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junho 25, 2005

ParaBial

O cientista típico despreza o criacionismo, a parapsicologia e as farmacêuticas. Ora, há em Portugal uma entidade que por pouco não faz o pleno destes ódios de estimação: a Bial. Depois de o Barbosa ter denunciado o namoro entre a farmacêutica Bial e a parapsicologia, é agora a vez do Luís Graça dar uma amena cacetada, a propósito da mesma relação (supostamente) ilegítima. O Luís é Professor de Imunologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e o texto que se segue marca a sua estreia no Conta.

Descobri esta semana que uma das principais farmacêuticas portuguesas – a BIAL – tem um programa de apoio à investigação científica. Uma situação que claramente merece louvor. No entanto, fiquei surpreendido ao verificar que as suas áreas prioritárias incluem, de acordo com o website, as áreas da psicofisiologia e parapsicologia. Vale a pena ver a lista de projectos apoiados, por exemplo no último concurso, para observar que a maioria desses projectos estudam problemas como psicocinética, pressentimento, percepção extra-sensorial, experiências extra-corporais… descobri que até existe um grupo no meu instituto a estudar “Telepathic behaviour associated with biochemical and neuroendocrine parameters”.

Provavelmente, nesta altura estão a ter a mesma reacção que eu tive ao saber deste programa da BIAL, e que inclui dizer alguns palavrões. No entanto, ao pensar um pouco mais neste assunto, considero que será importante utilizar o método científico para avaliar este tipo de fenómenos. Isto porque, se a nossa posição como cientistas é sempre lembrar que não existem dados experimentais que comprovem fenómenos paranormais, será importante realizar as experiências que possam conduzir a esses dados.

Importa contudo que os ensaios tenham um desenho experimental adequado e que incluam grupos de controlo. Caso contrário é possível que os resultados levem a conclusões erradas, como aconteceu com o tristemente famoso caso dos estudos de Jacques Benveniste sobre homeopatia e que nunca foram reproduzidos em condições controladas (ver Hirst SJ et al. Nature 1993; 366:525).

Infelizmente a informação no site da BIAL sobre os projectos anteriormente apoiados é francamente reduzida, não permitindo saber se o desenho experimental dos estudos é o mais correcto (apesar de em alguns casos as experiências parecerem francamente viciadas!). Se a BIAL pretende alguma credibilidade com este exercício, deveria fomentar a avaliação final dos seus projectos por cientistas de diferentes áreas, para além da publicação no seu website dos resultados detalhados, bem como as críticas aos mesmos, e as implicações sobre o continuar do apoio a estudos na mesma área. Se algum estudo sugerir a veracidade dos pressupostos, a BIAL deveria exigir a sua publicação numa revista científica credível.

Mas o que me parece ser mais criticável é a ausência do princípio de começar pelo básico: qualquer dia haverá projectos apoiados a fazer DNA-microarrays em telepatia, sem estudos prévios que confirmem a veracidade da telepatia para além de qualquer dúvida. Por outras palavras, parece-me que é colocar a carroça à frente dos bois.

Como aparte sugiro ainda a visita ao website da James Randi Educational Foundation que oferece 1 milhão de dólares americanos ao indivíduo que demonstre, em condições controladas, que possui poderes paranormais (tomei conhecimento desta fundação através de um documentário da BBC, onde seguiram uma tentativa de provar a eficácia da homeopatia para ganhar o prémio de um milhão de dólares. Em condições controladas o ensaio não funcionou).

Publicado por Conta Natura às junho 25, 2005 03:52 PM