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outubro 17, 2005
A galinha e a prosa de ouro
Sou obcecado por uma mão-cheia de colunistas portugueses: Zé Tó Saraiva, Pulido Valente, João Bénard da Costa, Eduardo Prado Coelho, Luís delgado e João Pereira Coutinho, entre outros. Esta obsessão é, na verdade, uma constelação de fascínios: fascina-me nunca conseguir acabar uma crónica do Bénard; fascina-me o estilo paragrafoso e vagamente autista do Saraiva; fascina-me o magistério de influência do Prado Coelho; fascina-me o pessimismo do Pulido Valente, o verbo de oráculo optimista do Delgado e o estilo do João Pereira Coutinho (JPC). Concentremo-nos em JPC. Segundo Miguel Esteves Cardoso - outro que me fascinou em tempos -, as crónicas do rapaz (29 anos) devem ser lidas duas vezes: a primeira, pelo gozo; a segunda, pela profundidade. Concordo, mas sugiro uma terceira leitura, que geralmente faz cair por terra as conclusões da segunda, sem comprometer o gozo da primeira.
O pretexto para trazer a prosa de JPC até ao Conta é a sua crónica de hoje no Folha de São Paulo. É um texto sobre a perigo da pandemia que poderá resultar da gripe das aves. JPC posiciona-se contra a corrente dominante: o alarmismo, instigado com a cumplicidade dos media. JPC recorda-nos outras catástrofes iminentes, mas de desfecho pífio. E lembra-nos - com grande liberdade de estilo - que só alguém com uma tara zoófila por galinhas (ou galos, sejamos abrangentes) se arrisca a ficar contaminado. Que os media se aproveitam do medo colectivo não é novidade. E também já sabíamos que a saúde pública nos países ocidentais é hoje muito melhor do que era há 50 anos. Mas estas são reflexões marginais. A verdadeira questão é tentar perceber até que ponto esta propagação do medo ajuda a controlar uma epidemia. Ou seja, JPC critica o pânico generalizado, que lhe parece exagerado, mas não prova que este clima de inquietação seja, afinal, dispensável para forçar as medidas políticas que ajudem a prevenir o desastre (como o abate em grande escala de aves, por exemplo). Discutir esta questão é difícil e nem sequer dá vontade de rir. A crónica de JPC, pelo contrário, é um fartote de riso, mas o melhor é evitar a segunda leitura.
(podem ler a crónica aqui no Conta, abrindo o link para a entrada completa)
João Pereira Coutinho
Folha de São Paulo, 17-10-05
Tenho duas coxas de frango no meu prato. Comer ou não comer, eis a questão. Na TV, as piores notícias possíveis: a gripe das aves já chegou na Romênia. Pois é. Tomou avião na Ásia, fez escala na Oriente Médio e se mudou de armas e bagagens para o Leste da Europa. Daqui a nada, estará em minha casa. Daqui a nada, estará em sua casa. Assustados?
Estejam. Números dramáticos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 7 milhões de pessoas podem morrer em atroz agonia. As Nações Unidas falam em 150 milhões. Michael Osterholm, epidemiologista americano, fala em 360 milhões. E João Pereira Coutinho, ouvido pela Folha, declara: "O ideal seria 500 milhões, por que é cada vez mais difícil você conseguir uma boa mesa para jantar num sábado à noite". Infelizmente para Coutinho, é provável que o apocalipse não comece já.
A idéia de uma pandemia trágica implica duas coisas. Primeiro, que o vírus responsável pela morte das aves se propaga para a espécie humana. E, além disso, que a espécie humana é capaz de se contaminar, como aconteceu em 1918 com a famosa gripe espanhola. Cenário improvável. Até ao momento, morreram 60 pessoas em 117 casos de gripe do frango conhecidos. Repito: 60. Como? Não pretendo violar a intimidade de ninguém mas os dados apontam para situação similar: para você morrer com a gripe do frango, é necessário um convívio apertado com o bicho. E quando eu falo em "convívio apertado", falo de relação amorosa com ele, o que naturalmente envolve dormir abraçado, beijá-lo loucamente e desejar construir um futuro a dois. Na Ásia, onde as populações rurais praticamente vivem no meio das aves e onde os cuidados de saúde estão na Idade da Pedra, essa relação existe e persiste. O que explica a mortandade --uma mortandade residual e, tendo em conta a expressão demográfica da zona, absolutamente ridícula. E por cá?
Bom, por cá, existe e persiste a nossa deliciosa histeria mediática que todos os anos inventa uma nova catástrofe para liquidar a Humanidade. Há uns anos, a doença das vacas loucas, pronta para arruinar milhares de vidas, praticamente arruinou os criadores de gado da Europa. Os preços bateram mínimos históricos. Amigos meus converteram-se ao vegetarianismo de um dia para o outro. Eu engordei uns dez quilos de tanto churrasco comido e bebido (a sós). A loucura das vacas foi como veio.
