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agosto 24, 2005
O desígnio inteligente
O título é exactamente aquilo que parece: uma má tradução da expressão intelligent design (ID), que se torna surpreendentemente correcta, como se uma falácia anulasse a falácia original. Simplifiquemos.
O debate em torno do criacionismo não é estimulante do ponto de vista intelectual, como já tive oportunidade de escrever. Mas é um sinal dos tempos que, de resto, contradiz a tão propagada ideia de que assistimos hoje a um ataque à religião. Eu diria que assistimos antes a uma retaliação. Aqui no conta tivemos já um post do Thiago, um do Vitor e outro meu sobre o assunto. Desta vez vou procurar desmontar o embuste que é o ID, avançando por pontos.
1. Da mesma forma que alguns partidos políticos têm braços armados (organizações terroristas, em regra), o ID deve ser visto como a célula operacional dos criacionistas que se tenta infiltrar no mundo da ciência. O problema do criacionismo é a sua profunda estupidez. Se alguém acredita num mito de criação de um modo literal, sem ponta de alegoria ou metáfora, deve conseguir explicar por que motivo escolheu um entre centenas. Deve depois esclarecer se aceita ou não os dados da ciência que são incompatíveis com tal mito da criação. Rejeitando esses dados sem um fundamento científico válido, deve justificar o que o leva a não rejeitar a ciência tout court. Uma vez percorrido este caminho, que nos deixa entre a Idade da Pedra Lascada e Roger Bacon, podemos concluir que o criacionismo não é compatível com a razão e o epíteto de "estúpido" soa até a elogio. O criacionismo é, na verdade, irracional. Ora, este mel para fanáticos transforma-se em fel quando chega às elites e criou um problema de credibilização do criacionismo junto da opinião pública mais ou menos esclarecida. A solução encontrada foi o ID, que se apresenta como um corpo teórico credível e científico. A jogada não foi propriamente subtil e a presença do termo "intelligent" no nome da teoria soa a acto falhado.
2. A estratégia de credibilização do ID está alicerçada em três mandamentos: 1) serás um cientista; 2) falarás com um cientista; 3) não pronunciarás o nome de Deus em vão. O terceiro mandamento soa vagamente familiar, mas aqui cumpre outro papel. Não se trata de proteger o nome de Deus, mas antes de camuflar a colagem óbvia ao criacionismo. São vários os pseudónimos alternativos: uma "força", uma "entidade inteligente", uma "entidade complexa". Com a possível excepção dos entusiastas da saga Star Wars, ninguém sabe exactamente quem ou o que são estas entidades. Na dúvida, o mais simples é continuarmos a falar de Deus.
3. O primeiro mandamento é parte de uma pequena tragédia. Cientistas crentes deixam de conseguir separam o mundo da ciência do mundo da religião e tornam a primeira escrava da segunda. Aqui importa fazer um ponto de ordem. Não é pacífico saber até que ponto a ciência é compatível com a religião. Tenho uma opinião sobre o assunto, mas sei que o espectro de posições é vasto. Defendo que não há incompatibilidade alguma, desde que a ciência e a religião não se toquem. A ciência trata de compreender como o universo funciona, o que não é da competência da religião; a religião ocupa-se das questões filosóficas para as quais a ciência não tem tido resposta. Com alguma disciplina mental deve ser possível separar estes dois mundos. Uma coisa é certa: não há qualquer guerra aberta entre cientistas crentes e cientistas não crentes, ao contrário do que se possa pensar. Outro dado seguro: a religião não tem o monopólio da ética e da moral, pelo que um cientista ateu (ou agnóstico, mas não vamos entrar nestes detalhes) não é um Dr. Frankenstein em potência. A guerra só se instala quando uma minoria de cientistas crentes entende que é altura de misturar estes dois mundos. Para quem quiser ler mais sobre este assunto, recomendo este artigo do NYT (PDF), que o Santiago me indicou.
