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outubro 17, 2005

Dos efeitos desinibidores do "politicamente incorrecto"

O que é hoje politicamente correcto é a crítica ao discurso politicamente correcto, mas daqui não se conclui que o elogio ao politicamente incorrecto seja o caminho a seguir. Porquê? Porque a crítica colhe sempre mais dividendos; não é por acaso que Pulido Valente - provavelmente o cronista mais admirado pela direita - não faz elogios públicos a figuras portuguesas há pelo menos 30 anos.
O que dizer então da entrevista a Miguel Oliveira da Silva, obstetra e professor de ética médica, realizada por Fernanda Câncio no DN da semana passada? Há ali uma desinibição própria das discussões de taberna que, de certa forma, permite ir um pouco mais longe, saber o que o médico e professor de ética médica realmente pensa. É claro que se paga um preço. Quando o médico e professor de ética médica diz: "agora, se uma mulher for quatro vezes por ano a quatro consultas porque engravida quatro vezes involuntariamente, aí ou a mando para uma consulta psiquiátrica ou tenho de saber o que se passa" e a jornalista contrapõe: "alguém que engravida quatro vezes num ano é uma maluca?", ficamos incomodados com o lugar comum. Quando depois o médico e professor de ética médica nos lembra, quase triunfante: "Pode-se abortar um feto mongolóide de 24 semanas!", sente-se um certo desconforto. Então o termo correcto não será "trissómico 21"? E ouve-se isto de um professor de ética médica? Pode ser que a moda agora seja de novo a da nomenclatura descomplexada; a ser assim, sejamos coerentes, tenhamos fairplay e rebaptizemos o hirsutismo feminino com o muito mais pictórico nome de "a lusitana". Dito isto, a entrevista expressa uma posição clara e desalinhada, com ideias peregrinas e polémicas. Se não servir para arrancar uma discussão é porque eu sei mesmo muito pouco sobre a natureza humana...

(continuem a ler a entrada para terem acesso à entrevista)

Entrevista a Miguel Oliveira da Silva obstetra, professor de ética médica.
Diário de Notícias, 7-10-05
Jornalista: Fernanda Câncio

Escreve no seu livro, Sete Teses sobre o Aborto, que o referendo de 1998 foi um erro, e que o próximo, a existir, será "um erro ainda maior". Quer explicar?

Considero que o tema do aborto não é referendável em Portugal. Compete aos deputados, como representantes do povo, deliberar, discutir e votar. Percebo que se queira cumprir um compromisso eleitoral, mas com o nível de instrução e de cultura e com a falta de qualidade que enformou o debate em 1998 e que temo se repita da próxima vez, o mais certo é que as pessoas se voltem a sentir não esclarecidas. Razão que, na minha opinião - e não o tal belo domingo de Verão e a redacção complicada da pergunta - esteve na base do facto de 70% dos eleitores não terem votado.

Que pergunta preconiza?

"Concorda com a despenalização da interrupção da gravidez (IG) até às 10 semanas?" Há aquela expressão horrorosa que não sei se vai ser incluída na nova redacção, que é "a pedido da mulher". É aliás uma expressão que os defensores da não despenalização fazem equivaler a liberalização total. O que só seria possível se o médico fosse um mero executor do direito e do desejo da mulher. E o que quanto a mim deve suceder é que se me aparece uma senhora a dizer "Doutor, tinha um namorado e estava apaixonadíssima, mas zanguei-me com ele e quero interromper a gravidez", eu di-ga: "Sim senhora, tem todo o direito, mas vai a uma consulta de aconselhamento, que não é vinculativa, falar com outro médico e com um psicólogo, só para saber se daqui a quatro dias mantém essa decisão."

Diz que o Estado deve "obrigar" a mulher a ir a uma consulta dessas. Mas quem decide? Ela ou os médicos?

A consulta não é vinculativa... Agora se uma mulher for quatro vezes por ano a quatro consultas porque engravida quatro vezes involuntariamente, aí ou a mando para uma consulta psiquiátrica ou tenho de saber o que se passa.

Alguém que engravida quatro vezes num ano é uma maluca?

É pelo menos ignorante e irresponsável...

De acordo com a lei vigente, a decisão de aborto está inteiramente na mão dos médicos. Defende que, mesmo no quadro de uma nova lei, continuem a ser os médicos a decidir?

Tenho sérias questões a esse respeito para as quais não tenho respostas definitivas. E uma dessas questões é quantas interrupções de gravidez deve o Serviço Nacional de Saúde (SNS) custear a uma mesma mulher. É uma questão muito desagradável, mas acho que alguém tem de falar sobre ela.

Como se faria tal controlo e quantas IG seriam aceitáveis?

Teria de haver um cartão de utente - que não existe -, em que todos os actos médicos custeados pelo SNS ficariam registados... Quanto ao número de IG limite, não tenho resposta para isso.

Essa mulher que engravida xis vezes é para si uma louca/irresponsável. Será boa ideia obrigá-la a ter filhos?

Não, não. Mas, ginecologicamente falando, não sei se uma mulher que três anos consecutivos faz um aborto não deve ser obrigada a fazer uma laqueação de trompas.

Isso lembra a Alemanha nazi.

Não, não é a Alemanha nazi. Mas então ela que faça o aborto e não peça ao Serviço Nacional de Saúde que lho pague.

Mas acabar com o aborto clandestino não é uma das razões da legalização?

