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janeiro 03, 2005
Verdes são os campos...
(moutons de Antoine de St.-Exupéry)Hardin foi buscar o título do seu artigo a um texto publicado em 1833 por William Foster Lloyd. Nesse texto Lloyd alertava para o perigo que correria uma aldeia em que existisse um Campo de Pastoreio ('the commons') aonde todos os habitantes fossem livres de levar os seus rebanhos a pastar. O curso natural, se cada habitante tentasse maximizar o seu proveito individual, seria o aumento contínuo do número de ovelhas: o prejuízo que cada um suportaria por ter mais uma ovelha (em diminuição da quantidade de pasto disponível) era dividido por todos (porque o campo era propriedade comum), enquanto que o lucro seria só dele (porque as suas ovelhas não eram de mais ninguém).
O resultado final deste comportamento egoísta, se generalizado, é a exaustão eventual dos recursos e a morte à fome de todas as ovelhas.
(É interessante notar aqui que data do Séc XVI a primeira publicação fazendo referência a este tema:
Gados que pasceis/Com contentamento/ Vosso mantimento/ Não no entendereis. Ofereço esta quadra, como lema, à Comunidade Científica Portuguesa)
O panfleto de Lloyd foi usado como refutação à Mão Invisível de Adam Smith. O artigo de Hardin generalizou o argumento para concluir da necessidade imperiosa de limitar o aumento populacional no nosso Planeta. Esta problemática continua em acesa discussão, como sabemos…
Este post não é para discutir ciência económica, nem para me queixar de o Luis Vaz nunca ter sido citado por nenhum Grande Economista. É só para alertar para as consequências de distribuir recursos finitos (sejam eles ‘ervas’, sejam eles ‘finanças públicas’) por um número crescente de consumidores (sejam eles 'ovelhas', sejam eles 'laboratórios associados’)…
Dantes havia 15 Laboratorios Associados, agora há 21, e anuncia-se que em Janeiro mais cogumelos como estes florirão(*) neste jardim à beira-mar plantado.
Meus amigos, o financiamento total aprovado para sustentar esta mushroom cloud é 238 MegaEuros, a distribuir por 10 anos. Dividam por 15: dá uma média de 15.86 MegaEuros por Lab. Dividam agora por 21, dividam depois por >21... etc etc etc, ad infinitum... Vai haver cada vez menos euros por Laboratório e por ano, não vai?
Ah! Resolva-se o problema aumentando os 238 MegaEuros originalmente orçamentados... Brilhante ideia esta! Há três maneiras de fazer isto sem obrigar esta Pátria nossa amada a violar o Pacto de Estabilidade e Crescimento e a perder os fundos europeus... (e então: TILT!!! GAME OVER!!! INSERT COIN!!!).
São elas:
1) cortar dinheiro noutras areas de C&T, por exemplo no financiamento de projectos: Até era boa ideia, por acaso... andar a financiar mais de 30% deles é mais do que absurdo: é coisa que só em Portugal...
2) cortar dinheiro noutros sectores do OGE, por exemplo as pensões, ou a prevenção rodoviária, ou os salários da função pública, ou os subsídio de desemprego ou a prevenção de fogos florestais, ou…: Digam lá onde querem cortar... e depois digam se acreditam mesmo que existe a mais mínima das condições políticas...
3) aumentar os impostos: esta não precisa de discussão, pois não?
Aqui fica por isso uma crítica (muito soft, conforme prometido) a estas medidas: é má ideia criar tantos Laboratórios Associados...
(*) Os cogumelos não dão flor, pois não? Bolas, lá estou eu outra vez a misturar as minhas metáforas.
Publicado por Santiago às janeiro 3, 2005 09:30 PM
Comentários
Caro Santiago,
A ciência económica preocupa-se dominantemente com a questão de fundo do seu post que é a maximização do uso e do benefício de recursos que são escassos ou finitos como quiser. A política pública ensina, por outro lado, a coordenar estratégias para que esses recursos possam atingir os objectivos de desenvolvimento e de progresso, através da mobilização dos principais interessados.
A questão que se coloca nos laboratórios associados é mais que uma questão de distribuição per capita que está a usar como base no seu argumento. Se fizer as contas (os dados estão on line na webpage da FCT) o laboratório associado que mais financiamento recebeu foi um dedicado a ciências sociais, estas pela sua natureza tem custos relativamente inferiores a outras como é do conhecimento geral....
O conceito de laboratório associado foi institucionalizado como um vínculo a dez anos entre uma organização de investigação com o Estado para a prossecução de objectivos de política pública.
Contudo se verificar, com a sua aplicação o conceito transformou-se numa forma encapotada de criação de uma carreira científica autónoma das universidades e dos laboratórios públicos, a la INIC ou CNRS para usar modelo mais conhecido. Mais, permitiu dar estabilidade e segurança a organizações para-públicas através de financiamento directo de longo prazo para as suas actividades de investigação. Temos assim os laboratórios associados como um conceito renovado de laboratório de estado, quando estes últimos são condenados a morrer assim como as suas funções de investigação em bens colectivos...
