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dezembro 05, 2004
Human Accomplishment, the pursuit of excellence in the Arts and Sciences, 800 B.C. to 1950 de Charles Murray
Conto gastar algumas entradas a discutir este livro, o mais suculento que li em 2004. A obra e o autor despertam a atenção por vários motivos. Murray é provavelmente o sociólogo mais odiado dos EUA, em parte por ser co-autor do controverso The Bell Curve, livro que, de uma penada, procura provar que há uma base genética para as diferenças entre o QI de brancos e afro-americanos e avança soluções políticas entre o conservadorismo saudosista e o eugenismo light (para ser simpático com os autores; cedo ou tarde este livro será também aqui discutido). Murray voltou agora à carga contra os defensores do multiculturalismo, com a seguinte tese: a excelência na ciência e nas artes é um parâmetro objectivo, passível de quantificação. O seu livro é rico em informação, mas não estamos perante os recitais de erudição à Boorstin (a série Criadores, Descobridores, Pensadores) ou ao estilo do From Dawn To Decadence, de Barzun. O que Murray fez foi aplicar a sua tese, recorrendo a métodos estatísticos para uma meta-análise dos mais importantes inventários que listam cientistas, filósofos e artistas, bem como os momentos mais marcantes na epopeia do conhecimento humano. Tão ou mais interessante que o resultado final é a discussão que Murray faz sobre o método que usou, as suas limitações e todas as decisões que foi obrigado a tomar para que, de todo o conhecimento humano que aconteceu entre 800 A.C. e 1950, conseguisse retirar e hierarquizar o essencial.
Estamos perante um material altamente combustível e convém avançar devagar. O que farei primeiro é descrever o essencial dos métodos de Murray (1 entrada), depois os resultados mais pertinentes na Biologia, na Medicina e em tudo o que diga respeito a Portugal (várias entradas), as conclusões e a discussão que Murray faz (1 entrada) e, por fim, a minha leitura deste trabalho (1 entrada). Por outras palavras, nas primeiras entradas serei totalmente acrítico e procurarei apenas respeitar a produção de Murray. Estimo que alguns leitores do Conta terão vontade de comentar os resultados que aqui aparecerão e espero que a discussão arranque, mas reservo todos os meus comentários para a última entrada e só depois participarei nas discussões entretanto iniciadas, se me parecer pertinente.
O efeito sedutor de tipo Trivial Pursuit que estas listas sempre despertam é aqui perfeitamente secundário. É sobretudo o método de Murray, o seu alcance, limitações e falácias que importa discutir, bem como algumas das suas conclusões. Em jeito de provocação, importará discutir se é justa umas das conclusões que saltam à vista depois da leitura desta obra e que é esta: uma das duas únicas contribuições relevantes de Portugal e dos Portugueses para a ciência e a filosofia universais foi uma técnica cirúrgica hoje datadíssima; a outra é uma consequência acidental da política anti-semita que praticávamos no século XVI. Fica pois o aviso: o que aí vem é pouco aconselhável a patriotas fanáticos. Fica também outro aviso: vale a pena traduzir este livro, se ainda não foi feito. Publicado por Conta Natura às dezembro 5, 2004 05:38 PM
Comentários
Embora patriota, nao me considero nada nacionalista (alias, sou Euro-federalista). Mas enquanto espero com interesse pelas tuas 'entradas' (sem conotacoes capilares), Vasco, noto desde ja com admiracao a nao refereencia, por parte do Sr. Murray: ao impacto do conhecimento desenvolvido na Escola Nautica de Sagres no seculo XV para a ciencia nautica, bem como todos os avancos na area da cartografia permitidos pelos nossos geografos dos seculos XIII-XVI, e a contribuicao de Pedro Nunes para a matematica. Quanto a filosofia, realmente nao me ocorre nada - tinhamos o habito de adoptar os filosofos franceses ate finais do seculo XIX...
Publicado por: Bruno Silva-Santos às dezembro 6, 2004 02:01 PM
Associo-me ao espanto do Bruno... Isso acontece porque há gente que infelizmente só sabe que Portugal ainda existe porque na lista de Premios Nobel vem lá o nome de um personagem embaraçoso (eu até acho que vem mais do que um, mas isso não vem agora ao caso)...
Publicado por: P Vieira às dezembro 6, 2004 02:12 PM
Ola Vasco,
Aprecio o teu esforco de "reach out", mesmo a um tipo do AEI, imagine-se...antecipo, no entanto, que vais malhar a grande la mais para a frente.
Bruno, nao queres explicar melhor o teu "Euro-federalismo" ?
Publicado por: Pedro Domingos às dezembro 6, 2004 02:39 PM
No caso da filosofia, Spinoza era de uma familia de marranos portugueses, apesar de ter nascido no exilio em Amsterdam. No Brasil infelizmente nao temos filosofos porque infelizmente faz muito sol e as mulheres andam semi-nuas, o que nao favorece o pensamento abstrato.
Publicado por: Thiago Carvalho às dezembro 6, 2004 04:48 PM