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outubro 28, 2004

Portugal e EUA, unha com carne na tentativa de supressão de investigação em células estaminais na Assembleia da ONU

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A comissão legal da Assembleia da ONU reiniciou o debate sobre duas propostas alternativas para banir a clonagem humana com fins reprodutivos. A proposta da Bélgica deixaria a cada país a decisão de permitir ou não, e de que forma, a investigação baseada em “clonagem terapêutica”. A segunda proposta, a dos Estados Unidos (que usam a Costa Rica como país proponente), é apoiada por mais 59 países, incluindo o Vanuatu, a Albânia, o Nauru, Saint Kitts and Nevin, as Fiji, o já famoso Palau, (…) Austrália, Timor-Leste, Itália, e last but not least, Portugal. Esta proposta pretende eliminar todos os tipos de clonagem, ponto final. Sugere ainda de uma forma estúpida e demagógica que esse dinheiro seja canalizado para resolver o problema da fome, da desertificação, e da SIDA. Custa a acreditar mas é mesmo verdade, confirmem. Como é que Portugal apoia uma proposta desta sem nenhum tipo de discussão nos meios de comunicação, Assembleia e sociedade em geral? Alguém conhece em detalhe o que se passa no nosso CNECV - Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?


"5. Strongly encourages States and other entities to direct funds that might have been used for human cloning technologies to pressing global issues in developing countries, such as famine,desertification, infant mortality and diseases, including the human immunodeficiency virus/acquired immunodeficiency syndrome(HIV/AIDS)"

"Albania, Angola, Antigua and Barbuda, Australia, Benin, Burundi, Chad, Chile, Costa Rica, Côte d’Ivoire, Democratic Republic of the Congo, Dominican Republic, El Salvador, Equatorial Guinea, Eritrea, Ethiopia, Fiji, Gambia, Grenada, Guinea, Haiti, Honduras, Italy, Kenya, Kyrgyzstan, Lesotho, Liberia, Madagascar, Malawi, Marshall Islands, Micronesia, Nauru, Nicaragua, Nigeria, Palau, Panama, Papua New Guinea, Paraguay, Philippines, *Portugal*, Rwanda, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and the Grenadines, San Marino, Sao Tome and Principe, Sierra Leone, Solomon Islands,Suriname, Tajikistan, Timor-Leste, Tuvalu, Uganda, United Republic of Tanzania, United States of America, Vanuatu and Zambia: draft resolution"


Publicado por PP às outubro 28, 2004 10:54 AM

Comentários

Percebo pouco de linguagens legais (Treaty Language, como eles dizem), mas a proposta o que pede e que seja adoptado uma:

'1... international convention against human cloning, bearing in mind that it will not prohibit the use of nuclear transfer or other cloning techniques to produce DNA molecules, organs, plants, tissues, cells other than human embryos or animals other than human beings...'

Isto exclui a clonagem terapeutica do ambito desta resolucao nao e? E deixa a salvo a investigacao em ES cells, nao deixa?

Quanto a clonagem reprodutiva parece haver um consenso alargado que deve ser proibida, mas recordo aqui que por exemplo o Alexandre Quintanilha tem uma posicao contra-a-corrente nessa materia.
Eu sinto-me bastante dividido: por uma lado incomoda-me a ideia, mas por outro lado concordo inteiramente com os argumentos do AQ...

Mais alguem tem opiniao?

Publicado por: P Vieira às outubro 28, 2004 12:05 PM

O texto é confuso (propositadamente?), mas não me parece haver dúvida sobre a sua interpretação, para o Lord May, presidente da Royal Society, para o Media Center da ONU, e para a BBC.

Royal Society:
"The United Nations should ignore a call by US President, George W. Bush, to ban all forms of human cloning, the President of the Royal Society, the UK’s national academy of science, said today."

BBC:
"The US president told the UN last month member countries should support a Costa Rican proposal to ban both reproductive and therapeutic cloning."
"In introducing the draft sponsored by Costa Rica, which also forbids the experimental use of embryonic stem cells,..."

ONU Media Center
"One, drawn up by Costa Rica and backed by the United States and 60 other countries, calls for a treaty to ban all cloning..."

Publicado por: Paulo Pereira às outubro 28, 2004 01:30 PM

Tenho lido com alguma atenção este blog nos últimos tempos, por várias razões. A primeira por ser feito por uma geração em quem este país, Portugal, tanto apostou proporcionando-lhe uma formação de luxo em qualquer standard internacional; a segunda por se tratar de temas de ciência e de politica de ciência, área a que estou ligada a mais de 25 anos profissionalmente, e a última porque poderia eventualmente ser uma arena interessante de discussão de todos estes temas de forma inteligente e principalmente fora daquilo que começou a ser tradicional em Portugal "as opiniões".

