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outubro 21, 2005
Cheap Labor...
Sempre que comento com alguém o meu regresso iminente a Portugal a resposta e' inevitavelmente a mesma - "prepara-te!". Existem referências a realidades menos claras, perigos escondidos de um pais profundamente burocrático onde a cultura do "jeitinho" e da "cunha" abunda. Obviamente aqueles que hoje criticam, amanhã tem poucas intenções de não usufruir de tais idiossincrasias. Mas hoje não quero falar da natureza humana, queria apenas partilhar convosco a minha enorme surpresa com o elevado número de candidatos a uma posição de estagiário que abri em Setembro. Tendo em conta que tal posição esta' longe de ser extraordinária, apenas posso atribuir tal número ao prestígio do Instituto Gulbenkian de Ciência e à existência de um número horrivelmente elevado de pessoas com vontade fazer ciência mas que são incapazes de encontrar emprego. Este desequilíbrio evidente entre a capacidade do ensino superior criar estudantes licenciados de qualidade e a capacidade do mercado de trabalho os absorver leva a uma necessidade premente de redimensionamento do ensino superior. Eu compreendo que uma taxa razoável de desemprego seja inevitável e que nem todos os alunos de um curso tenham o entusiasmo e a qualidade necessária para seguirem uma carreira científica. Mas aquilo que não se compreende é a situação actual do mercado de trabalho em ciência, a qual leva a que alguns estudantes licenciados estejam dispostos a trabalhar de "borla" durante alguns anos para poderem maximizar a suas hipóteses futuras de fazer um doutoramento. Num "país europeu, moderno e de olhos postos no futuro", não se compreende que alguns laboratórios em Portugal necessitem de usar tal desespero de características terceiro-mundistas para assegurar o seu bom funcionamento.
Publicado por maradona às outubro 21, 2005 03:55 AM
Comentários
Rui:
Desculpa se isto soar um bocadinho patronizing, mas como sabes eu ' been there, done that...'
Tenho imensa curiosidade em saber quais são as tuas expectativas em relação ao que vais encontrar em Portugal:
Que esperas tu da facilidade (no sentido de easiness) da tua instalação? Quais são as tuas expectativas acerca da preparação dos estudantes e post-docs que virão trabalhar contigo? Quanto tempo esperas tu que a "burocracia" (relatórios, reuniões, grants, etc) ocupe?
Que esperas dos que já estão em Portugal? Ajuda? Apoio? Encorajamento?
Não há nenhuma razão escondida aqui, OK? Tenho genuina curiosidade em saber se as tuas expectativas são iguais às que eu tinha. Seja ou não esse o caso, desejo-te com toda a sinceridade a melhor sorte do mundo.
Publicado por: Paulo Vieira às outubro 21, 2005 03:50 PM
Sabe muito bem que ficar parado é o pior que pode acontecer a um jovem licenciado.
Investe-se durante 4 ou 5 anos numa qualificação superior. Hoje não se tem qualquer garantia, com acontecia à 20 anos atrás. Antes quem tivesse um curso superior, pouco precisava de se preocupar, as oportunidades estavam lá todas. Hoje, que tira um curso sejeita-se a trabalhar na caixa de um hipermercado, prostituindo o seu desenvolvimento intelectual e trabalho de 20 anos.
Compreendo e vejo o porquê de haver tantas candidaturas para esse estágio e depois mais vale fazer aquilo que se gosta e ganhar experiência do que ir trabalhar para uma empresa de trabalho temporário. O investimento continua...
Publicado por: Pedro Miguel Rocha às outubro 21, 2005 05:24 PM
Pedro Miguel Rocha, vai me desculpar a insulência, mas a escrevatura não acabou já?
Publicado por: Abolicionista às outubro 22, 2005 01:28 AM
Como devem ter reparado pela conferência de imprensa do ministro da ciência e do ensino superior Portugal vai continuar como objectivo dominante de política de ciência (mais ou menos 50% dos recursos da FCT desde 1990) sem cuidar em paralelo do emprego científico e das instituições (só o plurianual é deveras insuficiente e os laboratórios associados são outra história).
É normal a reacção de quem investiu na sua formação procure colocação numa prestigiada instituição nacional, nem que seja para entrar na rede...
Não é escravatura, é estratégia!