Sem falar da pneumonia atípica, a famosa SARS, que em 2003 prometia milhões de mortos em poucas semanas. Ainda lembram? Morreram 800 pessoas, sobretudo na Ásia. Ou seja: morreram incomparavelmente menos do que os milhares de velhos e doentes que todos os anos morrem de gripe "normal" na mesma zona do globo. Aliás, em qualquer zona do globo.
Porque a verdade, a cruel verdade, é que nunca se esteve tão bem como agora. Vivemos mais. Vivemos melhor. A medicina alcançou progressos que seriam impensáveis para nossos antepassados. Claro que existem situações de miséria, sobretudo em África, onde a fome persiste. Mas até em África o mundo avança: de acordo com as Nações Unidas, a percentagem de povos do Terceiro Mundo que passam fome desceu de 35% em 1970 para 18% nos dias de hoje. Apesar da explosão demográfica.
Sobram as guerras, claro. Mas se você pensa que o mundo está menos pacífico, você está errado. A percepção dos conflitos através da mídia não significa que os conflitos aumentaram. Pelo contrário: o mundo está mais pacífico e a guerra --a guerra entre Estados e a guerra dentro dos Estados-- foi gradualmente diminuindo nas últimas décadas. Segundo o historiador britânico Niall Ferguson, só nos últimos três anos terminaram 11 conflitos maiores: de Angola ao Ruanda, do Sri Lanka à Indonésia. E nunca, como hoje, existiram tantas democracias na face da Terra.
Não admira que a Humanidade esteja perdida de tédio, criando, recriando e até filmando a sua própria aniquilação física. O clima. As vacas loucas. A gripe do frango. Os marcianos. Tudo serve para aliviar o sentimento de culpa que sentimos no meio de tanto conforto.
E, já agora, no meio da tanta abundância: duas coxas de frango que esperam no prato. Por mim. Até já. E se o vírus do bicho bater entretanto, por favor, digam que eu estou ocupado.
Publicado por Conta Natura às outubro 17, 2005 06:44 PM
Comentários
Sobre o estilo da entrevista não me irei pronunciar…
Sobre o resto, e em primeiro lugar, é inaceitável que se use esta argumentação arrogante e certificadora da sub-normalidade do povo português para uma questão tão importante. Bastará consultar a composição de umas quantas comissões de Ética dispersas pelo país para vermos de que elites estamos a falar!
Segundo, parece-me correcto a probabilidade elevada do circuito clandestino das IVGs, o que não resolveria problema nenhum, porque continuaria a ser crime a partir das 10 semanas.
É importante perceber que 12 semanas são precisamente 3 meses, o tal primeiro trimestre de que muitos falarão e que se não sabem ficam a saber que corresponde ao período de formação de todos os órgãos e sistemas. Claro que 24 semanas é mais de metade do caminho até ao parto e que me vou escusar a detalhar as características de um feto com essa idade gestacional…
Não sei quem participará neste debate mas eu tive oportunidade de acompanhar dois casos de IVG, e por isso adianto a minha experiência… Ainda hoje recordo o sofrimento daquelas mulheres, uma que vinha para uma IVG terapêutica e outra que chega com uma hemorragia após tentativa de IVG clandestina. Duas situações completamente diferentes, mas com um sofrimento psicológico intenso em comum.
Esta mesma semana, o Ministério da Saúde anunciou o relatório de uma comissão de estudos sobre os métodos contraceptivos, anunciando cortes na comparticipação de alguns deles! Os que me conhecem sabem o quanto valorizo as economias e a racionalização de gastos na Saúde, mas será que começaram bem? Será que cortar já na despesa com o Planeamento Familiar é uma forma de ajudar as famílias, de auxiliar o debate sobre a IVG, ou de acelerar a tomada de decisão sobre o referendo?
Finalmente, sobre este tema o Expresso desta semana anunciou que o Tribunal Constitucional se tinha pronunciado contra um novo referendo antes das eleições presidenciais. O Presidente da República disse que não foi informado e como tal não há decisão. Até quando continuaremos a ser governados pelo que se escreve nos media?
Publicado por: RPA às outubro 18, 2005 01:29 AM
Este comentário do Ricardo veio aqui parar por engano, mas curiosamente a úiltima questão dá seguimento lógico à entrada que escrevi: até quando continuaremos a ser governados pelos media?
