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outubro 14, 2004

A vida curiosa do Dicrocoelium dendriticum

Sendo este um blog de ciência em geral, e de biologia em particular, a diversidade da vida não é novidade nem para os autores nem para os leitores. A diversidade manifesta-se a vários níveis e qualquer análise detalhada revela matéria para boas histórias. Por exemplo, há ciclos de vida que, fugindo à rotina monótona dos mamíferos, atingem níveis francamente bizarros; são quase uma espécie de ficção tornada real. Entre os protozoários encontramos numerosos exemplos de curiosos ciclos de vida, com múltiplos passos, metamorfoses, hospedeiros, etc. Um desses protozoários é o Dicrocoelium dendriticum (Dd), um tremátodo terrestre cujos hospedeiros finais incluem vacas, ovelhas, porcos e humanos. Nada de estranho até aqui. O ciclo de vida começa, por exemplo, numa vaca, mais precisamente no fígado, onde o Dd adulto produz ovos; esses ovos são libertados pelas fezes e depois são comidos por um caracol (Cionella lubrica); dentro do caracol os ovos “chocam” e o Dd reproduz-se assexuadamente; as formas assexuadas são libertadas para o exterior em forma de bolas mucosas com vários Dd assexuados (cercariae); essas bolas mucosas são comidas por formigas (Formica fusca) e a maioria dos Dd assexuados formam cistos (metacercariae) no abdómen da formiga.
É aqui que a história se torna finalmente bizarra! Um dos cercariae comido pela formiga migra para o cérebro desta, mais precisamente para o gânglio sub-esofagíneo. Aí induz uma mudança comportamental com o objectivo de transmitir a infecção para o hospedeiro final, por exemplo, de novo a vaca. A formiga infectada com Dd, ao fim do dia, quando a temperatura baixa, em vez de voltar ao formigueiro, sobe ao cimo de uma folha de erva (numa pastagem qualquer), morde a folha e fica imobilizada até o amanhecer. Com a alvorada, a formiga acorda do transe e volta à sua vida normal. Mas de novo ao entardecer, a formiga volta a subir a uma folha de erva e a pernoitar ao relento, à espera de ser comida por uma vaca. Como os herbívoros pastam geralmente ao crepúsculo, o comportamento da formiga aumenta grandemente a probabilidade de o Dd se transmitir ao hospedeiro final.
Há mais duas coisas interessantes neste ciclo de vida do ponto de vista biológico: 1) o cercariae que migra para o cérebro da formiga não se reproduz mais, visto não formar cistos no abdómen da formiga, o que é um exemplo de auto-sacrifício pelo bem maior (está por explicar como é determinado qual o indivíduo que irá migrar para o cérebro e não se reproduzir mais); 2) as formigas que ficam imobilizadas no cimo de uma folha de erva são nalguns casos assistidas por outras formigas que as alimentam e lhes dão algum conforto moral.
Tendo em conta os desafios do presente, é pertinente investigar até que ponto-e de que modo- as mudanças de comportamento induzidas por parasitas explicam as acções de alguns políticos.

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Publicado por MM às outubro 14, 2004 09:14 PM

Comentários

estes ccilo é muito insteressante, mas tenho uma duvida este parasita enquanto esta na vaca ele faza algum mal para ela? ou so se aproveita das condições ótimas para o seu desenvolvimento inicial?

Publicado por: cleubson às novembro 17, 2004 11:58 AM