« Lost in definitions | Entrada | Temos os dias contados... »
outubro 11, 2004
Fragrância Nobel
Linda Buck e Richard Axel receberam este ano o Premio Nobel em Fisiologia e Medina pela descoberta dos receptores olfactivos. Buck era pós-doc no laboratório de Axel na Columbia University quando, em 1991, publicaram na Cell a descoberta da grande familia de receptores olfactivos, composta por mais de mil membros. Nesse artigo propuseram que estes genes seriam responsáveis pela base molecular para o reconhecimento de odorantes.Se foram ao site Nobel, algures entre o texto que sumariza as descobertas de um e outro ficamos a saber que os laureados não só resolveram o problema de reconhecimento e memória de odores, como também esclareceram como funciona o sistema olfactivo em mamíferos. Ao ler tais afirmações, qualquer cientista a trabalhar em olfacto e conformavelmente sentado não poderá evitar um discreto número de contorcionismo e de esgar. A descoberta da familia de receptores olfactivos foi, sem dúvida, um marco importante. Estas proteínas são receptores que, na presenca de odorantes, activam cascatas de sinalização secundária e induzem a abertura de canais iónicos que despolarizam as células. Isto permite a geração de potenciais de acção nos neurónios olfactivos do nariz e a transmissão da informação à segunda fase de processamento. Esta descoberta inicial conduziu a uma série de trabalhos fundamentais para o entendimento da periferia do sistema olfactivo, levados a cabo por Axel e Buck (que pouco depois da descoberta seminal iniciou o seu laboratório independente em Harvard), bem como muitos outros grupos.
Nos últimos 13 anos descobrimos que cada celula olfactiva apenas expressa um receptor, mas cada receptor pode ser activado por mais que um odorante, aumentando o espaco de reconhecimento. Além disso, cada odorante activa mais do que um receptor, o que levou alguns a postular a existência de um código olfactivo ao nível do nariz: cada odorante vai activar um padrão específico de neurónios, como se cada cheiro tivesse uma assinatura. Os receptores são assim usados de uma forma combinatória, onde diferentes cheiros activam diferentes grupos de células, o que faz com que um repertório de 1000 receptores possa discriminar um número astronómico de cheiros. Posteriormente, a descoberta que neurónios olfactivos a expressar o mesmo receptor enviam o seus terminais axónicos para a mesma zona do bolbo olfactivo, levou a conluir que este código que se inicia a nível sensorial é, pelo menos, conservado na segunda fase de processamento. Esta observação levantou novas questões: por exemplo, quais são as moléculas envolvidas no tráfico e direccionamento dos axónios destes neurónios para o bolbo olfactivo? Com a descoberta da identidade destes receptores desenvolveram-se uma nova série de ferramentas moleculares. Até então, o sistema olfactivo tinha sido estudado prinicipalmente através de métodos que usam a electrofisiologia como pilar, com pouco poder de intervenção sobre o sistema. A chegada da biologia molecular a um mundo de eléctrodos despoletou uma pequena revolução: criação de modelos animais geneticamente modificados para diferentes componentes (estruturais e enzimáticos) do sistema, introdução de proteínas fluorescentes cuja expressao é assegurada pelas sequências reguladoras dos receptores, estudos de óptica funcional, com moléculas que permitem detectar potênciais de acção, etc.
A descoberta de Axel e Buck foi marcante. Mas, sinceramente, será que nós sabemos como é que o sistema olfactivo funciona neste momento? Estas descobertas permitiram-nos perceber a periferia e a interface sensorial. Porém, continuamos sem perceber qual é o código a seguir ao bolbo olfactivo, como se formam as memórias olfactivas, de que modo as diferentes modalidades sensoriais influenciam a percepção que temos de diferentes cheiros. Continuamos sem perceber como é que codificamos diferentes concentrações do mesmo cheiro e como identificar um cheiro mascarado por outros. Aproximações às respostas a todas estas questões têm vindo prinicipalmente da electrofisiologia. A clonagem do receptores do olfacto pouco adiantou. Por isso, é difícil não interpretar este prémio como mais um mau exemplo do prestígio que a biologia molecular tem face a todas as outras abordagens, nomeadamente a electrofisiologia (e quem o escreve vem da biologia molecular). Este prémio, além de prematuro, retira todo o mérito a uma série de cientistas e grupos que durante décadas têm vindo a tentar perceber como é que o sistema olfactivo de vertebrados e invertebrados funciona. A única consolação é que, paradoxalmente, ainda não saímos do nariz. Falta descobrir quase tudo. S.Lima
Publicado por Conta Natura às outubro 11, 2004 01:48 PM