Sim, mas temos de assumir com toda a franqueza que o circuito clandestino não vai acabar. As clínicas que fazem abortos ilegais não vão deixar de os fazer. Porque a proposta que existe é a de legalizar até às dez semanas. E as pessoas que só decidem às 12, às 14?

Eis um tema pouco grato aos partidários do "sim" modificada a lei, que deve acontecer a quem aborte fora das condições nela previstas?

Não sei, mas acho que não deve haver pena. Há quem defenda isso, mas eu não sei entrar nessa discussão... Deve-se reflectir sobre isso, com muita calma. Há uma coisa que os defensores do "não" dizem, é que se a legalização até às dez semanas triunfa vai crescer a irresponsabilidade sexual, o número de abortos. Claro que ninguém sabe quantos abortos ilegais se fazem cá, e a partir do momento em que haja uma nova lei, começa a haver estatísticas. E se o número oficial dessas estatísticas for em crescendo, como se passa com as vendas da pílula do dia seguinte no País, não estou a dizer que se pare com a despenalização do aborto, de maneira nenhuma, mas será preciso reflectir...

Outra questão que coloca no livro é a do prazo-limite proposto para a nova lei ser só de dez semanas.

Acho um excesso de rigor, poderia ir até às 12 semanas. Mas quem é que vai garantir que as IG são feitas às dez semanas? Mesmo hoje, com a lei que temos, ninguém obriga a que no processo esteja uma ecografia do dia da IG a atestar esse prazo.

Propõe que tal passe a ser obrigatório?

Não. Proponho que se acredite na honestidade dos médicos e dos profissionais de saúde.

Ataca a campanha de 1998 pelo "sim" e o que chama de "radicalismo balofo", exemplificado pelo "quem manda no meu corpo sou eu". Mas vê a campanha do "não" feita na base da "defesa da vida" como uma incoerência...

Nenhum dos lados tem a verdade e a coerência absoluta, ambos têm inconsistências e dificuldades. Não se pode reivindicar a autonomia total da mulher, mas também não se pode defender o valor absoluto da vida intra-uterina, até porque a actual legislação já põe isso em causa. Pode-se abortar um feto mongolóide de 24 semanas! Os defensores da manutenção da penalização, que em 1984 se opuseram à actual lei, deviam explicar porque é que hoje não exigem a sua revogação e até a defendem, alguns até dizendo que deve ser aplicada "à espanhola", com mais flexibilidade. Ninguém quer assumir as suas contradições, todos querem fazer crer que têm um corpo de princípios, regras e pensamentos inatacáveis. E não têm. Tentei demonstrar isso no livro e contribuir para um debate civilizado e de verdade.

Publicado por Conta Natura às outubro 17, 2005 03:05 PM

Comentários

Sobre o estilo da entrevista não me irei pronunciar…

Sobre o resto, e em primeiro lugar, é inaceitável que se use esta argumentação arrogante e certificadora da sub-normalidade do povo português para uma questão tão importante. Bastará consultar a composição de umas quantas comissões de Ética dispersas pelo país para vermos de que elites estamos a falar!

Segundo, parece-me correcto a probabilidade elevada do circuito clandestino das IVGs, o que não resolveria problema nenhum, porque continuaria a ser crime a partir das 10 semanas.

É importante perceber que 12 semanas são precisamente 3 meses, o tal primeiro trimestre de que muitos falarão e que se não sabem ficam a saber que corresponde ao período de formação de todos os órgãos e sistemas. Claro que 24 semanas é mais de metade do caminho até ao parto e que me vou escusar a detalhar as características de um feto com essa idade gestacional…

Não sei quem participará neste debate mas eu tive oportunidade de acompanhar dois casos de IVG, e por isso adianto a minha experiência… Ainda hoje recordo o sofrimento daquelas mulheres, uma que vinha para uma IVG terapêutica e outra que chega com uma hemorragia após tentativa de IVG clandestina. Duas situações completamente diferentes, mas com um sofrimento psicológico intenso em comum.

Esta mesma semana, o Ministério da Saúde anunciou o relatório de uma comissão de estudos sobre os métodos contraceptivos, anunciando cortes na comparticipação de alguns deles! Os que me conhecem sabem o quanto valorizo as economias e a racionalização de gastos na Saúde, mas será que começaram bem? Será que cortar já na despesa com o Planeamento Familiar é uma forma de ajudar as famílias, de auxiliar o debate sobre a IVG, ou de acelerar a tomada de decisão sobre o referendo?

Finalmente, sobre este tema o Expresso desta semana anunciou que o Tribunal Constitucional se tinha pronunciado contra um novo referendo antes das eleições presidenciais. O Presidente da República disse que não foi informado e como tal não há decisão. Até quando continuaremos a ser governados pelo que se escreve nos media?

Publicado por: RPA às outubro 18, 2005 01:31 AM

Creio que acima de tudo este tema é demasiado controverso para que se possam classificar determinadas afirmaçoes (independentemente de onde partam) como erradas, desadequadas, arrogantes,infundamentadas ou ate mesmo pouco eticas!! Entenda-se que pontos de vista nao sao sinonimo de erros! Se dois individuos (ou pessoas para quem se sinta mais a vontade com a definiçao)discutindo o mesmo assunto, nao chegarem a conclusao alguma, nao é necessariamente porque estao ambos errados, antes porque defendem opinioes distintas. A fontalidade é alvo facil de refutaçao alheia! sou receptiva a qualquer opiniao, mesmo que diametralmente oposta a minha... respeite-mo-nos!

Publicado por: Rita F às outubro 27, 2005 09:56 PM

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