4.O segundo mandamento é o mais pertinente. Seria também o mais divertido, se o que estivesse em causa não fosse grave (sobretudo nos EUA). O debate em torno do ID, isto é, da existência de um plano divino, precede a discussão sobre a teoria da evolução. É também uma discussão de alcance mais vasto, que ultrapassa a biologia e se estende aos seres inanimados. Grandes filósofos - Platão, São Tomás de Aquino, Hume- debateram o tema no passado e a sua importância percebe-se facilmente: a existência de um plano para o universo concebido por uma inteligência seria uma prova da existência de Deus. Um dos argumentos pró-plano divino mais conhecidos foi imaginado por William Palley e diz essencialmente o seguinte: se eu tropeçar numa pedra e me perguntarem como a pedra foi ali parar, poderia muito simplesmente dizer que a pedra sempre esteve ali e a resposta não seria descabida; porém, se eu tropeçar num relógio, a resposta anterior já não é válida, porque é óbvio que as partes do relógio não foram montadas ao acaso e para o relógio haverá seguramente um relojoeiro. Argumentos contra o plano divino também não faltam. É frequente fazer notar que nenhum Deus desenharia um mundo com tantas catástrofes (argumento que se ouviu aquando do maremoto que recentemente varreu a costa de partes da Ásia, em discussões decalcadas a papel químico das que tiveram lugar por altura do grande terramoto de Lisboa, quase 250 anos antes). Cenas horripilantes do mundo natural, dignas de um Aliens V, levaram também Darwin a duvidar da mão do Criador. No ciclo de vida das vespas da família Chneumonidae, os ovos são injectados em lagartas de heminópteros, que cumprem o papel de hospedeiros involuntários, condenados a uma morte atroz, quando as larvas das vespas os começam a devorar por dentro. Não pondo de lado a hipótese de se tratar de um capricho do velho Charles, creio que, caso opinassem, as borboletas estariam de acordo com ele quanto ao absurdo que é pensar num plano divino da autoria de um Deus, enfim, decente. A lista de argumentos a favor e contra é vasta, mas o importante aqui é notar que são argumentos que recorrem à lógica, à metáfora, à alegoria, a truques de retórica. Os defensores do ID tentam ir um pouco mais além, apresentado "dados científicos". É aqui que a discussão se torna interessante.
(continua)
Publicado por Conta Natura às agosto 24, 2005 10:16 AM
Comentários
Boa malha, Vasco. Acho que tocas exactamente nos pontos que tornam o I D tão perigoso, ao contrário do creaccionismo antigo que, estou-me a repetir, é totalmente inofensivo...
É interessante (e elogioso) notar que estes novos creaccionistas ainda sentem necessidade de se afirmar pelo reconhecimento 'sério' (digamos assim). Ainda não acabou a festa que fizeram quando uma coisa chamada Proceedings of the Biological Society Washington (que é um dos chamados 'peer-reviewd journal') publicou um paper (?) do Stephen Meyer. Até mereceu um comentário na Nature ( Nature 431, 114). Mais sério do que isto não há...
O que é perigoso é que a linguagem é apelativa e capaz de seduzir o público 'leigo' (ie: não cientista) mesmo que educado e inteligente (aliá, seduz sobretudo estes...). Já nem falo do Bush: Ainda hoje um dos nossos ex-Ministros da Educação fala do artigo do Meyer de uma forma pelo menos tão ambígua como o Presidente dos USA...
Estes 'novos gentios' estão tão à mercê destes pseudo-cientistas como os antigos estavam vulneráveis às epístolas do S. Paulo. Os argumentos de hoje são piores, no entanto: Tudo se resume à ideia que a aleatoriedade da evolução, de tão 'improvável' que parece ter sido, só pode ter ocorrido sob controlo de um 'desígnio' qualquer (inteligente ou não...).
É por isso que faz muita, mesmo muita, falta mais cultura científica. Se toda a gente percebe o que está escrito nos livros do Saramago, porque é que é tão difícil perceber aquele argumento do Rui? A probabilidade cumulativa de um acontecimento ocorrer aproxima-se da certeza matemática. Porque é que é tão difícil explicar que o número de anos decorridos não é particularmente relevante, mas sim o número de gerações...?
Publicado por: Santiago às agosto 24, 2005 08:14 PM
Sobre evolucao/creaccionismo interessante flashback na Atlantic Monthly Online (http://www.theatlantic.com/doc/200508u/fb2005-08-10) com artigos desde 1860. Vale os 25 US$ anuais.
