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outubro 12, 2004

Para uma fé descafeínada

Escócia, circa 1999: um dos pós-docs do laboratório onde eu trabalho prepara a submissão de um artigo. Para ele (e para de muitos outros) o objectivo mestre é publicar o documento numa das três únicas revistas do mundo com “boa ciência”, uma das três que realmente contam. Cansaço geral, palidez, nervosismo, tremores, falhas na coordenação motora e outros sintomas comuns a pessoas em tal situação começam a tomar conta do jovem cientista. Mas eis que, ao passar casualmente por ali, o grande chefe é capaz de apaziguar o meu colega com uma simples sugestão: deixar uma pitada de café moído por entre a papelada, mesmo antes de fechar o envelope. Porquê café? O chefe, um “homem de estaleca” e um materialista dos pés à cabeça habituadíssimo à lide constante da dúvida metódica, não demorou na explicação: "ao abrir o envelope, o editor não notará de modo directo a presença do café. O aroma quase imperceptível do mesmo chegará ao seu nariz já praticamente sob a forma de uma evocação de aconchego, deixando-o predisposto para a benevolência". O artigo viria a ser publicado, embora nunca se tenha sabido se a previsão do chefe foi válida. Aliás, fazer experiências com editores devia ser proibido por lei...
O aparecimento de comportamentos supersticiosos entre pessoas que vivem do próprio cepticismo já não me surpreende. No andar de cima, no Instituto onde agora trabalho (NY), um outro laboratório apenas necessitou de três anos para desenvolver espontaneamente um complexo ritual. De acordo com o mito fundador desta prática, alguém terá ganho um gato de porcelana na rifa do Natal e não gostou da peça. O bicho terá sido esquecido no lab, sobre o parapeito de uma janela. Mais tarde, outra criatura, por ter achado piada ao gato, limpou-lhe o pó e colocou-o ao lado de uma pequena planta de estimação. Em menos tempo do que se leva a dizer ácido desoxirribonucleico, já era praticamente obrigatório, antes do envio de um artigo para qualquer revista (mesmo para as outras todas de “não tão boa ciência”), enrolar o manuscrito de um modo pré-estabelecido e com o canudo tocar três vezes na cabeca do gato.
Dizem-me que somos todos assim, que acreditamos sempre em algo, que não somos capazes de viver em plena desconfiança de tudo o que nos trazem os sentidos. Dizem que os cientistas longe da bancada entregam-se facilmente à crendice básica. Que, afinal, eles também são humanos.
Discordo. Conheço muita gente “livre” entre as quatro paredes do laboratório. Ao desconfiar da prática de deveres aparentemente absurdos ou imaginários, essa gente não encolhe os ombros nem segue o rebanho. Nunca esperam que algo que não seja mensurável ou sujeito a experimentação venha a perturbar o seu discernimento.
Espero que um dia sejam essas as pessoas a ter a última palavra para dirigir o modo como procuramos conhecer. Estaremos então mais perto da realização do desejo da Maria das Flores: que a falta de cultura e a ignorância científica sejam consideradas como dois pecados no mesmo cartório. Cruzemos os dedos.

Publicado por VB às outubro 12, 2004 01:11 AM

Comentários

Depois do magnifico post do Barbosa, gostava tambem de partilhar a minha experiencia. A mulher do meu chefe e psychic reader, isto e, ganha a vida a custa do "pessoal" com aquelas coisas esquisitissimas de tarot e cartas astrais. alem disso, ainda escreve livros sobre feiticos. pois bem, cada artigo aqui do lab tem de passar pelas maos da senhora, que apos uma leitura dos astros, nao so nos da a sua opiniao sobre a revista a que devemos submeter, mas tambem o dia da semana mais propicio!!! o meu chefe, claro, nunca nos disse isto, descobri eu no ultimo churrasco em casa deles, enquanto grelhavamos hamburguers e preparavamos batatas fritas de pacote.
nao sei muito bem o que concluir disto tudo. so sei que, a contar pela minha experiencia, eu nao lhe confiava nenhuma decisao seria.

Publicado por: S.Lima às outubro 12, 2004 07:34 PM