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outubro 18, 2005

Cruzeiro do Sul (1)

brasil.jpg(Graças aos esforços do Thiago, é meu privilégio -sempre quis dizer isto - apresentar-vos hoje a prosa do Bruno Buys, directamente do outro hemisfério. É verdade que já contávamos com a prosa do Thiago, mas o Thiago não é carioca, nem paulista, nem alfacinha, nem ateniense, mas antes um cidadão do mundo, apesar de nos escrever de Birmingham, Alabama. O Bruno Buys escreve do Brasil e partilha com os leitores do Conta uma realidade que nos passa geralmente ao lado. Faço notar que o Bruno é um profissional destas andanças da divulgação(/vulgarização) científica, mas o melhor é ceder-lhe já a palavra: "Uma vez biólogo, me especializei em jornalismo científico. Trabalhei na criação da revista eletrônica Comciência, no Laboratório de Jornalismo Científico da Unicamp. Fiz alguns trabalhos como free-lancer, dos quais um dos que mais curti foi na Scientific American Brasil, sobre a pesquisa do Anderson Cunha, um amigo que todos os dias inventa novos microorganismos em seu laboratório. Aprendi um pouco de fotografia, um pouco de internet e jornalismo online, e um tanto de software livre e linux (isso virou uma paixão...). Trabalho no Centro de Estudos do Museu da Vida, na Fundação Oswaldo Cruz, onde fazemos um pouco de tudo: pesquisas de acompanhamento de mídia, mailing lists para divulgadores de ciência e até eventos e palestras de ciência e divulgação. Nas horas vagas eu gosto de desmontar meu computador (o frank) e montar novamente.  Por isso ele se chama 'frank', é um verdadeiro frankenstein. Por enquanto a Fernanda agüenta, mas já disse que quando nos casarmos, a farra digital vai acabar.
VMB)

Para lerem o primeiro Cruzeiro do Sul basta seguir o link.

La semana termina, la ciencia no



Bruno Buys

brunobuys-at-gmail.com

17-10-2005



Você sabia que aproximadamente 25% dos argentinos sofre de refluxo? Sinto-me como um daqueles aposentados – todo mundo conhece um - que devoram o Readers Digest, ou a enciclopédia Britannica, ou, nos dias atuais, a Wikipedia, e ficam recitando curiosidades curiosas sobre os quatro cantos do planetinha para qualquer desavisado que passe por perto. Aliás, por falar em planetinha, você soube que a nave espacial Chinesa 'Shenzou' ficou cinco dias no espaço e voltou com sucesso? Bom... deixa pra lá.

Ocorre que iniciamos, aqui no Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz, uma pesquisa de acompanhamento do jornalismo de ciência que é feito em jornais latinos, e ler as seções diárias de ciência é um dos ossos deste ofício. Foi assim que, entre uma curiosidade curiosa e outra, descobri que o Chile, vizinho ilustre, conduzia a décima primeira edição de sua Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Décima primeira!


Brasil e Chile



O Brasil, no começo de outubro, organizou sua segunda Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

As duas semanas, pelo que eu pude entender, tinham mais ou menos o mesmo objetivo: envolver a população em atividades de divulgação de ciência e tecnologia, especialmente crianças, mostrar o que o setor tem feito, prestar contas à população, que é o financiador último da pesquisa científica, etc, etc.

Isso me levou a pensar o quanto a ciência aqui embaixo do Equador é – ou não - importante para nós. Segundo o cientista político Simon Schwartzman, a ciência como prática profissional no Brasil é coisa recente, e ainda hoje em dia bate-se para se afirmar como 'um trabalho'. O imperador Dom Pedro era chegado a uma botânica e zoologia, e recebia com gosto os naturalistas europeus que para cá vinham coletar espécimes. Mas parece que foi pelos idos da virada do século XIX para o XX que alguns pioneiros, como Oswaldo Cruz, tiveram algum êxito em pesquisar e, talvez mais importante, formar uma tradição de pesquisa e convencer políticos da necessidade de termos pesquisa científica.

A 'Semana' do Chile me fez pensar também o quanto nós latino-americanos estamos isolados uns dos outros, e porquê. A 'Semana' chilena não teve repercussão na mídia brasileira (seria vergonha de o Chile organizar tal evento a onze anos já?), e nem mesmo foi muito mencionada pelos organizadores da 'Semana' brasileira. Eu posso ser um leigo em ciência política, mas acho isso grave.


Hay que endurecer...


Outra coisa fácil de perceber nas notícias diárias de ciência dos jornais é a pobreza da ciência que é publicada. As notícias se dividem em dois grupos: as que são repercussões simples de releases de institutos de pesquisa ou periódicos científicos e as que são notícias de descobertas de grupos de pesquisa locais.

