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dezembro 07, 2004
Inovação ou sensacionalismo?

O gráfico mostra que o uso da palavra "novel" tem aumentado todos os anos, de forma consistente, e em 2003, 4,5% dos artigos reportam algo "novel", enquanto que em 1990 apenas 1,1% o
faziam. A que se deve este crescimento? Será que de facto, a investigação que se faz em Biomedicina é cada vez mais inovadora, ou será que este aumento reflecte apenas a pressão cada vez mais maior a que os investigadores estão sujeitos para convencerem os seus "peers" da relevância do seu trabalho, e publicarem mais e em revistas com maior impacto?
Publicado por PP às dezembro 7, 2004 06:41 PM
Comentários
Paulo:
Sou ainda mais cínico do que tu... a história do 'novel' (que, confesso, também uso abundantemente, embora, infelizmente, sem o sucesso que esta pesquisa parece sugerir...) não se destina a convencer os 'peers' (que esses sabem do que é que a casa gasta... São tão ratos como os autores, pá! e também usam e abusam do 'novel' nos papers que escrevem...).
Destina-se singelamente a convencer os editores (que são os verdadeiros ratos...) a mandar o papel para revisão.
[É um facto que os editores das revistas científicas não são tão ecléticos como pretendem (nem como nós fingimos ser quando revemos os papers dos outros...)]
Se apanharmos um editor que não percebe nada do bizantino problema descrito no artigo e que, à cautela, manda para revisão...........
Podemos ter a sorte de os 'peers' que revêem o artigo serem aqueles colegas de bancada que só conseguiram desencravar o exdrúxulo 'construct' que andavam a fazer porque a gente se lembrou que há um enzima no catálogo da (extinta) Boehringer chamado Fok 1... (ou dois, ou lá o que era aquilo...). Ai aparece mais uma entrada nas pesquisas dos gajos que se dedicam a estas brincadeiras em vez de fazerem a porcaria da experiência (por acaso francamente irrelevante) que os 'peers' da Cell decidiram que era indispensável para meter o papel numa revista tão peneirenta...
PS 1: Quiz-me armar em cínico, mas sucede que não acredito tanto no que escrevi acima como isso... É bem verdade que nos ultimos 10-15 anos muita coisa 'novel' tem sido descoberta. Isto é uma consequência normal do facto de sabermos tão pouco anteriormente...
PS 2: Gosto à brava do grafico... posso usá-lo no meu próximo 'journal club'?
Publicado por: P Vieira às dezembro 7, 2004 10:05 PM
Acrescento que o JACS (http://pubs.acs.org/journals/jacsat/) a mais citada publicação na área da química, desde Setembro de 2003 que não aceita estes termos nos títulos dos artigos que publica, por acharem que as palavras " 'First' and 'Novel', as used in titles of manuscripts, are generally abused, overused and are not really necessary".
Creio que não deixam de ter razão e neste sentido acho que mais tarde ou mais cedo, os editores e reviewers (Paulo, a estes meto-os todos no mesmo saco...) vão protestar cada vez mais. Mas todos pecamos (e de que maneira...): afinal, quem não quer ter um artigo com um título giro e apelativo?
Publicado por: CMG às dezembro 8, 2004 01:50 PM
A questao e ter um título giro e apelativo sem ser banal. Acho que a esta altura ninguem da mais atencao a Novel, Unique ou outras tentativas de apimentar um titulo sem outros atrativos, se tornou parte do background.
Mais vale ser criativo, e nisto ninguem bate os ingleses e seu senso de humor. Como este cidadao que publicou um paper no British Veterinary Journal sobre problemas urinarios em cadelas e deu lhe o brilhante titulo:
"Increasing hope for the incontinent bitch."
(Br Vet J. 1994 Mar-Apr;150(2):113-4.)
Publicado por: Thiago Carvalho às dezembro 8, 2004 05:32 PM
Será, provavelmente, um processo de selecção natural! A inclusão dessa palavra deve aumentar as chances de se ter sucesso com o artigo.
Publicado por: Bernardo às dezembro 8, 2004 05:33 PM
Meu carissimo Paulo,
Embora a questao seja interessante, nao deves levanta-la como "Decidi analisar". Estas a cair no mesmo erro da nossa queridissima Clara Pinto Correia, quando deu para emitir opinioes decalcadas de outras pessoas.