Não sou contra a existência de laboratórios associados, antes pelo contrário. No meu ponto de vista só organizações com massa crítica e excelência a nível internacional que visem a prossecução de uma determinada estratégia publicamente assumida e demonstrada devem ser etiquetadas como laboratório associado. Sou sim contra a recriação da rede de centros de INIC no seu esplendor sem qualquer correcção dos inconvenientes a estes associados e reconhecidos por todos...os laboratórios associados que maioritariamente existem, nem todos claro..., são conceptualmente inferiores ao modelo desenvolvido por António Silveira e Abreu Faro quando construíram o Complexo II também chamado de Instituto de Física-Matemática ou o Complexo I no campus do IST, nos finais da década de sessenta.
Os laboratórios associados são meras associações formais de centros de investigação semelhantes às que foram usadas para a aprovação dos institutos CIÊNCIA que hoje, passado que foi uma década sobre a sua criação, não existem como foram aprovados nem o objectivo político de concentração e criação de massa crítica foi atingido. Os nossos decisores deveriam reflectir e avaliar programas anteriores antes de repetirem os mesmos erros. Deste modo, nós europeus (não são só os portugueses) evitaríamos ver o nosso dinheiro. a ser desperdiçado...este nem para engordar as ovelhas de alguém, no entanto o seu custo é sempre suportado pela colectividade.
No fundo o que está em causa é o modo de organização e gestão da investigação universitária....
Bom tema de reflexão para 2005!
Saudações académicas
Publicado por: Yasodhara às janeiro 4, 2005 10:26 AM
Cara Yasodhara:
Alegro-me que tenha voltado a comentar... Os seus comentários são sempre bem estruturados (além de bem escritos...). Enriquecem sem dúvida a discussão.
Toca nalguns pontos que me parecem muito importantes e sobre os quais gostava de ouvir a opinião dos 'jovens investigadores', em particular os que tentam agora começar os seus próprios grupos de investigação em Portugal (a grande maioria deles, que eu saiba, em Labs Associados precisamente).
Qual é o objectivo do programa de Labs Associados? Tenho para mim que devem preencher a função de dar financiamento institucional (de utilização muito mais flexível que o financiamento de projectos), como por exemplo as Unidades CNRS ou INSERM.
4.500 euros por investigador não chega para esta função (por exemplo o INSERM paga à volta de 17.500 e o CNRS 9.000, mais coisa menos coisa).
Quiz chamar a atenção para o facto de o financiamento de Labs Associados, para ser significativo, ter de ser feito à custa do financiamento de projectos... Esse equilíbrio entre os vários vectores de financiamento público de Ciência é uma decisão estratégica fundamental. É por isso uma decisão politica, no sentido mais nobre da palavra 'politica'...
Infelizmente é isso que tem faltado a Portugal desde há, para aí, 10 anos a esta parte... Decisões 'politicas' de alcance estratégico... Que isto de pegar no dinheiro e distribuí-lo às pinguinhas por toda a gente não é 'politica', não é 'estratégia', é desperdicio, como você muito bem diz...
O que deve ser um Lab Associado? Deve ser um centro de excelência com massa crítica bastante, estamos de acordo.
Não acredito que em Portugal se possam construir 21 (ou mais...) centros com estas características... Na prática estamos a degradar os critérios para tentar deixar todos contentes... Isto volta a não ser 'politica'...
Deprime-me pensar que, aconteça o que acontecer em Fevereiro, vamos ter mais do mesmo...
E agora um ponto em que não tenho opinião formada: é correcto financiar as 'Ciências Sociais' através do Min. Ciência?
Parece que o Min. Ciência quer abocanhar tudo no Pais... (Como aquelas aves que, por não saberem contar, tentam incubar todos os ovos que lhes sejam postos nos ninhos... com previsíveis resultados...)
Porque é que não começamos a multiplicar as fontes de financiamento? Porque é que o Ministério da Cultura (e o da Educação, e o da Saude, e etc) não financiam nada que se veja?
Eu sei porque é: é porque o Ministro(a) da Ciência passava a ter menos dinheiro sob seu controlo e perderia importancia...
Publicado por: Santiago às janeiro 4, 2005 12:25 PM
Porque é que o Min. Ciência não haveria de financiar as ciências sociais ou humanas? Ai estes preconceitos epistemológicos...
Publicado por: Hugo às janeiro 4, 2005 07:49 PM
Caro Hugo:
Peço desculpa. Fui eu que me expliquei mal...
Só para provar que não sofro de 'preconceitos epistemológicos' chamo a atenção para o meu argumento anterior (no post: What is life?) que as Ciências Sociais e Humanas são disciplinas da Biologia (sendo que todas são na realidade ramos da Fisica...).
O que eu queria dizer é que não devia ser só o Min. Ciência a financiar as CSH. Os Min da Educação e da Cultura não deviam também ter interesse nessas disciplinas cientificas? Não estão até, talvez, melhor posicionados para decidir o que é que é importante apoiar nesse campo? Tal qual o Min da Saúde, que se permite, alegremente, desperdiçar o enormíssimo potencial que Portugal tem (potencial quase único na Europa) e não apoia nada na área das doenças tropicais...
Foi um lapso e obrigado por me ter dado a oportunidade de o corrigir agora...
Para repetir o celebrado lugar-comum: alguns dos meus melhores amigos até são cientistas sociais e humanos... :-)
Publicado por: Santiago às janeiro 4, 2005 08:50 PM