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setembro 07, 2005

O desígnio inteligente (continuação)

Wired_IntelligentDesignSprd.jpg5.Os criacionistas e os adeptos da ID ficam muito menos perturbados com o avanço da física, da astronomia e da cosmologia do que com a teoria da evolução das espécies, o que tem gerado algumas anedotas entre biólogos e físicos e foi inclusive aproveitado pelos profissionais do humor. Ora, os dados de qualquer destas disciplinas negam as Escrituras, o que nos força a tentar perceber a obsessão exclusiva com a teoria da evolução das espécies. Creio que há pelo menos duas explicações. A primeira é do foro psicanalítico:a teoria da evolução de Darwin é um rombo grande na visão antropocêntrica do universo. Na sua expressão incorrecta e boçal, “descender do macaco” pode parecer ofensivo para algumas criaturas, incluindo talvez o próprio macaco. A segunda razão é mais subtil e pitoresca. Apesar de as órbitas elípticas de kepler não seguirem as directivas da Harmonia das Esferas (que as supõe circulares), a verdade é que a física, com as suas leis e constantes, aproxima-se mais do tal plano divino. E a linguagem que pratica – a matemática- com a sua perfeição formal, pode ser equiparada a um código dos deuses. A teoria da evolução está aparentemente nos antípodas desta perfeição formal. Os criacionistas atacam a ideia de acaso e variação. Não são também capazes de ver as "imperfeições" dos sistemas vivos como sinais da ausência de um plano divino. Não é de espantar que tivessem sido precisamente as "imperfeições" (juntamente com as semelhanças entre as espécies, as variações geográficas que espécies e populações apresentam, etc) a fornecer a Darwin pistas para a sua teoria; desde então as "imperfeições" têm sido um dos argumentos preferidos de todos os grandes divulgadores da teoria da evolução, de François Jacob ( com o seu conceito de "bricolage evolutiva"), a Gould (o seu famoso ensaio sobre o "polegar" do Panda), sem esquecermos o nosso Rui Martinho, autor da formulação mais inspirada que conheço, ainda que exclusivamente para consumo nacional: "se o criacionismo estivesse correcto, Deus teria necessariamente de ser português".

(CONTINUA Peço-vos desculpa por este texto ir crescendo tão lentamente, mas não tenho tido vagar para mais. Cenas dos próximos capítulos: Popper, complexidade irredutível e teoria das probabilidades).

Publicado por Conta Natura às setembro 7, 2005 12:46 AM

Comentários

François Jacob
Gould
Rui Martinho

fonix!

Publicado por: Rui Martinho às setembro 7, 2005 04:06 PM

Com tantos melindres a propósito da palavra "estaminal", não é pouco o "à vontade" com que pergunto: será a expressão "criatura" imprópria na linguagem dos biólogos?

Publicado por: VB às setembro 8, 2005 01:33 AM

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