Sinto-me frustrada! Também por múltiplas e variadas razões que talvez não valha a pena detalhar.

Fazem-me lembrar a imprensa nacional! Saltam de tema em tema, sem aprofundar nenhuma discussão, tal qual as bolas de sabão que eu fazia quando era pequena. Esta é aliás uma estratégia dos “media” bastante analisada pela ciência política. Tem como objectivo primeiro que nada deixe rasto e nada seja alterado, para que fique tudo como dantes.

Por exemplo, este post analisa da inserção de Portugal no debate internacional sobre células estaminais. Assunto demasiado sério para ser tratado levianamente e que tem sido objecto de ampla controvérsia em todo o mundo. No post menciona-se o CNEV, mas esquece-se de referir que esta organização vai precisamente debater no mês de Novembro este tópico. Esta sessão foi há muito anunciada. Será que não querem olhar com mais detalhe e contribuir para a discussão no lugar de só se indignarem com este pequeno país, quase sempre nos últimos lugares da estatística como assinalaram, na companhia de outros tantos países considerados menores.

Apenas uma sugestão que vos deixo. Na minha modesta opinião temos de voltar a ter debates a sério em Portugal sobre todos estes temas. E um blog, mesmo que seja para mero divertimento, poderá também ser um espaço aberto de discussão e de construção.

Já agora aproveito para deixar outra sugestão. A ideia que um cientista é uma "star de hollywood" tão difundida nos últimos anos em Portugal (cientista português descobriu, publicou....), tão pouco normal na imprensa dos países onde se formaram e estão a trabalhar.
O grande desafio que se vos coloca será talvez como dar continuidade ao trabalho daqueles que até hoje tem lutado para que a ciência de primeira qualidade exista em Portugal, tenha instituições bem dotadas, e pessoas formadas nos melhores locais do mundo. Muitos destes abdicaram das suas brilhantes ou promissoras carreiras para vos dar a oportunidade que tiveram.

É a vossa geração que terá de pensar como colocar Portugal no lugar cimeiro dos países desenvolvidos. Mas para isso é preciso temos de ter uma visão do que queremos ser, temos de construir em conjunto e de modo coordenado uma estratégia para lá chegar, não esquecendo que tem de ser integrada no que é hoje o maior desafio europeu a construção da ERA. Como exemplo vejam quem mudou e como a Finlândia em dez anos.


Publicado por: Luisa Henriques às outubro 28, 2004 01:31 PM

Cara Luisa, muito obrigado pelo seu interesse pelo nosso blog. A sua frustação pelos problemas que encontrou no Conta Natura é bastante lisonjeira, pois revela uma grande expectativa inicial.

"No post menciona-se o CNEV, mas esquece-se de referir que esta organização vai precisamente debater no mês de Novembro este tópico."
Se calhar não está muito bem informada sobre a agenda da discussão destas propostas, mas como existe a possibilidade de haver uma votação nos próximos dias, a discussão do CNEV poderá ser pura e simplesmente IRRELEVANTE. Além do mais Portugal já manifestou o seu apoio à proposta dos EUA, onde foi isso decidido?

"Sinto-me frustrada! Também por múltiplas e variadas razões que talvez não valha a pena detalhar."

Não quer compartilhar connosco a sua frustação? É para isso que criamos o Conta Natura. Desabafe...

Publicado por: Paulo Pereira às outubro 28, 2004 02:03 PM

Ora viva Dra Luisa Henriques, bem vinda a este blog...

Compreendo o que disse, mas acho que esta a ser severa demais. Um blog como este, com tantos colaboradores, vai necessariamente ter alguns aspectos caoticos a mistura. Esse aspecto quase de movimento browniano nos topicos e ainda agravado pelo formato blog (em que os posts estao uns por cima dos outros).
Acho que e justo reconhecer que pelo meio de coisas leves tambem tem havido alguma informacao e discussao. Suficientes para fazer as pessoas que aqui veem (pelo menos uma: eu) pensar nalguns assuntos serios...

Olhe, o seu post deu-me uma ideia: vou escrever a CNEV a sugerir que alguem de la comente este post.

Isto alias da-me outra ideia: porque e que a Dra Luisa Henriques ou alguem dai da FCT, nao aproveitam para comentar algumas discussoes que tivemos la atras (ie: la em baixo no blog) sobre politica de Ciencia, financiamento, etc?