Publicado por: sara às outubro 22, 2005 09:26 AM
Deve ler-se
Como devem ter reparado pela conferência de imprensa do ministro da ciência e do ensino superior Portugal vai continuar a ter como objectivo dominante de política de ciência a formação de recursos humanos (mais ou menos 50% dos recursos da FCT desde 1990) ...
Publicado por: sara às outubro 22, 2005 09:30 AM
Vale a pena ler o comentário da Sara a propósito deste post do Santiago
Publicado por: Abolicionista às outubro 22, 2005 02:09 PM
Sara,
Obviamente concordo contigo e compreendo as razoes por detras do elevado numero de candidatos. Mas apesar de tudo e' bastante deprimente recusar a candidatura de pessoas cheias de entusiasmo e vontade de fazer qualquer coisa...
Publicado por: Rui Martinho às outubro 22, 2005 05:16 PM
Eu sei. Sei quanto é difícil voltar para Portugal, mas hoje já não são precisos 4 a 5 anos para poder voltar a fazer invesrtigação (certo Paulo Vieira?).
As infraestruturas já estão montadas e há mais massa crítica. Por isso Rui é melhor voltar hoje em 2005 que em 1996, e muito melhor que em 1973 quando se tinha um lugar de quadro mas não os meios (caso não se pertencesse a um centro do IAC-INIC) mas mesmo assim eram poucos.
A questão está é lutar contra a burocracia e contra este modo de fazer coisas mais semelhante ao terceiro que ao primeiro mundo. Mas como os economistas dizem há ciclos na vida dos países e das organisações e nós PT estamos bem em baixo na curva do ciclo, só tem que subir agora, não sei é como.
Obrigada abolicionista por relacionares com a ausência de ciclo de policy-making. É mesmo isso. Esgotámos as estratégias definidas desde de 70´como se o país não tivesse mudado e não tivesse novos desafios pela frente
Por isso Rui bem vindo e espero que sejas mais uma voz a pedir por coordenação e definição estratégica para o país, por uma visão em suma.
Boa sorte para a estadia no IGC. Não te preocupes já estamos em 2005, não em 1996.
Publicado por: sara às outubro 22, 2005 05:36 PM
Eu sei. Sei quanto é difícil voltar para Portugal, mas hoje já não são precisos 4 a 5 anos para poder voltar a fazer invesrtigação (certo Paulo Vieira?).
As infraestruturas já estão montadas e há mais massa crítica. Por isso Rui é melhor voltar hoje em 2005 que em 1996, e muito melhor que em 1973 quando se tinha um lugar de quadro mas não os meios (caso não se pertencesse a um centro do IAC-INIC) mas mesmo assim eram poucos.
A questão está é lutar contra a burocracia e contra este modo de fazer coisas mais semelhante ao terceiro que ao primeiro mundo. Mas como os economistas dizem há ciclos na vida dos países e das organisações e nós PT estamos bem em baixo na curva do ciclo, só tem que subir agora, não sei é como.
Obrigada abolicionista por relacionares com a ausência de ciclo de policy-making. É mesmo isso. Esgotámos as estratégias definidas desde de 70. O país mudou e temos novos desafios pela frente
Por isso Rui bem vindo e espero que sejas mais uma voz a pedir por coordenação e definição estratégica para o país, por uma visão em suma.
Boa sorte para a estadia no IGC. Não te preocupes já estamos em 2005, não em 1996.
Publicado por: sara às outubro 22, 2005 05:37 PM
Sara:
Eu tenho enormes pruridos em te responder nesta caixa de comentários em particular. Repito: eu tenho enormes pruridos em te responder nesta caixa de comentários em particular.
Primeiro uma correcção eu não relacionei com a "com a ausência de ciclo de policy-making" coisíssima nenhuma (as palavras são tuas). Eu apenas chamei a atenção para um comentário teu anterior para enquadrar os teus comentários aqui. As tuas motivações são claras.
A avaliação de projectos e grupos científicos também faz parte da tal "burocracia" a que te referes?
O post do Rui Martinho refere que há pessoas que são obrigadas a atrabalhar de "borla". Eu tenho colegas meus que se doutoraram no estrangeiro, nas melhores univerisidades da Europa e do mundo, que demoram entre um e dois anos para conseguir uma posição de postdoc, e tu dizes-me que é fácil voltar a Portugal? Repara que estou a falar de posições de postdoc, já nem falo em posições permanentes (ou com renovação periódica). Nota que isto acontece quando ainda há bem pouco tempo tinhamos nas nossas universidades pessoas que usufruem dos privilégios de uma posição permanente sem publicarem.
