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outubro 16, 2004

O Comércio da Dupla Hélice

Viver em CSHL, mesmo que apenas por uns dias, não deixa de ser um processo de adaptação a uma realidade rara: tantos cérebros a interagir, procurando a forma cada vez mais apurada, a essência cada vez mais importante. Aqui, quando as pessoas conversam, os olhos parecem frequentemente voltados para longe do que é (ou parece) acidente. O importante é só isso que sai do pensamento, a ideia e o resultado. Pelo menos entre os "grandes". Eu, "raia miúda", ainda tenho que trabalhosamente lidar com uma série de apêgos: é bonito, é feio, é retro, é progressista, tem namorado, é gay, etc... Mas não deixo de me entusiasmar com algumas descobertas e isso dá-me "pilhas". Mesmo assim, enquanto grande parte dos meus companheiros de congresso foram todos de mãos dadas à sua "Nature Walk" eu decidi outra coisa: abrigar-me da chuva. Aproveitei e fui visitar a "Gift Shop", um dos lugares mais especiais aqui do Centro. Só o nome, DNA Stuff, já diz tudo. Antes de mostrar a lista de artigos mais extravagantes à venda na lojinha, vou dizer o que, na minha opinião ganhou no Top Porreiro e no Top Azeiteiro. No Top Porreiro ficou um livro, mas de escolha difícil entre tantos bons trabalhos que esta casa edita. Tem como título original The Molecular Gaze pelas autoras Suzanne Anker, professora de Arte na Universidade de Nova Yorque e Dorothy Nelkin, uma socióloga da mesma Instituição, recentemente falecida. Saído há um ano, o livro recolhe uma série de trabalhos no mundo das Artes Plásticas que reflectem o impacto da Genética no colectivo humano ocidental do século XX. Algumas críticas estão à disposição na hemeroteca .
Quanto ao Top Azeiteiro, dificuldade ainda maior na eleição. Acabei por escolher os dois CDs de música sintetizada com a tecnologia (isto é a sério) DNAudio . Os títulos são: "Music from the DNA of Whales, Dolphins and Porpoises" e "Aroma Therapy - Music from the DNA of Plants". Também havia uma colectânea de sucessos de Jazz entitulada "Jazz in the Lab" e editada pela mesma CSHL. Todos os músicos eram-me desconhecidos mas, curiosamente tinham todos o primeiro nome a começar pela letra J. Tal como James Watson. Coincidência? Vejam o resto da lista no link que segue.

Havia muito por onde escolher.
A senhora da loja disse-me que o que se está a vender mais são uns bibelots tipo "boublehead" do Watson. Não dá para imaginar: uma estatueta do cientista com a cabeça a dizer que sim e que não e já com auto-colante nos pés para colar ao tablier do automóvel!
Na secção do vestuário, entre as habituais t-shirts, casacos e camisolas de malha tricotada (tudo com motivos de DNA), reina uma vasta gama de gravatas. Parece que tudo começou ainda em Portugal Place, quando o "grupelho" dos ácidos nucleicos criou o "Clube da Gravata do RNA". O recorte de jornal não mente: Francis Crick, James Watson, Leslie Orgel e Alexander Rich, todos com gravata semelhante, de molécula bordada, numa foto de 1955.
Na secção para cientistas "mais desenrrascados" há bolas de golf, relógios dourados (para pulsos e estantes), colares, brincos, anéis, perfumes, alfinetes de gravata e jogos de cálices de vinho com a haste em forma de dupla hélice.
Na secção do cientista mais classe-média há chapéus de basebol e de pescador, pulseiras, porta-chaves, saca-rolhas, molas ("slinkies"), tapetes para o rato, canecas, mochilas, sacos, malas, carteiras, porta-moedas, cintos, cordões para trazer o BI ao pescoço, trelas para cão, tiras fluorescentes e maleáveis anti-stress, marcadores de livros, postais, pins (tipo "stop Bush" mas a dizer "no Alzheimer", ou "no AIDS") e penduricalhos para o espelho retrovisor.
Finalmente, na secção das crianças há mais roupa, livros de pintar, jogos, CD-ROMs e legos do tipo "Monta o teu próprio DNA!". Até têm uma versão tipo para menores de cinco anos, em que os átomos sao bolinhas de esponja, não tóxica embora óptima para o engasgamento.

Publicado por VB às outubro 16, 2004 04:46 AM

Comentários

VB, foste a capela? a entrada da capela e decorada com a duple helice! CSH e um sitio muito estranho... nos jantares de encerramento de congressos, costuma haver melancia esculpida em forma de DNA!

Publicado por: S.Lima às outubro 17, 2004 06:06 PM

Não deram melancia, pelo menos da esculpida à DNA. Mas havia chocolates de dupla hélice. Precisava de chinelos e acabei comprando os únicos disponíveis, guess what - com o tal padrão. (Aguém dizia no intervalo do café:"não hâ nada de errado com flip-flops". Depende do tipo de flip-flops, penso eu. De qualquer forma prefiro-as a ter que um dia andar descalço.)

Publicado por: VB às outubro 17, 2004 07:30 PM