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setembro 09, 2005
Livro da vida
Imaginem um livro de António Lobo Antunes, não, imaginem uma novela de John Le Carre. Agora retirem os espaços entre as letras, boa parte da pontuação e separem os capítulos de uma maneira aparentemente ilógica. Imaginem agora um texto em letra miudinha, sem maiúsculas. Reintroduzam agora excertos apagados das primeiras versões da novela, verdadeiros fragmentos de arqueologia literária de um livro. Imaginem agora uma novela em que a qualidade do papel onde foi impresso e a sua textura e’ importante para o texto fazer sentido. Imaginem igualmente que cada página tem de ser dobrada de uma maneira particular. Falar no genoma de um organismo como o “livro da vida” apesar de útil e’ no entanto profundamente enganador. A informação contida numa molécula de ADN não se assemelha a uma biblioteca onde todos os dados são cuidadosamente arquivados e catalogados, assemelha-se antes a uma secretária coberta por um mar de papel onde o seu dono, e apenas o seu dono, e’ capaz de encontrar quase que milagrosamente o tal documento de que tanto necessita.
Publicado por maradona às setembro 9, 2005 05:25 PM