but because the well are afraid to help the sick." Doctors and nurses were kidnapped. One scientist concluded that if the epidemic continued to build, "civilization could easily disappear from the face of the earth within a few more weeks."

[...]

"That problem highlighted a weakness in the vaccine-production infrastructure, which, as public-health expert Michael Osterholm says, "is our levee system against a catastrophic event." But even in a perfect world, virtually no vaccine would be available for the first six months of a pandemic. And the Administration has left huge holes in our preparedness. After years of delays, a pandemic plan still needs to be finished.

Yet the clearest lesson from Katrina is that plans are not enough. They must be put into practice. Preparation matters. Even in the chaos of 1918, people who knew what to expect and had been trained did their duty, often in heroic fashion. San Francisco was the only major city in which the local leadership told the truth about the disease. It organized emergency hospitals, volunteer ambulance drivers, soup kitchens and the like in advance. There, although fear certainly showed itself, it did not paralyze. If we prepare well enough, we won't need heroes; we'll just need people doing their jobs."

(Time Magazine, JOHN M. BARRY)

Publicado por: Rui Martinho às outubro 14, 2005 01:34 AM

obrigado por este tipo de informação. [é muito paralelo e muito secundário, numa coisa destas polemicazitas é o menos: mas mesmo assim o tal subdirector de saúde (saído de outros tempos decerto, da escola do silÊncio e do "não-alarmismo" à custa da mentira) devia ser responsabilizado por tais declarações - repito-me, é secundário, mas gente dessa não pode ter responsabilidades]

Publicado por: jpt às outubro 14, 2005 12:54 PM

Muito gostamos nós de ver rolar cabeças. Ainda não foi desta.

14-10-2005 19:05:00. Fonte LUSA. Notícia SIR-7405354
Temas: saúde portugal animais doenças governo

Gripe das Aves: Governo cria comissão de acompanhamento da doença

Lisboa, 14 Out (Lusa) - O Governo criou uma comissão de acompanhamento da gripe das aves que passará a reunir semanalmente para avaliar a situação da doença, anunciou hoje o Ministério da Agricultura.

"Tendo em conta a evolução [da doença], com recente identificação do respectivo vírus em países europeus, designadamente Roménia e Turquia, entendeu o ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, Jaime Silva, ser aconselhável em Portugal que se crie uma comissão de acompanhamento", refere o comunicado.

A comissão é criada para que "se proceda à análise e divulgação da informação adequada às situações que a curto ou médio prazo possam vir a registar-se".

A Comissão de Acompanhamento da Gripe Aviaria, que funcionará na Direcção-Geral de Veterinária, é constituída pelo director-geral de Veterinária, Agrela Pinheiro, pela directora do Laboratório Nacional de Investigação Veterinária, Inácia Aleixo Corrêa de Sá, e por uma responsável da Direcção-Geral da Saúde (Maria da Graça Freitas).

Um despacho conjunto assinado hoje pelos ministros da Agricultura e da Saúde determina que a comissão de acompanhamento deve reunir semanalmente, salvo se se justificar a convocação de reuniões extraordinárias.

A comissão passa a ser a entidade autorizada a prestar informações sobre a evolução da doença, refere a nota do Ministério da Agricultura.

A Comissão Europeia confirmou na quinta-feira a presença às portas da Europa do vírus H5N1 da gripe das aves, que foi detectado em 2003 na Ásia, onde já matou mais de 60 de pessoas.

Fontes diplomáticas anunciaram hoje que os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia vão reunir-se de emergência na terça-feira para discutir a crise da gripe das aves e questões do âmbito do comércio mundial.

Entretanto, uma equipa de investigadores identificou uma estirpe de vírus H5N1 da gripe das aves resistente ao "Oseltamivir", medicamento anti-viral que está a ser armazenado em todo o mundo, incluindo em Portugal, para prevenir uma pandemia.

A revista Nature revelou que esta estirpe foi descoberta numa jovem vietnamita de 14 anos, que poderá ter contraído a gripe das aves através do irmão e não por contacto directo com aves infectadas.

A descodificação do genoma da estirpe particular de vírus H5N1 revelou que uma mutação o tornou resistente ao "Oseltamivir", nome laboratorial do "Tamiflu", medicamento comercializado pela multinacional suíça "Roche".

A gripe das aves é uma doença contagiosa entre animais e que é transmissível aos seres humanos.

ARP.

Lusa/Fim

Publicado por: MRS às outubro 14, 2005 09:50 PM

Corrijo aqui uma afirmação: o “Sr. Subdirector” é o actual Director Geral de Saúde.

Entretanto já ouvi o Sr. Ministro admitir hoje a possibilidade do contágio homem-a-homem! Estou persuadido que leu os nossos comentários, aqui no Conta!...

MRS, julgo que ninguém queria a cabeça de ninguém, apenas apelar ao rigor na transmissão de informação das autoridades de saúde portuguesas, mesmo que o erro se atribua à habitual falta de respeito do “poder” pela inteligência dos portugueses.

Publicado por: RPA às outubro 15, 2005 01:57 AM

Há neste caso da pandemia uma coisa que ainda não compreendi: não se conhecendo à partida a perigosidade de um possível vírus derivado da recombinação com o vírus das aves, não seria mais prudente que a nível europeu se proibisse temporariamente a criação de aves, se consumisse o stock actual e se deixasse o inverno passar, ao invés de se estar a correr o risco de uma pandemia muito grave e com graves prejuízos económicos nos países ocidentais?

Publicado por: Aff às outubro 15, 2005 07:56 PM

Aff,

De facto, se se eliminasse toda a criação aviaria, o risco de contacto do Homem com a gripe das aves diminuiria e com ele o risco de surgirem estirpes mais antroponóticas. No entanto a medida é muito radical. No meio dos maus exemplos, há também boas instalações aviarias que se se mantiverem isoladas poderão manter a sua produção regular…
Por outro lado, as aves estão em toda a parte, as migratórias e as residentes! O vírus consegue uma grande penetração transversal em muitas espécies, para além das domésticas, e não as podemos eliminar todas.

Como sempre, temos que aumentar o rigor das medidas de isolamento e por outro intensificar a vigilância. Parece que os caçadores portugueses querem participar! Toda a ajuda é bem-vinda.

Publicado por: RPA às outubro 15, 2005 09:52 PM

No entanto o que se ouve dizer em notícias é que a pandemia é inevitável. Ora, não é muito mais prejudicial estar-se a lidar com um quase estado-de-sítio nas populações, gente sem sair de casa, hospitais cheios, com os elevados prejuizos económicos e de vidas associados do que cortar logo o mal pela raiz?

Publicado por: Aff às outubro 15, 2005 11:11 PM

Esqueci-me de referir que o virus pode de facto manter-se nas populações de aves migratórias. Mas a probabilidades destas aves, segundo julgo, entrarem em contacto com humanos é infimamente inferior ás das aves de criação. Entretanto poderiam arranjar-se dispositivos para eliminar o virus.

Publicado por: Aff às outubro 15, 2005 11:19 PM

I think all we neeed to go in the natura direction

Publicado por: Natura às novembro 22, 2005 07:09 PM

I think all we neeed to go in the natura direction

Publicado por: Natura às novembro 22, 2005 07:11 PM

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