Muito bom tambem o artigo de David Samuels sobre Arafat na revista de Setembro.
Publicado por: Pedro às agosto 25, 2005 04:56 AM
Correccao: criacionismo. Culpa do Santiago.
Publicado por: Pedro às agosto 25, 2005 05:10 AM
Continuando:
Peço desculpa pelo erro de ortografia. Alguns neologismos sempre me causaram imensa confusão...
The Panda's Thumb é um website dedicado à desmistificação do movimento anti-evolucionista, defendendo the integrity of both science and science education. Devia ser leitura obrigatória para todos os Presidentes dos Estados Unidos...
Aqui o ContaNatura, mais modestamente, devia ser leitura obrigatória apenas para Membros (e ex-Membros...) do Governo Português!
Se algum deles passar por estes comentários recomendo que siga este link para aceder a uma séria (e cientifica) discussão do artigo do S Meyer.
O segredo da vida é a science education que é coisa que, infelizmente, não existe em abundância...
Publicado por: Santiago às agosto 25, 2005 12:09 PM
Já há muito que observava atentamente esta discussão. Penso que será apropriada agora a minha participação.
Poderia dissertar sobre as causas que movem e incendeiam esta discussão nos EUA mas haverá por aí gente com uma vivência americana muito mais alargada que a minha para o fazer com mais propriedade. Valerá certamente a pena discutir o momento, sem contudo valorizá-lo excessivamente. o que me pareceria um erro.
Pego no resumo lapidar do Rui sobre o alvo do debate “A origem das espécies segundo Darwin explica a evolução recorrendo apenas a três princípios básicos: acaso, selecção e tempo.” E a dificuldade na percepção e na compreensão do problema está na variável tempo. Por vezes também me pergunto se todos os cientistas têm bem claro o impacto da unidade Milhões de Anos...
Cada vez que tocarmos neste assunto e não fizermos a necessária separação dos temas religiosos, onde seremos todos ou quase todos muito ignorantes, cometeremos erros facilmente penalizáveis pelos defensores do Criacionismo, “a César o que é de César”.
Mas então, por que razão tanto alarde sobre um assunto pacífico do ponto de vista da Ciência? Porque pela primeira vez observamos uma cruzada artimanhosa de gente que sabe um pouco de Ciência, conhece os códigos e a linguagem e usa-os para seu proveito próprio em defesa de questões não científicas mas de fanatismo religioso. È essa a dificuldade, e é esse o desafio. Aliás, muitos outros não cientistas se têm queixado do mesmo tipo de estratégias usadas dentro das Igrejas para destruir países, sociedades, etnias em nome da religião. Como verão a receita parece ser sempre a mesma. É por isso, meu caro Vasco, que eu gosto do Star Wars!
Volto a um ponto fulcral lançado pelo VMB: Ciência e Religião têm terrenos independentes. Agora não me parece correcto ler argumentos do lado da Ciência que visam diminuir a Religião. Esta última lida com um assunto absolutamente fundamental, o da ligação (religare) a Deus, e esse, meus caros, não é um tema menor, como os não crentes compreenderão e os ateus deverão respeitar.
Por outro lado, a explicação não científica da realidade é um direito de todos, mesmo dos cientistas nos seus horários pós-laborais com todas as suas humanidades, e não traz qualquer mal ao mundo. Não podemos esquecer que vivemos ainda os tempos da viragem do milénio com a carga apocalíptica associada e que é transversal a todas as áreas. Se acrescentarmos combustível não estamos a participar na resolução de um problema ou no esclarecimento das dúvidas, como deveria ser nosso dever, mas a dar importância excessiva ao cavalo de Tróia instalado. Eu não temo que o Darwinismo esteja ameaçado, por isso sejamos didácticos e ajudemos a minorar os estragos dos aldrabões e dos fanáticos. Eu, tal como o Vasco, prefiro estes últimos!
Publicado por: RPA às agosto 25, 2005 12:51 PM
Eu já vi os Céus!
Ponham fora a teoria de Darwin!
Publicado por: Renato às agosto 12, 2006 02:23 PM