Quanto a essa história de ter que esperar anos para obter resultados eu também sei o que é isso, e repara que como faço trabalho teórico nem estou tão dependente em termos de material de laboratório de factores externos. Aliás, também estou mas eu prefiro olhar para as coisas de outra perspectiva.
Publicado por: abolicionista às outubro 22, 2005 07:40 PM
As minhas palavras são a minha interpretação do teu comentário, free? não?
Mas quando me referia que é mais fácil voltar hoje a Portugal falo por experiência não própria mas de ter acompanhado muitos regressos de muitos durante muitos anos.
A única coisa que falta agora são os lugares de quadro, antigamente faltava quase tudo, menos os lugares de quadro.
Também, quanto a avaliação de projectos, resta dizer que foi introduzida em Portugal no final da década de 70 pela JNICT agora conhecida por FCT. O que existe agora é o acumular de uma experiência que já é longa.
Por outro lado, é a minha vez de dizer que houve má interpretação das minhas palavras, pois quando falava em burocracia não falava em avalição de projectos que faz parte da gestão de programas de investigação em qq parte do mundo, mas sim dos processos e do modo de funcionamento das nossas organizações.
Tenho experiência de trabalho em várias organizações nacionais, estrangeiras e internacionais e posso garantir que a energia que dispendo para fazer algo em Portugal é a tripla pelo menos da que gasto a fazer a mesma coisa no estrnageiro. Era a isso que me referia.
Como diria o Presidente da Republica há mais vida para além da avaliação ex-ante de projectos em qualquer país que tenha uma política científica. Nós ficámos só com isso infelizmente
Mas porque não fazem um post sobre avaliação científica de pessoas, projectos e instituições?
Já agora para além da avaliação da qualidade da promessa importa saber os seus resultados, e isso nós ainda não temos, nem dos projectos, nem das organizações, nem dos programas! somos quase únicos aqui na Europa neste aspecto.
Mais uma questão nem todo o bom professor tem de ser um bom cientista e vice-versa. Diz o bom senso que precisamos dos dois.
Publicado por: sara às outubro 22, 2005 11:50 PM
Sara:
Eu não escrevo posts, só comentários. Se o faço sob o anonimato é por puro pudor e respeito a outras pessoas. Aliás, foi por isso que escrevi o meu comentário inicial sobre um outro texto teu num tom tão lacónico e que causou o mal entendido inicial entre nós dois. Desculpa.
Publicado por: abolicionista às outubro 23, 2005 01:10 AM
Cara Sara (Sara, cara...):
"Eu sei. Sei quanto é difícil voltar para Portugal, mas hoje já não são precisos 4 a 5 anos para poder voltar a fazer investigação.
As infraestruturas já estão montadas e há mais massa crítica. Por isso Rui é melhor voltar hoje em 2005 que em 1996...
e
Boa sorte para a estadia no IGC. Não te preocupes já estamos em 2005, não em 1996."
Estes argumentos ouvi-os eu mil vezes há dez anos e repeti-os outras tantas mil... conheço-o de cor e recordo-me das palavras exactas...
Na altura era assim que se dizia:
Eu sei. Sei quanto é difícil voltar para Portugal, mas hoje já não são precisos 4 a 5 anos para poder voltar a fazer investigação.
As infraestruturas já estão montadas e há mais massa crítica. Por isso Paulo é melhor voltar hoje em 1995 que em 1978 (quando voltou o António Freitas)...
Boa sorte para a estadia em Portugal. Não te preocupes já estamos em 1995, não em 1978.
Hoje em dia sorrio ao pensar que, nesse tempo, eu repetia o argumento com grande convicção e total sinceridade...
Publicado por: Paulo Vieira às outubro 23, 2005 12:37 PM
E ainda acrescento (desculpem. Carreguei no botão errado...):
Conta-me o António Freitas, às vezes, os argumentos que ele ouviu em 1978.
Se quiserem eu cometo aqui uma inconfidência...
Publicado por: Paulo Vieira às outubro 23, 2005 12:46 PM
Pois, parece ser assim à primeira vista, mas se tivermos um pouco de distância e analisarmos os dados de facto houve evolução, não tanta como todos gostaríamos que houvesse, mas houve. Melhorámos como eu dizia em edifícios, equipamentos, há mais gente a fazer ciência no mesmo tópico ou vizinho. Mas...Perdemos as posições permanentes, e o emprego científico.
