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julho 25, 2005
Dos Urais à Pensilvânia
De regresso ao hotel após um dia de trabalhos no 17o Simpósio Internacional de Acústica Não Linear, recentemente realizado no estado da Pensilvânia, um amigo meu entrou no autocarro. Foi atraído pelo lugar livre ao lado de onde tomava assento Oleg V. Rudenko, um dos pais desse ramo da Física. A amenidade da cavaqueira que se seguiu ficou porém limitada ao intermitente inglês de Rudenko, já que o russo do meu amigo é ainda "mais" inexistente que o francês do George Bush.
Pelo nome é possível chegar lá: a acústica não linear trata basicamente da variação da frequência de uma onda sonora com a amplitude dessa mesma onda. O clássico exemplo do sino rachado serve para ilustrar a fenomenologia que esta disciplina tenta descrever. Quando um sino intacto é tangido cada vez com mais força, o som que emite possui sempre o mesmo "tom", aumentando apenas de intensidade até ao ponto em que fende (elástico linear). Já num sino rachado, um toque fraco ainda produz o "tom" esperado mas à medida que a "força do badalo" (por assim dizer...) aumenta, diminui a frequência do som emitido, sendo essa variação tanto mais evidente quanto maior é a força com que se martela (elástico não linear).
Mas como é previsível, a construção de um sistema de equações que descrevam convenientemente os fenómenos desta natureza não é apenas pertinente para as torres do cristianismo. O impacto da acústica não linear sobre as ciências biomédicas e sobre tantas outras áreas geradoras de tecnologia, ainda agora vai no adro. O potencial alcance desta ciência vai até ao efeito do sonic boom, à identificação de aparelhos ou espaços através das suas assinaturas acústicas, ao efeito de "ultra-sons" sobre tecidos biológicos, às aplicações da tecnologia de ondas de choque para diagnóstico, ou até à descrição matemática de ondas elásticas nos mais variados meios sobre materiais das mais variadas constituições.
Ou seja, é gente que estuda tudo: problemas de química física, música, medicina, geologia, astronomia, engenharia, aeronáutica, meteorologia, guerra, paz, etc., etc....
O meu amigo, que é pouco dado a comportamentos do tipo "noviçazinha corada", mesmo diante das mais sagradas vacas, perguntou a Rudenko o que o tinha entusiasmado até àquele momento do congresso. See this?, perguntou o russo como resposta, apontando para o programa, This interesting: problem NOT solved. This too, very very interesting: problem NOT solved. Aquilo para o meu amigo pode não ter sido grande coisa mas para mim chegou para um pensamento. Admiro os físicos não apenas pela sua proximidade à matemática mas também pelo modo objectivo como dirigem o seu cuidado: o que é interessante não é simplesmente o que é curioso mas o que ainda não está explicado. Claro que, indo por aí, a biologia torna-se mais "colorida" que a física, mas também é, provavelmente, constituída por sentidos "menos" objectivos.
Rudenko continuou. But this, this and this NOT interesting: problem solved! I don't understand. Many many talks but: problem already solved! Soviet physics... Soviet physics problem solved! Não creio que Rudenko pense que ainda vai a tempo de iniciar as pessoas do Oeste no catecismo soviético (mesmo se, sendo físico "daqueles tempos", deve ser um dos cidadãos mais saudosos do sistema que tantas prioridades deu à ciência). O que Oleg queria era exprimir a sua incredulidade pelo facto de no "nosso lado do esférico" conhecer-se tão pouco do que já foi descrito por cientistas do "ex-bloco". Terá sido resultado das décadas de guerra fria? Ou será uma suspeita ocidental crónica diante de tudo o que foi (e ainda é) estudado além de Berlim? Enquanto buscam uma resposta para este mistério (mais triste que interessante), muitos físicos da ex-URSS procuram também um emprego. Em diversas universidades (mais fora do que dentro dos EUA, diga-se), encontram reconhecimento pelo passado da sua comunidade científica. Aí principiam um trabalho de divulgação das publicações em cirílico. Acharia isso muito positivo se fosse alargado à genética e à biologia celular. Finalmente poderia ler traduções bem revistas de artigos pioneiros cujas referências na PubMed quase nunca passam do título e de um magro texto imitador de "abstract".
This interesting: problem NOT yet solved. Do you like this? O meu amigo hesitou. Acabou sendo honesto e confessou não ser aquele o seu tema preferido. Good, good: problem ALSO solved!
Publicado por VB às julho 25, 2005 12:34 AM