Um abraco

Publicado por: P Vieira às outubro 28, 2004 02:12 PM

Dra Luísa Henriques,

O Paulo já referiu o ponto essencial: a discussão que terá lugar em Portugal estará fora do prazo de validade. É mais uma manifestação do "principio Casa da Música".
Reparará que o Paulo teve o cuidado de deixar o link para o CNECV. Colocar um link num texto é, em princípio, uma forma de deixar falar quem se critica. Reparará que este uso do hipertexto é uma manifestação eloquente do famoso "princípio do contradiditório", que segundo o nosso governo deve reger os media. É claro que para isso acontecer tem de existir alguma participação do adversário. Se o adversário fizesse o seu trabalho, o encontro a que faz referência estaria a dois clics do texto do Paulo. Acontece que no link para os eventos relacionados com a bioética que figura na página do CNECV só podemos lemos o seguinte: "(Disponível brevemente)". O CNECV esteve anos com uma página na net que envergonharia qualquer clube de informática de liceu. Conseguiu há algum tempo montar uma página decente. Parece é que não há ninguém para dela fazer uso. Temos aqui o princípio do "Microscópio electrónico que comprámos mas em que ninguém sabe ou quer mexer". O que sobra como explicação? A "cabala". E qual é a solução? O "plano tecnológico", obviamente.

Publicado por: VMB às outubro 28, 2004 03:49 PM

Obrigado aos Paulos e ao Vasco pelos comentários.

Eu sei que como País temos muito que melhorar. Por isso acho que se deve fazer com que se melhor através de uma participação consciente e não apenas criticar.

A minha sugestão era a que o Paulo Vieira acabou por formular. Porque não escrever ao CNEV, ou a quem de direito, com argumentos sólidos para uma boa posição portuguesa nneste assunto e já agora assinalar a importância que uma página net tem. É o espelho da organização na minha opinião.

O que eu defendo é a intervenção activa, a utilização do direito de cidadania. Todos temos a melhorar com isso, Portugueses, organizações e o processo de “policy-making”

É talvez um pouco optimista esperar que o CNEV leia o vosso blog, ou será que não é? talvez eu esteja a menosprezar o vosso impacto. De qualquer modo uma carta ou um documento ou um relatório é sempre um documento mais sólido, não?

Não me interessa muito a historia da cabala ou a historia do microscópio electrónico, todos nós temos imensas histórias dessas para contar, mas no final do dia o que é que ganhámos com isso? o que é que ficou na história?
O que fica é aquilo que é inscrito nas nossas trajectórias como país, que vai sedimentando e acrescentando valor, do resto nada ficará. Obviamente!

Publicado por: Luisa Henriques às outubro 28, 2004 04:22 PM

A "cabala" e o "microscópio" são ornamentos apenas. Mas é verdade que a Dra Luísa Henriques levantou uma questão pertinente que põe em cheque todo este movimento de blogues. Até que ponto não estaremos nós a cultivar apenas a má-língua de um modo perfeitamente inconsequente? Pior: até que ponto não estaremos com isto a promover um civismo apático? Ainda é cedo para avaliar este problema. Pessoalmente, não acredito que este blogue em particular possa vir a ser um instrumento de pressão. Mas acredito nos blogues como movimento colectivo. Já há alguns exemplos de notícias que começaram nos blogues. É lícito esperar que os blogues funcionem no futuro como observatórios independentes que divulguem o que muitas vezes só se ouve em surdina.
De momento vejo este espaço como uma antecâmara de discussão. Eventualmente, haverá questões merecedoras de um envolvimento mais persistente e empenhado, o que passaria pelo envio de cartas a jornais e às entidades com responsabilidades. O que começámos a fazer- de um modo espontâneo devo confessar (não combinámos nada e até pensei que o blogue iria ser mais de divulgação de ciência)- foi uma espécie de levantamento de apreensões. Em menos de uma semana já escrevemos sobre o aborto, a política de ciência, o papel das universidades, a cultura do publish or perish, a Bial, a ONU, as avaliações fantasma, a política de não-ciência de Bush, etc... É impossível não passar por leviano com um cardápio destes. Mas também não vale a pena equiparar um blogue a um jornal. Nós não somos jornalistas e levamos isto como uma brincadeira séria.

Publicado por: VMB às outubro 28, 2004 05:02 PM

Reromando a discussão, percebo a indignação do Pereira. O ponto 5, mais do que "estúpido", é sintomático da dificuldade que temos em discutir estas questões.
Por outro lado, fiquei baralhado. A minha interpretação da proposta coincide com a do Vieira (nada se diz sobre a investigação em ES cells), mas os ocmentários que o Paulo depois citou indicam o contrário. Seria importante esclarecer este detalhe.
Fica também a opinião do Prof.Quintanilha sobre clonagem reprodutiva a que o Paulo se referiu. O tema é complexo (tenho uma opinião sobre o assunto mas gostaria de a fundamentar minimamemnte e adio o debate)...

Publicado por: VMB às outubro 29, 2004 05:24 AM