Publicado por: VMB às outubro 18, 2005 01:56 AM
Sejamos realistas: a coisa não vai lá com Altas Autoridades para a Comunicação Social. Seja porque alguém quer controlar a AACS, seja porque a AACS quer controlar os media ("a mídia"), o espectro da censura e dos lápis azuis sempre pairará. Entre isso (o desgoverno pelos ditos) e a sua falta, não custa escolher. Justiça lhes seja feita: é mais o bem que fazem do que o mal que praticam. E, salvo raras excepções, nem vale a pena apontar o dedo aos jornalistas. Os conteúdos tendem a ser ditados por aquilo que vende mais. Sad but true
"Convívio apertado com o bicho" é excelente. Eu amo este moleque.
Publicado por: MRS às outubro 18, 2005 11:55 AM
MRS,
Lamento mas não poderia discordar mais. Muitos dos nossos insucessos são da responsabilidade desta realidade virtual construída pela TVI, pela SIC, dois ou três jornais de maior tiragem, (se bem que tenho maior respeito pela Imprensa escrita) e seguida a reboque pela RTP!
Resolvi apresentar em post, em versão alargada, a minha opinião.
Publicado por: RPA às outubro 19, 2005 01:36 AM
Quanto ao comentário do RPA, não queria deixar de dizer que, salvo erro, a decisão do Ministro da Saúde tem por base a constatação de que as comparticipações dos contraceptivos (a pílula, sobretudo ou exclusivamente, não recordo) estavam longe de beneficiar quem delas mais precisaria. Isto é, concluíram que eram as mulheres que recorriam ao sistema privado quem mais partido tirava das ditas comparticipações. Não sei se será caso para dizer que este género de comparticipação indiferenciada gera externalidades. Sucede que externalidades e total (ou quase) desadequação do benefício são coisas diferentes. Se fica demonstrado que as mulheres de menos recursos económicos optam por comprar a pílula sem receita médica porque não estão para ir para os centros de saúde e/ou planeamento familiar esperar por uma consulta ou porque não podem ligar ao médico que faz clínica privada e pedir-lhe uma receita que chegue para uns tantos ciclos, fará sentido manter as comparticipações?
E, também salvo erro, o Expresso não mencionou qualquer decisão. Limitou-se apenas a dar conta do sentido de votos dos juízes conselheiros (como está igualmente em causa uma questão dogmática que se prende com o início e o fim das sessões legislativas, é fácil contar cabeças e concluir que o referendo não passa). O que faz a imprensa? Antecipa essa decisão e confronta Jorge Sampaio com ela. O que faz Sampaio? O que deve fazer (com cara de poucos amigos, é verdade): diz que o TC ainda não decidiu e que, como tal, não se pronuncia.
Fiquei sem perceber a que insucessos se refere o RPA, mas repescarei esta questão para o texto escrito no seguimento deste comentário.
Publicado por: MRS às outubro 19, 2005 04:24 PM
O meu entendimento sobre a questão da descomparticipação foi outro, MRS. Todas as mulheres poderão ter acesso, e bem, à pílula gratuita nos Centros de Saúde sem necessidade de receita médica- a entrega já está a cargo de uma Enfermeira. A medida do Ministério da Saúde tão pouco altera aqui substancialmente esta prática, mas retirará ou diminuirá a comparticipação de outros métodos alternativos, o que neste último caso já me parece desadequado. Em resumo, com tantas “externalidades” nos orçamentos do Ministério, dos Hospitais centrais, das farmácias hospitalares e de rua, (a lista não acaba aqui), lamentei esta prioridade do Ministro da Saúde.
Sobre o Expresso, eu não referi que se tinha noticiado uma decisão, mas que a forma usada correspondia a uma pressão indigna ou imprópria do meu arquétipo de comunicação social… Eu espero não estar a laborar no reino da utopia, MRS, mas de facto a serenidade para temas sérios ficaria bem nas informações veiculadas na comunicação social.
Publicado por: RPA às outubro 20, 2005 01:11 AM
Concordo inteiramente quanto à necessidade de serenidade. Mas porquê exigi-la para o Expresso e não para o 24 Horas ou para o Correio da Manhã, que têm tiragens impressionantes? Ah, está bem, porque o Expresso é um jornal de referência. Pois... Recomendaria a leitura de uma crónica recente de Vasco Pulido Valente a este respeito.
Publicado por: MRS às outubro 21, 2005 12:11 AM
MRS,
Eu não distingo nos deveres perante a lei, nem pessoas, nem instituições e muito menos jornais. Agora, como leitor também confesso que não recordo a última vez que levantei diante dos olhos os diários que refere.
Sobre a crónica recente do VPV, espero pela referência.
Publicado por: RPA às outubro 21, 2005 12:40 AM
RPA, também não faço essa distinção.
Deixei a crónica lá em cima: http://contanatura.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/o_pais_os_media.html#comments
Cumprimentos.
Publicado por: MRS às outubro 21, 2005 11:22 AM