Como esse grafico ja me foi apresentado por um outro orador, ha algum tempo atras, presumo que ou ambos tiveram a mesma ideia em contextos temporais distintos ou te apropriaste da ideia.
A minha sugestao e:
"Deixem-me apresentar-vos este grafico giro que vi o orador X apresentar numa talk a que eu fui".
De resto, concordo com tudo o que se disse.
Publicado por: Eusebio às dezembro 8, 2004 07:21 PM
Caro Eusébio,
Devo concluir que é de todo inverosímil que duas pessoas (que não gémeos homozigóticos, claro; longe de mim vir para aqui com truques baixos) possam ter a mesma ideia de uma forma completamente independente? Diz-me só quantos exemplos históricos e devidamente fundamentados é preciso apresentar para que mudes de ideias.
Repara, Eusébio: uma coisa é reconhecer semelhanças entre dois eventos (prova que és cognitivamente capaz), outra é avançar para conclusões precipitadas ( prova que andas a esforçar-te demasiado para seres engraçado).
Publicado por: VMB às dezembro 8, 2004 07:40 PM
Citando o Francisco Louca:
"Metemos uma galinha e uma vaca dentro de uma sala. Ao fim de algum tempo, entramos e vemos que esta la um ovo. Quem e que pos o ovo?"
VMB, deixa o rapaz chegar-se a frente e dizer se teve uma ideia original em consonancia com o seu aclamado univitelino, ou nao.
Publicado por: Eusebio às dezembro 8, 2004 08:23 PM
Bernardo:
Eu não chamaria a isto um caso de 'selecção natural' (e não é por causa da minha embirração com o Darwin uns post atras...). É mais parecido com um fenómeno (epigenético) de aprendizagem: o supervisor ensina o estudante a meter o 'novel' no abstracto, esse estudante um dia mais tarde tem um grupo e diz então (com ar sabido) aos seus estudantes que a maneira de fazer entrar o paper é esta (sei do que falo. Juro...).
Continuo é a achar que é uma 'coisa de editor' e não uma 'coisa de peer reviewer'. Estes, como diz o Thiago, estão bem batidos nesses truques (aliás, no caso de revistas importantes, foram esses mesmos 'reviewers' que começaram o ciclo).
As politicas editoriais do JACS são interessantes, Claudio, mas olha que a NPG as tem semelhantes, e é o que se vê...
Resta-me terminar repetindo uma coisa que acho importante (passe a imodéstia): hoje em dia há muito mais coisas 'novas' (e quero dizer VERDADEIRAMENTE novas) do que havia há 15 anos... e não é preciso ir aos 'Annals of Improbable Research' para constatar esse facto...
Publicado por: P Vieira às dezembro 9, 2004 08:12 AM
Na sequência da última frase do Paulo Vieira ,com a qual eu concordo, não será que, apesar de tudo o que foi dito, a inovação está a aumentar a um ritmo elevado? Como se poderá analisar esse possível aumento? Talvez analisando a evolução do factor patente/euro ou dólar investido? O que é que tem acontecido em termos de produtividade científica (artigos ou citações) por unidade de investimento ao longo dos anos?
Publicado por: Paulo Pereira às dezembro 9, 2004 04:08 PM
E claro que ha muito mais coisas novas. Existem cada vez mais pessoas dedicadas a ciencia e de estranhar seria se tanta gente, tanto dinheiro e recursos nao dessem em inovacao. Agora, se olharmos para os dados do racio cientista/inovacao ao longo dos anos, certamente que tem vindo a aumentar.
Paulo, nao tens para ai esta estatistica?
Publicado por: Eusebio às dezembro 9, 2004 05:13 PM
Eusébio:
Desculpa lá, meu. Há para aqui dois Paulos no barulho (e felizmente não apareceu o outro Pereira, senão...).
Se a pergunta era para este Paulo: não! Não tenho a estatística, mas se outros Paulos a tiverem por favor digam-nos. Eu gostava de ver...
A unica achega que me vem à mente é que o resultado prático (que eu até acho ter sido desapontador) do enorme investimento em biotecnologia nos últimos 20 anos deve pesar no resultado...
Publicado por: P Vieira às dezembro 9, 2004 10:58 PM
Talvez estejam interessados num esboço de investigação que fiz sobre estes dados da palavra novel no PubMed: http://hey-city-zen.blogspot.com/2004/12/novel-in-pubmed.html
Publicado por: CyberL às dezembro 16, 2004 05:29 PM