Agora somos ultra-liberais e, como é hábito em Portugal, passámos para o outro lado do pêndulo. Dantes toda gente tinha um emprego para a vida, agora quase ninguém tem. Cá estou eu de volta ao post original do Rui....mas antes gostaria ainda dizer mais umas percas, perdemos o sentido de cooperação na construção colectiva da política de investigação dos anos antes dos fundos estruturais, perdemos estratégia, ou melhor não a voltámos a construir colectivamente.
Quanto ao emprego científico. A opção de todos os governos, mas todos, foi de fechar o recrutamento para os laboratórios de estado, de bloquear as vagas do superior com quem estava perfilado para tal, independentemente do mérito (volto a dar alguma razão ao abolocionista) por isso temos os quadros das universidades públicas praticamente bloqueados com catedráticos com 50 anos, e por aí a baixo, e não recrutamos doutores para a administração pública, só para os governos nisso somos como a Grécia, governos de doutores.
Qual a solução então encontrada pelos governos para a formação em massa de doutores: bolsas, mais bolsas, mais bolsas ...bolsas de pos-doc com duração de seis anos por exemplo!
Porquê?
Porque são os fundos estruturais que pagam, não o OE! e aqui criámos o problema. Engarrafámos as entradas no mercado de trabalho com as cosnequências acima descritas.
De acordo Paulo Vieira? 2005 é diferente de 1996 e de 1978...talvez menos esperança no País, mas equipamento topo de gama e pessoas com contratos ou bolsas a termo, à espera que alguém morra para vagar o lugar
Publicado por: sara às outubro 23, 2005 01:49 PM
Sara: Gosto sempre de poder concordar com os outros comentadores... garanto que não podia estar mais de acordo com o que dizes...
Sempre houve um problema de fundo, não é verdade? Ausência completa de uma Política de Ciência (no sentido sério, não histriónico, da expressão).
Não percebo muito de economia, confesso. Talvez por isso tenha a impressão que é a procura que condiciona a oferta, e não o contrário.
Então e se ninguém fosse trabalhar para Portugal sem que estivesse satisfeita pelo menos uma de duas condições?
Ou
A) Posição permanente, mesmo sem financiamento garantido. Acho que hoje em dia há massa crítica, infrastrutura e fontes de financiamento bastantes para que esta solução (chamemos-lhe a solução Freitas) possa funcionar, como não funcionou em 1978.
Ou
B) 5 anos só, mas então financiamento garantido para os 5 anos. A única coisa que é preciso fazer então é uma avaliação a sério ao fim dos 5 anos antes de decidir: Renovação, tenure ou o despedimento puro e simples... sem fun-funs nem gaitinhas!
Se não houver nenhuma Instituição preparada para (ou capaz de) oferecer um destes dois pacotes, então o melhor é fecharem a loja e deixarem da gastar dinheiro a fingir que existe uma Política de Ciência nesse belo cantinho pátrio do 'rosto com que a Europa fita'...
A meu ver, os que vão para Portugal por 5 anos e sem financiamento garantido não estão a ser patriotas: Estão a ser suicidas.
'Acho que já disse isto: Desejo, do fundo do coração, estar errado!'
Publicado por: Paulo Vieira às outubro 23, 2005 02:13 PM
Muito do excesso de procura de posições científicas tem a ver com o ênfase colocado na investigação como saída "profissional" nos cursos da área das ciências biológicas.
Descurando-se toda a abordagem da empregabilidade, os estudantes não sabem ver mais nada quando saem da faculdade. E é pena, para eles e para o país.
Publicado por: José Manuel N. Azevedo às outubro 23, 2005 10:56 PM
José:
Tens toda a razao mas infelizmente em Portugal essas alternativas ainda nao existem em numero apreciavel. Quando a ideia de capital de risco finalmente aparecer em forca em Portugal entao talvez as coisas melhorem.
ps. Para ser honesto a culpa da falta de capital de risco nao se reduz aos bancos, tambem tem de haver um universo apreciavel de pessoas com vontade de correr riscos.
pps. E claro que aqui nao posso deixar de referir o descalabro dos subsidios a fundo perdido. Quem teve a ideia de que subsidios a fundo-perdido eram uma boa ideia devia ser um atrasado mental.
Publicado por: Rui Martinho às outubro 24, 2005 12:33 AM