Nada contra nenhum dos dois tipos. São necessários. O problema mesmo é nos limitarmos a eles. A pergunta “Quando a ciência é notícia?”, feita na primeira aula dos cursos de jornalismo científico, parece que ainda não foi totalmente assimilada por repórteres e editores. No primeiro caso, o jornal recebe os releases de revistas científicas/institutos/laboratórios e seleciona o que acha que os leitores vão gostar mais (ou o que consegue entender?). Aí, ganha a revista que tiver o material mais 'pronto' para ser usado, mais à mão, para satisfazer a correria do dia-a-dia das redações.

No segundo grupo, as descobertas científicas são reportadas como conquistas políticas/econômicas do país que as abriga. É parecido com 'enviar um homem à Lua', ou 'ganhar uma copa do mundo'. Seqüenciar um microorganismo ou clonar não-sei-que-espécie faz o país pertencer ao 'seleto grupo' de países que clonam/seqüenciam alguma coisa.

Ok, minha taxonomia de notícias é rudimentar. Mas tenho certeza que você vai gostar da que o Ben Goldacre faz, no The Guardian. E para não ficar somente na crítica destrutiva, aí vai minha sugestão: porque não noticiar o método e o contexto da pesquisa, em vez de somente os resultados? Se existe algum denominador comum nas ciências (pelo menos as naturais), esse seria o método, e não os resultados. Se o espaço de uma notícia não basta, que se faça nas reportagens, ora.


E chega de papo cabeça.


Mais algumas curiosidades curiosas:


O concurso Visions of Science divulga os ganhadores de 2005. O primeiro prêmio foi para a foto de um grão de pimenta e um de sal, lado-a-lado. Lindinhos.

Frank Jesús Rodríguez González é o primeiro bebê de proveta da República Dominicana. O gorducho pesa quase três quilos. Outros nasceram antes, mas Frank Jesus é o primeiro cujo processo foi inteiramente conduzido no país.

Tai Shan, o bebê panda que nasceu hoje no zoológico de Washington, significa “Montanha da Paz”, em chinês.

Aliás, como é bela a ciência da tradução! Senão, vejamos: “Os outros quatro nomes propostos foram Long Shan ("montanha dragão"), Qiang Qiang ("forte", "poderoso"), e Hua Sheng e Sheng Hua, que respectivamente significam "China Washington" e "Washington China" e também "magnífico".”

Você sabia que a América Latina tem cerca de três milhões de cegos ('millones', em espanhol. Pronuncia-se 'mijones')? Estatística otimista, me parece. A matéria não cita a fonte. Vai ver, excluíram o Brasil da contagem. Três milhões de cegos só o Nordeste sozinho deve ter, por carência de vitamina A.

Você sabia que “Shenzou”, a nave chinesa, é traduzida para o inglês como “Divine Craft”? Cadê o materialismo dialético?... E o foguete que a leva para o espaço, o “Chang Zheng” é o “Longa Marcha”? Beeeem mais Maoísta...


E, por fim...

La coluna termina. La ciencia, no.































Publicado por Conta Natura às outubro 18, 2005 04:56 PM

Comentários

Aparentemente, o discurso sobre o discurso científico e sua divulgação não tem andado muito longe de questões que, grosso modo, podem ser reconduzidas a uma só: sem abdicar do rigor, como tornar acessível ao comum dos mortais uma linguagem e um mundo técnicos? Até que, há uns tempos, dei conta de uma perspectiva bem mais interessante e que mal vi abordada -- essa mesmo: “Quando a ciência é notícia?” Apercebi-me, então, de que também a divulgação científica está sujeita a algumas orientações nem sempre assumidas, nem sempre bem intencionadas.

Ora, tendo em conta que o conhecimento científico é um conhecimento a prazo, não é preocupante que algumas notícias não vejam a luz do dia porque não vão ao encontro daquilo que é o pensamento dominante de determinada época (ou que se julga que deve ser)? Ou, para tornar a coisa mais dramática, porque não vão encontro dos interesses económicos que financiam a investigação orientada para determinado fim / conclusão? A este propósito, um amigo lembrava que, há uns anos, a televisão tinha sido invadida por médicos que repetiam até à náusea que o azeite não prestava e que o óleo é que era bom, que a manteiga era um veneno e que a margarina é que era o ideal, relacionando o facto com os interesses da indústria agro-alimentar.

Um aparte: não há como pôr um brasileiro a escrever crónicas. O ritmo, a graça, tudo, são outros. Até o Pereira Coutinho melhorou desde que lhe passaram a editar os textos para português do Brasil. Já escreve de outro jeito e tudo.

Publicado por: MRS às outubro 19, 2005 04:33 PM

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